Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

1935–2003 · viveu 68 anos BR BR

Sebastião Uchoa Leite foi um poeta, crítico literário e tradutor brasileiro, figura de destaque da poesia contemporânea. A sua obra, marcada pela inteligência, ironia e profunda reflexão sobre a linguagem e a condição humana, transita entre o lirismo e o ensaísmo. Foi também um importante divulgador da literatura estrangeira no Brasil, através das suas traduções e críticas.

n. 1935-01-31, Timbaúba · m. 2003-11-27, Rio de Janeiro

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Take Off

1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras

2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias

3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos

4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra

5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?

6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Biografia

Identificação e contexto básico

Sebastião Uchoa Leite foi um poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, destacou-se pela sua participação ativa na vida cultural e literária do país.

Infância e formação

Formou-se em Letras, o que lhe permitiu aprofundar o seu conhecimento da literatura e da linguística. Dedicou-se intensamente aos estudos literários, tanto da produção brasileira quanto da estrangeira.

Percurso literário

O seu percurso literário abrangeu a poesia, a crítica e a tradução. Como poeta, é conhecido por uma obra densa, intelectualizada e repleta de referências culturais. Como crítico, contribuiu com análises perspicazes sobre autores e obras literárias. A sua atividade como tradutor foi vasta e de grande qualidade, trazendo para o português obras significativas de autores como Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e T.S. Eliot.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Sebastião Uchoa Leite caracteriza-se pela erudição, pela experimentação formal e pela ironia. Os temas abordados incluem a metalinguagem, a condição humana, a cidade, a memória e a própria linguagem. Utiliza frequentemente o verso livre e uma linguagem precisa, por vezes desafiadora. O tom oscila entre o reflexivo, o melancólico e o satírico. A sua obra dialoga com a tradição da poesia moderna, com especial atenção aos simbolistas e modernistas, mas inova ao incorporar uma forte componente ensaística e reflexiva dentro do próprio poema.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sebastião Uchoa Leite inseriu-se no contexto da produção literária brasileira da segunda metade do século XX, um período de diversidade de estilos e de consolidação de novas vozes poéticas. A sua erudição e o seu diálogo com a literatura universal foram marcas distintivas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Foi professor universitário e dedicou grande parte da sua vida ao estudo e à divulgação da literatura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora talvez menos popular que outros poetas de sua geração, Sebastião Uchoa Leite é amplamente respeitado pela crítica e pelos estudiosos da literatura pela qualidade e originalidade da sua obra poética e pela sua contribuição como tradutor e ensaísta.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Mallarmé, Baudelaire e os concretistas brasileiros, Uchoa Leite deixou um legado de uma poesia que exige atenção e reflexão, marcada pela inteligência e pela maestria no uso da língua. A sua obra continua a ser referência para poetas e críticos contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Uchoa Leite convida a múltiplas leituras, sendo frequentemente analisada pela sua complexidade formal, pela densidade de suas referências e pela forma como interroga a própria natureza da poesia e da comunicação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Era conhecido pela sua rigorosa exigência com a linguagem e pela sua vasta cultura literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu no Rio de Janeiro, deixando um importante acervo poético e crítico que continua a ser estudado.

Poemas

21

Take Off

1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras

2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias

3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos

4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra

5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?

6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 697

Anotação 18: A Vida Sono

Cabeceio tonto ao monitor
Acordo em visgo
Pálpebras de pedra
Letras bêbadas de âmbar
E entro barco
Ébrio de tantos roncos
Pernas bambas
O Boxeur erguendo-se da lona
Sono-dança do intelecto
Entre as idéias
O diabo Logos
Fixa as peças do texto-sono

1992


Poema integrante da série Anotações.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
968

Digitações

A poética é uma máquina
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
3 280

As Categorias Límpidas

Constroem tocas em margens de córregos
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.

1991


Poema integrante da série Informes.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 230

Máquina

Máquina de signos
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 379

Numa Incerta Noite

Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla

1991


Poema integrante da série Incertezas.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
1 307

Tiranossauro, Penso em Ti

Há 100 milhões de anos
Apoiado na cauda
Dentes em serra o Terror
Dos ornitisquianos
Grande réptil predatório
A vida muda
Passou rápido o tempo
Em alegoria giratória
Penso em outros predadores
E também nas presas
Nos devorados
Nos vencidos

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 317

Fragmentos Cósmicos

Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 315

Perguntas a H P Lovecraft

Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 101

Pequenas Idéias Fixas

coisas limpas
de ar condicionado sem pesadelos
escritos rasos
le mot juste
objetos diretos colocados
precisões
do ostinato rigore
lancetas bisturis agulhas
conceitos vermes
"la consciencia me sirve de gusano"
grafitti críticos
"somos o carnaval das multinacionais"
observações ao acaso
"um leão
é feito de carneiros devorados"
do poeta da idéia fixa
coisas secas
escritos de gravetos
greves
inscrições de w.c.
"uma coisa é certa
poeta de privada
vive inspirado na merda"


Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 089

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