Lista de Poemas

Canto Décimo [I

(O GUESA, tendo atravessado as ANTILHAS, crê-se livre dos
XEQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos
desertos:)



— Orfeu, Dante, Enéias, ao inferno
Desceram, o Inca há de subir...
— Ogni sp'ranza lasciate,
Che entrate...
— Swedenborg, há mundo porvir?

(Xeques surgindo risonhos e disfarçados em Railroad-
managers, Stockjobbers, Pimpbrokers, etc., etc.,
apregoando:)

— Harlem! Erie! Central! Pennsylvania!
— Milhão! cem milhões!! mil milhões!!!
— Young é Grant! Jackson.
Atkinson!
Vanderbilts, Jay Goulds, anões!

(A Voz mal ouvida dentre a trovoada:)

— Fulton's Folly, Codezo's Forgery...
Fraude é o clamor da nação!
Não entendem odes
Railroads;
Paralela Wall-Street à Chattám...

(Corretores continuando:)

— Pigmeus, Brown Brothers! Bennett! Stewart!
Rotschild e o ruivalho d'Astor!!
— Gigantes, escravos
Se os cravos
Jorram luz, se finda-se a dor!...

(Norris, Attorney; Codezo, inventor; Young; Esq.,
manager; Atkinson, agent; Armstrong, agent; Rodhes,
agent; P. Offman & Voldo, agents; algazarra, miragem; ao
meio, o GUESA:)

— Dois! três! cinco mil! se jogardes,
Senhor, tereis cinco milhões!
— Ganhou! ha! haa! haaa!
— Hurrah! ah!...
— Sumiram... seriam ladrões?...

(...)


In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
3 146

Canto Segundo [I

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 594

Harpa XXIV - O Inverno

(...)

Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos

Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.

Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.

(...)


Poema integrante da série Estâncias.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 583

Harpa XXXV - Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

Imagem - 00310003


Poema integrante da série Noites.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 571

Canto Segundo [II

(MUXURANA, histórica:)

— Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.

(...)

(Coro dos Índios:)

— Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.

(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)

— Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
— Maranduba, abaré!...

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 831

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Identificação e contexto básico

Luís Xavier de Jesus Sousândrade foi um poeta e jornalista brasileiro. Nasceu em Alcântara, Maranhão, em 4 de julho de 1833, e faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de julho de 1902. Utilizou principalmente seu próprio nome em suas publicações. Originário de uma família abastada, teve acesso a uma educação privilegiada e a um ambiente cultural propício. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita, o português. Viveu em um período de grandes transformações no Brasil, com a transição do Império para a República, e em um contexto de crescente influência europeia.

Infância e formação

Sousândrade teve uma infância e juventude marcadas pela educação formal e pelo contato com a cultura europeia. Estudou em colégios no Rio de Janeiro e, posteriormente, em Coimbra, Portugal, onde cursou Medicina. Sua formação intelectual foi ampla, absorvendo influências da literatura, da filosofia e das ciências da época. Viajou bastante pela Europa, o que ampliou sua visão de mundo e seu repertório cultural.

Percurso literário

O percurso literário de Sousândrade iniciou-se com a publicação de seus primeiros poemas em jornais e revistas. Sua obra poética mais importante, 'O Guesa', foi publicada em partes, com a primeira parte em 1878 e a segunda em 1886. Ele também atuou como jornalista, escrevendo em diversos periódicos, e como tradutor. Sua produção literária, embora não volumosa, é considerada de grande originalidade e um prenúncio do modernismo no Brasil, com sua ruptura formal e temática.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais emblemática de Sousândrade é o poema épico 'O Guesa', que narra a saga de um guerreiro indígena e aborda temas como a identidade nacional, a história do Brasil e a condição humana. Outras obras importantes incluem o romance 'O Coro dos Contrabandistas' e o livro de poemas 'Paris – Rio de Janeiro'. Seu estilo é caracterizado pela experimentação formal, pelo uso do verso livre e por uma linguagem ousada e inovadora. Ele incorporou elementos da oralidade e da cultura popular, ao mesmo tempo em que demonstrava profunda familiaridade com a poesia francesa, especialmente com os parnasianos e simbolistas. Seus temas centrais incluem o amor, a pátria, a liberdade, a justiça social e a crítica à hipocrisia da sociedade burguesa. A voz poética de Sousândrade é frequentemente intensa, apaixonada e engajada, refletindo suas convicções políticas e sociais. Sua linguagem é rica em imagens, metáforas e neologismos, o que confere a sua poesia uma sonoridade única e uma densidade expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sousândrade viveu em um período de intensas mudanças no Brasil, culminando com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Ele participou ativamente do debate intelectual de sua época, defendendo ideias progressistas e criticando as estruturas sociais vigentes. Sua obra dialoga com o contexto do Segundo Reinado e da transição para a República, refletindo as tensões e os anseios por modernização do país. Ele esteve em contato com diversos círculos literários e intelectuais, tanto no Brasil quanto na Europa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sousândrade teve uma vida pessoal intensa e marcada por viagens e por relações afetivas significativas, que muitas vezes se refletiram em sua poesia. Ele também se envolveu em questões políticas e sociais, o que lhe rendeu alguns conflitos. Sua profissão como jornalista e sua atuação em órgãos públicos complementaram sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Sousândrade como um dos precursores do modernismo brasileiro ocorreu principalmente postumamente. Em vida, sua obra inovadora nem sempre foi compreendida e apreciada pela crítica conservadora. No entanto, sua importância para a renovação da poesia brasileira é hoje amplamente reconhecida, sendo considerado um autor fundamental para a compreensão da transição do Romantismo para o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sousândrade foi influenciado por poetas franceses como Victor Hugo, Baudelaire e Verlaine, bem como pela tradição da poesia brasileira. Ele, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas, especialmente os modernistas, pela sua ousadia formal e temática. Seu legado é o de um poeta inovador que antecipou muitas das conquistas da poesia do século XX no Brasil, abrindo novos caminhos para a expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sousândrade é rica em interpretações, sendo frequentemente analisada sob a ótica da identidade nacional, da crítica social e da busca por uma linguagem poética autônoma. 'O Guesa' é visto como um épico moderno, que reinterpreta a história do Brasil sob uma perspectiva crítica e humanista. A complexidade de sua linguagem e a profundidade de seus temas geram constantes debates acadêmicos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Sousândrade é sua forte ligação com a cidade de Alcântara, seu local de nascimento, que serviu de inspiração para muitos de seus escritos. Ele também era conhecido por seu temperamento forte e por suas convicções intransigentes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Luís Xavier de Jesus Sousândrade faleceu no Rio de Janeiro, em 1902, de tuberculose. Sua morte, apesar de não ter sido amplamente noticiada na época, marcou o fim de uma vida dedicada à arte e ao pensamento. Publicações póstumas e o resgate de sua obra por críticos e estudiosos garantiram sua perenidade na memória literária brasileira.