Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
Aleijadinho
O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
No Aeroporto
Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
Ruínas
Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
A Mangueira
Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
Perto, Na Suiça
Passeio pelo jardim florido
com um carrinho de criança, e a criança dorme.
Agora sou uma mãe de seios rosas
e isto é a Suíça.
Sento-me e medito
no mar infinito, nas águas
de um tempo esquisito
como se fora um passado
ainda a ser vivido.
A criança dorme, o céu está azul, azul
por trás de alguns pinheiros.
O dia está ameno, mas o coração humano
(mesmo o desta mãe que medita,
mesmo o desta criança tão bonita)
é sempre brasa e abismo.
Teresópolis, 8 de março 1998
O Espelho
Vindo, no caminho, estão
todas as coisas que percebo, tudo
o que toco,
sinto
e vejo:
frutos do meu próprio pensamento.
Delas, uma a uma, me despeço
como num último, íntimo beijo.
Em mim,
a sombra de todos os vultos, lago
límpido, espelho
do céu e das nuvens
que passam;
do qual limpo
as imagens que turvam o fundo,
e que me unem ao mundo
pelo desejo.
Também eu
desapareço
na superfície, sem deixar vestígios
SURJO
Cría Cuervos
Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.
Nova York, fevereiro 1996
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997