Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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O Gênio

este homem de vez em quando se esquece
quem é.
às vezes ele acha que é o
Papa.
outras vezes é um
coelho caçado
e se esconde debaixo da
cama.
então
de uma só vez
ele recuperará totalmente
a lucidez
e passará a compor
obras de
arte.
então ficará bem
por algum
tempo.
depois, digamos,
estará sentado com sua
esposa
e mais 3 ou 4
pessoas
discutindo vários
assuntos
ele será encantador,
incisivo,
original.
então fará
algo
estranho.
como certa vez
em que se pôs de pé
abriu a braguilha
e começou
a mijar
no
tapete.
outra vez
comeu um guardanapo de
papel.
e houve
a ocasião em que
entrou no
carro
e dirigiu de

todo o caminho
até o
mercado
e voltou
mais uma vez
de ré
os outros motoristas
gritando com
ele
mas
conseguiu
ir e
voltar
sem qualquer
incidente
e sem
ser
parado
por uma patrulha da
polícia.
mas fica bem mesmo
como
Papa
e seu
latim
é muito
bom.
suas obras de
arte
não são lá
excepcionais
mas elas permitem que
ele
sobreviva
e que viva com
uma série de
esposas de
19 anos
que lhe
cortam os cabelos
as unhas
dão de beber
servem-no e
o
alimentam.
ele consome todo mundo
exceto
a si
mesmo.

Eram dez e meia da manhã quando o telefone tocou. Jon Pinchot.
– O filme foi cancelado...
– Jon, eu não acredito mais nessas histórias. É só o jeito de eles fazerem pressão.
– Não, é verdade, o filme foi cancelado.
– Como podem? Já investiram demais, ficariam com um enorme prejuízo no projeto...
– Hank, a Firepower simplesmente não tem mais grana. Não foi só nosso filme que foi cancelado; todos os filmes foram cancelados. Fui ao prédio deles hoje de manhã. Só tem os guardas de segurança. Não tem NINGUÉM no prédio! Eu percorri ele todo, gritando: “Olá! Olá! Tem alguém aí?” Sem resposta. Todo o prédio está vazio.
– Mas, Jon, e a cláusula do “Faça ou pague” de Jack Bledsoe?
– Não podem fazer nem pagar. Todo o pessoal da Firepower, incluindo nós, está sem salário. Alguns deles já vêm trabalhando há duas semanas sem receber. Agora não tem dinheiro pra ninguém.
– Que é que você vai fazer?
– Eu não sei, Hank, isso parece o fim...
– Não tome nenhuma medida precipitada, Jon. Será que outra empresa não assume o filme?
– Não farão isso. Ninguém gosta do argumento.
– Oh, sim, está certo...
– Que é que você vai fazer?
– Eu? Eu vou às corridas. Mas se quiser aparecer para uns tragos esta noite, eu teria prazer em ver você.
– Obrigado, Hank, mas tenho um encontro com um casal de lésbicas.
– Boa sorte.
– Boa sorte pra você também.
Eu dirigia pela autoestrada do Porto, em direção a Hollywood Park, ao norte. Jogava nos cavalinhos há mais de trinta anos. Começara após minha quase fatal hemorragia no Hospital Municipal de Los Angeles. Me disseram que se tomasse outro trago estava morto.
– Que é que vou fazer? – eu tinha perguntado a Jane.
– Sobre o quê?
– Que vou usar em lugar da bebida?
– Bem, tem os cavalos.
– Cavalos? Que é que a gente faz?
– Aposta neles.
– Aposta neles? Parece idiota.
Nós fomos e ganhei uma bela soma. Comecei a ir diariamente. Depois, aos poucos, recomecei a beber um pouco. Depois mais. E não morri. E aí eu tinha a bebida e os cavalos. Um viciado completo. Naquele tempo não havia corridas aos domingos, por isso eu ia com o velho carro até Água Caliente e voltava no domingo, às vezes ficando para as corridas de cachorros depois que as dos cavalos acabavam, e depois atacando os bares de Caliente. Nunca fui assaltado ou agredido, e era até tratado com bondade pelos garçons e fregueses mexicanos, mesmo sendo às vezes o único gringo. A volta de carro, tarde da noite, era legal, e quando chegava em casa eu não ligava se Jane estava lá ou não. Dissera a ela que o México era perigoso demais para mulheres. Geralmente ela não estava em casa quando eu chegava. Estava num lugar muito mais perigoso: a Rua Alvarado. Mas contanto que houvesse três ou quatro cervejas à minha espera, tudo bem. Se ela tivesse bebido aquelas e deixado a geladeira vazia, então, sim, estaria em verdadeiro apuro.
Quanto aos cavalos, eu me tornei um verdadeiro estudioso do jogo. Tinha umas duas dúzias de sistemas. Só funcionavam se não se aplicassem todos ao mesmo tempo, porque se baseavam em fatores variáveis. Meus sistemas tinham só um fator comum: o público deve sempre perder. Precisava determinar qual era o jogo do público, e tentar o oposto.
Um de meus sistemas baseava-se em números de índices e pós-posições. Há certos números que o público reluta em pedir. Quando esses números atingem uma certa quantidade de jogo no placar em relação à sua posição, a gente tem um vencedor de alta porcentagem. Estudando durante muitos anos os mapas de corridas no Canadá, nos Estados Unidos e no México, bolei um jogo vencedor baseado apenas nesses indicadores. (O número do índice diz a pista e a corrida em que o cavalo apareceu pela última vez.) O Racing Form publicava grandes e gordos livros vermelhos de resultados, por 10 dólares. Eu os lia e relia durante horas, durante semanas. Todos os resultados têm um padrão. Se a gente o descobre, está com tudo. E pode mandar o patrão tomar no cu. Eu mandara vários, apenas para ter de encontrar outros. Sobretudo porque alterava ou trapaceava com meus próprios sistemas. A fraqueza da natureza humana é mais uma coisa que a gente precisa derrotar nas corridas.
Entrei em Hollywood Park e fui para a área reservada. Um treinador de cavalos que eu conhecia me dera um adesivo de “Proprietário/Treinador” para o estacionamento, e também um passe para o clube. Era um homem bom, que tinha como melhor característica não ser escritor nem ator.
Entrei no clube, peguei uma mesa e trabalhei nos meus números. Sempre fazia isso primeiro, depois pagava um pau para ir ao Pavilhão Cary Grant. Não tinha muita gente por lá, e a gente podia pensar melhor. Sobre Cary Grant, há uma foto gigantesca dele pendurada no Pavilhão, rindo. Usa uns óculos fora de moda e aquele seu sorriso. Frio. Mas que jogador nos cavalinhos. Era um apostador de dois dólares. E quando perdia corria para a pista gritando, acenando os braços e berrando: “VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO!”. Se a gente vai apostar apenas dois dólares, é melhor ficar em casa, pegar o dinheiro e passá-lo de um bolso para outro.
Por outro lado, minha maior aposta foi uma vitória de 20 dólares. Ambição em excesso pode criar erros, porque as apostas muito pesadas afetam os processos de pensamento. Mais duas coisas. Nunca aposte no cavalo com a maior cotação resultante de sua última corrida, e nunca aposte num grande fechador.
Meu passeio até ali foi muito agradável, mas como sempre eu me ressentia da espera de 30 minutos entre as corridas. Era demorada demais. A gente sente a vida sendo reduzida à polpa pela inútil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quê. É realmente nauseante. Às vezes a gente pensa que está num asilo de loucos. E de certa forma está. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lá estão todos juntos num mesmo lugar. E lá estava eu, sentado no meio deles.
Eu gostava era da ação real, aquele momento em que todos os nossos cálculos saem corretos do alto-falante e a vida tem algum sentido, algum ritmo e significado. Mas a espera entre as corridas era um verdadeiro horror: ali sentado com uma humanidade murmurante, tateante, que jamais iria aprender ou melhorar, só piorar com o tempo. Sempre ameacei minha boa esposa Sarah de ficar em casa durante os dias e escrever dezenas e dezenas de poemas imortais.
Assim, consegui atravessar a tarde ali e voltei para casa, ganhador de pouco mais de 100 dólares. Voltei de carro com a multidão trabalhadora. Que bando formavam. Putos da vida, maus e quebrados. Com pressa de chegar em casa pra trepar, se possível, pra ver TV, pra ir dormir cedo a fim de fazer novamente a mesma coisa no dia seguinte.
Entrei na estradinha de acesso à casa, e Sarah lá estava, regando o jardim. Era uma grande jardineira. E aguentava minhas insanidades. Dava-me comida saudável, me cortava os cabelos e as unhas dos pés, e geralmente me mantinha em marcha de várias formas.
Estacionei o carro e fui ao jardim, dei-lhe um beijo de saudação.
– Ganhou? – ela perguntou.
– É. Claro. Um pouco.
– Ninguém ligou – ela disse.
– Isso é mau, isso tudo... – eu disse. – Você sabe, depois de Jon ameaçar cortar o dedo e tudo mais. Sinto muito mesmo por ele.
– Talvez devesse ter convidado ele esta noite.
– Eu convidei, mas ele tinha compromisso.
– S&M?
– Não sei. Um casal de lésbicas. Uma espécie de desafogo pra ele.
– Viu as rosas?
– Vi, estão sensacionais. Aquelas vermelhas, brancas e amarelas. Amarelo é minha cor preferida. Me dá vontade de comer.
Sarah encaminhou-se com a mangueira até a pia, fechou a água, e entramos em casa juntos. A vida não era muito ruim, às vezes.
– Hollywood
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A Agonia dos Magricelos Orgulhosos

vejo velhos vivendo de pensões nos
supermercados eles são magricelos e
orgulhosos e estão morrendo
passam fome ali de pé e nada
dizem. muito tempo atrás, entre outras mentiras,
lhes ensinaram que o silêncio era uma forma de
bravura. agora, tendo trabalhado uma vida inteira,
foram emboscados pela inflação. olham ao redor
roubam uma uva
mastigam-na. por fim fazem uma
comprinha, para o dia.
outra mentira que lhes ensinaram:
não roubarás.
é melhor morrer de fome que roubar
(uma uva não os salvará)
e em quartos minúsculos
enquanto leem os anúncios no jornal
morrerão de fome
morrerão silenciosos
expulsos das pensões
por jovens loiros e cabeludos
que os farão deslizar para dentro
e se afastarão do meio-fio, esses
jovens
pensando em Vegas e buceta e
vitória.
é a ordem das coisas: cada um
prova o gostinho do mel
e depois a faca.

Vin Marbad vinha altamente recomendado por Michael Huntington, meu fotógrafo oficial. Michael me fotografava constantemente, mas até então não houvera muitos pedidos desses trabalhos.
Marbad era consultor de impostos. Chegou uma noite com sua maleta, um homenzinho moreno. Eu já bebia tranquilamente há algumas horas, sentado com Sarah vendo um filme em minha velha TV preto e branco.
Ele bateu com rápida dignidade e eu o deixei entrar, apresentei-o a Sarah e servi-lhe vinho.
– Obrigado – ele disse, tomando um gole. – Você sabe que, aqui na América, se você não gasta dinheiro, eles tomam.
– Ééé? Que quer que eu faça?
– Dê uma entrada numa casa.
– Hum?
– Os pagamentos das hipotecas são dedutíveis do imposto de renda.
– Ééé, que mais?
– Compre um carro. É dedutível.
– Todo?
– Não, só um pouco. Deixa que eu cuido disso. O que a gente precisa é criar pra você algumas proteções contra os impostos. Veja aqui...
Vin Marbad abriu sua maleta e retirou muitas folhas de papel. Levantou-se e aproximou-se de mim com elas.
– Bens imóveis. Aqui, olhe, eu comprei um pouco de terra no Oregon. Isto é um cancelamento de imposto. Ainda tem alguns hectares à venda. Você pode entrar agora. Esperamos uma valorização de 25% cada ano. Em outras palavras, dentro de quatro anos seu dinheiro dobra...
– Não, não, por favor volte a sentar.
– Que é que há?
– Não quero comprar nada que eu não possa ver, não quero comprar nada que não possa alcançar e tocar.
– Está dizendo que não confia em mim?
– Eu acabo de conhecer você.
– Eu tenho recomendações em todo o mundo!
– Eu sempre confio em meu instinto.
Vin Marbad girou de volta ao sofá onde deixara seu casaco; enfiou-o e lançou-se para a porta com sua maleta, abriu-a, saiu e fechou-a.
– Você ofendeu ele – disse Sarah. – Ele só queria te mostrar algumas maneiras de economizar dinheiro.
– Eu tenho duas regras. Uma delas é: jamais confie num cara que fuma cachimbo. A outra: jamais confie num cara de sapato lustroso.
– Ele não fumava cachimbo.
– Bem, parece um fumador de cachimbo.
– Você ofendeu ele.
– Não se preocupe, ele vai voltar...
A porta escancarou-se, e lá estava Vin Marbad. Cruzou a sala apressado até seu lugar original no sofá, tornou a tirar o casaco, pôs a maleta a seus pés. Olhou-me.
– Michael me disse que você joga nos cavalinhos.
– Bem, ééé...
– Meu primeiro emprego, quando cheguei aqui, da Índia, foi no Hollywood Park. Era faxineiro lá. Sabe as vassouras que eles usam para varrer os bilhetes usados?
– Sei.
– Já notou como são largas?
– Já.
– Bem, isso foi ideia minha. As vassouras eram do tamanho normal. Eu desenhei a nova. Fui ao setor de Operações com ela, e eles aproveitaram. Fui promovido pra Operações e venho subindo desde então.
Servi-lhe outra bebida. Ele tomou um gole.
– Escuta, você bebe quando escreve?
– Sim, um bocado.
– Isso é parte da sua inspiração. Vou fazer com que seja deduzido.
– Pode fazer isso?
– Claro. Sabe, fui eu que comecei a tornar dedutível a gasolina usada no automóvel. Foi ideia minha.
– Filho da puta – eu disse.
– Muito interessante – disse Sarah.
– Dou um jeito de você não pagar imposto nenhum e de modo legal.
– Parece ótimo.
– Michael Huntington não paga impostos. Pergunte pra ele.
– Acredito em você. Abaixo os impostos.
– Tudo bem, mas você tem de fazer o que eu digo. Primeiro, dê entrada numa casa, depois num carro. Dê a largada. Arranje um carro bom. Um novo BMW.
– Tudo bem.
– Em que máquina datilografa? Uma manual?
– É.
– Arranje uma elétrica. É dedutível.
– Eu não sei se consigo escrever numa elétrica.
– Você se acostuma em poucos dias.
– Quer dizer, não sei se consigo criar numa elétrica.
– Quer dizer que tem medo de mudar?
– É, ele tem – disse Sarah. – Veja os escritores do século passado, eles usavam penas de aves. Naquele tempo, ele teria se apegado a essas penas, teria lutado contra qualquer mudança.
– Penso muito em minha maldita alma.
– Você muda suas marcas de bebida, não muda? – perguntou Vin.
– Ééé...
– Tudo bem, então...
Vin ergueu sua taça, esvaziou-a.
Eu servi mais vinho a todos.
– O que a gente precisa é fazer de você uma Corporação, pra conseguir todas as vantagens dos impostos.
– Isso soa terrível.
– Eu disse a você, se não quer pagar imposto tem de fazer como eu digo.
– Eu só quero bater à máquina, não quero andar por aí carregando um fardo enorme.
– Você só tem de nomear um Conselho de Diretores, um Secretário, um Tesoureiro, e por aí além... É fácil.
– Soa horrível. Escuta, tudo isso soa como um monte de merda. Talvez eu me dê melhor simplesmente pagando os impostos. Não quero ninguém me enchendo o saco. Não quero o cara do imposto de renda batendo em minha porta à meia-noite. Pago até mais pra garantir que me deixem em paz.
– Isso é idiotice – disse Vin. – Ninguém deve jamais pagar impostos.
– Por que não dá uma chance a Vin? Ele só está querendo te ajudar – disse Sarah.
– Veja, eu mando pra você pelo correio os documentos da Corporação. É só ler e assinar. Vai ver que não tem nada a temer.
– Essa coisa toda, sabe, atrapalha. Estou trabalhando num argumento e preciso ter as ideias claras.
– Um argumento, hum? Sobre o que é?
– Um bêbado.
– Ah, você, hum?
– Bem, tem outros.
– Consegui fazer ele beber vinho agora – disse Sarah. – Estava quase morto quando conheci ele. Uísque, cerveja, vodca, gim, ale...
– Já sou consultor de Darby Evans há alguns anos. Você sabe, ele é argumentista.
– Eu não vou ao cinema.
– Ele escreveu O Coelho que Saltou no Céu; Waffles com Lulu; Terror no Zoo. Está fácil na casa dos seis dígitos. E é uma Corporação.
Não respondi.
– Não tem pago um vintém de imposto. E é tudo legal...
– Dê uma chance a Vin – disse Sarah.
Ergui minha taça.
– Tudo bem. Merda. A isso!
– Bom garoto – disse Vin.
Esvaziei meu copo e encontrei outra garrafa. Tirei a rolha e servi a todos.
Deixei minha mente ir na coisa; você é um operador esperto. É astuto. Por que pagar bombas que despedaçam crianças indefesas? Dirija um BMW. Tenha uma vista do porto. Vote nos republicanos.
Então me ocorreu outra ideia.
Não estará você se tornando o que sempre odiou?
E veio a resposta:
Merda, você não tem dinheiro de verdade mesmo. Por que não brincar com essa coisa de farra?
Continuamos bebendo, comemorando alguma coisa.
– Hollywood
1 175

O Mockingbird

o mockingbird estivera seguindo o gato
por todo o verão
zombando zombando zombando
provocador e arrogante;
o gato se arrastava debaixo dos ganchos nas varandas
a cauda lampejando
e dizia alguma coisa raivosa ao mockingbird
que eu não conseguia entender.
ontem o gato caminhava calmamente pela entrada da garagem
com o mockingbird vivo em sua boca,
as asas como leques, belas asas abanando e se deixando desfalecer,
as penas separadas como pernas de mulher,
e o pássaro já não zombava,
perguntava, rezava
mas o gato
avançando a passos largos através dos séculos
não lhe daria ouvidos.
vi quando ele rastejou para baixo de um carro amarelo
com o pássaro
para dar-lhe cabo em outro lugar.
o verão estava encerrado.
998

Vidas na Lata do Lixo

o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
é quando você está na miséria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estão por toda
parte.
este é o modo como funciona a
democracia:
você pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possível.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.

As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lá, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentávamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autêntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. Nós ficamos parados, olhando.
– Que tal? – perguntou Jon.
– Sensacional. Mas já vivi em lugares piores.
– Eu sei – disse Sarah. – Eu vi.
Subimos para o quarto.
– Aqui está. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
– Está perfeito, Jon. É o quarto.
Fiquei um pouco triste por não ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente é jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida não importava. O que importava era beber e sentar à máquina. Eu devia ter sido louco, mas há muitos tipos de loucura, e alguns são muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. Não se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e não importava.
– Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme já estavam lá. Bebiam.
– Vamos lá, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bêbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
– Parece bom – disse.
– É um Cape Cod, suco de amora e vodca.
– Eu tomo um Cape Cod – disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
– Vodca 7 – eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma história de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
– É melhor a gente comer – disse Sarah.
Saímos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, técnicos, operários e outros já comiam. A comida tinha boa aparência. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas rações na carroça e o seguimos até a ponta da mesa. Quando passávamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
– Esse é Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
– Esse Edwards age como um filho da puta – eu disse.
– Oh – disse Jon – ele é muito acanhado. É um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
– Talvez tivesse razão.
– Hank – disse Sarah –, você nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
– Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos à minha vida, para o melhor ou para o pior.
– Vamos filmar uma cena com Jack na sala. Você deve vir ver.
– Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguém nos chamar.
– Tudo bem – disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel até o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. Vários reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anúncio na porta: JACK BLEDSOE.
– Veja – disse Jon –, ele tem um periscópio em cima, pra ver quem se aproxima...
– Nossa...
– Escuta, tenho de acertar umas coisas...
– Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francês ia desaparecendo à medida que ele só falava inglês nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
– Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisão estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
– Essa é Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
– Esse é meu irmão, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele não disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ótimo. Eu gostava de caras frios.
– Tem alguma coisa pra beber? – perguntei a Jack.
– Claro...
Pegou um uísque, serviu-me uma dose com água.
– Obrigado...
– Quer um pouco? – ele perguntou a Sarah.
– Obrigada – ela disse. – Não gosto de misturar bebidas.
– Ela está tomando Cape Cods – eu disse.
– Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uísque era bom.
– Gosto deste lugar – eu disse.
– Fique o quanto quiser – disse Jack.
– Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
– Seu irmão não é de falar muito, é?
– Não, não é.
– Um cara frio.
– Ééé.
– Bem, Jack, decorou suas falas?
– Eu nunca olho as minhas falas até o último instante antes da filmagem.
– Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
– Eu sei que você consegue, Jack – disse Sarah. – Estamos satisfeitos por você ter o papel principal.
– Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lá e não pareciam nem um pouco mais bêbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aí eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
– Ei, Jack – gritei –, entre e tome uma.
– Não, Hank, vamos filmar agora. Por que não vem ver?
– Já vou lá, baby...
Pedimos mais duas doses. E já as atacávamos quando Jon entrou.
– Vamos filmar agora – ele disse.
– Tudo bem – disse Sarah.
– Tudo bem – disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
– Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
– É o que Friedman diz.
– Às vezes ele tem razão.
– Tudo bem – disse Jon –, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. Você – disse para mim – fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
– SILÊNCIO! – gritou o assistente de direção de Jon. – PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silêncio.
Então foi a vez de Jon:
– CÂMERA! AÇÃO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi você?
Queria voltar a ser o jovem bêbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um lápis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rádio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o lápis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou não, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mão.
– Peguei bem? – ele perguntou.
– Pegou – eu disse.
No bar lá embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparência.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel há décadas. Outros moravam numa estação ferroviária deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirá-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
– Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos não esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu também não gostava daquilo. Por outro lado, não podia vê-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histórias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmãos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
– Que é que aquele pessoal vai fazer? – perguntou Sarah.
– Eu sei. Eu sei...
Aí chegou a hora de dormir. Desci para dar uma última olhada e voltei. Sarah já adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estávamos um pouco diferentes, jamais voltaríamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabíamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez até um pouco desagradável.
– Hollywood
1 264

Agarre o Escuro

estou sentado aqui
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam

por mim
então.
913

Canção de Amor Invertida

eu poderia desmanchar 90 montanhas aos berros
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
948

Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda

eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
1 052

O Touro

eu não sabia
que os mexicanos
faziam isto:
o touro
havia sido bravo
e agora
eles o arrastavam
morto
ao redor da arena
pela
cauda,
um bravo touro
morto
mas não um touro qualquer,
esse foi um touro
especial
e para mim
uma lição especial
que aprendi...
e embora Brahms
tenha roubado sua Primeira da 9a
de Beethoven,
e embora
o touro
estivesse morto,
sua cabeça e seus cornos e
seus intestinos mortos,
ele foi melhor que
Brahms,
tão bom quanto
Beethoven,
e
enquanto íamos embora
seu som e O
sentido dele
continuavam a subir rastejando por meus braços
e embora as pessoas me empurrassem e
pisassem nos meus pés
o touro fazia arder em mim
um candeeiro de
luz;
arrastado por sua cauda
ele nada tinha a ver com qualquer coisa
tendo agora escapado de tudo aquilo,
baixando pelo longo túnel, rodeado por
cotovelos e pés e olhos, eu rezei por Tijuana
e pelo touro morto
e pelo homem
e por mim,
as águas azuis beijando-se
gozando o prazer do âmago da dor,
e eu cerrei meus punhos
bem fundo em meus
bolsos, agarrei a escuridão
e segui em frente.
1 286

O Minuto

"eu estou sempre lutando pelo próximo
minuto", digo à minha mulher.
então ela começa a me dizer
o quanto estou enganado.
mulheres têm um jeito de não
acreditar no que seus maridos
lhes dizem.
o minuto é uma coisa muito
sagrada.
lutei por cada um deles desde a minha
infância.
eu continuo a lutar por cada um deles.
nunca fiquei chateado ou
sem saber o que fazer em seguida.
mesmo quando não faço nada,
eu estou utilizando meu tempo.
por que pessoas têm que ir a
parques de diversão ou ao cinema
ou ficar sentadas diante dos aparelhos de TV
ou resolver palavras cruzadas
ou ir a piqueniques
ou visitar parentes
ou viajar
ou fazer a maior parte das coisas
que elas fazem
está além da minha compreensão.
elas mutilam minutos,
horas,
dias,
vidas inteiras.
elas não têm ideia do quanto
um minuto
é precioso.
luto para entender a essência
do meu tempo.
isso não significa que
eu não possa relaxar
e tirar uma hora de folga
mas deve ser
minha escolha.
lutar por cada minuto é
lutar pelo que é possível dentro
de você,
de modo que sua vida e sua morte
não sejam iguais
as delas.
não seja como elas
e você irá
sobreviver.
minuto a
minuto.
1 002

Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
869

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Mário Quintana
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