Lista de Poemas
Poema de Oferta
ao amigo, no dia do seu aniversário?
E o pescador, hesitaria em dar-lhe peixes frescos?
E o lavrador, os cajus que então plantara?
O artesão daria um cesto ou uma talha.
A bordadeira, seu tecido de alvo fio.
O vinhateiro, moringa cheia de vinho
E a floreira, o mais formoso ramalhete.
Que posso dar-te no teu aniversário?
Ouro? – Mas eu não sou garimpeiro...
Roupas? – Também não sou alfaiate...
Aves? – Um dia fui passarinheiro...
Algo de mim é o que vou dar-te
Pelas mãos padecentes
Dos que sustentam a vida.
Pelas mãos sagradas
Dos mais anônimos operários.
Dou-te, meu amigo, minha amiga, um poema,
Que este é o meu trabalho.
(In: Jornal de Cultura. Fortaleza: UFC, ano II, n. 21, 1990)
Chula da Rendeira
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
Os Ausentes
Os ausentes necessitam sempre
bilhetes, cartas e coisas
vezes pequenas lembranças
uma gravata, um poema, um postal.
Os ausentes são tão necessitados
que ninguém os lembra
nem só por saudade ou falta.
Os ausentes têm mãos invisíveis
e figura tão diáfana
que os versos para eles
já nascem feitos poemas.
Os ausentes por qualquer acaso
jamais fogem ao nosso convívio
ainda que a distância seja tanta.
Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.
( In: Dossier Tito. Lyon- França: Anistia Internacional s.d.;
traduzido para o Francês sob o título Les Absents,
pelos monges do Convento de La Tourette, versão
incluída no livro Verbo Encarnado de RP)
A Poesia do Tempo
Da poesia cearense atual ressoam a nível nacional as vozes cristalinas de Gerardo Mello Mourão – radicado há décadas no sudeste brasileiro –, do cantador popular Patativa do Assaré, do versejador de raízes sociais Pedro Lyra, do até aqui pouco conhecido Alcides Pinto e deste mais que surpreendente bardo, também vitimado pelos anos de chumbo, Roberto Pontes.
Pela enésima vez deve repetir-se aqui o velho chavão segundo o qual a poesia da província infelizmente não repercute a nível nacional além do eixo Rio-São Paulo, traduzindo uma realidade possivelmente devida ao gigantismo continental do país e às seqüelas da aparição do regime federalista só a contar da República, ou seja, de um século para cá.
Então é lamentável ver-se estiolarem nas fronteiras de sua pequena região poetas federais (como queria Drummond) como Florisvaldo Mattos, na Bahia, Mário Quintana (falecido), no Rio Grande do Sul, e Manuel de Barros – este capaz de desejar a um jornalista: "obrigado por tentar tirar algo do nada". Obviamente, temos aí uma boutade do poeta ou a tradução de uma realidade interior?
Provincianismos à parte, obrigatório imporem-se os condões dos artistas capazes de abrir os olhos de uma geração para acontecimentos ocorridos à sua volta – exemplo de Roberto Pontes –, captados pela antena mágica de quem deixa "cair do queixo a interrogação/ tatuada nos rostos de abismo", porque "a palavra é/ pra desencantar", convencido o poeta, mais que ninguém, que a "noite eterna cairá/ e do seu âmago fluirá a paz".
Autor embrenhado nas sendas da criação desde os idos de 1964 – caminhando e fazendo o seu caminho, porque, como disse outro poeta, "o caminho não existe, o caminho se faz", Roberto Pontes incendeia o verbo encarnado há mais de três décadas, sem jamais esmorecer e sem jamais produzir literatura chapa branca ou poesia de ocasião para agradar à burguesia sedenta de satisfação estética perfeitamente tranqüila e dotada do necessaário soporífero.
O poeta se dispõe a assumir sua tarefa como um compromisso e jamais como um deleite para entorpecer as consciências, justificando sua atitude muitas vezes como alguma coisa "tatuada nos rostos de abismo", sem olvidar jamais a promessa de que "um dia/ quando as noites forem mansas/ e os dias tristes/ todos entenderão o sentido destes versos".
E neste diapasão, colocando sua dicção no alvorecer da antemanhã, ele projeta o futuro: "quando as noites forem novas/ e os dias perpétuo carnaval", tudo poderia se tornar uma "branca voz/ de alvorada". Mas a seguir o criador se depara com situação embaraçosa – no exato instante em que resolve tributar ao velho Ho Chi Minh a homenagem da certeza de que "o pássaro amarelo/ vai cumprindo seu destino", sem esquecer de se voltar para um antigo colega de colégio, Frei Tito, a quem lembra candidamente, que "os ausentes necessitam sempre/ bilhetes", arrematando que "dos ausentes fica sempre um sorriso".
Roberto Pontes não é um poeta ingênuo, imaturo e voltado ao bestialógico do primarismo estéril – professor universitário (Literatura) e bacharel em Direito, percorre a margem do rio há pelo menos uma geração e aprendeu, no terrível período turbulento responsável pela destruição de de milhares de brasileiros, não ser possível erguer as mãos para uma falsa democracia lastreada em bases inócuas e absolutamente hostis.
Mas, embora esse Verbo encarnado condense toda a biografia poética do autor (numa espécie de obra completa), não colhe o leitor nestas páginas o azedume de alguém ressentido, amargurado ou entregue a situações de desabafo catártico – antes, pelo contrário: aqui surgem, como brotando do solo fértil, bafejados pela natureza, o poema dos meninos azuis ("as flores do esqueleto/ são minério e cor"), a contemplação perfeita do mistério da natureza (‘olha como se amam as borboletas/ que fiam corpos no mistério") e a exata compreensão de que "um arco-íris se planta/ onde mora a consciência"– adiantando o artista para os pósteros que "há retalhos de memória semelhantes a certeza".
Roberto Pontes não sabe "para onde vai a história/ em seu velório carpido", dispõe de "migalhas de tempo no bolso", mas não quer a direção em que nós vamos". O tempo se dilui lentamente e murcha os nossos olhos, adverte o poeta, para logo descobrir que o "búzio dorme na madeira enxuta/ e dentro dele, represado, o mar".
Cumpre reiterar não estarmos diante de um autor da obviedade – não podemos aqui esperar os lances dispersos de uma musicalidade tropeçante. Roberto Pontes canta o seu dia e a sua hora, contemplando a janela do tempo, jamais estereotipado em ritmos e dissonâncias obsoletas, viajando na captação do instante por vir. Um poeta do seu tempo e da sua colheita, interessado na construção de algo mais sólido que a pura dispnéia do prazer, da experimentação lúdica e do império da satisfação. Ele adverte para a perenidade da espécie na Terra e levanta sua voz: "As uvas pétreas/ jamais se douram/ junto ao símbolo marinho".
ALBERTO DA SILVA é jornalista (Tribuna de Notícias-RJ; jornal
RioArte; Revista Poesia Sempre) e escritor, autor de Cinema e
humanismo (ensaio) e A primavera mora na rua (contos).
No Centenário do Cão
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
Cantiga
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.
Por que um dia
também não morro eu?
Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.
Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?
Até Cecília
ave encantada
feneceu.
Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?
A Que Saiu do Cântico dos Cânticos
Traz a fala morna e mansa
Sabe a prática lasciva do desejo.
Em seu corpo trigueiro vem o sol.
Está e não está na incerteza,
Mas tem do mormaço, sol a pino,
A magia da terra iridescente.
A que sempre chega
É o amor, o mito, vindo e partindo,
Aprisco e dor, mas feliz contentamento.
E são os ombros, são as ancas,
As virilhas, as nádegas sedosas,
Os pequeninos seios, o sexo mordente,
Os tesouros que só eu pude achar.
A que sempre chega
Escapou de um versículo do Cântico dos Cânticos
Enquanto Salomão se ocupava demais
Com a pastorinha Sulamita.
E até hoje ele a procura, desesperado,
Naquelas linhas.
Mas em vão. É muito tarde. Está comigo.
( In: jornal Diário do Povo. Teresina-PI, 27 abr. 1991)
Olhe a Poça
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Soneto Para Crer
São muitas as maneiras de viver.
E entre os dois extremos tenho ao lado
Aquela que não cansa de me haver.
Estamos, assim, posto na vida
Igual à flor nascida para ser,
Mas se se abre em nós chaga dorida
Melhor é esquecê-la se doer.
Onde o mistério se a vida é vida?
Por que dormir suspenso no enfado,
Se a esta tenho a vida devotado?
Lá do céu, egressos, vêm anjos
Conselhar que sejam consumidas
A um só tempo flores e feridas.
(In: Revista de Letras. Fortaleza, 15 (1/8)- jan. 1990/dez.1993)
Poema para Foto Antiga
Que mesmo basta o teu retrato.
Mas, se a todo instante mudamos
O teu sorriso fixado no papel
Continua sereno e suplicante
Como antigamente.
Por isso, enquanto se abre a meus olhos
O heliotropo plantado há tempos,
Fujo com eles da fotografia
Porque não sei onde te encontras
E se o mesmo sorriso ainda nos pertence.
Por isso é que não basta o tal retrato
E ponho meus olhos na flor que foi semente.
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