Tobias Barreto

Tobias Barreto

1839–1889 · viveu 50 anos BR BR

Tobias Barreto foi um poeta, jurista e jornalista brasileiro, um dos principais nomes do pré-modernismo e do simbolismo no Brasil. Nascido em Sergipe, destacou-se por sua poesia de cunho social e filosófico, marcada por um estilo vigoroso e inovador. Foi um crítico ferrenho da sociedade e da política de seu tempo, defendendo reformas e um pensamento mais livre. Sua obra, embora menos conhecida em comparação com outros nomes de sua época, é fundamental para a compreensão das tendências literárias e intelectuais do final do século XIX e início do século XX no Brasil, antecipando muitas das preocupações que seriam centrais no modernismo brasileiro.

n. 1839-06-07, Tobias Barreto · m. 1889-06-26, Recife

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A Escravidão

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

1868


Publicado no livro Dias e Noites (1893). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.122. (Obras completas
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Biografia

Identificação e contexto básico

Tobias Barreto de Menezes nasceu em Propriá, Sergipe, Brasil. Foi um influente poeta, jurista, jornalista e pensador, considerado um precursor do modernismo brasileiro e um dos expoentes do simbolismo e do pré-modernismo no país. Sua obra é caracterizada por um forte engajamento social e uma visão crítica da realidade brasileira.

Infância e formação

Teve uma infância marcada pela pobreza, mas demonstrou grande inteligência e sede de conhecimento. Foi autodidata em muitas áreas. Estudou Direito na Faculdade de Direito do Recife, onde se destacou como um aluno brilhante e um pensador original, absorvendo as novas correntes filosóficas e científicas da época, como o positivismo e o evolucionismo.

Percurso literário

Sua carreira literária começou no Recife, onde fundou, com outros intelectuais, o "Cenáculo", um grupo que visava renovar a cultura brasileira. Publicou poemas em jornais e revistas da época, ganhando notoriedade por sua linguagem incisiva e seus temas inovadores. Apesar de ter deixado uma obra poética relativamente reduzida, seu impacto como crítico e pensador foi imenso, influenciando gerações posteriores.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Tobias Barreto é marcada pela intensidade, pelo tom crítico e pela reflexão sobre a sociedade brasileira. Abordou temas como a injustiça social, a miséria, a desigualdade, a pátria e a busca por um Brasil mais justo e moderno. Seu estilo é vigoroso, por vezes pessimista, mas sempre inovador, incorporando elementos do simbolismo e prenunciando as preocupações do pré-modernismo. Sua prosa, em especial seus artigos e ensaios, é igualmente importante pela sua força argumentativa e visão crítica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu em um período de grandes transformações no Brasil, o final do Império e o início da República, com intensos debates sobre a identidade nacional, o abolicionismo e o futuro do país. Barreto foi um intelectual atuante nesse contexto, defendendo posições progressistas e críticas. Sua formação no Recife o colocou em contato com o pensamento científico e filosófico europeu, que ele buscou adaptar à realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Tobias Barreto teve uma vida dedicada ao estudo, à escrita e à militância intelectual. Era conhecido por seu temperamento forte e sua postura intransigente em suas convicções. Sua dedicação à causa da justiça social e à renovação do pensamento brasileiro marcou sua trajetória. Teve uma relação próxima com outros intelectuais da época, com quem debatia intensamente ideias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra poética seja escassa, Tobias Barreto é reconhecido como um intelectual fundamental para a história da literatura e do pensamento brasileiro. Seu nome está associado a uma importante corrente de renovação intelectual e literária que preparou o terreno para o modernismo. Sua crítica social e sua visão de um Brasil em transformação foram amplamente debatidas e influenciaram muitos pensadores e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado pelo positivismo, pelo evolucionismo e por filósofos como Auguste Comte e Herbert Spencer. Por sua vez, Tobias Barreto influenciou significativamente a geração pré-modernista e modernista brasileira, com sua postura crítica, sua linguagem inovadora e sua preocupação com a identidade nacional. Sua obra é vista como um marco na transição de uma literatura mais formalista para uma abordagem mais engajada com a realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tobias Barreto é frequentemente analisada sob a ótica de seu engajamento social e de sua crítica às estruturas de poder e às desigualdades no Brasil. Sua poesia é interpretada como um reflexo de suas convicções filosóficas e de sua visão de um país em busca de modernidade e justiça. A ligação de sua obra com o pensamento científico e filosófico da época também é um ponto central de análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de poeta e jurista, Tobias Barreto foi também um dedicado jornalista, escrevendo artigos que frequentemente causavam polêmica e debates. Sua postura crítica e sua inteligência afiada o tornaram uma figura respeitada, mas também controversa. Sua atuação no "Cenáculo" em Recife foi um marco para a renovação cultural da época.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu precocemente, o que limitou o desenvolvimento de sua obra, mas não diminuiu seu impacto como pensador e influenciador. Sua memória é celebrada como a de um dos grandes intelectuais que ajudaram a moldar o pensamento e a literatura brasileiros no início do século XX.

Poemas

11

A Escravidão

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

1868


Publicado no livro Dias e Noites (1893). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.122. (Obras completas
26 824

O Beija-Flor

Era uma moça franzina,
Bela visão matutina
Daquelas que é raro ver,
Corpo esbelto, colo erguido,
Molhando o branco vestido
No orvalho do amanhecer.

Vede-a lá: tímida, esquiva...
Que boca! é a flor mais viva,
Que agora está no jardim;
Mordendo a polpa dos lábios
Como quem suga o ressábio
Dos beijos de um querubim!

Nem viu que as auras gemeram,
E os ramos estremeceram
Quando um pouco ali se ergueu...
Nos alvos dentes, viçosa,
Parte o talo de uma rosa,
Que docemente colheu.

E a fresca rosa orvalhada,
Que contrasta descorada,
Do seu rosto a nívea tez,
Beijando as mãozinhas suas,
Parece que diz: nós duas!...
E a brisa emenda: nós três! ...

Vai nesse andar descuidoso,
Quando um beija-flor teimoso
Brincar entre os galhos vem,
Sente o aroma da donzela,
Peneira na face dela,
E quer-lhe os lábios também

Treme a virgem de surpresa,
Leva do braço em defesa,
Vai com o braço a flor da mão;
Nas asas d’ave mimosa
Quebra-se a flor melindrosa,
Que rola esparsa no chão.

Não sei o que a virgem fala,
Que abre o peito e mais trescala
Do trescalar de uma flor:
Voa em cima o passarinho...
Vai já tocando o biquinho
Nos beiços de rubra cor.

A moça, que se envergonha
De correr, meio risonha
Procura se desviar;
Neste empenho os seios ambos
Deixa ver; inconhos jambos
De algum celeste pomar! ...

Forte luta, luta incrível
Por um beijo! É impossível
Dizer tudo o que se deu.
Tanta coisa, que se esquece
Na vida! Mas me parece
Que o passarinho venceu! ...

Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.

12 344

Que Mimo!

Tu és morena e sublime
Como a hora do sol posto.
E, no crepúsculo eterno
Que te envolve o lindo rosto,
O céu desfolha canduras
De alvoradas e jasmins,
E passam roçando n'alma
As asas dos querubins...

Teu corpo que tem o cheiro
De cem capelas de rosas,
Que t'enche a roupa de quebros,
De ondulações graciosas,
Teu corpo derrama essências
Como uma campina em flor:
Beijá-lo!... fôra loucura;
Gozá-lo!... morrer de amor...

1874


Publicado no livro Dias e Noites (1893). Poema integrante da série Parte IV - Amorosas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.280. (Obras completas
8 455

O Rei Reina e Não Governa

Não sei porque a língua humana
Os brutos não falam mais,
Quando hoje têm melhor vida.
E há muita besta instruída
Nas ciências sociais...

Ultimamente entenderam
Que tinham também razão
De proclamar seus direitos,
Pondo em uso os bons efeitos
Que trouxe a Revolução...

"Seja o leão, diz o asno,
Um rei constitucional;
Com assembléias mudáveis,
Com ministros responsáveis,
Não nos pode fazer mal.

Fiquem-lhe as garras ocultas,
Não ruja, não erga a voz,
Conforme a tese moderna
Qu'ele reina e não governa,
Quem governa somos nós...

Todas as bestas da terra,
Todas as bestas do mar,
Tenham os seus delegados,
Sendo os ministros tirados
Do seio parlamentar...

(...)

Só vejo, que bem nos quadre
No trono, algum animal,
Que coma e viva deitado:
O porco!... Exemplo acabado
De rei constitucional..."

1870


Publicado no livro Dias e Noites (1881). Poema integrante da série Parte V - Satíricas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.299-300. (Obras completas
5 095

Padre J A de Faro Leitão

Bicho de faro é cachorro,
Filho de porca é leitão:
Quem ligou as duas raças
Nesta igreja da Missão?


Poema integrante da série Apêndice.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. (Obras completas)
3 160

Ao Promotor Leandro Borges

Quando Deus formou o mundo,
Pra castigo de infiéis:
Deu ao Egito gafanhotos,
Ao Brasil deu bacharéis.

1859


Poema integrante da série Apêndice.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. (Obras completas)
4 306

O Gênio da Humanidade

Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d'alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.

Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares,
E os mares dizem: passai!...
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías profeta,
Com Alexandre fui rei.

(...)

Travei-me em lutas imensas,
Por vezes cansado e nu,
Gritei ao céu: e que pensas?
Ao mar: de que choras tu?
Caminho... e tudo o que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamem-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.

(...)


Publicado no livro Dias e Noites (1881). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.79-80. (Obras completas
13 746

Victor Hugo

Mostras na fonte os estragos
Dos raios que a sorte tem;
Na falange dos teus Magos
Tu és um mago também.
Joelhas, quebro da idéia,
Ante a luz que bruxuleia
Dos futuros através!
Por grande, os teus te renegam;
Cem anátemas fumegam
Sufocados a seus pés...

O estilo d'oiro que empunhas,
Foi o Senhor quem t'o deu.
Leva a águia a presa nas unhas,
Ninguém lhe diz: isto é meu!
Estrelas, mundos, idéias,
Bíblias, monstros, epopéias,
Tudo que empolga é teu...
Cabeça que pesa um astro
Na mente de Zoroastro,
Na mão de Ptolomeu!

1864


Publicado no livro Dias e Noites (1893). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.110. (Obras completas
3 761

Por Que Volto?

Por que volto? A razão é muito simples:
Não posso mais sofrer tamanho exílio,
Pois a vida bucólica e campestre
Só me agrada... nos versos de Virgílio.

1887


Publicado no livro Dias e Noites (1925). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.128. (Obras completas
4 241

Dois de Julho

Na frente dos belos dias
Que trajam mais viva luz,
Desfilando entre harmonias
No vasto império da cruz,
Passa um dia sublimado,
Qual guerreiro namorado,
Valente, bravo e gentil,
Que traz a glória estampada,
Na face meio embaçada
Pelo alento do fuzil.

Neste dia, sempre novo,
Entre os aplausos do mar,
Entre os ruídos do povo,
Vai a cidade falar...
Atriz majestosa e bela,
Falando só e só ela
Diante de duas nações,
Representa um alto feito,
Que arranca brados do peito
De emudecidos canhões.

1861


Publicado no livro Dias e Noites (1893).

In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.336. (Obras completas
5 813

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Joaquim de Souza Andrade
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