Temas
Poemas neste tema

Verdade

Adélia Prado

Adélia Prado

Atalho

Nós não somos capazes da verdade,
os antinaturais por natureza.
Sofremos e procuramos.
Daí os eremitérios, as siglas,
diversos estatutos e estandartes.
Acontece, de pura misericórdia, um descanso:
uma borboleta amarela pousa na nossa mão
e, pra nosso susto, permanece sem medo;
olhamos o céu e dizemos do nosso terreiro:
é pra lá que se vai, depois de tudo.
De puro orgulho eu queria ser pobre,
de visceral preguiça, pedra.
Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente
a ponta da meada de seda,
o fundo da agulha de prata
que borda a blusa de Deus
que está no trono sentado
com olhar compassivo e ardente coração.
Eu quero amor sem fim. Deus dá?
Eu quero comida quente. Deus dá?
Aprecio as dificuldades e respectivos auxílios,
me esperando lá fora a luz do dia,
quando eu sair da floresta aonde eu fui passear
com medo da boicininga e da cobra píton
e não fiz nada demais: só fiquei com o moço na grama,
nossos rostos muitos próximos,
transida.
Se tirasse as cobras do conto ia ficar perfeito.
Não tiro e sei bem por quê.
De Deus assim não tenho medo e gosto
mas se Ele disser:
‘vem pro Carmelo estudar Tomás de Aquino, Luzia
[rebelde’,
eu fico trêmula e pretensiosa
de fazer cada uma mais maravilhante
de me tirar o tempo para ser feliz.
Do meu jeito, não.
Pego o trilho no pasto e vou saudando:
‘Bom dia, compadre; bom dia, comadre,
seus patinho tão bons?’
Meus peitos duros de leite,
as ancas duras, rapaz.
Benzinho-de-espinho me pega, carrapicho,
a tarde doura.
Caçar ninho de galinha é bom,
é bom chá de amor-deixado.
Eta-vida-margarida que eu resolvo por álgebra.
Me dá um meu sono e eu vou dormir virada pra parede.
Onde tem um descascado eu ponho os olhos,
tem um mosquitinho tonto,
um cheiro de telha
e Deus resplandecendo em Sua glória.
1 235
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 152
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Prece de Mineiro No Rio

Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.
Essa mesma, não muito. Balançando
entre o real e o irreal, quero viver
como é de tua essência e nos segredas,
capaz de dedicar-me em corpo e alma,
sem apego servil ainda o mais brando.
Por vezes, emudeces. Não te sinto
a soprar da azulada serrania
onde galopam sombras e memórias
de gente que, de humilde, era orgulhosa
e fazia da crosta mineral
um solo humano em seu despojamento.
Outras vezes te invocam, mas negando-te,
como se colhe e se espezinha a rosa.
Os que zombam de ti não te conhecem
na força com que, esquivo, te retrais
e mais límpido quedas, como ausente,
quanto mais te penetra a realidade.
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.
Espírito mineiro, circunspecto
talvez, mas encerrando uma partícula
de fogo embriagador, que lavra súbito,
e, se cabe, a ser doidos nos inclinas:
não me fujas no Rio de Janeiro,
como a nuvem se afasta e a ave se alonga,
mas abre um portulano ante meus olhos
que a teu profundo mar conduza, Minas,
Minas além do som, Minas Gerais.
1 171
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Sentir-se amado

O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama. 

Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado. 

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. 

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também? 

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois. 

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho". 

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato." 

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. 

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.
2 248
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Atraso é ter que mentir

Em Londres um pub está fazendo sucesso porque instalou para seus clientes uma cabine telefônica com uma sonorização peculiar: enquanto a pessoa fala ao telefone, pode acessar o som de um congestionamento, com muito buzinaço. 

Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar. 

Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura, afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois. 

Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola. 

Muitas pessoas ainda têm uma idéia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem encaminha-se para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois têm o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuge esteja junto. 

Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos. 

Não há paixão que resista ao grude. 

Não há paciência que resista à patrulha. 

Não há grande amor que prescinda de outras amizades. 

Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos 10 mandamentos para uma união estável, valendo para ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir.

E não perca tempo lamentando por aquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programação. 

Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio para dois. Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques mais bem cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi para justificar um atraso. 

Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz.
1 037
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Faz-de-conta

Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: faz-de-conta que eu te odeio. 

Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo. 

Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado. 

Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero. 

Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo. 

Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo. 

Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro. 

Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo. 

Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho. 

Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
1 508