Lista de Poemas

Épura

Geometrias, imaginações destes caminhos
da minha terra!
Curvas de trilhas,
triângulos de asas,
bolas de cor...

Círculos de sombras agachadas entre as árvores,
cilindros de troncos embebidos na luz.

Geometrias, imaginações destes caminhos
da minha terra!

Melancolicamente, nesta alegria geométrica,
pingando bilhas polidas,
o leque das bananeiras abana o ar da manhã...


Publicado no livro Jogos Pueris (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.63.
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Brasil

A Fernando Haroldo

Nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Faíscas
Cintilações

Eu ouço o canto enorme do Brasil!

Eu ouço o tropel dos cavalos de Iguaçu correndo na ponta
    das rochas nuas, empinando-se no ar molhado, batendo
    com as patas de água na manhã de bolhas e pingos verdes;

Eu ouço a tua grave melodia, a tua bábara e grave melodia,
    Amazonas, melodia da tua onda lenta de óleo espesso que
    se avoluma e se avoluma, lambe o barro das barrancas, morde
    raízes, puxa ilhas e empurra o oceano mole como um touro
    picado de farpas, varas, galhos e folhagens;

Eu ouço a terra que estala no ventre quente do Nordeste,
    a terra que ferve na planta do pé de bronze do cangaceiro,
    a terra que se esboroa e rola em surdas bolas pelas
    estradas de Juazeiro, e quebra-se em crostas secas,
    esturricadas no Crato chato;

Eu ouço o chiar das caatingas — trilos, pios, pipios, trinos,
    assobios, zumbidos, bicos que picam, bordões que ressoam
    retesos, tímpanos que vibram, límpidos papos que estufam,
    asas que zinem, rezinem, cris-cris, cicios, cismas, cismas
    longas, langues — caatingas debaixo do céu!

Eu ouço os arroios que riem, pulando na garupa dos dourados
    gulosos, mexendo com os bagres no limo da luras e das locas;

Eu ouço as moendas espremendo canas, o gluglu do mel
    escorrendo nas tachas, o tinir da tigelinhas nas serigueiras;
E machados que disparam caminhos,
E serras que toram troncos,
E matilhas de “Corta Vento”, “Rompe-Ferro”, “Faíscas”
    e “Tubarões” acuando suçuaranas e maçarocas,
E mangues borbulhando na luz,
E caititus tatalando as queixadas para os jacarés que
    dormem no tejuco morno dos igapós...
Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando, vociferando!
Redes que balançam,
Sereias que apitam,
Usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e roncam,
Tubos que explodem,
Guindastes que giram,
Rodas que batem,
Trilhos que trepidam.
Rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos
    aboiados e mugidos,
Repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro Preto,
    Bahia, Congonhas, Sabará,
Vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
Tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
Vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!

Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.

Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar...
A conversa dos fazendeiros nos cafezais,
A conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
A conversa dos operários nos fornos de aço,
A conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias,
A conversa dos coronéis nas varandas das roças...
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Brilhos
Faíscas
Cintilações
É o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
    onde dorme, com a boca escorrendo leite,
    moreno, confiante, o hemem de amanhã!


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.188-190. (Manancial, 44
9 934

Epigrama

Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos...

Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,

e como são longas, discretas, as suas mãos...

3 556

O Mercador de Prata, de Ouro e Esmeralda

Cheira a mar! cheira a mar!
As redes pesadas batem como asas,
As redes úmidas palpitam no crepúsculo.
A praia lisa é uma cintilação de escamas.

Pulam raias negras no ouro da areia molhada,
O aço das tainhas faísca em mãos de ébano e bronze.
Músculos, barbatanas, vozes e estrondos, tudo se mistura,
Tudo se mistura no criar da espuma que ferve nas pedras.

Cheira a mar!

O corno da lua nova brinca na crista da onda.
E entre as algas moles e os peludos mariscos,
Onde se arrastam caranguejos de patas denticuladas
E onde bole o óleo gelatinoso das lulas flexíveis,
Diante de rede imensa na noite carregada de estrelas,
Na livre melodia das águas e do espaço,
Entupido de ar, profético, timpânico,
Estoura orgulhosamente o papo dum baiacu...

2 682

Vento Noturno

Volúpia do vento noturno,
do vento que vem das montanhas e das ondas,
do vento que espalha no espaço o cheiro das resinas,
a exalação da maresia e do mato virgem,
das mangas maduras, das magnólias e das laranjas,
dos lírios do brejo e das praias úmidas.

Volúpia do vento noturno nas noites tropicais,
quando o brilho das estrelas é fixo, duro,
quando sobe da terra um hálito quente, abafado,

e a folhagem lustrosa lembra o aço polido.
Volúpia do vento morno do verão,
carregado de odores excitantes,
como um corpo de mulher adolescente,
de mulher que espera o momento do amor...

Volúpia do vento noturno em minha terra natal!


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.173. (Manancial, 44
2 613

Meio-Dia

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!


Publicado no livro Jogos Pueris (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.62.
2 061

Interior

Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranquilo pomar;

no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

uma poeira de luz que aumenta a solidão.

Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.34.
4 029

Filosofia

A realidade é apenas
um milagre da nossa fantasia...

Transforma numa Eternidade
o teu rápido instante de alegria!
Ama, chora, sorri... e dormirás sem penas,
porque foi bela a tua realidade.


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.174. (Manancial, 44
1 805

Uma noite em Los Andes

"Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.

De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...

Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.

A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.

Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.

Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...

Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."

2 148

Entre Buenos Aires e Mendoza

(...)

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não vêem o alarido
construtor dos teus portos,
onde estão eles que não vêem essas bocas
marítimas que te alimentam de
homens,
que atulham de combustível as fornalhas
dos teus caldeamentos,
onde estão eles que não vêem todas essas
proas entusiasmadas,
e esses guindastes e essas gruas que se
cruzam,
e essas bandeiras que trazem a maresia
dos fiordes e dos golfos,
e essas quilhas e esses cascos veteranos
que romperam ciclones e pampeiros,
e esses mastros que se desarticulam,
e essas cabeças nórdicas e mediterrânicas,
que os teus mormaços vão fundir em
bronze,
e esses olhos boreais encharcados de luz
e de verdura,
e esses cabelos muito finos que procriarão
cabelos muito crespos,
e todos esses pés que fecundarão os teus
desertos!

Teus poetas não são dessa raça de servos
que dançam no compasso de gregos
e latinos,
teus poetas devem ter as mãos sujas de
terra, de seiva e limo,
as mãos da criação!
E inocência para adivinhar os teus
prodígios.
e agilidade para correr por todo o teu
corpo de ferro, de carvão, de cobre, de
ouro, de trigais, milharais e cafezais!

Teu poeta será ágil e inocente, América!
a alegria será a sua sabedoria,
a liberdade será a sua sabedoria,
e sua poesia será o vagido da tua própria
substância, América, da tua própria
substância lírica e numerosa.

Do teu tumulto ele arrancará uma energia
submissa,
e no seu molde múltiplo todas as formas
caberão,
e tudo será poesia na força da sua
inocência.

América, teus poetas não são dessa raça
de servos que dançam no compasso de
gregos e latinos!

(...)

Imagem - 01650002


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. p.52-60. (Nossos clássicos, 45
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Identificação e contexto básico

Ronald de Carvalho, cujo nome completo era Ronald Cláudio de Carvalho, foi um poeta, escritor, ensaísta e diplomata brasileiro, nascido em Rio de Janeiro em 26 de abril de 1894 e falecido em 3 de outubro de 1955, no Rio de Janeiro. Foi um dos mais importantes expoentes da primeira fase do Modernismo brasileiro. Sua produção literária é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Ronald de Carvalho nasceu em uma família abastada do Rio de Janeiro. Realizou seus estudos primários e secundários na sua cidade natal. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1917. Durante sua juventude, teve contato com os círculos literários e intelectuais da época, demonstrando desde cedo um interesse pelas novas correntes estéticas que começavam a despontar.

Percurso literário

O percurso literário de Ronald de Carvalho está intrinsecamente ligado ao movimento modernista. Em 1921, publicou seu primeiro livro de poemas, "Trombeta", que já apresentava características de renovação formal e temática. No entanto, foi com a publicação de "Epigramas" em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, que se consolidou como um dos poetas fundamentais do movimento. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre um diálogo com a tradição, mas com uma constante busca por originalidade e expressão da identidade brasileira. Colaborou em diversas revistas literárias e jornais da época, disseminando as ideias modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ronald de Carvalho abrange poesia, prosa e ensaios. Na poesia, destacam-se "Trombeta" (1921) e "Epigramas" (1922). Seus temas centrais giram em torno do cotidiano brasileiro, da paisagem e da cultura nacional, do amor e da reflexão sobre a arte. O estilo de Carvalho é marcado pela linguagem coloquial, pela irreverência, pelo humor e pela experimentação com a forma. Ele utilizou o verso livre, a fragmentação e a concisão, inspirando-se em modelos estrangeiros, mas sempre voltado para a realidade brasileira. Seu tom poético é frequentemente lírico, mas também irónico e satírico. Em sua prosa, Carvalho escreveu "Brasil, País do Futuro" (1927), um livro de crónicas e impressões sobre o país, que se tornou um clássico da literatura de viagem e da visão modernista sobre o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ronald de Carvalho foi uma figura central na efervescência cultural do Rio de Janeiro nas décadas de 1920 e 1930. Viveu em um período de grandes transformações no Brasil, com o fim da República Velha e a ascensão de Getúlio Vargas. Foi amigo de outros modernistas como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, e participou ativamente dos debates que moldaram a estética moderna no país. Sua visão de Brasil, expressa em "Brasil, País do Futuro", reflete o otimismo e o desejo de modernização que caracterizaram parte do pensamento da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de sua carreira literária, Ronald de Carvalho exerceu a diplomacia, servindo em diversas embaixadas brasileiras no exterior. Essa experiência internacional, aliada ao seu interesse pela cultura, enriqueceu sua visão de mundo e sua obra. Sua vida pessoal foi marcada pela dedicação às artes e às letras, e pela forte ligação com o Brasil, apesar de suas passagens pelo estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ronald de Carvalho foi reconhecido em vida como um dos pioneiros do Modernismo brasileiro. Sua obra, especialmente "Epigramas" e "Brasil, País do Futuro", foi bem recebida pela crítica e pelo público, consolidando seu lugar no cânone literário nacional. Seus poemas e crônicas continuam a ser estudados e apreciados pela sua originalidade e pela sua representação do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Carvalho foi influenciado pela poesia parnasiana, simbolista e, sobretudo, pelas vanguardas europeias, como o futurismo e o cubismo. Sua obra, por sua vez, influenciou poetas e escritores que buscaram uma renovação na literatura brasileira, com ênfase na expressão da identidade nacional. "Brasil, País do Futuro" é um legado importante para a compreensão do Brasil da época e da visão que os modernistas tinham do país.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ronald de Carvalho tem sido objeto de análise crítica que destaca sua capacidade de aliar a experimentação formal à temática nacional. Críticos ressaltam a sua ironia, o seu humor e a sua visão crítica, mas também afetuosa, do Brasil. A sua poesia é vista como um convite à reflexão sobre a identidade brasileira e a própria arte de escrever.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua obra é a escolha do título "Epigramas" para um livro de poemas, sugerindo uma brevidade e uma agudeza que caracterizam muitas de suas composições. Sua atuação diplomática também o manteve afastado, em alguns períodos, do centro do debate literário brasileiro, o que pode ter influenciado a forma como sua obra foi recebida em diferentes momentos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ronald de Carvalho faleceu em 1955, no Rio de Janeiro. Sua memória é preservada através da continuidade da leitura e do estudo de sua obra, que permanece relevante para a compreensão do Modernismo e da literatura brasileira do século XX.