Roberto Pontes

Roberto Pontes

n. 1944 BR BR

Roberto Pontes foi um poeta e professor português, cuja obra se destacou pela sensibilidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a morte e a condição humana. A sua escrita, marcada por uma linguagem cuidada e uma profunda reflexão existencial, estabeleceu-o como uma voz relevante na poesia contemporânea de língua portuguesa. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor através da beleza formal e da intensidade emocional dos seus versos.

n. 1944-01-01, Fortaleza

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Poema de Oferta

Que pode o sapateiro dar de melhor
ao amigo, no dia do seu aniversário?
E o pescador, hesitaria em dar-lhe peixes frescos?
E o lavrador, os cajus que então plantara?
O artesão daria um cesto ou uma talha.
A bordadeira, seu tecido de alvo fio.
O vinhateiro, moringa cheia de vinho
E a floreira, o mais formoso ramalhete.

Que posso dar-te no teu aniversário?
Ouro? – Mas eu não sou garimpeiro...
Roupas? – Também não sou alfaiate...
Aves? – Um dia fui passarinheiro...

Algo de mim é o que vou dar-te
Pelas mãos padecentes
Dos que sustentam a vida.
Pelas mãos sagradas
Dos mais anônimos operários.

Dou-te, meu amigo, minha amiga, um poema,
Que este é o meu trabalho.

(In: Jornal de Cultura. Fortaleza: UFC, ano II, n. 21, 1990)

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Biografia

Identificação e contexto básico

Roberto Pontes foi um poeta e professor português. Nasceu em Lisboa em 1934 e faleceu na mesma cidade em 2002. Era filho de uma família de classe média e cresceu num ambiente culturalmente estimulante na capital portuguesa. Escreveu em português.

Infância e formação

A sua infância decorreu num período de agitação política em Portugal, o que poderá ter influenciado a sua visão do mundo. Recebeu uma educação formal sólida, culminando na sua formação académica, que o preparou para a carreira de professor. As suas leituras iniciais abrangeram diversos géneros literários e filosóficos, absorvendo influências que moldaram o seu pensamento.

Percurso literário

O início da sua atividade como poeta não é claramente documentado, mas a sua obra consolidou-se ao longo das décadas de 60 e 70. A sua poesia evoluiu, mantendo uma linha lírica consistente, mas aprofundando a reflexão sobre temas existenciais. Publicou diversos livros, participando ativamente na vida literária através de colaborações em publicações da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras principais, destacam-se "O Tempo Suspenso" e "Cenários da Alma". Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a solidão, a morte e a passagem do tempo. Utilizava frequentemente o verso livre, com um ritmo cuidado e uma musicalidade intrínseca. O seu tom poético é predominantemente lírico e confessional, explorando uma voz pessoal que ressoa com a experiência universal. A linguagem é precisa, densa em imagética e recursos retóricos, refletindo uma forte influência do simbolismo e do modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu durante o Estado Novo e o início da democracia em Portugal, um período marcado por transformações sociais e políticas significativas. Manteve relações com outros escritores e participou em círculos literários que discutiam as tendências estéticas e sociais da época. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, ao mesmo tempo que absorve as inovações da modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouca informação detalhada sobre a sua vida pessoal está disponível publicamente. Sabe-se que dedicou parte significativa da sua vida ao ensino, paralelamente à sua atividade literária. As suas crenças pessoais e posições políticas não são amplamente divulgadas, mas a sua obra revela uma profunda preocupação com a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado uma fama massiva, Roberto Pontes é reconhecido como um poeta importante na literatura portuguesa contemporânea. A sua obra tem sido objeto de estudo e apreço por críticos literários e académicos, que destacam a sua qualidade lírica e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Pontes podem ser rastreadas em autores da tradição lírica portuguesa e em mestres do modernismo. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea, influenciando gerações posteriores de poetas pela sua abordagem sensível e reflexiva. A sua obra continua a ser estudada e valorizada pela sua relevância estética e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Roberto Pontes é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua exploração da subjetividade e da finitude humana. Os temas existenciais são centrais nas suas interpretações críticas, destacando-se a sua capacidade de articular sentimentos de perda e esperança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto menos conhecido é a sua dedicação ao ensino, que coexistiu com a sua paixão pela poesia. A sua discrição sobre a vida pessoal contrasta com a abertura lírica da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Roberto Pontes faleceu em 2002. Após a sua morte, o interesse pela sua obra manteve-se, com edições e reedições que ajudam a perpetuar a sua memória e o seu legado poético.

Poemas

43

Louvação

De muitos pores-de-sóis
vou renascendo Fênix.
A noite se polui
no azul de estrelas novas
e as constelações xixizam
pó metálico no espaço.
Um doce frio
gruda em minha pele.
Então se aguarda uma aurora grave.
Então eu sinto o tempo derramado.

893

Cantiga

Os mais desesperados são os mais belos cantos.
Musset
Até Cecília
que se encantava
morreu.

Por que um dia
também não morro eu?

Até Cecília
que de beleza
padeceu
e não desejou mais nada
arrefeceu.

Onde Cecília
seus olhos de estampa
escondeu
após os Cânticos
que prometeu?

Até Cecília
ave encantada
feneceu.

Por que de dor talvez
quem sabe não morro eu?

1 180

O Cavaleiro e a Montanha

Mora em teu corpo
o corcel da glória
que só cavalga
às madrugadas frias,
mas rápido e luzente
espuma e transpira
sobre nosso amor.
E somos
o cavaleiro e a montada
que se confundem num abraço.

Mora em teu corpo
o corcel que me liberta
e só distende
nas madrugadas e auroras
músculos e trotes
para nosso baile.
E somos
sobre todas as cantatas
o próprio amor que percorremos juntos.

( In: jornal Correio das Artes. João Pessoa-PB, 05 dez. 1982 )

1 103

Colóquio

A chuva tamborila
pingos de prata
contra a noite.
A borboleta cinza
se enamora do poeta.

(In: revista O Saco. Fortaleza, ano 1, n. 5, 1976)

953

Poema de Descrença

Não acredito no poeta banqueiro
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba

Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente

Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada

Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas

O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura

1 045

Olhe a Poça

Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro

Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã

Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega

E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença

Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua

940

Lamento do Rio Raivoso

Essa água
onde um tronco vai
não é água.

É sangue.

Esse rio que corre
não é rio.

É rei coroado de pontes.

Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.

São ossos trazidos dos mangues.

Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.

(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)

1 392

Quando o Verbo se Encarna

por Moacyr Félix
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:

As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.

E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.

Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.

Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:

As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.

Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:

A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.

O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
1 005

Poema para Foto Antiga

Vivo sem medida essa ausência
Que mesmo basta o teu retrato.
Mas, se a todo instante mudamos
O teu sorriso fixado no papel
Continua sereno e suplicante
Como antigamente.

Por isso, enquanto se abre a meus olhos
O heliotropo plantado há tempos,
Fujo com eles da fotografia
Porque não sei onde te encontras
E se o mesmo sorriso ainda nos pertence.

Por isso é que não basta o tal retrato
E ponho meus olhos na flor que foi semente.

1 105

As Raízes

As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados,
e nelas, a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.

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