Renato Rezende

Renato Rezende

n. 1964 BR BR

Renato Rezende é um poeta brasileiro contemporâneo, conhecido por sua poesia que transita entre o lirismo introspectivo e a observação atenta do cotidiano. Sua obra explora a delicadeza das relações humanas, a efemeridade do tempo e a busca por sentido em meio à banalidade da vida moderna. Com uma linguagem acessível, mas carregada de sensibilidade, Rezende tem se destacado na cena literária brasileira recente.

n. 1964-04-08, Poços de Caldas, Brasil

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Zelig

Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.

O sol no mar infinito.


Rio de Janeiro, 7 de março 1997
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Biografia

Identificação e contexto básico

Renato Rezende é um poeta brasileiro contemporâneo. Sua obra se insere no cenário da poesia brasileira atual, marcada por uma produção prolífica e uma voz lírica singular. A nacionalidade brasileira é um elemento fundamental em sua identidade e em sua produção literária, que dialoga com a cultura e a realidade do país.

Infância e formação

As informações detalhadas sobre a infância e formação de Renato Rezende não são amplamente divulgadas publicamente, mas é possível inferir que sua trajetória como poeta foi moldada por uma sensibilidade apurada para as nuances do mundo e das relações humanas. A formação literária, seja através de estudos formais ou do autodidatismo e da leitura constante, é um pilar para qualquer escritor, e no caso de Rezende, contribui para a sofisticação de sua linguagem poética.

Percurso literário

O percurso literário de Renato Rezende é marcado por uma presença consistente no meio poético, com a publicação de diversos livros que consolidaram sua voz. Sua escrita evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de coerência temática e estilística, ao mesmo tempo em que explorava novas abordagens e aprofundava sua reflexão sobre os temas caros à sua obra. A participação em antologias e a divulgação de seus poemas em plataformas literárias indicam um engajamento ativo com a comunidade poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Renato Rezende é caracterizada por um lirismo introspectivo e uma observação detalhada do cotidiano. Seus poemas frequentemente abordam temas como o amor, a passagem do tempo, a solidão, a memória e a beleza encontrada nas coisas simples da vida. O estilo de Rezende é marcado pela clareza e pela delicadeza da linguagem, sem sacrificar a profundidade emocional e a capacidade de evocar imagens sensíveis. Ele utiliza recursos poéticos de forma sutil, construindo versos que ressoam com o leitor por sua autenticidade e humanidade. A forma poética utilizada por ele varia, mas há uma inclinação para o verso livre, que permite maior fluidez e aproximação da linguagem falada, mantendo a musicalidade intrínseca à poesia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como poeta contemporâneo, Renato Rezende faz parte de um cenário literário dinâmico, que dialoga com as transformações sociais, tecnológicas e culturais do século XXI. Sua obra reflete, de forma sutil, as ansiedades e as reflexões de seu tempo, abordando a maneira como vivemos, nos relacionamos e percebemos o mundo na era moderna. Ele se insere em uma geração de escritores que buscam reinterpretar as tradições poéticas, mas com um olhar voltado para as experiências contemporâneas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Renato Rezende são escassas na esfera pública, priorizando-se a divulgação de sua obra literária. O foco na poesia sugere que o autor prefere manter um certo distanciamento entre sua vida privada e sua expressão artística, permitindo que os poemas falem por si mesmos e que o leitor crie sua própria conexão com os temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Renato Rezende tem crescido no meio literário brasileiro. Sua obra tem sido bem recebida por críticos e leitores, que apreciam a sensibilidade, a originalidade e a profundidade de sua poesia. A participação em antologias e a publicação de livros por editoras respeitáveis indicam um lugar consolidado na literatura contemporânea do país. A receção de sua obra é marcada pela admiração de sua capacidade de tocar em temas universais com uma voz autêntica e um estilo cativante.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora não haja referências explícitas a influências diretas em sua obra, é provável que Renato Rezende tenha sido influenciado pela rica tradição da poesia brasileira, bem como por poetas de outras nacionalidades que exploram o lirismo e a introspecção. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia contemporânea, oferecendo aos leitores uma poesia que é ao mesmo tempo acessível e profundamente tocante, reafirmando a força da palavra poética para expressar a complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Renato Rezende convida a múltiplas interpretações, pois se debruça sobre temas existenciais universais de forma pessoal e íntima. A crítica tem destacado a capacidade do autor em transformar o banal em poético, explorando as sutilezas das emoções e das relações. Seus poemas podem ser vistos como reflexões sobre a efemeridade da vida, a busca por conexão e a beleza inerente à própria existência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por se tratar de um autor contemporâneo cuja obra é o foco principal, as curiosidades e aspetos menos conhecidos de sua vida pessoal não são amplamente divulgados. A dedicação à escrita e a exploração dos meandros da alma humana parecem ser os pilares de sua atuação como poeta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como Renato Rezende é um autor contemporâneo, não há informações sobre sua morte. Sua memória está intrinsecamente ligada à sua obra, que continua a ser divulgada, lida e apreciada, garantindo sua presença e relevância no panorama literário brasileiro.

Poemas

146

O Bicho

Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.

Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.

No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?

Sou uma alma em sua jaula.


Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
700

Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)

Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.

Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?

Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.

Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?

Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?

Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.

Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.

Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.

Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.

Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
965

Balada Das Barcas

As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.


Niterói, 10 de novembro 1998
957

Desejo

Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.


Nova York, agôsto 1993
1 173

O Alto

Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.


Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
723

Cría Cuervos

Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.


Nova York, fevereiro 1996
1 047

Copacabana, 1997

O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.

Depois danço e grito e salto.


Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
960

Bicho de Goiaba

No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.

Todos os dias, o dia.

Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.

Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.

Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.

Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.

As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...

e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?

(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).

Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.

O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.

Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...

Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.

(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).


Ribeirão Preto, Natal 1997
1 042

Outros Dias

Eu sou o melhor amigo para mim mesmo.
Os dias passam, e esse fluir, lento,
que se espraia, e se abre, e quase pára
é a via que vai me tirar daqui.
De vez em quando escrevo um poema.
845

Passeio

Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.


Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 085

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