Olavo BilacOlavo Bilac
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um jornalista e poeta brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.
Parnasianismo
Nasceu a 16 Dezembro 1865 (Rio de Janeiro, Brasil)
Morreu em 28 Dezembro 1918 (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil)
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João do Rio

"A religião é um freio!", dizia o conselheiro Acácio, venerado filho do boticário Honrais, e neto de monsieur de La Palisse.

Parece, porém, que o Rio de janeiro, esta árdega e desbocada cidade em que vivemos, não se contenta com um só freio: o Rio de Janeiro precisa de muitos freios, cuja ação combinada lhe modere e sofreie o ardor dos instintos em marcha acelerada para a abolição dos pecados.

O Rio de Janeiro não tem Religião: tem Religiões. Os cariocas acreditam ardentemente ganhar o reino do céu, lançam mão de todas as amarras, e recorrem ao mesmo tempo ao auxílio de todos os credos e de todos os ritos. Ora, graças! Já não se dirá de nós o que dos Tasmânios incréus disse o missionário Clark: "Morrem sem pensar em Deus, como os cangurus", ou o que dos hotentotes disse Campbell: "Só vieram ao mundo para matar e comer". Nós viemos ao mundo para... crer e rezar.

Ninguém imaginava que houvesse tantas religiões por aqui: nós somos católicos, positivistas, budistas, protestantes, batistas, luteranos, calvinistas, hierosolimitas, sebastianistas, ocultistas, gnosticistas, cabalistas... que sei eu? O Rio de janeiro é Credópolis: aqui, como naquele vale do Egito, em que Flaubert localizou a Tentação de santo Antão, todas as religiões da terra... e do espaço vieram reunir-se, e exibir-se em parada de mostra.

O meu companheiro João do Rio deu-se agora a um inquérito sobre todas essas religiões, e os seus artigos, publicados nesta mesma Gazeta, têm revelado cousas maravilhosas. Ontem, encontrei João do Rio... Ele resplandecia: pareceu-me que cada uma das religiões estudadas e devassadas lhe tinha dado um pouco do seu clarão do Além-Mundo... João saía do Mistério, todo cheio de Mistério: tinha mistério na face, no corpo, no chapéu, nas botas. E, assim como as mulheres de Florença diziam de Dante, quando ele passava pelas ruas: "Lá vai aquele que voltou do inferno!" — também do meu querido João do Rio se pode dizer, com respeitoso espanto: "Lá vai aquele que voltou do Mistério!".

Essas revelações têm despertado um interesse justo. Não houve ainda, desde o princípio das eras até hoje, problema que, mais do que o problema religioso, apaixonasse a alma humana. Alguns psicólogos acreditam que há no cérebro humano uma região especial, onde reside o domínio privado da religiosidade...

O inquérito da Gazeta, conduzido com talento e brilho, vem provar que esse domínio da religiosidade, se existe, nunca terá talvez as suas fronteiras anuladas.

João do Rio tem corrido vários templos — uns encantadores e sóbrios, outros severos e solenes, outros lôbregos ou equívocos, ou sinistros, ou cômicos, instalados em bibocas ou em fundos de clubes de dança. E ainda o inquiridor não visitou as casas em que se praticam a quiromancia, a necromancia, a cartomancia, a piromancia, [***], a oniromancia, e todas as outras artes da magia, que, pelo seu caráter cultual e místico, também fazem parte da grande repartição das religiões.

Somente agora, podemos avaliar os mistérios que a nossa Capital, sob a sua enganadora aparência de leviana futilidade, guarda e esconde no seu seio.

Mal sabíamos nós que vivíamos a acotovelar por essas ruas tantos sacerdotes!

Olhai aquele sujeito, que vai de rosto magro e chupado, pitando melancolicamente um cigarro, com um ar apagado e insignificante de quem não sabe o que está fazendo no mundo... Não vos deixeis iludir pela sua aparência nula: aquele sujeito é um vidente, que confabula de dia e de noite com os mortos e a cujo aceno imperativo e seco as almas fogem do limbo e vêm roçar de novo, com a ponta da sua asa imaterial, a Terra corrompida.

Vede aquele homem calmo, pacato, gordo, vestido com correção e limpeza, pisando firme, com a mão na algibeira da calça, sacolejando as chaves da burra. Pensais que aquele pacífico burguês só trata dos seus negócios e da prosperidade de sua casa comercial? Puro engano nosso: aquele homem vive dentro de um halo de espíritos, e conversa com eles, e deles recebe lições, e por eles conhece todos os segredos do éter infinito, em cuja amplidão, entre os mundos volantes, erram as Psiques e os Corpos Astrais...

Reparai agora naquele mocinho imberbe, esbelto, com um buço no beiço e um clarão de garotinho nos olhos. Cuidais que é um alegre colegial, somente preocupado com o sum-es-fui e com o teorema de Euclides, dividindo o seu tempo entre o estudo dos preparatórios e o namoro das meninas janeleiras? Longe disso! aquele mocinho é um sacerdote de Mitra, para quem a Gnose não tem segredos, e para quem o Talmude é mais claro do que um copo d'água...

E ali tendes um mendigo, sentado à soleira de uma porta, com a cabeça calva ao sol, estendendo o chapéu aos transeuntes. Não vos enganeis... Aquele mendigo é mais rico que Rockefeller e Morgan: sabe consultar os astros, possui um pedaço da pedra filosofal, vende aos centilitros o elixir da longa vida, e, versado em todos os arcanos da alquimia, sabe converter o chumbo em ouro, com o simples auxílio de uma pitada de pó e da boa vontade do divino Hermes Trimegisto...

Nos bondes, nos teatros, nos cafés, nós vivemos irreverentemente a pisar os calos de grandes heresiarcas, de poderosos magos, de fortes arquiatros, de sagrados pastores de almas. Em cada uma das ruas de Botafogo, ou do saco do Alferes, da Gamboa, ou das Laranjeiras, há um templo, uma basílica, um delubro, uma capela, um antro de pitonisa, uma caverna de oráculo: o Rio de janeiro é Credópolis.

A todas essas religiões cujo culto é público ou secreto, mas que têm uma organização mais ou menos metódica, é preciso juntar as religiões individuais, as superstições que são peculiares a cada indivíduo.

Este nunca sai de casa sem fazer quatro piruetas seguidas no patamar da escada; aquele não vai para o trabalho sem beijar sete vezes um pedaço de corda de enforcado; aquele outro tem na corrente do relógio um dente de veado morto no quarto minguante da lua de outubro; qual não realiza negócio senão em quarta-feira; qual não arrisca cinco tostões no jogo dos bichos sem oferecer um copinho de aguardente a santo Onofre; e um sujeito conheço eu (não lhe escrevo o nome para não o vexar) que, há doze anos, ao descer do bonde, entra na cidade pondo o pé direito na mesma pedra da mesma calçada da mesma esquina da mesma rua...

Também essas superstições são governadas pelo instinto de "religiosidade". Religião não é somente "um freio", como dizia o conselheiro Acácio: é um freio para as almas ardentes e impetuosas; mas, para as almas lerdas ou apáticas, não é freio: é acicate, é chicote, é espora, é estimulante, é álcool, é choque elétrico... Da Religião se pode dizer o que dizem do hábito de fumar os fumantes incorrigíveis: dá fome a quem não a tem, e aplaca a fome a quem a tem...

Estou em dizer que nunca se fez, no Rio de janeiro, como pesquisa de psicologia social, um inquérito tão interessante como esse da Gazeta.

O século XIX, no seu último quartel, assistiu a um reflorescimento de crenças. O século XX está assistindo à exacerbação desse movimento de regresso à fé. O reverdecer, não da Religião, mas das Religiões, não se está fazendo apenas no Rio de Janeiro: faz-se em todo o mundo civilizado. Multiplicam-se as conversões, ressuscitam crenças mortas, exumam-se ritos antigos, reacendem-se apagadas seitas. Na culta Europa, em Paris e em Londres, já existem templos do masdeísmo, do budismo e do sabeísmo.

Que quer dizer esse regresso à fé? É um sinal de progresso ou de decadência moral?

Pela mistura das religiões, pela complicação dos credos, pelo baralhamento das seitas — parece a princípio que há aí um sintoma de degenerescência. O primeiro sintoma de queda de Roma foi a importação e a implantação de todos os cultos e de todas as religiões das províncias