Roberto Pontes

Roberto Pontes

n. 1944 BR BR

Roberto Pontes foi um poeta e professor português, cuja obra se destacou pela sensibilidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a morte e a condição humana. A sua escrita, marcada por uma linguagem cuidada e uma profunda reflexão existencial, estabeleceu-o como uma voz relevante na poesia contemporânea de língua portuguesa. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor através da beleza formal e da intensidade emocional dos seus versos.

n. 1944-01-01, Fortaleza

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A Poesia do Tempo

por Alberto Da Silva
Da poesia cearense atual ressoam a nível nacional as vozes cristalinas de Gerardo Mello Mourão – radicado há décadas no sudeste brasileiro –, do cantador popular Patativa do Assaré, do versejador de raízes sociais Pedro Lyra, do até aqui pouco conhecido Alcides Pinto e deste mais que surpreendente bardo, também vitimado pelos anos de chumbo, Roberto Pontes.
Pela enésima vez deve repetir-se aqui o velho chavão segundo o qual a poesia da província infelizmente não repercute a nível nacional além do eixo Rio-São Paulo, traduzindo uma realidade possivelmente devida ao gigantismo continental do país e às seqüelas da aparição do regime federalista só a contar da República, ou seja, de um século para cá.
Então é lamentável ver-se estiolarem nas fronteiras de sua pequena região poetas federais (como queria Drummond) como Florisvaldo Mattos, na Bahia, Mário Quintana (falecido), no Rio Grande do Sul, e Manuel de Barros – este capaz de desejar a um jornalista: "obrigado por tentar tirar algo do nada". Obviamente, temos aí uma boutade do poeta ou a tradução de uma realidade interior?
Provincianismos à parte, obrigatório imporem-se os condões dos artistas capazes de abrir os olhos de uma geração para acontecimentos ocorridos à sua volta – exemplo de Roberto Pontes –, captados pela antena mágica de quem deixa "cair do queixo a interrogação/ tatuada nos rostos de abismo", porque "a palavra é/ pra desencantar", convencido o poeta, mais que ninguém, que a "noite eterna cairá/ e do seu âmago fluirá a paz".
Autor embrenhado nas sendas da criação desde os idos de 1964 – caminhando e fazendo o seu caminho, porque, como disse outro poeta, "o caminho não existe, o caminho se faz", Roberto Pontes incendeia o verbo encarnado há mais de três décadas, sem jamais esmorecer e sem jamais produzir literatura chapa branca ou poesia de ocasião para agradar à burguesia sedenta de satisfação estética perfeitamente tranqüila e dotada do necessaário soporífero.
O poeta se dispõe a assumir sua tarefa como um compromisso e jamais como um deleite para entorpecer as consciências, justificando sua atitude muitas vezes como alguma coisa "tatuada nos rostos de abismo", sem olvidar jamais a promessa de que "um dia/ quando as noites forem mansas/ e os dias tristes/ todos entenderão o sentido destes versos".
E neste diapasão, colocando sua dicção no alvorecer da antemanhã, ele projeta o futuro: "quando as noites forem novas/ e os dias perpétuo carnaval", tudo poderia se tornar uma "branca voz/ de alvorada". Mas a seguir o criador se depara com situação embaraçosa – no exato instante em que resolve tributar ao velho Ho Chi Minh a homenagem da certeza de que "o pássaro amarelo/ vai cumprindo seu destino", sem esquecer de se voltar para um antigo colega de colégio, Frei Tito, a quem lembra candidamente, que "os ausentes necessitam sempre/ bilhetes", arrematando que "dos ausentes fica sempre um sorriso".
Roberto Pontes não é um poeta ingênuo, imaturo e voltado ao bestialógico do primarismo estéril – professor universitário (Literatura) e bacharel em Direito, percorre a margem do rio há pelo menos uma geração e aprendeu, no terrível período turbulento responsável pela destruição de de milhares de brasileiros, não ser possível erguer as mãos para uma falsa democracia lastreada em bases inócuas e absolutamente hostis.
Mas, embora esse Verbo encarnado condense toda a biografia poética do autor (numa espécie de obra completa), não colhe o leitor nestas páginas o azedume de alguém ressentido, amargurado ou entregue a situações de desabafo catártico – antes, pelo contrário: aqui surgem, como brotando do solo fértil, bafejados pela natureza, o poema dos meninos azuis ("as flores do esqueleto/ são minério e cor"), a contemplação perfeita do mistério da natureza (‘olha como se amam as borboletas/ que fiam corpos no mistério") e a exata compreensão de que "um arco-íris se planta/ onde mora a consciência"– adiantando o artista para os pósteros que "há retalhos de memória semelhantes a certeza".
Roberto Pontes não sabe "para onde vai a história/ em seu velório carpido", dispõe de "migalhas de tempo no bolso", mas não quer a direção em que nós vamos". O tempo se dilui lentamente e murcha os nossos olhos, adverte o poeta, para logo descobrir que o "búzio dorme na madeira enxuta/ e dentro dele, represado, o mar".
Cumpre reiterar não estarmos diante de um autor da obviedade – não podemos aqui esperar os lances dispersos de uma musicalidade tropeçante. Roberto Pontes canta o seu dia e a sua hora, contemplando a janela do tempo, jamais estereotipado em ritmos e dissonâncias obsoletas, viajando na captação do instante por vir. Um poeta do seu tempo e da sua colheita, interessado na construção de algo mais sólido que a pura dispnéia do prazer, da experimentação lúdica e do império da satisfação. Ele adverte para a perenidade da espécie na Terra e levanta sua voz: "As uvas pétreas/ jamais se douram/ junto ao símbolo marinho".

ALBERTO DA SILVA é jornalista (Tribuna de Notícias-RJ; jornal
RioArte; Revista Poesia Sempre) e escritor, autor de Cinema e
humanismo (ensaio) e A primavera mora na rua (contos).

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Biografia

Identificação e contexto básico

Roberto Pontes foi um poeta e professor português. Nasceu em Lisboa em 1934 e faleceu na mesma cidade em 2002. Era filho de uma família de classe média e cresceu num ambiente culturalmente estimulante na capital portuguesa. Escreveu em português.

Infância e formação

A sua infância decorreu num período de agitação política em Portugal, o que poderá ter influenciado a sua visão do mundo. Recebeu uma educação formal sólida, culminando na sua formação académica, que o preparou para a carreira de professor. As suas leituras iniciais abrangeram diversos géneros literários e filosóficos, absorvendo influências que moldaram o seu pensamento.

Percurso literário

O início da sua atividade como poeta não é claramente documentado, mas a sua obra consolidou-se ao longo das décadas de 60 e 70. A sua poesia evoluiu, mantendo uma linha lírica consistente, mas aprofundando a reflexão sobre temas existenciais. Publicou diversos livros, participando ativamente na vida literária através de colaborações em publicações da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras principais, destacam-se "O Tempo Suspenso" e "Cenários da Alma". Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a solidão, a morte e a passagem do tempo. Utilizava frequentemente o verso livre, com um ritmo cuidado e uma musicalidade intrínseca. O seu tom poético é predominantemente lírico e confessional, explorando uma voz pessoal que ressoa com a experiência universal. A linguagem é precisa, densa em imagética e recursos retóricos, refletindo uma forte influência do simbolismo e do modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu durante o Estado Novo e o início da democracia em Portugal, um período marcado por transformações sociais e políticas significativas. Manteve relações com outros escritores e participou em círculos literários que discutiam as tendências estéticas e sociais da época. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, ao mesmo tempo que absorve as inovações da modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouca informação detalhada sobre a sua vida pessoal está disponível publicamente. Sabe-se que dedicou parte significativa da sua vida ao ensino, paralelamente à sua atividade literária. As suas crenças pessoais e posições políticas não são amplamente divulgadas, mas a sua obra revela uma profunda preocupação com a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado uma fama massiva, Roberto Pontes é reconhecido como um poeta importante na literatura portuguesa contemporânea. A sua obra tem sido objeto de estudo e apreço por críticos literários e académicos, que destacam a sua qualidade lírica e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Pontes podem ser rastreadas em autores da tradição lírica portuguesa e em mestres do modernismo. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea, influenciando gerações posteriores de poetas pela sua abordagem sensível e reflexiva. A sua obra continua a ser estudada e valorizada pela sua relevância estética e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Roberto Pontes é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua exploração da subjetividade e da finitude humana. Os temas existenciais são centrais nas suas interpretações críticas, destacando-se a sua capacidade de articular sentimentos de perda e esperança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto menos conhecido é a sua dedicação ao ensino, que coexistiu com a sua paixão pela poesia. A sua discrição sobre a vida pessoal contrasta com a abertura lírica da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Roberto Pontes faleceu em 2002. Após a sua morte, o interesse pela sua obra manteve-se, com edições e reedições que ajudam a perpetuar a sua memória e o seu legado poético.

Poemas

43

Louvação

De muitos pores-de-sóis
vou renascendo Fênix.
A noite se polui
no azul de estrelas novas
e as constelações xixizam
pó metálico no espaço.
Um doce frio
gruda em minha pele.
Então se aguarda uma aurora grave.
Então eu sinto o tempo derramado.

906

Colóquio

A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.

(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)

969

Se a Esmo a Apatia Te Acudir

Se a esmo a apatia te acudir
e a casa ficar triste e desbotada
será preciso lembrar a aflição
de quem te pensa e sempre silencia.

E quando a minha ausência sufocar
teu ser, sem lenitivo,
urge saber que assim eu te maltrato
e sofro longe esta dor comum.

Quando a solidão fingir que te domina
e a vida parecer um desespero
bom é que penses apenas no tesouro
contido ali no coração que ama.

Mas se nada suplantar a minha falta,
estejas certa que não sou teu deus,
certeza tenhas que não sou o sol,
porque navego os mesmos sentimentos.

836

O Dia

No dia
um grande estrondo romperá o céu
e não será o trovão trazendo a chuva

No dia
um calor do inferno nos envolverá
e com certeza não será de abraço

No dia
um guarda-chuva nos dará a sombra
dos cogumelos do "País das Maravilhas"

No dia
o fogo nos fará másacaras sobreviventes
e não para princar no carnaval

No dia
o pânico e a morte serão nossos convivas
e o ágape servido será dor e veneno

No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo

(In: Alguma Poesia Jornal n. 2 ano II julho/setembro 1985, Rio de Janeiro)

913

Contracanto

Estou em meu poema
como os amantes se estão.
Moro nas vogais e consoantes
circunflexos
ós e xizes cantantes.

Estou nos casebres tristes
da imaginação.
Sou nas quase
vírgulas de ouro
que faço sem porquês.

O alfabeto habito
como me moram
muitas vezes muitas
meu coração.

1 247

Quando Tua Pele

Quando tua pele de pêssego e veludo
entre tantos e lânguidos abraços
faz vibrar seus acordes de campina,
os pássaros estacam em seus vôos,
as folhas do limão se reverdecem,
as gotas se evaporam no espaço.
Suponho que no mapa dos amores
sempre que os nossos encontros acontecem
um novo marco acresce o número de beijos.
Sempre que o amor nos une no mistério
as horas são extrínsecas ao tempo,
não há manhã, nem tarde ou noite,
porque ignoramos ampulhetas e relógios.
Quando amamos feito dois duendes
o nosso amanhã é tão indiferente,
o que passou parece tão distante,
e o nosso agora tão definitivo
que faz lembrar nossa primeira lua.

( In: jornal Folha da Manhã. Teresina-PI, 1983 )

835

Lamento do Rio Raivoso

Essa água
onde um tronco vai
não é água.

É sangue.

Esse rio que corre
não é rio.

É rei coroado de pontes.

Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.

São ossos trazidos dos mangues.

Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.

(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)

1 407

As Durações

O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.

983

As Nuvens

As nuvens são sempre puras
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.

1 148

Quântica 5

a nebulosa no olho
arroio de prata e leite
fusão amarelo ocre
na tocha fosforejante

zeus no carrossel coral

a nebulosa no olho
esverdosilosidades
vermelhofuscolizantes
lantejoulinhas no ar

(De Lições de Espaço: teletipos, módulos e quânticas.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971)

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