Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
Albano Dias Martins
Relógio Sem Ponteiros
Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projetado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.
1 514
Adailton Medeiros
Auto-retrato
Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
935
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 353
Antônio Brasileiro
Resquício
As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
1 003
Edith Sitwell
CÂNTICO DE DIDO
O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
1 209
Alfred Edward Housman
SAY, LAD
Tens que fazer, meu rapaz?
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.
Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.
Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.
Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.
Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.
1 239
Gilka Machado
Saudades
De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
2 761
Fernando Correia Pina
Longa ia a noite
Longa ia a noite e a mulher sem sono,
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.
Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.
Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!
Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.
Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.
Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!
Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.
1 226
José Honório
Foi-se a ilusão dessa vidaa minha pica morreu
Glosa:
Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.
Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.
1 345
Patrícia Clemente
Luto
Você me ama mas nunca me disse
No tempo em que eu ainda te queria
Se agora eu me aconchego junto a outro
Me chama fria?
E fez que pelo meio eu me sentisse
Pediu-me mãe mas não tornou-me filha
Se agora ao ser completa me comovo
Me insulta, tia?
Mandou que à sua lente me despisse
Mas não desnuda sua alma à minha
Se vejo em meu espelho que sou ouro,
Me ofende.
Mas como eu poderia?
Diz: velha, fraca, feia, bruxa, puta.
Diz que sou falsa, acusa hipocrisia,
Mas não recuse ao morto amor seu luto
Posso ser tudo, mas por ser Sofia.
Porque o desejo seu me atormenta
Mas seu desejo é só me ver sentida
Se vivo ao sobressaltos seus quereres,
É vida?
E sei que o meu carinho só te tenta
Se nego-te favores, decidida.
E não me entrego à dor dos seus prazeres,
Vencida.
No tempo em que eu ainda te queria
Se agora eu me aconchego junto a outro
Me chama fria?
E fez que pelo meio eu me sentisse
Pediu-me mãe mas não tornou-me filha
Se agora ao ser completa me comovo
Me insulta, tia?
Mandou que à sua lente me despisse
Mas não desnuda sua alma à minha
Se vejo em meu espelho que sou ouro,
Me ofende.
Mas como eu poderia?
Diz: velha, fraca, feia, bruxa, puta.
Diz que sou falsa, acusa hipocrisia,
Mas não recuse ao morto amor seu luto
Posso ser tudo, mas por ser Sofia.
Porque o desejo seu me atormenta
Mas seu desejo é só me ver sentida
Se vivo ao sobressaltos seus quereres,
É vida?
E sei que o meu carinho só te tenta
Se nego-te favores, decidida.
E não me entrego à dor dos seus prazeres,
Vencida.
939
Fernando Correia Pina
Viagra
Mictórias relíquias que gotejais saudade
do tempo em que o sangue fogoso vos erguia
negando rijamente as leis da gravidade
em menos de um segundo, vinte vezes ao dia.
Tristes membros vergados ao peso da idade,
espectros que carpis a viril alegria,
eis que na atra noite se ergue a claridade
de nova estrela azul que a Pfizer anuncia.
Tomai-a e erguei-vos, ó marzápios flácidos,
picai até que passe o milagroso efeito
dessa falaz tesão feita de ácidos
que mais não é que cãibra que dá jeito...
uma invenção que só não ofusca a roda
porque não pendem patentes sobre a foda.
do tempo em que o sangue fogoso vos erguia
negando rijamente as leis da gravidade
em menos de um segundo, vinte vezes ao dia.
Tristes membros vergados ao peso da idade,
espectros que carpis a viril alegria,
eis que na atra noite se ergue a claridade
de nova estrela azul que a Pfizer anuncia.
Tomai-a e erguei-vos, ó marzápios flácidos,
picai até que passe o milagroso efeito
dessa falaz tesão feita de ácidos
que mais não é que cãibra que dá jeito...
uma invenção que só não ofusca a roda
porque não pendem patentes sobre a foda.
1 388
Amílcar Dória
When You are Old
When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
979
Dylan Thomas
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
1 849
José Hélder de Souza
Crepúsculo Plangente
...quando o sol da já declina...
Guerra Junqueira
Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.
Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.
A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.
Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.
Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.
Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.
Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.
O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.
Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...
Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.
Guerra Junqueira
Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.
Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.
A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.
Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.
Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.
Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.
Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.
O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.
Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...
Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.
1 080
Gilson Nascimento
Brincando de criança
Mergulhar no passado de mansinho
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante
Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando
Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama
Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante
Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando
Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama
Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.
798
Assis Garrido
Trovas
Tic-tac... E a mocidade
vai-se, e aparece a velhice...
Tic-tac... Ai, que saudade
dos tempos da meninice!...
O amor, que em sonhos espreito,
eu teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?
Eu era um só. Tu surgiste —
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!
Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, — por que não? —
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração...
Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!
vai-se, e aparece a velhice...
Tic-tac... Ai, que saudade
dos tempos da meninice!...
O amor, que em sonhos espreito,
eu teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?
Eu era um só. Tu surgiste —
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!
Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, — por que não? —
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração...
Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!
1 161
Alcides Villaça
O aceno definitivo de Drummond
Farewell surge (e por que só agora?) como o aceno definitivo que nos faz Drummond, caminhante desencantado, antes de desaparecer atrás da última ladeira. O poeta sempre estimou figurar-se numa estrada, numa rua, num caminho, como um gauche paralisado pela pedra-enigma, ou disfarçado num mítico e desengonçado elefante de fabricação própria, ou como o filho que um pai virgiliano conduz pelo reino dos mortos, ou como o divagante desistido das ofertas miraculosas da máquina do mundo.
Este belo livro não pretende o tour de force expressivo dessa trajetória, nem traz a revelação essencial poupada para a hora extrema. Já nos anos 60, com a melancolia da maturidade e os primeiros desprendimentos da velhice, o poeta firmara certa indisposição para prosseguir na luta com as palavras. O último poema de Lição de Coisas (1962) _livro marcado pela revisitação dos temas e por algum experimentalismo formal_ fechava-se com este terceto, no qual Drummond se dirigia à sempre esquiva Forma de todas as formas, para assim resignar-se: E não encontrar-te é nenhum desgosto/ pois abarrotas o largo armazém do factível/ onde a realidade é maior do que a realidade (F).
De fato: no livro seguinte (Boitempo & A Falta Que Ama, 1968) e nos demais, Drummond já não se empenharia em debater-se nas contradições mais fundas do sujeito ou em tensionar ao máximo a linguagem; passou a alargar generosa e detalhadamente os quadros das antigas percepções de menino e adolescente e a tratar do amor, das pessoas e das circunstâncias com o descompromisso de quem mais avalia a cena do que quem nela atua.
Adeus discreto Farewell poderia lembrar de imediato a família dos Boitempo, mas agora todo memorialismo surge no registro grave de quem se dispõe à despedida definitiva, soturna e sem tragédia _como convém ao poeta de Claro Enigma, que ora reafirma, de modo irrecorrível, o postulado schopenhaueriano da unificação universal do sofrimento. Não, Farewell não tem nem terá buscado ter, como conjunto, a pegada dos grandes livros dos anos 40 e 50, quando o poeta nos desvelava, em cadências, imagens e reflexões de beleza inexcedida, os custos da hesitação individual entre buscar objetivamente pertencer ao mundo intimamente condenado ou deixar-se engolfar em treva própria, refratária à mundanidade _na atração alternada pelo mito íntimo e pela história, pelo lirismo e pelo argumento, pela metáfora e pelo conceito.
Mas a luz definitivamente crepuscular que este livro faz incidir sobre todos os momentos anteriores oferece-lhes uma nova perspectiva de interpretação, tanto quanto podem ser eles essenciais a quem busque interpretá-los. O sentido deste adeus é discreta mas cerimoniosamente remetido à significação integral da caminhada; é a face última, que encerra uma sucessão de personae figuradas pelo caminho: o menino furtivo e imaginoso do sobradão e dos campos de Itabira, o adolescente rebelde dos internatos, o boêmio gauche e modernista da conservadora Belo Horizonte, o burocrata federal fabricante de símbolos sociais insustentáveis, o amargo e introspectivo Orfeu na nova ordem mundial, fria e cinicamente pacificada, o memorialista-cronista que volta a ser menino no direito conquistado da velhice.
Em Farewell, o caminhante ao fim da linha carrega como relíquias algumas imagens obsessivas: as da múltipla Greta Garbo amada na tela, das pinturas dos grandes mestres, da senhorial e vasta casa paterna, das velhas e manipuladas fotografias, da aparição fantasmática da amada _o tesouro fragmentário que foi possível acumular em estoque que ora ao Nada se oferece: Quero a última ração do vácuo,/ a última danação, parágrafo penúltimo/ do estado _menos que isso_ de não ser. Despedindo-se, Drummond aciona seu materialismo derradeiro (até onde um grande poeta possa ser materialista) com a consciência de quem, havendo-se inaugurado como um gauche, sabe enfim que a melhor máscara tem pouca serventia diante da morte.
O leitor de Farewell transitará por poemas de valor desigual, mas haverá de se deter em muitos, como Unidade, A Casa do Tempo Perdido, A Ilusão do Migrante, Aparição Amorosa, Arte em Exposição, Bordão, Imagem, Terra, Memória, Invocação Irada, O Peso de Uma Casa _e em quantos mais recupere, pela linguagem lírica, a beleza construída e comungável. Linguagem lírica: esse discurso poético que pode revelar ao próprio criador uma imagem sua, logo reconhecida como a imagem de muitos.
O discurso poético de Drummond pautou-se quase sempre, e aqui também, por uma falsa antieconomia sintática, na qual os supostos acessórios tornam-se pontos decisivos para a cadeia substantiva das imagens.
A obsessão em voga pela síntese extrema, pelo mínimo de palavras, pela usura de nomes (curiosamente agenciada por quem prega as vantagens do consumo supérfluo), ignora que a relação de síntese poética que conta se dá entre as palavras materialmente apresentadas e o alcance da significação que irradiam.Por vezes, a verdade construída no plano artístico rende-se a outra, que nenhum homem pode construir.
A força particular de Farewell está em transcender, aqui e ali, o trunfo puramente estético do criador mais potente, para instalar-se no plano limiar da morte, de onde ilumina o já-perfeito. E o que ilumina? Alguns topoi da poesia drummondiana recebem, neste livro, a última demão de luz, antes da sombra final. O leitor reconhecerá essas derradeiras atualizações: a figura inaugural do gauche culmina na de O Malvindo; as origens familiares e provinciais reinterpretam-se em A Ilusão do Migrante, Imagem, Terra, Memória e O Peso de Uma Casa; todos os cabarés mineiros vingam-se da hipocrisia oficial em Cabaré Palácio; a condição de poeta-funcionário (magistralmente avaliada na crônica A Rotina e a Quimera, de Passeios na Ilha) sintetiza-se em Escravo em Papelópolis; a pequenez do indivíduo diante do mundo grande torna-se cósmica em Noite de Outubro; a especulação das palavras está em Verbos... E que mais? O fundamental: a revisitação e o adeus às instâncias maiores, o Amor e a Morte.
Qualquer impasse romântico desses dois temas fundadores está decididamente afastado por um Drummond que deseja Não mais o sonho, mas o sono limpo/ de todo excremento romântico.
Mas entre o desejar e o alcançar essa duvidosa paz sem nome, há que passar o poeta pela degradação da carne _o tema mais forte do livro. Aquele a quem já deprimia a ameaça das dentaduras duplas, na casa dos 50, vê agora o corpo descumprir os velhos pactos do desejo e arruinar-se na exalação da velhice, na envilecida carne sem defesa.
Ainda aqui, no entanto, a oscilação de base entre o idealismo e o realismo, marca de brasa dessa poesia, deixa um vestígio pungente: a ruína do corpo ainda está habitada, e de dentro sai a voz para o alto: Ó minhalma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!/ Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível./ Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?.
Vestígio apenas resistente, é certo; somam-se mais intensamente os momentos da plena escatologia, nos quais a ironia acusa seu poder de autoflagelação (aquela ferida que inflijo/ a cada hora, algoz/ do inocente que não sou?), o chamar pelo outro faz-se inócuo (Resposta nenhuma./ A casa do tempo perdido está coberta de hera/ pela metade; a outra metade são cinzas) e as experiências repetidas reciclam o mesmo absurdo (Como (...) suportar a semelhança das coisas ásperas/ de amanhã com as coisas ásperas de hoje?). A unidade do mundo enfim se confirma nessa fatalidade de existir que une flores, pedras e animais; entre estes, não nos consola sequer o privilégio de sofrer.
O sentimento amoroso dividiu-se, na formação do homem e na obra do poeta Drummond, entre a plenitude gozosa do prazer natural e o desejo do sublime, que aporta na melancolia. Referências um para o outro, o corpo que experimenta e o espírito que investiga contracenam duramente em toda a poesia drummondiana. Em Farewell, o drama ainda se reence
Este belo livro não pretende o tour de force expressivo dessa trajetória, nem traz a revelação essencial poupada para a hora extrema. Já nos anos 60, com a melancolia da maturidade e os primeiros desprendimentos da velhice, o poeta firmara certa indisposição para prosseguir na luta com as palavras. O último poema de Lição de Coisas (1962) _livro marcado pela revisitação dos temas e por algum experimentalismo formal_ fechava-se com este terceto, no qual Drummond se dirigia à sempre esquiva Forma de todas as formas, para assim resignar-se: E não encontrar-te é nenhum desgosto/ pois abarrotas o largo armazém do factível/ onde a realidade é maior do que a realidade (F).
De fato: no livro seguinte (Boitempo & A Falta Que Ama, 1968) e nos demais, Drummond já não se empenharia em debater-se nas contradições mais fundas do sujeito ou em tensionar ao máximo a linguagem; passou a alargar generosa e detalhadamente os quadros das antigas percepções de menino e adolescente e a tratar do amor, das pessoas e das circunstâncias com o descompromisso de quem mais avalia a cena do que quem nela atua.
Adeus discreto Farewell poderia lembrar de imediato a família dos Boitempo, mas agora todo memorialismo surge no registro grave de quem se dispõe à despedida definitiva, soturna e sem tragédia _como convém ao poeta de Claro Enigma, que ora reafirma, de modo irrecorrível, o postulado schopenhaueriano da unificação universal do sofrimento. Não, Farewell não tem nem terá buscado ter, como conjunto, a pegada dos grandes livros dos anos 40 e 50, quando o poeta nos desvelava, em cadências, imagens e reflexões de beleza inexcedida, os custos da hesitação individual entre buscar objetivamente pertencer ao mundo intimamente condenado ou deixar-se engolfar em treva própria, refratária à mundanidade _na atração alternada pelo mito íntimo e pela história, pelo lirismo e pelo argumento, pela metáfora e pelo conceito.
Mas a luz definitivamente crepuscular que este livro faz incidir sobre todos os momentos anteriores oferece-lhes uma nova perspectiva de interpretação, tanto quanto podem ser eles essenciais a quem busque interpretá-los. O sentido deste adeus é discreta mas cerimoniosamente remetido à significação integral da caminhada; é a face última, que encerra uma sucessão de personae figuradas pelo caminho: o menino furtivo e imaginoso do sobradão e dos campos de Itabira, o adolescente rebelde dos internatos, o boêmio gauche e modernista da conservadora Belo Horizonte, o burocrata federal fabricante de símbolos sociais insustentáveis, o amargo e introspectivo Orfeu na nova ordem mundial, fria e cinicamente pacificada, o memorialista-cronista que volta a ser menino no direito conquistado da velhice.
Em Farewell, o caminhante ao fim da linha carrega como relíquias algumas imagens obsessivas: as da múltipla Greta Garbo amada na tela, das pinturas dos grandes mestres, da senhorial e vasta casa paterna, das velhas e manipuladas fotografias, da aparição fantasmática da amada _o tesouro fragmentário que foi possível acumular em estoque que ora ao Nada se oferece: Quero a última ração do vácuo,/ a última danação, parágrafo penúltimo/ do estado _menos que isso_ de não ser. Despedindo-se, Drummond aciona seu materialismo derradeiro (até onde um grande poeta possa ser materialista) com a consciência de quem, havendo-se inaugurado como um gauche, sabe enfim que a melhor máscara tem pouca serventia diante da morte.
O leitor de Farewell transitará por poemas de valor desigual, mas haverá de se deter em muitos, como Unidade, A Casa do Tempo Perdido, A Ilusão do Migrante, Aparição Amorosa, Arte em Exposição, Bordão, Imagem, Terra, Memória, Invocação Irada, O Peso de Uma Casa _e em quantos mais recupere, pela linguagem lírica, a beleza construída e comungável. Linguagem lírica: esse discurso poético que pode revelar ao próprio criador uma imagem sua, logo reconhecida como a imagem de muitos.
O discurso poético de Drummond pautou-se quase sempre, e aqui também, por uma falsa antieconomia sintática, na qual os supostos acessórios tornam-se pontos decisivos para a cadeia substantiva das imagens.
A obsessão em voga pela síntese extrema, pelo mínimo de palavras, pela usura de nomes (curiosamente agenciada por quem prega as vantagens do consumo supérfluo), ignora que a relação de síntese poética que conta se dá entre as palavras materialmente apresentadas e o alcance da significação que irradiam.Por vezes, a verdade construída no plano artístico rende-se a outra, que nenhum homem pode construir.
A força particular de Farewell está em transcender, aqui e ali, o trunfo puramente estético do criador mais potente, para instalar-se no plano limiar da morte, de onde ilumina o já-perfeito. E o que ilumina? Alguns topoi da poesia drummondiana recebem, neste livro, a última demão de luz, antes da sombra final. O leitor reconhecerá essas derradeiras atualizações: a figura inaugural do gauche culmina na de O Malvindo; as origens familiares e provinciais reinterpretam-se em A Ilusão do Migrante, Imagem, Terra, Memória e O Peso de Uma Casa; todos os cabarés mineiros vingam-se da hipocrisia oficial em Cabaré Palácio; a condição de poeta-funcionário (magistralmente avaliada na crônica A Rotina e a Quimera, de Passeios na Ilha) sintetiza-se em Escravo em Papelópolis; a pequenez do indivíduo diante do mundo grande torna-se cósmica em Noite de Outubro; a especulação das palavras está em Verbos... E que mais? O fundamental: a revisitação e o adeus às instâncias maiores, o Amor e a Morte.
Qualquer impasse romântico desses dois temas fundadores está decididamente afastado por um Drummond que deseja Não mais o sonho, mas o sono limpo/ de todo excremento romântico.
Mas entre o desejar e o alcançar essa duvidosa paz sem nome, há que passar o poeta pela degradação da carne _o tema mais forte do livro. Aquele a quem já deprimia a ameaça das dentaduras duplas, na casa dos 50, vê agora o corpo descumprir os velhos pactos do desejo e arruinar-se na exalação da velhice, na envilecida carne sem defesa.
Ainda aqui, no entanto, a oscilação de base entre o idealismo e o realismo, marca de brasa dessa poesia, deixa um vestígio pungente: a ruína do corpo ainda está habitada, e de dentro sai a voz para o alto: Ó minhalma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!/ Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível./ Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?.
Vestígio apenas resistente, é certo; somam-se mais intensamente os momentos da plena escatologia, nos quais a ironia acusa seu poder de autoflagelação (aquela ferida que inflijo/ a cada hora, algoz/ do inocente que não sou?), o chamar pelo outro faz-se inócuo (Resposta nenhuma./ A casa do tempo perdido está coberta de hera/ pela metade; a outra metade são cinzas) e as experiências repetidas reciclam o mesmo absurdo (Como (...) suportar a semelhança das coisas ásperas/ de amanhã com as coisas ásperas de hoje?). A unidade do mundo enfim se confirma nessa fatalidade de existir que une flores, pedras e animais; entre estes, não nos consola sequer o privilégio de sofrer.
O sentimento amoroso dividiu-se, na formação do homem e na obra do poeta Drummond, entre a plenitude gozosa do prazer natural e o desejo do sublime, que aporta na melancolia. Referências um para o outro, o corpo que experimenta e o espírito que investiga contracenam duramente em toda a poesia drummondiana. Em Farewell, o drama ainda se reence
1 552
António Lobo de Carvalho
Soneto III
A certa moça, chamando velho ao autor, que ainda se não tinha por tal
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
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Artur Eduardo Benevides
Soneto de Mágoa e de Esperança
Por que de mim te alongas ou te afastas?
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.
És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.
Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,
A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.
És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.
Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,
A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.
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Raimundo Braga Martins
Ausência Sentida
Ausência Sentida
O Verão se foi, o Inverno chegou...
A chuva "molha o chão e molha a alma"
com a saudade que sempre nos restou
imersos neste mar de imensa calma!
Se estamos mudos, a mudez é um trauma
que em nós reflete a insensatez do amor...
Volta a poesia - o soneto é a palma:
reanima a vida, minorando a dor.
Tudo passa: o Tempo casa com a Terra...
Voa, com as horas, à amplidão dos ares
e não mais torna às plagas dos palmares.
Gera, com a Terra, os frutos nos pomares,
Sazona a espiga... Embranquece a serra...
Com as cãs da idade, nossa vida encerra.
O Verão se foi, o Inverno chegou...
A chuva "molha o chão e molha a alma"
com a saudade que sempre nos restou
imersos neste mar de imensa calma!
Se estamos mudos, a mudez é um trauma
que em nós reflete a insensatez do amor...
Volta a poesia - o soneto é a palma:
reanima a vida, minorando a dor.
Tudo passa: o Tempo casa com a Terra...
Voa, com as horas, à amplidão dos ares
e não mais torna às plagas dos palmares.
Gera, com a Terra, os frutos nos pomares,
Sazona a espiga... Embranquece a serra...
Com as cãs da idade, nossa vida encerra.
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Jaumir Valença da Silveira
Late Spring
Amor de floração tardia
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
898
Fernando Pessoa
VI - Some were as loved loved, some as prizes prized.
Some were as loved loved, some as prizes prized.
A natural wife to the fed man my mate,
I was sufficient to whom I sufficed.
I moved, slept, bore and aged without a fate.
A natural wife to the fed man my mate,
I was sufficient to whom I sufficed.
I moved, slept, bore and aged without a fate.
3 944
Fernando Pessoa
XV - Even ye, now old, that to this come as to
Even ye, now old, that to this come as to
Your past, your own joy throw
Into the cup, and with the younger drink
That which now makes you think
Of what love was when love was. (For not now
Your winter thoughts allow).
Drink with the hot day, the bride's sad joy and
The bridegroom's haste inreined,
The memory of that day when ye were young
And with great paeans sung
Along the surface of the depths of you,
You paired and the night saw
The day come in and you did still pant close,
And still the half-fallen flesh distending rose.
Your past, your own joy throw
Into the cup, and with the younger drink
That which now makes you think
Of what love was when love was. (For not now
Your winter thoughts allow).
Drink with the hot day, the bride's sad joy and
The bridegroom's haste inreined,
The memory of that day when ye were young
And with great paeans sung
Along the surface of the depths of you,
You paired and the night saw
The day come in and you did still pant close,
And still the half-fallen flesh distending rose.
4 374
Fernando Pessoa
SÃO PEDRO
S. PEDRO
Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.
Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves –
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.
Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso – fecharem-me – não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade – Deus dá a Deus –
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.
Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.
Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.
Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo –
Umas barbas com S. Pedro lá por trás.
É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.
Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro –
De popular, que bem que soa!)
Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?
Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)
Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.
Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja,
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
9.6.1935.
(Esp. 63-17/63-17-27)
Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.
Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves –
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.
Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso – fecharem-me – não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade – Deus dá a Deus –
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.
Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.
Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.
Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo –
Umas barbas com S. Pedro lá por trás.
É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.
Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro –
De popular, que bem que soa!)
Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?
Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)
Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.
Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja,
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
9.6.1935.
(Esp. 63-17/63-17-27)
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