Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

1942–2014 · viveu 72 anos PT PT

Vasco Graça Moura foi uma figura multifacetada da cultura portuguesa, destacando-se como poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor. A sua obra poética é reconhecida pela erudição, pela rigorosa construção formal e pela exploração de temas complexos, frequentemente interligando a história, a mitologia e a contemporaneidade. Com uma linguagem densa e evocativa, Graça Moura abordou a condição humana, a memória, a identidade e a relação do indivíduo com o tempo e o espaço. A sua vasta cultura e a sua profunda inteligência conferiram à sua escrita uma dimensão única, que o estabeleceu como um dos grandes nomes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI.

n. 1942-01-03, Freguesia de Foz do Douro · m. 2014-04-27, Lisboa

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Poema de combate

indecente rimar, uma criança
a esbugalhar os olhos de pavor.
uma cidade a arder. a governança
do mundo a esquivar-se: a sua dança
rima obscenamente com timor.

indecente rimar. lua assassina.
uma rajada e outra. um estertor.
um uivo, um corpo, um morto em cada esquina.
honra do mundo que se contamina
no arame farpado de timor.

indecente rimar sândalo e vândalo.
sacode a noite apenas o tambor
das sombras acossadas. tens o escândalo
que te invadiu a alma, mas comanda-lo?
onde te leva o grito por timor?

indecente rimar pois também rimam
temor, tremor, terror e invasor
por mais hipocrisias que se exprimam
enquanto de hora a hora se dizimam
os restos do que resta de timor.

indecente rimar: mas nas florestas
nunca rimaram tanta raiva e dor
a às vezes são precisas rimas destas,
bumerangue de sangue com arestas
da própria carne viva de timor.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Vasco Graça Moura, nome completo Vasco de Mello Graça Moura, nasceu em Tomar, Portugal. Foi poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor. É uma figura proeminente da literatura portuguesa contemporânea, escrevendo em língua portuguesa.

Infância e formação

Nascido numa família com tradição e cultura, a infância e formação de Vasco Graça Moura foram marcadas por um ambiente propício ao desenvolvimento intelectual. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito, mas a sua paixão pelas letras e pela cultura em geral moldou o seu percurso. Absorveu influências diversas, desde a literatura clássica à filosofia e às artes, revelando desde cedo uma vasta cultura e uma curiosidade insaciável.

Percurso literário

O percurso literário de Vasco Graça Moura iniciou-se de forma precoce, demonstrando um talento precoce para a escrita. A sua obra evoluiu significativamente ao longo das décadas, explorando diferentes géneros e abordagens. Foi um colaborador assíduo em importantes revistas literárias e jornais, como a "Diário de Lisboa" e a "O Comércio do Porto", onde publicou crítica literária e ensaios. Desempenhou também um papel crucial como tradutor de obras de grande relevância, aproximando a literatura estrangeira do público lusófono.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais importantes, destacam-se "Os Poemas Alheios" (1961), "A Sombra Legível" (1970) e "Matéria" (2002). Os temas centrais da sua poesia incluem a memória, a história, a mitologia, a identidade, a finitude humana e a relação com o tempo. O seu estilo é caracterizado por uma grande erudição, pela densidade conceptual e por uma rigorosa construção formal, com preferência pelo verso medido e pela estrutura clássica, embora não se prendesse a fórmulas rígidas. Utilizou uma linguagem rica e evocativa, repleta de alusões culturais e históricas, conferindo à sua poesia uma dimensão universal. A voz poética é frequentemente reflexiva, intelectualizada e, por vezes, irónica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Vasco Graça Moura viveu um período de intensas transformações em Portugal, desde a ditadura salazarista à democracia. A sua obra dialoga com os acontecimentos históricos, as questões políticas e as correntes culturais da sua época. Pertenceu a uma geração de intelectuais que marcaram a vida cultural portuguesa, mantendo relações com outros escritores e críticos, com quem partilhava debates e visões sobre a arte e a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade literária, Vasco Graça Moura teve uma carreira pública como político e diplomata, tendo sido Secretário de Estado da Cultura. As suas relações afetivas e familiares, embora não explicitadas em detalhe na sua obra, certamente contribuíram para a sua visão do mundo e para a profundidade das suas reflexões. A sua vasta erudição e a sua inteligência notável foram traços marcantes da sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Vasco Graça Moura foi amplamente reconhecido em Portugal e no estrangeiro. Recebeu inúmeros prémios e distinções, incluindo o Prémio Pessoa em 2005. A sua obra é estudada em universidades e a sua importância na literatura portuguesa contemporânea é inquestionável, sendo considerado um dos poetas mais relevantes da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Vasco Graça Moura são vastas, abrangendo desde os poetas clássicos gregos e latinos até aos grandes mestres da poesia universal e portuguesa. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de escritores e poetas, pela sua exigência formal, pela sua profundidade intelectual e pela forma como soube integrar a tradição com a modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Vasco Graça Moura tem sido objeto de intensa análise crítica, que destaca a sua complexidade temática e formal. As interpretações centram-se na intersecção entre a cultura, a história e a experiência individual, na forma como o poeta lida com a finitude e a memória, e na sua capacidade de evocar o passado para compreender o presente.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta, Vasco Graça Moura era conhecido pela sua agudeza de espírito e pelo seu sentido de humor. A sua vasta cultura não se limitava à literatura, abrangendo outras áreas das artes e das ciências, o que se refletia nas suas conversas e escritos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Vasco Graça Moura faleceu no Porto. A sua morte representou uma perda significativa para a cultura portuguesa. A sua memória é celebrada através da sua obra, que continua a ser editada, estudada e a inspirar novos leitores e criadores.

Poemas

23

Auto-retrato com a musa

1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda, 
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando 
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza 
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho, 
tingindo as suas águas 
de um dúbio maneirismo 
a que hoje cedo. e fico 
feito de tinta e feio.

2
quem amo o que é que pode 
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado, 
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo, 
mas pode pôr-se ao lado 
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos 
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago 
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado 
na própria coisa amada 
por muito imaginar. 
assim nem john ashberry, 
nem o parmegianino,

nem espelho convexo, 
nem mesmo auto-retrato. 
só uma sombra que é 
na sombra de quem amo 
provavelmente a minha.


3
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.
2 616

Soneto do amor e da morte

Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão. 

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar,
sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão. 
4 812

Para uma canção de embalar

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro. 
a casa está às escuras, vou passando com cuidado 
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina 
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar, 
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas 
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto. 

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha, 
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis. 
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada 
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio, 
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão 
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir. 

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras, 
e possam ir na vida serenamente como os rios correm, 
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram 
em cadências regulares neste silêncio táctil. 
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa 
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas. 

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias 
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa, 
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem, 
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento, 
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada, 
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo. 

lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada, 
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima 
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme, 
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção 
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos», 
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo 

e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe 
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama 
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá, 
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida, 
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo 
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez. 
2 616

Livros

76
Modo mudando

Modo mudando

1963

Semana inglesa

Semana inglesa

1965

📚

Quatro sextinas

1973

O mês de Dezembro e outros poemas

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1976

Recitativos

Recitativos

1977

📚

David Mourão-Ferreira ou a mestria do Eros

1978

📚

Herculano poeta

1978

📚

Sequências regulares

1978

Instrumentos para a melancolia

Instrumentos para a melancolia

1980

📚

José Rodrigues e as armadilhas miméticas

1980

Luís de Camões. Alguns desafios

Luís de Camões. Alguns desafios

1980

📚

Nemésio. O lance do verbo

1980

📚

A variação dos semestres deste ano, 365 versos, seguido de A Escola de Frankfurt

1981

Nó cego, o regresso

Nó cego, o regresso

1982

📚

Caderno de olhares

1983

Os rostos comunicantes

Os rostos comunicantes

1984

A sombra das figuras

A sombra das figuras

1985

Camões e a divina proporção

Camões e a divina proporção

1985

A furiosa paixão pelo tangível

A furiosa paixão pelo tangível

1987

Os penhascos e a serpente e outros ensaios camonianos

Os penhascos e a serpente e outros ensaios camonianos

1987

Quatro últimas canções

Quatro últimas canções

1987

📚

Ronda dos meninos expostos. Auto breve de Natal

1987

Várias vozes

Várias vozes

1987

Naufrágio de Sepúlveda

Naufrágio de Sepúlveda

1988

Fernão Gomes e o retrato de Camões

Fernão Gomes e o retrato de Camões

1989

Cristóvão Colombo e a floresta das asneiras

Cristóvão Colombo e a floresta das asneiras

1991

O concerto campestre

O concerto campestre

1993

Partida de sofonisba às seis e doze da manhã

Partida de sofonisba às seis e doze da manhã

1993

📚

Auto de Mofino Mendes. Farsa de Natal...

1994

Camões: 1525-1580

Camões: 1525-1580

1994

O tratado de tordesilhas = The treaty of Tordesilhas

O tratado de tordesilhas = The treaty of Tordesilhas

1994

📚

Retratos de Isabel e outras tentativas

1994

Sonetos familiares

Sonetos familiares

1994

📚

Circunstâncias vividas

1995

Poemas escolhidos. 1963-1995

Poemas escolhidos. 1963-1995

1996

Letras do fado vulgar

Letras do fado vulgar

1997

Papéis de jornal. Crónicas e outros materiais

Papéis de jornal. Crónicas e outros materiais

1997

Poemas com pessoas

Poemas com pessoas

1997

Uma carta no Inverno

Uma carta no Inverno

1997

A morte de ninguém

A morte de ninguém

1998

Graça Morais

Graça Morais

1998

O retrato de Francisca Matroco e outros poemas

O retrato de Francisca Matroco e outros poemas

1998

Contra Bernardo Soares e outras observações

Contra Bernardo Soares e outras observações

1999

📚

Garrett numa cópia perdida de Frei Luís de Sousa

1999

Sombras com aquiles e pentesileia

Sombras com aquiles e pentesileia

1999

Adamastor, nomen gigantis. Sobre uma escultura popular de José de Guimarães

Adamastor, nomen gigantis. Sobre uma escultura popular de José de Guimarães

2000

📚

Em demanda de Moura: Giraldomachias

2000

Poesia 1997/2000

Poesia 1997/2000

2000

Sobre Camões, Gândavo e outras personagens: hipóteses de história da cultura

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2000

As botas do sargento

As botas do sargento

2001

Meu amor era de noite

Meu amor era de noite

2001

Páginas do Porto

Páginas do Porto

2001

Testamento de VGM

Testamento de VGM

2001

📚

Antologia de convívios

2002

📚

Arredores de família. Antologia dos afectos

2002

Artes poéticas. Pequena antologia reflexiva

Artes poéticas. Pequena antologia reflexiva

2002

📚

Figuras em Mateus

2002

📚

Imitação das artes. Antologia ecfrástica

2002

Inchiostro nero che danza sulla carta: antologia di poesia portoghese contemporanea

Inchiostro nero che danza sulla carta: antologia di poesia portoghese contemporanea

2002

📚

Musa de música. Antologias de ontologias

2002

O enigma de Zulmira

O enigma de Zulmira

2002

📚

Outros lugares. Antologia de alguns percursos

2002

As Rimas de Petrarca

As Rimas de Petrarca

2003

Por detrás da magnólia

Por detrás da magnólia

2004

Variações metálicas

Variações metálicas

2004

Laocoonte, rimas várias, andamentos graves

Laocoonte, rimas várias, andamentos graves

2005

Alfredo ou a quimera

Alfredo ou a quimera

2008

Morte no retrovisor

Morte no retrovisor

2008

O pequeno-almoço do sargento Beauchamp

O pequeno-almoço do sargento Beauchamp

2008

O caderno da casa das nuvens

O caderno da casa das nuvens

2009

O mestre de música

O mestre de música

2010

Os desmandos de Violante

Os desmandos de Violante

2011

Os Lusíadas para gente nova

Os Lusíadas para gente nova

2012

Poesia reunida

Poesia reunida

2012

A identidade cultural da Europa

A identidade cultural da Europa

2013

Retratos de Camões

Retratos de Camões

2014

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Comentários (3)

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Nuno
Nuno

Ao tempo que já n te vejo desde Timor um dia destes anda lá a casa mpt

Mafalda
Mafalda

Adorei a companhia deste senhor, noites mágicas, muito atencioso, um verdadeiro cavalheiro, bem dotado