Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

1893–1935 · viveu 41 anos BR BR

Ronald de Carvalho foi um poeta, escritor e diplomata brasileiro, figura importante do Modernismo. Sua obra é marcada pela busca de uma linguagem poética renovada, pela exploração de temas nacionais e pela irreverência. Como um dos pioneiros do Modernismo, contribuiu para a consolidação de uma identidade literária brasileira autêntica, aliando a experimentação formal a um profundo amor pela pátria e pela cultura do Brasil.

n. 1893-05-16, Rio de Janeiro · m. 1935-02-15, Rio de Janeiro

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Épura

Geometrias, imaginações destes caminhos
da minha terra!
Curvas de trilhas,
triângulos de asas,
bolas de cor...

Círculos de sombras agachadas entre as árvores,
cilindros de troncos embebidos na luz.

Geometrias, imaginações destes caminhos
da minha terra!

Melancolicamente, nesta alegria geométrica,
pingando bilhas polidas,
o leque das bananeiras abana o ar da manhã...


Publicado no livro Jogos Pueris (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.63.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ronald de Carvalho, cujo nome completo era Ronald Cláudio de Carvalho, foi um poeta, escritor, ensaísta e diplomata brasileiro, nascido em Rio de Janeiro em 26 de abril de 1894 e falecido em 3 de outubro de 1955, no Rio de Janeiro. Foi um dos mais importantes expoentes da primeira fase do Modernismo brasileiro. Sua produção literária é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Ronald de Carvalho nasceu em uma família abastada do Rio de Janeiro. Realizou seus estudos primários e secundários na sua cidade natal. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1917. Durante sua juventude, teve contato com os círculos literários e intelectuais da época, demonstrando desde cedo um interesse pelas novas correntes estéticas que começavam a despontar.

Percurso literário

O percurso literário de Ronald de Carvalho está intrinsecamente ligado ao movimento modernista. Em 1921, publicou seu primeiro livro de poemas, "Trombeta", que já apresentava características de renovação formal e temática. No entanto, foi com a publicação de "Epigramas" em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, que se consolidou como um dos poetas fundamentais do movimento. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre um diálogo com a tradição, mas com uma constante busca por originalidade e expressão da identidade brasileira. Colaborou em diversas revistas literárias e jornais da época, disseminando as ideias modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ronald de Carvalho abrange poesia, prosa e ensaios. Na poesia, destacam-se "Trombeta" (1921) e "Epigramas" (1922). Seus temas centrais giram em torno do cotidiano brasileiro, da paisagem e da cultura nacional, do amor e da reflexão sobre a arte. O estilo de Carvalho é marcado pela linguagem coloquial, pela irreverência, pelo humor e pela experimentação com a forma. Ele utilizou o verso livre, a fragmentação e a concisão, inspirando-se em modelos estrangeiros, mas sempre voltado para a realidade brasileira. Seu tom poético é frequentemente lírico, mas também irónico e satírico. Em sua prosa, Carvalho escreveu "Brasil, País do Futuro" (1927), um livro de crónicas e impressões sobre o país, que se tornou um clássico da literatura de viagem e da visão modernista sobre o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ronald de Carvalho foi uma figura central na efervescência cultural do Rio de Janeiro nas décadas de 1920 e 1930. Viveu em um período de grandes transformações no Brasil, com o fim da República Velha e a ascensão de Getúlio Vargas. Foi amigo de outros modernistas como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, e participou ativamente dos debates que moldaram a estética moderna no país. Sua visão de Brasil, expressa em "Brasil, País do Futuro", reflete o otimismo e o desejo de modernização que caracterizaram parte do pensamento da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de sua carreira literária, Ronald de Carvalho exerceu a diplomacia, servindo em diversas embaixadas brasileiras no exterior. Essa experiência internacional, aliada ao seu interesse pela cultura, enriqueceu sua visão de mundo e sua obra. Sua vida pessoal foi marcada pela dedicação às artes e às letras, e pela forte ligação com o Brasil, apesar de suas passagens pelo estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ronald de Carvalho foi reconhecido em vida como um dos pioneiros do Modernismo brasileiro. Sua obra, especialmente "Epigramas" e "Brasil, País do Futuro", foi bem recebida pela crítica e pelo público, consolidando seu lugar no cânone literário nacional. Seus poemas e crônicas continuam a ser estudados e apreciados pela sua originalidade e pela sua representação do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Carvalho foi influenciado pela poesia parnasiana, simbolista e, sobretudo, pelas vanguardas europeias, como o futurismo e o cubismo. Sua obra, por sua vez, influenciou poetas e escritores que buscaram uma renovação na literatura brasileira, com ênfase na expressão da identidade nacional. "Brasil, País do Futuro" é um legado importante para a compreensão do Brasil da época e da visão que os modernistas tinham do país.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ronald de Carvalho tem sido objeto de análise crítica que destaca sua capacidade de aliar a experimentação formal à temática nacional. Críticos ressaltam a sua ironia, o seu humor e a sua visão crítica, mas também afetuosa, do Brasil. A sua poesia é vista como um convite à reflexão sobre a identidade brasileira e a própria arte de escrever.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua obra é a escolha do título "Epigramas" para um livro de poemas, sugerindo uma brevidade e uma agudeza que caracterizam muitas de suas composições. Sua atuação diplomática também o manteve afastado, em alguns períodos, do centro do debate literário brasileiro, o que pode ter influenciado a forma como sua obra foi recebida em diferentes momentos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ronald de Carvalho faleceu em 1955, no Rio de Janeiro. Sua memória é preservada através da continuidade da leitura e do estudo de sua obra, que permanece relevante para a compreensão do Modernismo e da literatura brasileira do século XX.

Poemas

15

Anoitece

Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...

O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...

Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.

Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...


Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).

In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 030

Sabedoria

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faze da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece...


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.176. (Manancial, 44
2 961

Entre Buenos Aires e Mendoza

(...)

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não vêem o alarido
construtor dos teus portos,
onde estão eles que não vêem essas bocas
marítimas que te alimentam de
homens,
que atulham de combustível as fornalhas
dos teus caldeamentos,
onde estão eles que não vêem todas essas
proas entusiasmadas,
e esses guindastes e essas gruas que se
cruzam,
e essas bandeiras que trazem a maresia
dos fiordes e dos golfos,
e essas quilhas e esses cascos veteranos
que romperam ciclones e pampeiros,
e esses mastros que se desarticulam,
e essas cabeças nórdicas e mediterrânicas,
que os teus mormaços vão fundir em
bronze,
e esses olhos boreais encharcados de luz
e de verdura,
e esses cabelos muito finos que procriarão
cabelos muito crespos,
e todos esses pés que fecundarão os teus
desertos!

Teus poetas não são dessa raça de servos
que dançam no compasso de gregos
e latinos,
teus poetas devem ter as mãos sujas de
terra, de seiva e limo,
as mãos da criação!
E inocência para adivinhar os teus
prodígios.
e agilidade para correr por todo o teu
corpo de ferro, de carvão, de cobre, de
ouro, de trigais, milharais e cafezais!

Teu poeta será ágil e inocente, América!
a alegria será a sua sabedoria,
a liberdade será a sua sabedoria,
e sua poesia será o vagido da tua própria
substância, América, da tua própria
substância lírica e numerosa.

Do teu tumulto ele arrancará uma energia
submissa,
e no seu molde múltiplo todas as formas
caberão,
e tudo será poesia na força da sua
inocência.

América, teus poetas não são dessa raça
de servos que dançam no compasso de
gregos e latinos!

(...)

Imagem - 01650002


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. p.52-60. (Nossos clássicos, 45
1 681

O Mercado de Prata, de Ouro e Esmeralda

Cheira a mar! Cheira a mar!
As redes pesadas batem como asas,
as redes úmidas palpitam no crepúsculo.

A praia é uma lisa cintilação de escamas...

Pulam raias negras no ouro da areia molhada,
o aço das tainhas faísca em mãos de ébano e bronze.
Músculos, barbatanas, vozes e estrondos, tudo se
mistura,
Tudo se mistura no chiar da espuma que ferve
nas pedras.

Cheira a mar!

O corno da lua nova brinca mas crista da onda.

E entre as algas moles e os peludos mariscos,
onde se arrastam caranguejos de patas denticuladas,
e onde bole o olho gelatinoso das lulas flexíveis,
diante da rede imensa da noite carregada de estrelas,
na livre melodia das águas e do espaço,
entupido de ar, profético, timpânico,
estoura orgulhosamente o papo de um baiacu...


Publicado no livro Jogos Pueris (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.61.
2 816

Advertência

Europeu!
Nos tabuleiros de xadrez da tua aldeia,
na tua casa de madeira, pequenina, coberta de hera,
na tua casa de pinhões e beirais, vigiada por filas de cercas
[paralelas, com trepadeiras moles balançando
[e florindo;
na tua sala de jantar, junto do fogão de azulejos, cheirando a
[resina de pinheiro e faia,
na tua sala de jantar, em que os teus avós leram a Bíblia e
[discutiram casamentos, colheitas e enterros,
entre as tuas arcas bojudas e pretas, com lãs felpudas e linhos
[encardidos, colares, gravuras, papéis
[graves e moedas roubadas ao inútil
[maravilhoso;
diante do teu riacho, mais antigo que as Cruzadas, desse teu
[riacho serviçal, que engorda trutas e
[carpas;

Europeu!
Em frente da tua paisagem, dessa tua paisagem com estradas,
[quintalejos, campanários e burgos, que
[cabe toda na bola de vidro do teu
[jardim;
diante dessas tuas árvores que conheces pelo nome- o carvalho
[do açude, o choupo do ferreiro, a tília
[da ponte — que conheces pelo nome
[como os teus cães, os teus jumentos e as
[tuas vacas;

Europeu! filho da obediência, da economia e do bom senso,
tu não sabes o que é ser Americano!
Ah! os tumultos do nosso sangue temperado em saltos e disparadas
[sobre pampas, savanas, planaltos,
[caatingas onde estouram boiadas tontas,
[onde estouram batuques de cascos, tropel
[de patas, torvelinho de chifres!
Alegria virgem das voltas que o laço dá na coxilha verde,
Alegria virgem de rios-mares, enxurradas, planícies cósmicas,
[picos e grimpas, terras livres, ares livres,
[florestas sem lei!
Alegria de inventar, de descobrir, de correr!
Alegria de criar o caminho com a planta do pé!

Europeu!
Nessa maré de massas informes, onde as raças e as línguas se
[dissolvem,
o nosso espírito áspero e ingênuo flutua sobre as cousas, sobre
[todas as cousas divinamente rudes, onde
[bóia a luz selvagem do dia americano!


Publicado no livro Toda a América (1926).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.187-188. (Manancial, 44
2 655

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