Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

1898–1966 · viveu 68 anos BR BR

Sérgio Milliet foi um crítico de arte, escritor e tradutor brasileiro, figura proeminente no cenário cultural do século XX. Sua obra abrange a crítica de arte, a poesia e a prosa, sempre com um olhar aguçado e intelectualizado sobre a produção artística e literária. Conhecido pela sua erudição e pela sua capacidade de análise, Milliet desempenhou um papel fundamental na difusão e no debate sobre as artes no Brasil, deixando um legado de textos que continuam a ser referências importantes para o estudo da cultura brasileira.

n. 1898-09-20, São Paulo · m. 1966-11-09, São Paulo

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Carta à Dançarina

porque não tens olhos amantes
para te contemplarem esguia
dançando ao luar de maio,
um desafio brilha em teu olhar.
pés descalços na relva orvalhada,
queres ser livre e dançar,

não te iludas,
loucuras não libertam ninguém.
na comissura dos lábios
deixam um vinco de remorso e nojo;
de tristeza turvam-se os olhos
que desafiantes brilhavam.
antes apóia a tua mão na minha mão,
deixa que de ternura ela se aqueça
e a calma descerá no coração.

beiço de choro, insistes em dançar ao luar;
mas não entendem essa tua ânsia feminina
de transbordar da carne morena.
desafias inutilmente um mundo cego,
gente que não vê teu ventro magro.
desafias inutilmente um mundo distraído,
gente que não sente a doçura de tuas mãos,
a riqueza quente de teus lábios.
e um desafio brilha em teus olhos.

não te iludas,
não basta quebrar as cadeias
para alcançar a liberdade.
a uma prisão sucedem mil prisões:
a do vício, a do tédio, a do cinismo.
antes chega tua pele à minha pele,
e teus lábios entreabertos a meus lábios.
é pelo amor que te hás-de libertar,
é para o amor que poderás dançar
ao luar.

quando tudo morrer dentro de ti
quando tudo se fizer adubo
para a semente que em dia raro de inocência
o destino semear em tua alma,
a planta do amor vingará

dançarás em êxtase ao luar,
para olhos porém de saber ver,
para boca de saber gostar,
para coração de comungar.

sem loucuras nem remorsos,
olhos límpidos e pés ligeiros,
serás livre enfim
na prisão que então escolherás.


In: MILLIET, Sérgio. ... Cartas à dançarina. Il. Fernando Odriozola. São Paulo: Massao Ohno, 1959
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Biografia

Identificação e contexto básico

Sérgio Milliet nasceu no Rio de Janeiro em 1890 e faleceu na mesma cidade em 1962. Foi um importante crítico de arte, escritor, poeta e tradutor brasileiro. Escreveu em português.

Infância e formação

Sérgio Milliet provinha de uma família abastada e teve acesso a uma educação privilegiada. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito. Desde cedo, demonstrou grande interesse pelas artes e pela literatura, desenvolvendo uma vasta cultura geral.

Percurso literário

O percurso literário de Sérgio Milliet é marcado pela sua atuação como crítico de arte, ensaísta, poeta e tradutor. Foi um dos fundadores da revista "Orfeu" (1924), um marco do Modernismo brasileiro, embora a sua própria produção poética tenha sido mais discreta e publicada tardiamente. Atuou também como tradutor de obras importantes da literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Milliet como escritor abrange a poesia, com poemas que refletem uma sensibilidade moderna e introspectiva, e o ensaio, onde se destaca como crítico de arte. Sua crítica é caracterizada pela erudição, pela análise aprofundada e pela capacidade de contextualizar as obras dentro de seus períodos históricos e movimentos artísticos. Em sua poesia, a linguagem é precisa e as temáticas abordam reflexões sobre a vida, a arte e a existência. O seu estilo é elegante e intelectualizado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sérgio Milliet viveu e produziu em um período de grandes transformações culturais e sociais no Brasil, sendo uma figura chave na Semana de Arte Moderna de 1922 e no movimento modernista. Ele conviveu e dialogou com os principais artistas e intelectuais da época, contribuindo para a renovação da crítica e da produção artística no país. Sua obra reflete as tensões e os debates estéticos do Modernismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sérgio Milliet teve uma vida dedicada à cultura e ao intelecto. As informações sobre sua vida pessoal são mais focadas em suas relações profissionais e intelectuais com outros artistas e escritores. Sua dedicação à arte e à escrita foi uma constante em sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sérgio Milliet foi amplamente reconhecido como um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. Sua atuação na difusão e no debate sobre a arte moderna brasileira foi fundamental. Seus escritos são considerados referências importantes para o estudo da história da arte e da literatura no país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Milliet foi influenciado pelas vanguardas europeias e pelos debates estéticos de seu tempo. Seu legado reside na sua obra crítica, que ajudou a formar o olhar sobre a arte brasileira moderna, e em sua participação ativa nos movimentos que moldaram a cultura do século XX no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sérgio Milliet é frequentemente analisada sob a ótica da sua contribuição para a crítica de arte brasileira e para a consolidação do Modernismo. Sua capacidade de articulação entre a teoria e a prática artística, bem como sua erudição, são pontos recorrentes nas análises.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é sua atuação como tradutor, trazendo para o público brasileiro obras importantes da literatura estrangeira. Sua dupla faceta de crítico e criador, embora mais proeminente como crítico, enriquece sua figura no panorama cultural.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sérgio Milliet faleceu em 1962. Sua memória é preservada através de seus escritos, que continuam a ser consultados e estudados, e de sua importância histórica como um dos pilares do Modernismo e da crítica de arte no Brasil.

Poemas

19

Expressionismo

Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!

Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire

Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen

Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
1 339

Bailado Sueco

Para Blaise Cendrars


Floresta a três andares
As horas da noite pouco a pouco se vão indo
e as horas brancas se aproximam
Chovem desejos retorcidos
tentações em verde escuro
Zé Pereira
... bum... bum... bum...
bum... bum... bum... bum...
Brasil carnavalesco e feiticeiro
cheio de bruxas e de negros
dançando o samba
dos sensualismos nacionais

"O meu boi morreu
que será de mim!!!"

A lua muito grande
muito vermelha
viajando incógnita pela Europa
Sangue!
Todo esse sangue de mil raças
corre em minhas veias
Sou brasileiro
Mas do Brasil sem colarinho
do Brasil negro
do Brasil índio

Cendrars é um poeta brasileiro!


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.50. (Autores brasileiros, 19
1 287

XXIX [Eu tinha encontro marcado

Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?


Publicado no livro Poemas (1937).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
1 489

Oh Valsa Latejante

Oh valsa latejante. . .

O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.

Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia

O espezinhamento usa batom

Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...

O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso

Oh valsa latejante...

1 792

Fotografia

Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.

1 676

Paris

Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens

O Sena foge
levando o gosto da posse.

1 518

Autobiografia Inacabada

IV

Vícios de estufa
revanches de sonho
e um dia o milagre do mar.

1 213

Tomasina

O cavalo cambaio dirige a caravana
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registadas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.

1 521

Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

1 516

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