Lista de Poemas

Carta à Dançarina

porque não tens olhos amantes
para te contemplarem esguia
dançando ao luar de maio,
um desafio brilha em teu olhar.
pés descalços na relva orvalhada,
queres ser livre e dançar,

não te iludas,
loucuras não libertam ninguém.
na comissura dos lábios
deixam um vinco de remorso e nojo;
de tristeza turvam-se os olhos
que desafiantes brilhavam.
antes apóia a tua mão na minha mão,
deixa que de ternura ela se aqueça
e a calma descerá no coração.

beiço de choro, insistes em dançar ao luar;
mas não entendem essa tua ânsia feminina
de transbordar da carne morena.
desafias inutilmente um mundo cego,
gente que não vê teu ventro magro.
desafias inutilmente um mundo distraído,
gente que não sente a doçura de tuas mãos,
a riqueza quente de teus lábios.
e um desafio brilha em teus olhos.

não te iludas,
não basta quebrar as cadeias
para alcançar a liberdade.
a uma prisão sucedem mil prisões:
a do vício, a do tédio, a do cinismo.
antes chega tua pele à minha pele,
e teus lábios entreabertos a meus lábios.
é pelo amor que te hás-de libertar,
é para o amor que poderás dançar
ao luar.

quando tudo morrer dentro de ti
quando tudo se fizer adubo
para a semente que em dia raro de inocência
o destino semear em tua alma,
a planta do amor vingará

dançarás em êxtase ao luar,
para olhos porém de saber ver,
para boca de saber gostar,
para coração de comungar.

sem loucuras nem remorsos,
olhos límpidos e pés ligeiros,
serás livre enfim
na prisão que então escolherás.


In: MILLIET, Sérgio. ... Cartas à dançarina. Il. Fernando Odriozola. São Paulo: Massao Ohno, 1959
3 543

A Dama Ausente

Brilhará a lua que não vejo
nas montanhas de minha terra?
Para que amores na serra
Brilhará a lua que não vejo?

Mais um dia longe, tão longe
que nem mesmo a intuição alcança
os gestos da dama ausente.
As sombras enchem os meus olhos
fechados para o presente.
Mais um dia longe tão longe
que nem mesmo o amor alcança
os gestos da dama ausente...

2 570

Recordação

Elas entraram uma após outra
no harém das recordações
Gilberta dos lábios maus
Armanda dos vícios bons
Dulce dos seios maternais
Teresa das angústias vãs

Uma após outra elas entraram
na dança descompassada
Susana em passo de valsa
Maria quebrando um samba
Mas a tua melodia
oh coração solitário
nenhuma delas percebeu

Foram saindo por isso
cada qual para seu lado
Gilberta com seu marido
Armanda pro cemitério
Dulce descabelada
entre remorsos e ais
Teresa com sua angústia
Susana dizendo adeus
Maria se requebrando

e teu coração solitário
mais solitário ficou.
Os anos passaram, cansaste?
Qual! nas tardes de abril
nas noites de lua cheia
o mesmo enleio te prende
a mesma insatisfação.
Outros lábios procuras
outros seios, outras mãos,
outros nomes se inscrevem
no medo da solidão
Mas apenas a lista aumenta
pois nada sedimenta
no fundo de teu coração.


Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.148-149. (Autores brasileiros, 19
1 897

O Poeta e a Guerra

As noites de amor são minutos
Mas só em você me refugio de você.
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino
E verde e verde e verde e amarelo
As noites de amor são minutos
Chegam inchadas de esperança
Vão-se dobradas de saudades
Roxos da madrugada
Vagidos da primeira vida
Quando eu me canso de você
É em você que eu descanso
Onde estou? Quem sou eu?
No estupor do remorso
na exaustão da tarefa
no entusiasmo viril
na depressão e na lama
ora esponja sensível
ora pedra bonita,
diamante ou argila,
Ariel, Cáliban,
Onde estou? Quem sou eu?
Oh por mais que saia de mim,
é em mim que torno a cair,
o mundo gira, rodopia,
num expressionismo de fogo.
Quem pensa em amor, meu bem,
sem coberta e sem comida
quem pensa em amor, perdido
pelas estradas sem fim?
O quarto ruiu sob as bombas
o bosque do idílio queimou
todos os beijos se crestaram.
Encolho-me todo no canto
mais profundo de mim mesmo.
Aí é que encontro você
de novo e sempre você;
aí é que longe dos outros
posso gozar esse amor
sonegado ao ódio de todos,
posso ter essa riqueza
roubada à miséria de todos.
Oh bem da gente, arisco bem da gente,
agora que tenho você
bem presa dentro de mim,
irei deixar o mal alheio
libertá-la de mim e prender-me?
Fecho os olhos raivosos para o mundo
tampo os ouvidos ao fragor da guerra.
As noites de amor são minutos
vão-se dobradas de saudades...
Ah, plantaremos outros bosques
Ah, construiremos outro quarto
para os beijos que não crestaram...
E talvez então escapemos
à maldição da desgraça
contra os felizes do amor!
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino...


Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.142-143. (Autores brasileiros, 19
2 008

São Paulo

Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
3 053

Aranha Enorme de Ventre

Amarelo...

Aranha enorme de ventre amarelo
sai a lua da teia do arvoredo...
E as estrelas fogem com medo.

1 769

Genebra

Longe dos olhos perto do coração
A nostalgia cresce como meu bigode.

1 837

Tomasina

O cavalo cambaio dirige a caravana
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registadas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.

1 493

Oh Valsa Latejante

Oh valsa latejante. . .

O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.

Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia

O espezinhamento usa batom

Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...

O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso

Oh valsa latejante...

1 770

Fotografia

Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.

1 653

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Identificação e contexto básico

Sérgio Milliet nasceu no Rio de Janeiro em 1890 e faleceu na mesma cidade em 1962. Foi um importante crítico de arte, escritor, poeta e tradutor brasileiro. Escreveu em português.

Infância e formação

Sérgio Milliet provinha de uma família abastada e teve acesso a uma educação privilegiada. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito. Desde cedo, demonstrou grande interesse pelas artes e pela literatura, desenvolvendo uma vasta cultura geral.

Percurso literário

O percurso literário de Sérgio Milliet é marcado pela sua atuação como crítico de arte, ensaísta, poeta e tradutor. Foi um dos fundadores da revista "Orfeu" (1924), um marco do Modernismo brasileiro, embora a sua própria produção poética tenha sido mais discreta e publicada tardiamente. Atuou também como tradutor de obras importantes da literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Milliet como escritor abrange a poesia, com poemas que refletem uma sensibilidade moderna e introspectiva, e o ensaio, onde se destaca como crítico de arte. Sua crítica é caracterizada pela erudição, pela análise aprofundada e pela capacidade de contextualizar as obras dentro de seus períodos históricos e movimentos artísticos. Em sua poesia, a linguagem é precisa e as temáticas abordam reflexões sobre a vida, a arte e a existência. O seu estilo é elegante e intelectualizado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sérgio Milliet viveu e produziu em um período de grandes transformações culturais e sociais no Brasil, sendo uma figura chave na Semana de Arte Moderna de 1922 e no movimento modernista. Ele conviveu e dialogou com os principais artistas e intelectuais da época, contribuindo para a renovação da crítica e da produção artística no país. Sua obra reflete as tensões e os debates estéticos do Modernismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sérgio Milliet teve uma vida dedicada à cultura e ao intelecto. As informações sobre sua vida pessoal são mais focadas em suas relações profissionais e intelectuais com outros artistas e escritores. Sua dedicação à arte e à escrita foi uma constante em sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sérgio Milliet foi amplamente reconhecido como um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. Sua atuação na difusão e no debate sobre a arte moderna brasileira foi fundamental. Seus escritos são considerados referências importantes para o estudo da história da arte e da literatura no país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Milliet foi influenciado pelas vanguardas europeias e pelos debates estéticos de seu tempo. Seu legado reside na sua obra crítica, que ajudou a formar o olhar sobre a arte brasileira moderna, e em sua participação ativa nos movimentos que moldaram a cultura do século XX no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sérgio Milliet é frequentemente analisada sob a ótica da sua contribuição para a crítica de arte brasileira e para a consolidação do Modernismo. Sua capacidade de articulação entre a teoria e a prática artística, bem como sua erudição, são pontos recorrentes nas análises.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é sua atuação como tradutor, trazendo para o público brasileiro obras importantes da literatura estrangeira. Sua dupla faceta de crítico e criador, embora mais proeminente como crítico, enriquece sua figura no panorama cultural.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sérgio Milliet faleceu em 1962. Sua memória é preservada através de seus escritos, que continuam a ser consultados e estudados, e de sua importância histórica como um dos pilares do Modernismo e da crítica de arte no Brasil.