Dois Poemas Em Torno da Ausência
por Elizabeth Dias Martins
A Que Saiu do Cântico dos Cânticos
A que sempre chega
Traz a fala morna e mansa
Sabe a prática lasciva do desejo.
Em seu corpo trigueiro vem o sol.
Está e não está na incerteza,
Mas tem do mormaço, sol a pino,
A magia da terra iridescente.
A que sempre chega
É o amor, o mito, vindo e partindo,
Aprisco e dor, mas feliz contentamento.
E são os ombros, são as ancas,
As virilhas, as nádegas sedosas,
Os pequeninos seios, o sexo mordente,
Os tesouros que só eu pude achar.
A que sempre chega
Escapou de um versículo do Cântico dos Cânticos
Enquanto Salomão se ocupava demais
Com a pastorinha Sulamita.
E até hoje ele a procura, desesperado,
Naquelas linhas.
Mas em vão. É muito tarde. Está comigo.
( In: jornal Diário do Povo. Teresina-PI, 27 abr. 1991)
O Tempo dos Amantes
Aos amantes tudo é permitido
pois dos seus atos nascem nobres rosas
e dos seus olhos brotam melodias
enquanto estrelas lá no céu passeiam.
O tempo dos amantes não se conta
pelos relógios exatos, impassíveis.
O seu registro é o ritmo de abraços
que o leve sopro do tremor embala.
Felizes são aqueles que, amantes,
dão-se de todo aos ritos do seu jogo
e amparam suas mágoas e desejos
na reciprocidade sacra dos seus ventres.
( In: revista Almenara. Londrina-PR, 1986 )
No Centenário do Cão
In memoriam Adolf Hitler
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
Teletipo 1957
hoje eclodiu a chama
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
Verbo Encarnado e seu Autor
por Elizabeth Dias Martins
Verbo Encarnado é o quarto livro de poemas de Roberto Pontes, que já publicou Contracanto (Fortaleza: SIN Edições, 1968), Lições de Espaço (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1970) e Memória Corporal (Rio: Edições Antares, 1982).
Verbo Encarnado vem a público quatorze anos após seu último livro, apesar de anunciado desde 1976, no extinto Jornal de Letras, em coluna assinada por Pedro Lyra.
Os poemas reunidos em Verbo Encarnado são antecedidos de prefácio escrito pelo poeta Moacyr Félix, e apresentados, nas abas, por texto assinado pelo poeta-crítico Fernando Py, da geração 60.
O livro contém cinqüenta e nove poemas e mais a tradução francesa de "Os ausentes" feita pelos frades do convento de La Tourette, Lyon, que acolheram Frei Tito de Alencar Lima, quando de seu exílio, e a quem os versos são dedicados.
Todos os poemas do livro são de natureza política, em parte dedicados a vergastar a tirania dos regimes de exceção, em parte para registrar e denunciar as mazelas universais que intranqüilizam o homem. Poemas circunstanciais e datados, é certo, mas realizados com muita habilidade técnica, o que os faz transcender o reles plano do panfletarismo, como ressaltaram Moacyr Félix e Fernando Py. O volume se encerra com notas posteriores, do próprio A., nas quais o leitor pode informar-se acerca da gênese textual e do fato histórico motivador de cada peça.
RP tem uma proposta criativa que fecha agora seu primeiro ciclo. Seu livro de estréia continha três vertentes: a lírica, a experimental e a política. O segundo, ganhador do "Prêmio Universidade Federal do Ceará", desenvolveu linguagem experimental, recolhendo as contribuições do que se convencionou chamar "vanguarda". O terceiro, trabalho inteiramente lírico, é marcado por intensa carga de erotismo já ressaltada por Lúcia Helena e Carlos d’Alge. Por sua vez, Verbo Encarnado realiza exclusivamente a última diretriz do citado ciclo.
A retomada da proposta criativa do A. já está definida. Ainda em 1996 será publicado Tempo Único & Os Movimentos de Chronos, retorno e ao mesmo tempo avanço na poetização de uma categoria, a exemplo do que fez em Lições de Espaço.
Nascido em 1944, RP é ex-militante da Juventude Estudantil Católica-JEC e da Ação Popular-AP. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, respondeu a IPM durante o regime de exceção em 1964. Foi integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Ce., Vice-Presidente do Centro Brasil Democrático-Ce., e um dos fundadores do PT no Brasil e em seu Estado.
Cursou Direito (1969), Mestrado em Literatura Brasileira (1991), na UFC, e cursa o Doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC-Rio. É professor de Literatura Portuguesa da UFC. A convite da Fundação Biblioteca Nacional, tem ministrado oficinas de poesia para quem já se dedica ao gênero.
Colaborou em revistas como Encontros com a Civilização Brasileira, Tempo Brasileiro, Vozes e, na imprensa, com o Jornal de Letras (RJ), Suplemento Literário Minas Gerais (BH) e Correio das Artes (PB). Atualmente, vem colaborando com as revistas Poesia Sempre (RJ) e Brazilian Book Magazine (RJ), ambas da Fundação Biblioteca Nacional e com o jornal Poiésis Literatura (Petrópolis).
O A. foi traduzido para o francês e o espanhol e participa de oito antologias, dentre as quais, SINCRETISMO: A poesia da geração 60, organizada por Pedro Lyra, figurando ao lado de Mário Faustino, Marly de Oliveira, Carlos Nejar, Fernando Py, Ivan Junqueira, Neide Archanjo, Affonso Romano de Sant’anna, Cláudio Murilo, Olga Savary, Carlos Lima, Lindolf Bell, Astrid Cabral, Orides Fontela, Sérgio de Castro Pinto, entre outros.
ELIZABETH DIAS MARTINS é Mestre em Literatura Brasileira/UFC
e doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa /PUC-Rio.
Foi professora de Literatura Portuguesa na Universidade Federal
do Ceará. Atualmente ministra Oficina de Interpretação Literária na
Fundação Biblioteca Nacional (RJ).
Cantiga
Os mais desesperados são os mais belos cantos.
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.
Por que um dia
também não morro eu?
Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.
Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?
Até Cecília
ave encantada
feneceu.
Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?
Contracanto
Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.
Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.
O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.
Sutil Tecido de Sal e Concha
por Lúcia Helena
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.
LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).
Quântica 5
a nebulosa no olho
arroio de prata e leite
fusão amarelo ocre
na tocha fosforejante
zeus no carrossel coral
a nebulosa no olho
esverdosilosidades
vermelhofuscolizantes
lantejoulinhas no ar
(De Lições de Espaço: teletipos, módulos e quânticas.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971)