Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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O Pior E o Melhor

nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.

O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
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Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados

o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.

Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
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Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
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Morda-Se de Raiva

vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?
não sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
1 061

O Mais Forte dos Estranhos

você não os verá seguidamente
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
1 098

Sua Mulher, a Pintora

Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.

Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
1 171

Um Dia de Trabalho

Joe Mayer era escritor freelance. Estava de ressaca e o telefone acordou-o às nove horas da manhã. Ele levantou-se e atendeu.
– Alô?
– Oi, Joe. Como vai indo?
– Oh, lindo.
– Lindo, é?
– É.
– Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda não temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta à mão?
– Só um minuto.
Joe tomou o endereço.
– Não gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
– Tudo bem – disse Joe.
– Não quero dizer que não gostei, quero dizer que não gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propósito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava Histórias Quentes, está procurando ele. Achei que talvez você soubesse.
– Não sei onde ele está.
– Acho que talvez esteja no México.
– Pode ser.
– Bem, escuta, passo aí pra ver você em breve.
– Claro.
Joe desligou. Pôs dois ovos numa panela d’água, pôs a água do café para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
– Joe?
– Sim?
– Aqui é Eddie Greer.
– Ah, sim.
– Queremos que você faça um recital beneficente...
– Que é?
– Pro I.R.A.
– Escuta, Eddie, eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá no que for. Realmente não sei o que está acontecendo por lá. Não tenho TV, não leio jornais... nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.
– A Inglaterra está errada, cara.
– Não posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
– Tudo bem então...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pôs pão na torradeira e diluiu o Sanka com água quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
Já ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
– Sr. Mayer?
– Sim?
– Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. Nós publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
– Sim?
– Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com você.
– Hoje é um mau dia, Mike.
– Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
– É, por que não liga depois?
– Sabe, Joe, eu escrevo como você, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra você. Você vai ficar surpreso. Meu material é realmente forte.
– Ah, é?
– Você vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, há muitos anos. Sylvia ainda está viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupão e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi até lá, olhou-o e não atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rádio e sintonizou uma música sinfônica. Não estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pátios da ferrovia, olhando os vagões marrons lá embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipódromo. Comprou um sanduíche de carne em conserva e um café, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dólares, Wife’s Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diária por 48,40. Teve um ganho de 25 dólares em Rosalina e de cinco em Wife’s Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dólares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
Não estava ruim no hipódromo. Só encontrou três conhecidos. Operários de fábrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe não considerou os outros na corrida. Não conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dólares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrás do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrás e a corrida acabou.
Ele pôs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fácil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
– Bem, Mayer, que é que há?
– Que quer dizer?
– Quero dizer: está sobrevivendo com sua literatura?
– No momento.
– Tem alguma novidade?
– Não desde que você esteve aqui na semana passada.
– Como foi seu recital de poesia?
– Foi tudo bem.
– A turma que vai a recital de poesia é bem falsa.
– A maioria das turmas é.
– Tem algum doce? – perguntou Max.
– Doce?
– É, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
– Não tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
– Nossa, você não tem nada pra comer por aqui.
– Vou ter de ir ao supermercado.
– Sabe – disse Max –, se eu tivesse de ler diante de uma multidão, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
– Podia.
– Mas eu não sei escrever. Acho que vou andar por aí com um gravador. Às vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, só falava. Após uma hora e meia, levantou-se.
– Bem, tenho de ir andando.
– Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num ônibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitário. Não precisava das pessoas.
Joe foi à cozinha, pegou uma lata de atum e fez três sanduíches. Pegou a garrafa de uísque que vinha poupando e serviu uma boa dose com água. Ligou o rádio na estação de clássicos. “Danúbio Azul”. Desligou-o. Acabaram os sanduíches. A campainha tocou. Joe foi até a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
– Escuta – ele disse –, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
– Tudo bem.
Hymie sentou-se.
– Precisamos de um novo título. Acho que eu tenho. Perdão aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
– Acho que gosto – disse Joe.
– E podemos dizer: “Este livro é para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitler”. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
– Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo típico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. Após uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trágico, tão trágico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uísque com água e foi para a máquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exército. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser médico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dólares para uma máquina de raios x.
– Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com você? – perguntou Dunning.
– Escuta, podemos adiar isso? – perguntou Joe.
– Que é que há? Está escrevendo?
– Mal comecei.
– Tudo bem, eu espero.
– Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se à máquina de escrever. Não estava mal. Chegou ao meio da página, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
– Vi você em seu último recital.
– Entre – disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
– Vou pegar um abridor – disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
– Foi um bom recital – disse o rapaz de barba.
– Quem foi sua maior influência? – perguntou o sem barba.
– Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. Garanhão Ruão. Por aí.
– Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
– Não.
– Dizem que você está saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
– Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saíam:
– A gente volta.
Joe tornou a sentar-se à máquina de escrever com uma nova bebida. Não conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
– Escuta – disse Joe –, me deixa sair daqui. Me deixa ir aí dar uma foda.
– Quer dizer que pretende passar a noite?
– É.
– De novo?
– É, de novo.
– Tudo bem.
Joe foi até o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava três ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava só de calcinha e levou-o para a cama.
– Deus – ele gemeu.
– Que foi?
– Bem, é tudo inexplicável de certa forma, ou quase inexplicável.
– E só tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princípio não sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lábios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lá embaixo e meter a língua na xoxota. Depois, quando montou, após quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
– Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... – Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bêbado.
– Bem, se ele não está nesse apartamento de frente, verifique aquele de trás. Ele está num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
– Sim?
– Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
– Nada.
– Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
– Não – disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
– Quem era? – ela perguntou.
– Não sei. Não reconheci o rosto.
– Me beija, Joe. Não fique aí deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da Califórnia atravessava as cortinas do sul da Califórnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
– Numa fria
1 177

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 186

Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –

recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
1 032

Um Qualquer

deus eu tinha os olhos azuis mais tristes,
esta mulher se sentou por ali e
disse
você é mesmo Charles
Bukowski?
e eu disse
esqueça isso
não me sinto bem
a tristeza mais triste me domina
tudo o que eu quero é
comer você
e ela riu
e achou que eu estava sendo
espirituoso
e Ó eu apenas acompanhei a amplitude de suas pernas finas e celestiais
vi seu fígado e seu intestino fremente
vi Cristo ali dentro
saltando para um folk-rock
todas as longas linhagens de fome absoluta dentro de mim
se ergueram
e eu me aproximei
e a agarrei no sofá
e eu fiz seu vestido em pedaços ao redor de sua face
e não dei a mínima
estupro ou o fim do mundo
mais uma vez
estar ali
em qualquer lugar
real
sim
sua calcinha estava no
chão
e meu pau entrou
meu pau meu deus meu pau lá dentro
eu era um Charles
qualquer.
1 163

Citações

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Mário Quintana
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