

João Cabral de Melo Neto
João Cabral de Melo Neto foi um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX, conhecido por sua poesia de rigor formal e objetividade, frequentemente descrita como "poesia engenheira". Sua obra se caracteriza pela precisão vocabular, pela construção cuidadosa do verso e pela exploração de temas ligados ao Nordeste brasileiro, à seca, à infância e à arte. Seu estilo contido e anti-lírico, com forte influência do concretismo, buscou uma poesia despojada de sentimentalismo, focada na estrutura da linguagem e na capacidade de nomear e descrever o mundo de forma clara e concisa. Ele é amplamente reconhecido por sua contribuição à renovação da poesia brasileira.
1920-01-09 Recife, Pernambuco, Brasil
1999-10-09 Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
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Paisagem pelo Telefone
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol que as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesse envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Publicado no livro Quaderna (1960).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Org. Marly de Oliveira.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.225-227.
(Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol que as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesse envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Publicado no livro Quaderna (1960).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Org. Marly de Oliveira.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.225-227.
(Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
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