Lista de Poemas

Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

1 498

Autobiografia Inacabada

IV

Vícios de estufa
revanches de sonho
e um dia o milagre do mar.

1 195

Paris

Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens

O Sena foge
levando o gosto da posse.

1 496

Saudade

Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço

e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 814

XXIX [Eu tinha encontro marcado

Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?


Publicado no livro Poemas (1937).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
1 468

Bailado Sueco

Para Blaise Cendrars


Floresta a três andares
As horas da noite pouco a pouco se vão indo
e as horas brancas se aproximam
Chovem desejos retorcidos
tentações em verde escuro
Zé Pereira
... bum... bum... bum...
bum... bum... bum... bum...
Brasil carnavalesco e feiticeiro
cheio de bruxas e de negros
dançando o samba
dos sensualismos nacionais

"O meu boi morreu
que será de mim!!!"

A lua muito grande
muito vermelha
viajando incógnita pela Europa
Sangue!
Todo esse sangue de mil raças
corre em minhas veias
Sou brasileiro
Mas do Brasil sem colarinho
do Brasil negro
do Brasil índio

Cendrars é um poeta brasileiro!


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.50. (Autores brasileiros, 19
1 262

Expressionismo

Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!

Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire

Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen

Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
1 323

Boxe

Para Oswaldo de Andrade


Glórias do ring
Descarga elétrica
diz o vizinho que o swimg fulminou
Carpentier! Carpentier! Carpentier!
E o campeão sorri ao lado do Ursus estendido
Eis Siki desafiante no tablado
e o hino nacional das ovações.
Músculos aços braços sem cansaços
O século vibra todo
na elegância desse xeque-mate
Fora o xadrez e os bilhares de ventres prudentes
as folhas mortas e os decadentes
Renascimento das Espartas sadias
para brilhos nunca dantes inventados
E temos o direito de parodiar Camões
porque somos os clássicos do futuro
ou no mínimo o futuro dos clássicos
(Boa piada!)


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.44. (Autores brasileiros, 19
1 828

Revolta

Em que pese a nossa revolta...
mas que somos nós!
mas que somos nós!

Terror dos olhos que se voltam para dentro,
impotência das mãos presas à vida.

Jamais aceitaremos essa lei terrível!
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Pobre cousa agora sorridente
nesse descanso que não queria,
já sem problemas,
sem perspectivas,
já sem gritos para dizer do inconformismo,
barro que torna ao barro
em que pese a nossa revolta!

Como uma estufa se constrói um cérebro
e dentro desabrocha um pensamento,
flor de requinte
e se afinam as células sensíveis,
os olhos vêem mais longe
e fundo,
os ouvidos ouvem melhor,
distinguem Bach, Noel Rosa,
as narinas se adelgaçam
o tato se faz ligeiro
abre-se o coração em simpatia,
mas a morte está de atalaia
e eis que tudo se afoga em um pouco de sangue...

E que se creia em Deus!
E que se creia em Deus!

Mas Deus chama os melhores
em que pese a nossa revolta...
Ele se cerca dos mais puros
dos mais fortes e perspicazes,
Ele quer tropas aguerridas
de lúcidas almas que lhe possam ouvir
e entender os desígnios inescrutáveis.

Sim Deus chama os melhores
porque os criou para si próprio
frágeis mudas para o jardim celeste.
Ele os arranca desta terra negra e suja
nessa hora exata em que começam a florescer...

Ah! que somos nós!
apenas recipientes.
potes de faiança ou porcelana

e se vinga a semente plantada.
Ele colhe a flor
e transplanta a muda
em que pese a nossa revolta.

Jamais aceitaremos essa lei terrível,
essa lei inumana,
e que só justifica a metafísica.
Jamais a aceitaremos.
nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
nós que somos fraquezas e imperfeições,
solidão, angústias, esperanças malogradas.
Jamais aceitaremos o destino subalterno
de instrumentos de sua vontade.

Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Imagem - 01660007


In: MILLIET, Sérgio. Poema do trigésimo dia: versos... Il. Samson Flexor. São Paulo: Ind. Gráf. Brasileira, 1950
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Identificação e contexto básico

Sérgio Milliet nasceu no Rio de Janeiro em 1890 e faleceu na mesma cidade em 1962. Foi um importante crítico de arte, escritor, poeta e tradutor brasileiro. Escreveu em português.

Infância e formação

Sérgio Milliet provinha de uma família abastada e teve acesso a uma educação privilegiada. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito. Desde cedo, demonstrou grande interesse pelas artes e pela literatura, desenvolvendo uma vasta cultura geral.

Percurso literário

O percurso literário de Sérgio Milliet é marcado pela sua atuação como crítico de arte, ensaísta, poeta e tradutor. Foi um dos fundadores da revista "Orfeu" (1924), um marco do Modernismo brasileiro, embora a sua própria produção poética tenha sido mais discreta e publicada tardiamente. Atuou também como tradutor de obras importantes da literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Milliet como escritor abrange a poesia, com poemas que refletem uma sensibilidade moderna e introspectiva, e o ensaio, onde se destaca como crítico de arte. Sua crítica é caracterizada pela erudição, pela análise aprofundada e pela capacidade de contextualizar as obras dentro de seus períodos históricos e movimentos artísticos. Em sua poesia, a linguagem é precisa e as temáticas abordam reflexões sobre a vida, a arte e a existência. O seu estilo é elegante e intelectualizado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sérgio Milliet viveu e produziu em um período de grandes transformações culturais e sociais no Brasil, sendo uma figura chave na Semana de Arte Moderna de 1922 e no movimento modernista. Ele conviveu e dialogou com os principais artistas e intelectuais da época, contribuindo para a renovação da crítica e da produção artística no país. Sua obra reflete as tensões e os debates estéticos do Modernismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sérgio Milliet teve uma vida dedicada à cultura e ao intelecto. As informações sobre sua vida pessoal são mais focadas em suas relações profissionais e intelectuais com outros artistas e escritores. Sua dedicação à arte e à escrita foi uma constante em sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sérgio Milliet foi amplamente reconhecido como um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. Sua atuação na difusão e no debate sobre a arte moderna brasileira foi fundamental. Seus escritos são considerados referências importantes para o estudo da história da arte e da literatura no país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Milliet foi influenciado pelas vanguardas europeias e pelos debates estéticos de seu tempo. Seu legado reside na sua obra crítica, que ajudou a formar o olhar sobre a arte brasileira moderna, e em sua participação ativa nos movimentos que moldaram a cultura do século XX no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sérgio Milliet é frequentemente analisada sob a ótica da sua contribuição para a crítica de arte brasileira e para a consolidação do Modernismo. Sua capacidade de articulação entre a teoria e a prática artística, bem como sua erudição, são pontos recorrentes nas análises.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é sua atuação como tradutor, trazendo para o público brasileiro obras importantes da literatura estrangeira. Sua dupla faceta de crítico e criador, embora mais proeminente como crítico, enriquece sua figura no panorama cultural.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sérgio Milliet faleceu em 1962. Sua memória é preservada através de seus escritos, que continuam a ser consultados e estudados, e de sua importância histórica como um dos pilares do Modernismo e da crítica de arte no Brasil.