Não Temos Grana, Querida, mas temos a Chuva
chame isso de efeito estufa ou do que quiser
mas já não chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressão.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
não era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
não eram construídas para suportar essa quantidade de
água
e a chuva caía PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e você a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de água desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NÃO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziá-las
vez após
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chão e toalhas de banho,
e a chuva com frequência subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que já tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lá fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terríveis discussões
assim que as ações de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijão,
pão sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduíches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisível
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mãe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
“Eu te mato”, eu gritava
para ele. “Se bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!”
“Tire esse fedelho filho da puta
daqui!”
“não, Henry, você fica com
a sua mãe!”
todas as famílias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e à noite
quando tentávamos dormir
o dilúvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e então, de súbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhã,
e havia paz,
mas não um silêncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e então não havia a cerração poluída
e lá pelas oito da manhã
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh –
ofuscante, enlouquecedor!
e então
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
água
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lá estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o próprio verde poderia
ser
e lá estavam os pássaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
não haviam se alimentado decentemente
há 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem à superfície,
minhocas semiafogadas.
os pássaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rápidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente não estaria
lá, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente não iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rádio
sabíamos que
as escolas já estavam
abertas.
e
logo
lá estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horário.
a sra. Sorenson nos saudou
com “não teremos o nosso
recreio de sempre, o pátio está
muito molhado”.
“Ah, não”, disseram quase todos os
garotos.
“mas vamos fazer
algo especial na hora do
recreio”, ela prosseguiu,
“e será bem
divertido!”
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tão
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
Califórnia.
então a sineta do recreio soou
e todos esperávamos pela
diversão.
então a sra. Sorenson nos
disse:
“agora, o que faremos
é dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, você é
o primeiro!...”
bem, nós todos começamos a contar
nossas histórias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentíamos, não
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
“tudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silêncio
aqui!
estou interessada no que
vocês fizeram
durante o temporal
ainda que vocês
não estejam!”
então tivemos que seguir com nossas
histórias e eram histórias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-íris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrível e por demais
embaraçosa para ser
dita.
então a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
“obrigada”, disse a sra.
Sorenson, “isso foi muito
legal.
e amanhã o pátio
estará seco
e poderemos
usá-lo
outra vez.”
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tão bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.
Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhões de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lá na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom já estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Às vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
– Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
– Norte.
– Você está certo, estamos indo pro norte.
Percorríamos as ruas, parando e seguindo adiante.
– Bem, e agora? Em qual direção?
– Oeste.
– Não, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silêncio.
– Vamos supor que eu expulse você do caminhão agora e o deixe no meio da calçada. O que você faria?
– Não sei.
– Quero dizer, como você sobreviveria?
– Bem, acho que voltaria até a última casa e pegaria o leite e o suco de laranja que você deixou nos degraus.
– E depois disso? O que faria?
– Encontraria um policial e contaria a ele o que você fez comigo.
– Contaria, hein? E o que é que você iria contar?
– Diria a ele que você quis que eu me perdesse afirmando que o “oeste” era o “sul”.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
– Olá, Henry – ela disse a meu pai.
– Olá, Betty.
– Quem é o garoto?
– Este é o pequeno Henry.
– É a sua cara.
– Mas não tem meus miolos, acho.
– Espero que não.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comíamos, meu pai disse:
– Agora vem a parte mais difícil.
– Qual?
– Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas não querem pagar.
– Mas elas têm que pagar.
– É o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
– COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCÊ JÁ SECOU O LEITE, AGORA É HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Às vezes voltava com o dinheiro, em outras não.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
– Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. Você é minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
– Veja, boneca, me dê a metade, me pague alguma coisa, dê algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
– Escute, você precisa me pagar – disse meu pai. – Esta é uma situação desesperadora.
– Entre. Falaremos sobre isso – disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lá dentro por uma eternidade. O sol já ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caía sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhão.
– A mulher deu o dinheiro? – perguntei.
– Esta foi a última parada – disse meu pai. – Estou exausto. Vamos devolver o caminhão e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
– Henry, você ama sua mãe?
Eu na verdade não a amava, mas ela parecia tão triste que respondi:
– Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
– Seu pai está dizendo que ama essa mulher – ela me disse.
– Amo vocês duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mãe muito infeliz.
– Vou matar você – eu disse a meu pai.
– Tire esse garoto daqui!
– Como você pode amar essa mulher? – perguntei. – Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
– Cristo! – exclamou a mulher. – Não sou obrigada a ouvir isso! – Olhou para o meu pai: – Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
– Mas não consigo! Amo vocês duas!
– Vou matar você! – eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrás dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito rápida. Meu pai saiu correndo rua afora atrás dela e do carro.
– EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pôs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trás com a bolsa.
– Eu sabia que algo estava acontecendo – me disse minha mãe. – Então, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe até aqui na companhia daquela mulher horrível. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
– Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no pátio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
– Misto-quente
A Vida de Um Vagabundo
Harry acordou em sua cama, de ressaca. Uma ressaca violenta.
– Merda – ele disse em voz baixa.
Havia uma pequena pia no quarto.
Harry se levantou, aliviou-se na pia, abriu a torneira e deixou a água lavá-la, depois enfiou a cabeça ali e bebeu um pouco de água. Depois lavou o rosto e se secou com uma parte da camiseta que estava vestindo.
O ano era 1943.
Harry juntou algumas roupas do chão e começou a se vestir, devagar. A veneziana estava fechada e tudo estava escuro, a não ser pelos raios de sol que entravam pelos furos da cortina. Havia duas janelas. O apê era de primeira.
Ele percorreu o corredor até o banheiro, trancou a porta e se sentou. Era incrível que ele ainda conseguisse evacuar. Não comia há dias.
Jesus, ele pensou, as pessoas têm intestinos, bocas, pulmões, orelhas, umbigos, orgãos sexuais, e... cabelo, poros, línguas, às vezes dentes, e todas as outras partes... unhas, cílios, dedos, joelhos, estômagos...
Havia algo de tão aborrecido nisso tudo. Como é que ninguém reclamava?
Harry terminou com o áspero papel higiênico da pensão. Pode apostar que as senhorias se limpavam com coisa melhor. Todas aquelas senhoras religiosas, viúvas há séculos.
Ele vestiu as calças, puxou a descarga e saiu de lá, desceu as escadas da pensão e alcançou a rua.
Eram onze da manhã. Caminhou para o sul. A ressaca era brutal, mas ele não ligava. Isso lhe informava que estivera em outro lugar, um lugar bom. Durante a caminhada ele encontrou meio cigarro no bolso da camisa. Ele parou, olhou para a ponta amassada e manchada, achou um fósforo e tentou acender. A chama não pegou. Seguiu tentando. Depois do quarto fósforo, que queimou seus dedos, ele conseguiu dar uma tragada. Ele se engasgou, depois tossiu. Sentiu seu estômago revirar.
Um carro veio velozmente em sua direção. Dentro do carro estavam quatro rapazes.
– EI, SEU VELHO DE MERDA! VÊ SE MORRE!
Os outros riram. Depois eles se foram.
O cigarro de Harry ainda estava aceso. Ele deu outra tragada. Uma espiral de fumaça azul subiu. Ele gostava daquela espiral de fumaça azul.
Caminhou sob o sol cálido pensando, estou caminhando e estou fumando um cigarro.
Harry caminhou até chegar ao parque em frente à biblioteca. Continuava tragando o cigarro. Sentiu o calor da ponta queimando e jogou, com relutância, o cigarro fora. Adentrou o parque e andou até encontrar um lugar entre uma estátua e alguns arbustos. A estátua era de Beethoven. E Beethoven estava caminhando, a cabeça baixa, as mãos para trás, certamente pensando em alguma coisa.
Harry se deitou e se estendeu no gramado. A grama aparada lhe dava coceira. Estava pontiaguda, afiada, mas tinha um cheiro delicioso e limpo. O cheiro da paz.
Pequenos insetos começaram a andar sobre seu rosto, formando círculos irregulares, cruzando o caminho uns dos outros, mas nunca se encontrando.
Eram apenas pontos, mas os pontos estavam procurando alguma coisa.
Harry olhou para o céu. O céu estava azul, e isso era horrível. Harry continuou olhando para o céu, tentando sentir alguma coisa. Mas não sentia nada. Nenhuma sensação de eternidade. Nem de Deus. Nem mesmo do Diabo. Mas era preciso encontrar Deus primeiro se quisesse encontrar o Diabo. Eles vinham nessa ordem.
Harry não gostava de pensamentos graves. Pensamentos graves podiam levar a erros graves.
Pensou um pouco sobre o suicídio... sem fazer disso um grande drama. Do mesmo modo como a maioria dos homens pensaria sobre comprar um par de sapatos novos. O maior problema do suicídio era a hipótese de que ele pudesse levar a algo pior. O que ele realmente precisava era de uma garrafa de cerveja bem gelada, o rótulo úmido, e com aquelas gotas geladas tão lindas na superfície do vidro.
Harry cochilou... e foi acordado pelo som de vozes. As vozes eram de meninas muito jovens, colegiais. Elas estavam rindo, gracejando.
– Ooooh, olhem!
– Ele está dormindo!
– Vamos acordar ele?
Harry piscou à luz do sol, espiando as meninas através das pálpebras semicerradas. Não sabia ao certo quantas eram, mas pôde ver seus vestidos coloridos: amarelos e vermelhos e azuis e verdes.
– Olhem! Ele é lindo!
Elas riram, gargalharam e saíram correndo.
Harry voltou a fechar os olhos.
O que tinha sido aquilo?
Nunca antes lhe acontecera algo tão agradável e delicioso. Elas o tinham chamado de “lindo”. Quanta gentileza!
Mas elas não voltariam.
Ele se levantou e caminhou até o final do parque. Lá estava a avenida. Achou um banco de praça e se sentou. Havia outro mendigo no banco ao lado. Ele era bem mais velho que Harry. O mendigo tinha um ar pesado, sombrio, amargo, que fazia Harry se lembrar de seu pai.
Não, pensou Harry. Estou sendo muito duro.
O mendigo olhou na direção de Harry. O mendigo tinha olhos pequenos e inexpressivos.
Harry lançou-lhe um sorriso tímido. O mendigo virou o rosto.
Então um barulho veio da avenida. Motores. Era um comboio militar. Uma longa faixa de caminhões cheios de soldados. Os soldados estavam apertados como sardinhas, transbordavam, se penduravam do lado de fora dos caminhões. O mundo estava em guerra.
O comboio se movia lentamente. Os soldados avistaram Harry sentado no banco de praça. Então começou o barulho. Era uma mistura de assobios, vaias e xingamentos. Eles gritavam com Harry.
– EI, SEU Filho da puta!
– PREGUIÇOSO!
À medida que cada caminhão do comboio passava, o próximo continuava:
– TIRE A SUA BUNDA DESSE BANCO!
– VEADO DE MERDA!
– COVARDE!
– CAGALHÃO!
Era um comboio muito longo e muito lento.
– VENHA SE JUNTAR A NÓS!
– VAMOS TE ENSINAR A LUTAR, SEU PUTÃO!
Os rostos eram brancos e pardos e negros, flores de ódio.
Então o velho mendigo se levantou do seu banco de praça e gritou para o comboio:
– EU PEGO ELE PARA VOCÊS, RAPAZES! LUTEI NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL!
Os que estavam nos caminhões que passavam riram e abanaram os braços:
– PEGUE ELE, VOVÔ!
– FAÇA ELE VER A LUZ!
Então o comboio se foi.
Eles haviam jogado coisas em Harry: latas de cerveja vazias, latas de refrigerante, laranjas, uma banana.
Harry se levantou, juntou a banana, sentou-se de novo, descascou a banana e a comeu. Estava divina. Depois ele encontrou uma laranja, descascou-a e a mastigou, engoliu a polpa e o suco. Encontrou outra laranja e a comeu também. Então achou um isqueiro que alguém havia jogado ou deixado cair. Girou a pederneira. Funcionava.
Andou até o mendigo que estava sentado no banco, empunhando o isqueiro.
– Ei, camarada, tem um cigarro?
Os pequenos olhos do mendigo se fixaram em Harry. Pareciam vazios, como se as pupilas tivessem sido removidas. O lábio inferior do mendigo tremeu.
– Você gosta do Hitler, não é? – ele disse em voz baixa.
– Olha, amigo – disse Harry –, por que você e eu não damos uma volta juntos? Podemos descolar uns pilas pra tomar umas biritas.
O velho mendigo revirou os olhos. Por um instante Harry pode ver apenas o branco de seus olhos injetados. Os olhos voltaram para o lugar. O mendigo olhou para ele.
– Com você... Não!
– Ok – disse Harry –, até a vista...
O velho mendigo voltou a revirar os olhos e disse de novo, só que mais alto desta vez:
– COM VOCÊ... NÃO!
Harry saiu do parque caminhando devagar e subiu a rua em direção ao seu bar favorito. O bar estava sempre lá. Harry atracava no bar. Era seu único paraíso. Impiedoso e justo.
No caminho, Harry passou por um estacionamento vazio. Um bando de homens de meia-idade jogava softball. Eles estavam fora de forma. Eram, em sua maioria, barrigudos, baixinhos e bundudos, quase como mulheres. Eram todos amadores ou estavam velhos demais para os arremessos.
Harry parou para assistir ao jogo. Era um festival de eliminações, lançamentos ruins, rebatedores golpeados, erros, bolas mal batidas, mas eles seguiam jogando. Quase como um ritual, uma obrigação. E eles estavam com raiva. Era a única coisa em que eram bons. A energia de sua raiva dominada.
Harry ficou assistindo. Tudo parecia perda de tempo. Até mesmo a bola parecia triste, saltitando inutilmente de um lado para o outro.
– Olá, Harry, como é que você não está no bar?
Era o McDuff, um sujeito velho e franzino, dando uma baforada em seu cachimbo. McDuff tinha uns 62 anos, sempre olhava para a frente, nunca diretamente para seu interlocutor, mas ele o via mesmo assim por detrás de seus óculos sem aro. E ele sempre vestia um terno preto com gravata azul. Chegava no bar todos os dias por volta do meio-dia, tomava duas cervejas, depois ia embora. E você não conseguia odiá-lo nem gostar dele. Era como um calendário ou um porta-canetas.
– Estou a caminho – respondeu Harry.
– Eu acompanho você – disse McDuff.
Então Harry caminhou ao lado do velho e franzino McDuff enquanto o velho e franzino McDuff fumava seu cachimbo. McDuff sempre mantinha o cachimbo aceso. Era sua marca registrada. McDuff era o seu cachimbo. Por que não?
Caminhavam juntos, sem dizer nada. Não havia o que dizer. Pararam no semáforo, McDuff fumando seu cachimbo.
McDuff tinha poupado dinheiro. Nunca havia se casado. Morava num apartamento de dois cômodos e não fazia muita coisa. Bem, ele lia os jornais, mas sem muito interesse. Não era religioso. Mas não por falta de convicção. Simplesmente porque não havia se dado ao trabalho de pensar no assunto. Era como não ser republicano por não saber o que é um republicano. McDuff não era feliz nem infeliz. Vez que outra ficava um pouco inquieto, alguma coisa parecia incomodá-lo e por alguns instantes seus olhos se enchiam de terror. Mas logo aquilo passava... como uma mosca que pousa... e em seguida levanta voo à procura de terras mais promissoras.
Então eles chegaram ao bar. Entraram.
As pessoas de sempre.
McDuff e Harry se sentaram em seus bancos.
– Duas cervejas – proferiu o bom e velho McDuff ao dono do bar.
– Como vai, Harry? – perguntou um dos fregueses do bar.
– Tateando no escuro, tremendo e cagando – respondeu.
Sentiu pena do McDuff. Ninguém o havia cumprimentado. McDuff era como um mata-borrão sobre a mesa. Não suscitava nenhum sentimento. Notavam Harry porque ele era um vagabundo. Fazia com que se sentissem superiores. Eles precisavam disso. McDuff fazia com que se sentissem apenas mais insípidos do que já eram.
Não aconteceu nada demais. Todos se debruçaram sobre suas bebidas, observando-as. Poucos tinham imaginação o suficiente para simplesmente encher a cara.
Uma tarde banal de sábado.
McDuff partiu para sua segunda cerveja e foi gentil o bastante para pagar outra a Harry.
O cachimbo de McDuff estava fervendo por conta das seis horas de queima contínua.
Terminou sua segunda cerveja e foi embora, e Harry ficou lá com o resto do pessoal.
Era um sábado muito parado, mas Harry sabia que se aguentasse por mais algum tempo conseguiria se dar bem. Sábado à noite, é claro, era melhor para descolar umas bebidas. Mas não havia nenhum lugar para onde pudesse ir até que a hora chegasse. Harry estava se esquivando da senhoria. Ele pagava por semana e estava nove dias atrasado.
Entre uma bebida e outra, o ambiente mergulhava num marasmo mortal. Os fregueses só precisavam sentar e ficar em algum lugar. Pairavam no ar uma solidão generalizada, um medo latente e a necessidade de estarem juntos e de conversarem um pouco, pois isso os acalmava. Tudo de que Harry precisava era de alguma coisa para beber. Harry podia beber eternamente e ainda precisaria de mais, não havia bebida suficiente para satisfazê-lo. Mas os outros... eles apenas sentavam, falando de vez em quando sobre o que quer fosse.
A cerveja de Harry estava ficando choca. E a ideia não era terminá-la porque aí teria que comprar outra e ele não tinha dinheiro. Teria que esperar e ficar na expectativa. Como um profissional na mendicância de bebidas, Harry sabia a primeira regra: você nunca deve pedir uma. Sua sede era uma piada para os outros e qualquer pedido de sua parte lhes tirava o prazer de dar.
Harry deixou seus olhos passearem pelo bar. Havia quatro ou cinco clientes por ali. Poucos e só gente miúda. Um deles era Monk Hamilton. A maior afirmação de vitalidade para Monk era comer seis ovos no café da manhã. Todos os dias. Ele achava que isso lhe dava uma vantagem. Não era muito bom nesse negócio de pensar. Era um tipo imenso, quase tão largo quanto alto, de olhos pálidos, fixos e despreocupados, pescoço de carvalho, mãos grandes, peludas e nodosas.
Monk estava falando com o atendente do bar. Harry ficou olhando uma mosca que rastejava lentamente para dentro do cinzeiro molhado de cerveja à sua frente. A mosca caminhou por ali, por entre os tocos de cigarro, forçando caminho contra um cigarro empapado, depois soltou um zunido furioso, ergueu-se, então pareceu voar para trás, e para a esquerda, e depois se foi.
Monk era limpador de janelas. Seus olhos inexpressivos encontraram os de Harry. Seus lábios grossos se torceram num riso de superioridade. Ele pegou sua garrafa, andou, sentou-se no banco ao lado de Harry.
– O que você está fazendo, Harry?
– Esperando chover.
– Que tal uma cerveja?
– Esperando chover cerveja, Monk. Obrigado.
Monk pediu duas cervejas. Elas chegaram.
Harry gostava de beber sua cerveja direto do gargalo. Monk despejou um pouco da sua num copo.
– Harry, você está precisando de emprego?
– Não tenho pensado no assunto.
– Tudo que você precisa fazer é segurar a escada. Precisamos de um cara para a escada. Não paga tão bem quanto lá em cima, mas já é alguma coisa. O que você acha?
Monk estava fazendo uma piada. Pensava que Harry era imbecil demais para compreendê-la.
– Me dê um tempo para pensar no assunto, Monk.
Monk olhou em volta para os outros clientes, soltou seu sorriso superior de novo, piscou para eles, então voltou a olhar para Harry.
– Escute, tudo o que você tem que fazer é segurar a escada bem firme. Isso não é tão dificil, é?
– É mais fácil que muita coisa, Monk.
– Então você topa?
– Acho que não.
– Ah, vamos! Por que você não tenta?
– Eu não posso fazer isso, Monk.
Então todos se sentiram bem. Harry era o garoto deles. O esplêndido fracassado.
Harry olhou para todas aquelas garrafas atrás do bar. Todos aqueles bons momentos à espera, todas aquelas risadas, toda aquela loucura... uísque, vinho, gim, vodca e tantas outras delícias. E ainda assim todas aquelas garrafas ficavam lá paradas, em desuso. Era como uma vida esperando para ser vivida, uma vida que ninguém queria.
– Olhe – disse Monk –, vou cortar o cabelo.
Harry sentiu a tranquila solidez de Monk. Monk havia ganhado, em certo momento, alguma coisa. Ele se encaixava, como uma chave numa fechadura que abria para uma outra parte qualquer.
– Por que você não vem comigo enquanto eu corto o cabelo?
Harry não respondeu.
Monk chegou mais perto.
– Paramos pra tomar uma cerveja no caminho e eu pago outra pra você depois.
– Vamos lá...
Harry esvaziou a garrafa facilmente em sua ânsia, depois a largou.
Seguiu Monk para fora do bar. Caminharam juntos ao longo da rua. Harry sentiu-se como um cachorro seguindo seu dono. E Monk estava calmo, estava agindo, tudo se encaixava. Era o seu sábado de folga e ele ia cortar o cabelo.
Acharam um bar e pararam ali. Era muito mais agradável e limpo do que o bar em que Harry normalmente vadiava. Monk pediu as cervejas.
O modo como ele se comportava! Um homem másculo. E seguro de sua masculinidade. Nunca pensava na morte, pelo menos não na sua.
Enquanto estavam ali, lado a lado, Harry percebeu que havia cometido um erro: um trabalho em turno integral teria sido menos doloroso do que aquilo.
Monk tinha uma verruga no lado direito do rosto, uma verruga bem descontraída, uma verruga sem constrangimentos.
Harry ficou olhando Monk pegar sua garrafa e sugá-la. Era apenas algo que Monk fazia, como coçar o nariz. Ele não estava ávido pela bebida. Monk apenas ficava sentado com sua garrafa e estava tudo pago. E o tempo corria como a merda corre pelo rio.
Terminaram suas garrafas, e Monk disse alguma coisa ao atendente do bar e o atendente do bar respondeu alguma coisa.
Então Harry seguiu Monk até o lado de fora do bar. Seguiram juntos, Monk ia cortar o cabelo.
Caminharam até a barbearia e entraram. Não havia outros clientes. O barbeiro conhecia Monk. Enquanto Monk subia na cadeira eles disseram algumas palavras um para o outro. O barbeiro o cobriu com o protetor e a cabeça de Monk pareceu enorme, a verruga firme na bochecha direita, e ele disse:
– Curto ao redor das orelhas e não tire muito em cima.
Harry, desesperado por outra bebida, pegou uma revista, virou algumas páginas e fingiu estar interessado.
Então ouviu Monk dizer ao barbeiro:
– A propósito, Paul, este é Harry. Harry, este é Paul.
Paul e Harry e Monk.
Monk e Harry e Paul.
Harry, Monk, Paul.
– Olhe, Monk – disse Harry –, quem sabe eu vou lá pegar outra cerveja enquanto você corta o cabelo?
Monk olhou fixamente para Harry.
– Não, nós vamos tomar uma cerveja depois que eu terminar aqui.
Depois Monk olhou fixamente para o espelho.
– Não precisa tirar tanto ao redor das orelhas, Paul.
Enquanto o mundo girava, Paul ia cortando.
– Tem pescado alguma coisa, Monk?
– Nada, Paul.
– Não acredito nisso...
– Acredite, Paul.
– Não é o que tenho ouvido.
– Como...?
– Que nem quando a Betsy Ross fez a bandeira americana, treze estrelas não teriam bastado para se enrolar no seu mastro!
– Ah, droga, Paul, você é muito engraçado!
Monk riu. Sua risada era como linóleo sendo cortado com uma faca sem fio. Ou talvez fosse um grito de morte.
Então ele parou de rir.
– Não tire muito em cima.
Harry largou a revista e olhou para o chão. A risada de linóleo havia se transformado num chão de linóleo. Verde e azul, com diamantes lilases. Um chão velho. Alguns pedaços tinham começado a descascar, revelando o soalho marrom-escuro que estava por baixo. Harry gostava de marrom.
Ele começou a contar: três cadeiras de barbeiro, cinco cadeiras de espera. Treze ou quatorze revistas. Um barbeiro. Um cliente. Um... o quê?
Paul e Harry e Monk e o marrom-escuro.
Os carros passavam do lado de fora. Harry começou a contar, parou. Não brinque com a loucura, a loucura não brinca.
Mais fácil contar as bebidas nas mãos: nenhuma.
O tempo reverberava como um sino monótono.
Harry sentia seus pés, seus pés dentro dos sapatos, e seus dedos... nos pés, dentro dos sapatos.
Ele mexia os dedos dos pés. Sua vida completamente desperdiçada indo a lugar nenhum como uma lesma se arrastando em direção ao fogo.
Folhas cresciam sobre os troncos. Antílopes erguiam suas cabeças do pasto. Um açougueiro em Birmingham levantava seu cutelo. E Harry estava parado numa barbearia, na esperança de tomar uma cerveja.
Ele não tinha dignidade, era um vira-latas.
Aquilo seguiu, passou, continuou e continuou, e então terminou. O fim do teatro da cadeira do barbeiro. Paul girou Monk para que ele pudesse se ver no espelho atrás da cadeira.
Harry odiava barbearias. Aquele giro final na cadeira, aqueles espelhos, eram um momento de horror para ele.
Monk não se incomodava.
Ele se olhou. Estudou seu reflexo, rosto, cabelo, tudo. Parecia admirar o que via. Então, ele falou:
– Ok, Paul. Agora você poderia tirar um pouco do lado esquerdo? E está vendo este pedacinho desalinhado? Temos que corrigir.
– Ah, sim, Monk... eu cuido disso...
O barbeiro girou Monk de volta e se concentrou no pequeno pedaço que estava desalinhado.
Harry observava a tesoura. Havia muito barulho, mas não muito corte.
Então Paul girou Monk de novo em direção ao espelho.
Monk se olhou.
Um leve sorriso se esboçou no canto direito de sua boca. Então o lado esquerdo de seu rosto se contorceu um pouco. Autoadoração com uma pequena pontada de dúvida.
– Está bem – ele disse –, agora você acertou.
Paul espanou Monk com uma pequena escova. Pedaços de cabelo morto flutuaram num mundo morto.
Monk revirou os bolsos atrás do valor do corte e da gorjeta.
A transação monetária fez tinir a tarde apática.
Então Harry e Monk caminharam pela rua, juntos, de volta ao bar.
– Não há nada como um corte de cabelo – disse Monk –, faz você se sentir um novo homem.
Monk sempre vestia work shirts azul-claras, mangas arregaçadas para mostrar seus bíceps. Um cara e tanto. Tudo o que ele precisava agora era de uma fêmea para dobrar suas cuecas e camisetas de baixo, enrolar suas meias e colocá-las na gaveta da cômoda.
– Obrigado por me fazer companhia, Harry.
– Não por isso, Monk...
– Da próxima vez que eu for cortar o cabelo quero que você venha junto comigo.
– Vamos ver, Monk...
Monk caminhava bem perto do meio-fio e era como um sonho. Um sonho amarelado. Simplesmente aconteceu. E Harry não sabia de onde tinha vindo o impulso. Mas cedeu a ele. Fingiu tropeçar e deu um encontrão em Monk. E Monk, como um pesado anfiteatro de carne, caiu na frente do ônibus. Quando o motorista pisou no freio ouviu-se uma pancada, não muito alto, mas uma pancada. E lá estava Monk, caído na sarjeta, corte de cabelo, verruga e tudo o mais. E Harry olhou para baixo. Uma coisa estranhíssima: lá estava a carteira de Monk na sarjeta. Tinha saltado para fora do bolso traseiro de Monk por conta do impacto e ali estava. Só não se achava estendida no chão, mas sim erguida como uma pequena pirâmide.
Harry se agachou, pegou a carteira e a colocou em seu bolso. Parecia cálida, cheia de graça. Ave Maria.
Então Harry se debruçou sobre Monk.
– Monk? Monk... você está bem?
Monk não respondeu. Mas Harry notou que ele estava respirando e não havia sangue. E, de repente, o rosto de Monk pareceu bonito e galante.
Ele está ferrado, pensou Harry, e eu estou ferrado. Nós dois estamos ferrados em sentidos diferentes. Não existe verdade, não existe nada real, não existe nada.
Mas algo existia. A multidão existia.
– Saiam de perto! – alguém disse – Deixem ele respirar!
Harry saiu de perto. Saiu de perto e se misturou à multidão. Ninguém o deteve.
Ele estava caminhando para o sul. Ouviu a sirene da ambulância. Ela gritava, secundando o seu sentimento de culpa.
Então, rapidamente, a culpa desapareceu. Como uma antiga guerra terminada. Era preciso seguir em frente. As coisas seguiam em frente. Como as pulgas e o melado para panquecas.
Harry se enfiou num bar que nunca havia notado antes. Havia um atendente no balcão. Garrafas. Estava escuro ali. Pediu um uísque duplo, bebeu de um só gole. A carteira de Monk estava gorda e abundante. Sexta devia ter sido dia do pagamento. Harry puxou uma nota, pediu outro uísque duplo. Tomou metade, fez uma pausa em reverência, e depois secou o resto, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se muito bem.
Mais tarde Harry foi até a Groton Steakhouse. Entrou e se sentou no balcão. Nunca tinha ido lá antes. Um homem alto, magro, desinteressante, vestindo chapéu de chef e um avental sujo andou até ele e se curvou sobre o balcão. Estava com a barba por fazer e cheirava a inseticida. Olhou de soslaio para Harry.
– Veio aqui atrás de EMPREGO? – perguntou.
Por que diabos todo o mundo está tentando me botar para trabalhar?, pensou Harry.
– Não – respondeu Harry.
– Temos uma vaga para lavador de prato. Cinquenta centavos a hora e você pode agarrar a bunda da Rita de vez em quando.
A garçonete passou ao lado deles. Harry olhou para a bunda da mulher.
– Não, obrigado. Por hora, vou querer uma cerveja. De garrafa. Qualquer marca.
O chef chegou mais perto. Tinha longos pelos saindo das narinas, fortemente ameaçadores, como um pesadelo imprevisto.
– Ouça, seu merda, você tem dinheiro?
– Tenho – disse Harry.
O chef hesitou por alguns instantes, então saiu, abriu o refrigerador e puxou uma garrafa de cerveja. Tirou a tampa, voltou até onde estava Harry e colocou o líquido fermentado no balcão com uma pancada.
Harry deu um longo gole, pousou a garrafa suavemente.
O chef continuava a examiná-lo. Não conseguia matar a charada.
– Agora – disse Harry –, quero um filé alto de carne de gado, bem passado, com batatas fritas, e pegue leve na gordura. E me traga outra cerveja, agora.
O chef fez surgir diante dele uma nuvem de fúria, depois se afastou, foi até o refrigerador, repetiu a cena, o que incluía trazer a garrafa e colocá-la no balcão com um estrondo.
Em seguida o chef foi até a grelha, jogou um bife lá dentro.
Um glorioso manto de fumaça se ergueu. O chef encarava Harry por entre a fumaça.
Não faço ideia, pensou Harry, de por que ele não gosta de mim. Bem, talvez eu precise mesmo de um corte de cabelo (tire bastante de todos os lados, por favor) e fazer a barba, meu rosto está um pouco abatido, mas as minhas roupas estão bem limpas. Gastas, mas limpas. Devo ser mais limpo que o prefeito desta cidade de merda.
A garçonete chegou perto dele. Não era feia. Nenhuma maravilha, mas não estava mal. Seus cabelos empilhavam-se sobre a cabeça, meio bagunçados, pequenos cachos desciam soltos pelos lados. Bacana.
Ela se debrucou sobre o balcão.
– Você não pegou o trabalho de lavador de pratos?
– O salário é bom mas não é meu ramo de negócio.
– E qual é o seu ramo de negócio?
– Sou arquiteto.
– Metiroso – ela disse e se afastou.
Harry sabia que não era muito bom de papo. Descobriu que quanto menos falava melhor todos se sentiam.
Terminou as duas cervejas. Então chegaram o bife e as batatas fritas. O chef bateu o prato com força no balcão. O sujeito era bom nas pancadas.
Parecia um milagre para Harry. Ele avançou, cortando e mastigando. Fazia uns dois anos que não devorava um bife. À medida que comia, sentia uma força renovada invadindo seu corpo. Quando não se come com frequência, comer é um verdadeiro acontecimento.
Até mesmo seu cérebro sorria. E seu corpo parecia estar dizendo, obrigado, obrigado, obrigado.
Então Harry terminou.
O chef ainda não deixara de encará-lo.
– Ok – disse Harry –, vou querer um repeteco.
– Vai querer a mesma comida?
– Aham.
O chef o olhou de modo ainda mais fixo. Afastou-se e lançou outro bife na grelha.
– E quero outra cerveja também, por favor. Agora.
– RITA! – gritou o chef –, VEJA MAIS UMA CERVEJA PRA ELE!
Rita apareceu com a cerveja.
– Você bebe bastante cerveja – ela disse – para um arquiteto.
– Estou planejando erguer uma grande obra.
– Rá! Como se você conseguisse!
Harry se concentrou na cerveja. Depois levantou e foi até o banheiro masculino. Quando voltou, liquidou a cerveja.
O chef voltou e bateu o prato de bife e fritas com força na frente de Harry.
– A vaga ainda está disponível, se você quiser.
Harry não respondeu. Avançou sobre o novo prato.
O chef seguiu até a grelha, de onde continuou a encarar Harry.
– Você ganha as duas refeições – disse o chef – e sai empregado.
Harry estava ocupado demais com o bife e com as batatas fritas para responder. Ainda estava com fome. Quando se está na vadiagem, e especialmente quando se é um bebum, pode-se ficar dias sem comer, muitas vezes não se tem nem mesmo vontade de comer, e então, zaz, você é fulminado: surge uma fome insuportável. Você começa a pensar em comer qualquer coisa: ratos, borboletas, folhas, bilhetes de jogo, jornal, rolhas, o que aparecer pela frente.
Agora, debruçado sobre o segundo prato, a fome de Harry ainda estava lá. As batatas fritas eram lindas e gordurosas e amarelas e quentes, algo como a luz do sol, uma nutritiva e gloriosa luz solar que se podia mastigar. E o bife não era apenas uma fatia de alguma pobre criatura assassinada, era algo comovente, que alimentava o corpo e a alma e o coração, que fazia os olhos sorrirem, transformando o mundo num lugar menos difícil de suportar. Ou de se viver. Naquele instante, a morte não importava.
E então ele terminou o prato. Só havia restado o osso, que estava totalmente limpo. O chef ainda encarava Harry.
– Vou comer mais um – Harry disse ao chef. – Outro filé alto com fritas e mais uma cerveja, por favor.
– VOCÊ NÃO VAI COMER MAIS UM! – gritou o chef – VOCÊ VAI PAGAR TUDO E DAR O FORA DAQUI!
Cruzou pela frente da grelha e parou na frente de Harry. Tinha um bloco de pedidos nas mãos. Rabiscou furiosamente uma soma. Depois jogou a conta no meio do prato sujo. Harry pegou a conta de cima do prato.
Havia um outro cliente no restaurante, um homem redondo e rosado, de cabeça grande e cabelos despenteados, tingidos de um castanho um tanto desanimador. O homem consumira inúmeras xícaras de café enquanto lia o jornal da noite.
Harry se levantou, tirou algumas notas do bolso, separou duas e as depôs ao lado do prato.
Depois deu o fora dali.
O trânsito do início da noite estava começando a entupir a avenida de carros. O sol se punha atrás dele. Harry olhou para os motoristas dos carros. Pareciam infelizes. O mundo parecia infeliz. As pessoas estavam no escuro. As pessoas estavam apavoradas e decepcionadas. As pessoas estavam presas em armadilhas. As pessoas estavam na defensiva, nervosas. Sentiam que suas vidas estavam sendo desperdiçadas. E elas estavam certas.
Harry seguiu caminhando. Parou no semáforo. E, naquele momento, teve um sentimento muito estranho. Teve a impressão de que era a única pessoa viva no mundo.
Quando o sinal mudou para o verde, esqueceu-se de tudo. Atravessou a rua e seguiu pela calçada do outro lado.
– Septuagenarian Stew
Poema Para Chefes de Departamento Pessoal:
Um velho me pediu um cigarro
e eu cuidadosamente saquei dois.
“Tô procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.”
Ele estava no limite da mendicância e da fúria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhões
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
Caímos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus é um lugar solitário e sem bife.)
Somos pássaros agonizantes
navios à deriva –
o mundo se choca contra nós
e nós
estendemos nossos braços
e nós
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dão um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de “política”.
Bem, nós fumamos, ele e eu – homenzinhos
mordiscando pensamentos medíocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto você vê as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebês,
lembre-se disso:
você é um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado –
de modo que se você pegar um avião para Savannah,
pegue o melhor avião;
ou se você comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(Você o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se você decidir matar alguém,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens são feitos de partes mais especiais e
preciosas: não mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrás de uma escrivaninha –
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisão,
escolha um de nós
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de canções de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos são como linóleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramática bêbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nós sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tão mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rápido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhões de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantêm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como você será conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que têm uma bomba atômica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens não nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
são curvadas e nossas consciências queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuído.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
é o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a Compaixão apanhou as bolinhas de gude
e que o Ódio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhão
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nós ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso ócio
para ver quem era o próximo da
fila.
Posto de Bombeiros
(Para Jane, com amor)
saímos do bar
porque estávamos sem dinheiro
mas ainda tínhamos algumas garrafas de vinho
no quarto.
era cerca de quatro da tarde
e passamos por um posto de bombeiros
e ela
enlouqueceu:
“um POSTO DE BOMBEIROS! ah, eu adoro
os CAMINHÕES, são tão vermelhos e tudo o
mais! vamos entrar!”
eu a segui.
“CAMINHÕES DE BOMBEIRO!” ela gritou
rebolando seu grande
rabo.
ela já tentava subir num
deles, erguendo a saia até
a cintura, tentando alcançar o
banco.
“aqui, aqui, deixe eu ajudar você!” correu um
bombeiro.
outro bombeiro se aproximou de
mim: “nossos cidadãos são sempre bem-vindos”,
ele me
disse.
o outro cara já estava ao lado dela no
banco. “você tem uma dessas COISAS enormes?”
ela lhe perguntou. “digo, hahaha!, quero dizer um
desses CAPACETES enormes!
“tenho um outro capacete que também é enorme”, ele lhe
disse.
“hum, hahaha!”
“você joga cartas?” perguntei ao meu
bombeiro. tenho 43 centavos e todo o tempo do
mundo.
“venha comigo até os fundos” ele
disse. “claro, nada de jogo por aqui.
é contra as
regras.”
“entendo”, eu lhe
disse.
já havia transformado meus 43 centavos em
um dólar e noventa
quando a vi subir as escadas com
seu bombeiro.
“ele vai me mostrar seus
alojamentos”, ela me
disse.
“entendo”, eu lhe
respondi.
quando o bombeiro dela desceu deslizando pelo mastro
dez minutos depois
eu lhe fiz um aceno
com a cabeça.
“são 5
dólares.”
“5 dólares pelo
quê?”
“não queremos um escândalo, não é
mesmo? nós dois poderíamos perder nossos
empregos. claro, eu não estou
trabalhando.
ele me passou os
5.
“sente aí, você pode
recuperá-los.”
“qual que é o jogo?”
“blackjack.”
“jogar é contra a
lei.”
“tudo que é interessante é. além disso,
você está vendo algum dinheiro sobre a
mesa?”
ele se sentou.
agora éramos
5.
“que tal a parada, Harry?” alguém
perguntou.
“nada mal, nada
mal.”
o outro cara subia as
escadas.
jogavam muito mal.
não se davam ao trabalho de memorizar o
baralho. não sabiam se sobravam mais
cartas altas do que baixas. e basicamente jogavam até estourar,
não sabiam garantir uma mão
baixa.
quando o outro cara desceu
me passou uma nota de
cinco.
“como estava, Marty?”
“nada mal. ela conhece... uns movimentos
bacanas.”
“mais uma carta!” eu disse. “uma ótima garota. vou
eu mesmo lá.”
ninguém disse
nada.
“algum incêndio sério nos últimos tempos?”
perguntei.
“não. nada de
mais.”
“caras, vocês precisam
se exercitar. mais uma carta para
mim!”
um garoto grande e ruivo, que estava dando um lustre num
caminhão
largou sua flanela e
subiu as escadas.
ao descer me jogou uma nota de
cinco.
quando o quarto cara desceu eu lhe dei
3 de cinco por uma de
vinte.
não sei quantos bombeiros
estavam no prédio ou onde eles
estavam. notei que alguns haviam escapado da minha cobrança
mas eu era um bom
esportista.
estava escurecendo
quando o alarme
tocou.
começaram a correr pra lá e pra cá
caras surgiram deslizando pelo
mastro.
então ela surgiu deslizando pelo
mastro. era boa nesse negócio do
mastro. uma mulher de verdade. nada além de tripas
e
rabo.
“vamos embora”, eu lhe
disse.
ela ficou ali, dando tchauzinho para os
bombeiros mas eles já não
pareciam
muito interessados.
“vamos voltar para o bar”, eu lhe
disse.
“ah, você arrumou uma
grana?”
“achei uns trocos que eu achava que tinha
perdido...”
sentamos no fundo do bar
com uísque e cerveja para dar uma
amaciada.
“preciso dar uma boa
dormida.”
“claro, baby, você precisa de um bom
sono.”
“olha aquele marinheiro me encarando!
deve achar que eu sou... uma...”
“não, ele não acha nada disso. relaxe, você tem
classe, muita classe. às vezes você me lembra uma
cantora de ópera. você sabe, uma daquelas prima-donas.
você exala classe.
bebe
aí.”
pedi mais 2
rodadas.
“sabe, paizinho, você é o único homem que eu
AMO! digo, de verdade... AMO! sabe disso,
né?”
“claro que sei. às vezes penso que sou um rei
apesar de ser quem sou.”
“sim, sim, é isso que estou dizendo, algo
assim.”
tive que ir mijar. quando voltei
o marinheiro estava sentado no meu
lugar. a perna dela roçava a do marinheiro
enquanto ele falava.
me afastei e fui jogar dardos com
Harry o Cavalo e com o jornaleiro da
esquina.
O Hotel Sans era o melhor da cidade de Los Angeles. Era um hotel antigo, mas tinha a classe e o charme que faltavam aos mais novos. Ficava de frente para o parque do centro da cidade.
Era famoso por suas convenções de negócio e pelas putas caríssimas, de talento quase legendário que, no final de uma noite lucrativa, costumavam presentear os mensageiros com boas gorjetas. Havia também histórias de mensageiros que haviam se tornado milionários – mensageiros desgraçados, com cacetes de 27 centímetros que haviam tirado a sorte grande ao conhecer e se casar com alguma velhota rica que se hospedara no hotel. E a comida, as LAGOSTAS, os enormes chefs negros em seus altos e brancos chapéus de mestre-cuca, que sabiam de tudo, não apenas sobre comida, mas sobre a vida e sobre mim e sobre todas as coisas.
Fui contratado para trabalhar na seção de abastecimento. O setor de descarga tinha estilo: para cada caminhão que chegava, havia dez caras a postos para descarregar, quando na verdade dois bastariam. Eu vestia minhas melhores roupas. Nunca tive que tocar em nada.
Descarregávamos (eles descarregavam) tudo o que chegava ao hotel, em sua maioria itens alimentícios. Minha impressão era de que os ricos comiam mais lagostas do que qualquer outra coisa. Caixas e mais caixas do bicho não paravam de chegar, criaturas deliciosamente rosadas e grandes, balançando suas garras e barbas.
– Você gosta desse negócio, não, Chinaski?
– Claro. Maravilha – eu concordava.
Um dia, a mulher encarregada dos empregados me chamou. O escritório ficava atrás do setor de descarga.
– Quero que você gerencie este escritório aos domingos, Chinaski.
– E o que tenho que fazer?
– Basta atender ao telefone e contratar os lavadores de prato dos domingos.
– Tudo bem!
O primeiro domingo foi ótimo. Só tive que ficar ali sentado. Logo entrou um velho.
– Pois não, camarada? – perguntei.
Ele vestia um terno caro, mas estava cheio de vincos e um pouco sujo; e os punhos estavam puídos. Segurava o chapéu em uma das mãos.
– Escute, vocês precisam de um cara que seja bom de conversa? Alguém que possa tratar com o público? Tenho uma certa dose de charme, sei contar histórias engraçadas, sou capaz de fazer as pessoas darem boas risadas.
– É?
– Ah, sim.
– Faça-me rir.
– Oh, você não entende. Tem que ser no cenário adequado, é preciso clima, decoração, você entende...
– Faça-me rir.
– Senhor...
– Você não serve, não passa de um bêbado!
Os lavadores de pratos eram contratados pela tarde. Saí do escritório. Quarenta vagabundos de rua estavam por ali.
– Prestem atenção! Precisamos de cinco homens de qualidade! Cinco! Nada de bêbados, pervertidos, comunistas ou molestadores de criança! E é preciso ter o cartão da previdência! Vamos lá, tirem o cartão do bolso e ergam sobre suas cabeças!
Os cartões começaram a aparecer. Eles os agitavam.
– Ei, eu tenho um!
– Ei, camarada, olhe eu aqui! Me dê essa chance, cara!
Olhei para eles devagar.
– Você, com essa marca de merda no colarinho – apontei. – Dê um passo à frente.
– Isso não é uma marca de merda, senhor. É molho de carne.
– Bem, sei não, camarada, me parece que você anda comendo mais merda do que rosbife!
– Ha, ha, ha, ha – gargalharam os vagabundos. – Ha, ha, ha, ha.
– Certo. Ainda preciso de quatro bons lavadores! Tenho aqui quatro moedinhas na mão. Vou jogar pra cima. Os quatro que me trouxerem as moedinhas lavarão os pratos hoje!
Lancei as moedas bem alto sobre a multidão. Corpos saltaram e caíram, roupas se rasgaram, muitos praguejares, um homem gritou, vários socos foram trocados. Então os quatro sortudos se aproximaram, um por vez, ofegando, cada qual com sua moedinha. Dei-lhes seus cartões de trabalho e lhes indiquei a cantina dos empregados, onde, antes de mais nada, receberiam comida. Os outros vagabundos foram se retirando vagarosamente pela rampa de carregamento, desceram e seguiram pela viela em direção à terra devastada que é o centro de Los Angeles aos domingos.
O Mercado dos Trabalhadores Rurais[10] ficava na Fifth Street com a San Pedro. Você tinha que se apresentar às cinco da manhã. Ainda estava escuro quando eu cheguei lá. Alguns homens estavam sentados, outros de pé, enrolando seus cigarros e conversando baixinho. Tais lugares sempre têm o mesmo cheiro – suor velho, urina e vinho barato.
No dia anterior, eu tinha ajudado Jan a se mudar para a casa de um corretor de imóveis, um gordo que morava na Kingsley Drive. Fiquei escondido num canto do saguão e a vi beijá-lo. Logo os dois entraram no apartamento dele e a porta se fechou. Retornei sozinho para a rua, notando pela primeira vez os papéis esvoaçantes e o lixo que se acumulava pelas calçadas. Havíamos sido despejados de nosso apartamento. Eu tinha US$ 2,08. Jan me prometeu que esperaria minha sorte mudar, mas era difícil de acreditar nisso. O nome do corretor era Jim Bemis, tinha um escritório na Alvarado Street e era cheio da grana.
– Odeio quando ele trepa comigo – ela tinha dito.
Agora, provavelmente, ela estava dizendo a mesma coisa de mim.
Laranjas e tomates eram empilhados em diversas caixas e, aparentemente, eram de graça. Apanhei uma laranja, fiz um buraco com os dentes na casca e chupei o suco. Eu havia exaurido os meus benefícios do seguro-desemprego desde que deixara o Hotel Sans.
Um cara de cerca de quarenta anos veio em minha direção. Seu cabelo parecia morto, de fato nem parecia cabelo humano, lembrando mais fios de linha. A luz branca que vinha do teto lhe atingia em cheio. Ele tinha verrugas marrons na cara, muitas delas concentradas ao redor de sua boca. Um ou dois pelos negros brotavam de cada uma delas.
– Como vai?
– Tudo bem.
– Está a fim de um boquete?
– Não, acho que não.
– Estou com tesão, cara. Estou excitado. Sei realmente fazer um.
– Escute, sinto muito. Não estou a fim.
Ele se afastou tomado de fúria. Dei uma olhada pelo galpão. Havia cerca de cinquenta homens esperando. Havia dez ou doze funcionários do governo sentados em suas mesas ou caminhando ao redor. Eles fumavam e pareciam mais preocupados que os vagabundos de rua. Os funcionários estavam separados dos vagabundos por uma sólida tela de metal entrelaçada, que ia do teto ao chão. Alguém a tinha pintado de amarelo. Era um amarelo bastante apagado.
Quando um dos funcionários tinha que fazer uma transação com um dos vagabundos, ele destravava e corria uma portinhola de vidro presa à tela. Quando a questão da papelada se resolvia, o funcionário fechava a portinhola, trancava-a por dentro e, toda vez que isso ocorria, a esperança parecia desaparecer. Todos despertávamos quando a portinhola deslizava, a chance de cada homem era a chance de todos nós, mas, quando ela se fechava, a esperança evaporava. Então restava apenas olhar para as caras uns dos outros.
Na parede dos fundos, atrás da tela amarela e dos funcionários, havia seis quadros-negros. Havia giz branco e apagadores, como na escola. Cinco dos quadros estavam vazios, embora ainda fosse possível enxergar os resquícios das mensagens anteriores, de trabalhos havia muito preenchidos e naquele momento perdidos para sempre, ao menos no que nos dizia respeito.
Havia uma mensagem no sexto quadro:
PRECISA-SE DE COLHEDORES DE TOMATES EM
BAKERSFIELD
Eu pensara que as colheitadeiras automáticas haviam extinguido esse trabalho. No entanto, ali estava o anúncio. Seres humanos, aparentemente, saem mais barato que máquinas. E máquinas quebram. É isso.
Dei uma olhada ao redor do recinto – não havia orientais nem judeus, pouquíssimos negros. A maioria dos vagabundos ou era composta de brancos pobres ou de mexicanos. Os dois negros, naquele momento, já iam altos no vinho.
Então um dos funcionários se pôs de pé. Era um homem grande, com uma proeminente barriga de cerveja. O que você podia notar era sua camisa amarela com listras pretas verticais. A camisa estava esturricada, e ele usava braçadeiras – para segurar suas mangas como nas fotografias tiradas em 1890. Ele se aproximou e destravou uma das janelas de vidro na tela amarela.
– Muito bem! Há um caminhão lá nos fundos recolhendo gente pra trabalhar em Bakersfield!
Correu a janela, trancou-a, sentou-se à sua mesa e acendeu um cigarro.
Por um momento, ninguém se mexeu. Então, um a um, aqueles que estavam sentados nos bancos começaram a se levantar, os rostos sem expressão. Os homens que já aguardavam de pé deixaram cair seus cigarros e os apagaram cuidadosamente com as solas de seus sapatos. Depois disso, começou um êxodo vagaroso e geral; todos saíram em fila por uma porta lateral que dava para um pátio cercado.
O sol nascia. Na verdade, olhávamos pela primeira vez uns para os outros. Uns poucos homens sorriam ao reconhecer um rosto familiar.
Permanecemos enfileirados, lutando para conseguir chegar até a caçamba, o dia começando a raiar. Era hora de partir. Subíamos em um caminhão de exército usado na Segunda Guerra Mundial, a cobertura de lona toda rasgada. Fomos avançando, aos encontrões, mas ao mesmo tempo tentando manter a mínima polidez. Então, cansado das cotoveladas, dei um passo para o lado.
A capacidade do caminhão era admirável. O grande capataz mexicano acompanhava a tudo em um dos lados da traseira da caçamba, acenando sem parar:
– Isso aí, isso aí, vamos lá, vamos lá...
Os homens avançavam devagar, como se entrassem na boca de uma baleia.
Pela lateral do caminhão eu podia ver os rostos deles; falavam baixinho e sorriam. Sentia a um só tempo repugnância por aquelas pessoas, mas também minha solidão. Então decidi que era capaz de colher tomates. Decidi embarcar. Alguém bateu em mim pelas costas. Era uma mexicana gorda e ela parecia bastante sentimental. Agarrei-a pelos quadris para ajudá-la a subir. Ela era muito pesada, difícil de manejar. Finalmente encontrei apoio em algo; aparentemente uma de minhas mãos se atolou no fundo da sua virilha. Consegui colocá-la para dentro. Então fui em busca de um apoio para também subir. Eu era o último. O capataz mexicano pôs o pé sobre minha mão.
– Não – ele disse –, já temos gente que chega.
O motor do caminhão deu a partida, engasgou e apagou. O motorista tentou novamente. Desta vez pegou, e eles seguiram em frente.
A Associação de Trabalhadores para a Indústria ficava nos limites da periferia. Aqui os vagabundos de rua eram mais bem vestidos, mais jovens, porém igualmente indiferentes. Sentavam-se por ali, nas bordas das janelas, inclinados para frente, aquecendo-se ao sol e bebendo o café grátis que a A.T.I. oferecia. Não havia creme e açúcar, mas era de graça. Não havia qualquer tela nos separando dos funcionários. Os telefones tocavam com mais frequência, e os empregados aqui tinham um aspecto muito mais descontraído que os do Mercado dos Trabalhadores Rurais.
Aproximei-me de um balcão e me foi dada uma ficha e uma caneta presa por corrente.
– Preencha – disse o funcionário, um rapaz mexicano de boa aparência que tentava esconder sua cordialidade atrás de uma postura profissional.
Comecei a preencher a ficha. Na lacuna para o número de telefone, escrevi: nenhum. Após grau de escolaridade e capacitação profissional, escrevi: dois anos na L.A. City College. Jornalismo e belas-artes.
Então eu disse ao funcionário:
– Rasurei a ficha. Poderia me conseguir outra?
Ele me passou uma nova em branco. Em vez daquilo, escrevi: ensino médio, L. A. High School. Carregador, almoxarife, trabalhador braçal. Alguma experiência como datilógrafo.
Devolvi-lhe a ficha.
– Muito bem – disse o funcionário –, sente aí e vamos ver se aparece alguma coisa.
Encontrei um espaço na borda de uma das janelas e me sentei. Um negro velho estava sentado próximo de mim. Ele tinha um rosto interessante; não trazia aquele olhar resignado que a maioria dos que estavam ali mostrava. Era como se ele tentasse não rir de si mesmo nem do resto de nós.
Ele viu que eu o olhava. Sorriu com malícia.
– O cara que chefia esse lugar é muito esperto. Foi demitido dos Trabalhadores Rurais, ficou puto da vida, veio pra cá e abriu isso aqui. Especializado em serviços de meio turno. Um cara que quer descarregar um vagão, rápido e barato, liga pra cá.
– Pois é, ouvi falar.
– O cara quer descarregar um vagão, rápido e barato, liga pra cá. O chefe desse lugar leva cinquenta por cento. A gente não reclama, pega o que aparece.
– Pra mim está beleza. Merda.
– Você parece desanimado. Tudo certo?
– Perdi uma mulher.
– Logo vêm outras, e você também vai acabar perdendo elas.
– Pra onde elas vão?
– Experimente isso aqui.
Era uma garrafa em um saco. Tomei um gole. Vinho do porto.
– Obrigado.
– Não há mulheres quando se está na rua.
Ele me passou novamente a garrafa.
– Não deixe ele ver nós dois bebendo. Isso deixa ele louco.
Enquanto estávamos ali sentados, vários homens foram chamados e seguiram para algum posto. Aquilo nos alegrou. Pelo menos havia alguma ação.
Meu amigo negro e eu ficamos esperando, revezando a garrafa.
Até que ela acabou vazia.
– Onde é a loja de bebidas mais próxima? – perguntei.
Recebi o endereço e fui até lá. De alguma maneira, durante o dia, o calor sempre era escaldante nas periferias de Los Angeles. Você avistava os vagabundos caminhando nas redondezas com pesados sobretudos. Mas quando a noite caía, e o albergue estava cheio, aqueles sobretudos vinham a calhar.
Quando retornei da loja, meu amigo continuava ali.
Sentei-me e abri a garrafa, passei o saco.
– Pô, mantém o negócio na moita – ele disse.
Era agradável ficar bebendo aquele vinho.
Alguns mosquitos começaram a se reunir e a circular ao nosso redor.
– Mosquitinhos do vinho – ele disse.
– Os filhos da puta ficam viciados nisso.
– Sabem o que é bom.
– Bebem pra esquecer suas mulheres.
– Só bebem.
Dei um golpe com a mão no ar e apanhei um dos mosquitinhos. Quando a abri a única coisa que pude ver foi uma mancha negra e a estranha visão de duas asinhas. Nada mais.
– Aí vem ele!
Era o jovem de boa aparência que comandava o lugar. Apressou-se em nossa direção.
– Muito bem! Caiam fora daqui! Sumam, seus bebuns de merda! Deem o fora daqui antes que eu chame a polícia!
Ele nos conduziu até a porta, aos empurrões e nos maldizendo. Senti culpa, mas nenhuma raiva. Mesmo enquanto nos empurrava, eu sabia que ele não dava a mínima para o que fazíamos. Ele usava um anel enorme na mão direita.
Não avançávamos com a pressa necessária, e recebi um golpe com a mão do anel no meu supercílio esquerdo; logo senti o sangue começar a correr e depois meu olho inchar. Meu amigo e eu estávamos de volta para as ruas.
Afastamo-nos. Encontramos um pórtico e sentamos sobre os degraus. Passei-lhe a garrafa. Ele deu um gole.
– Coisa fina.
Devolveu-me a garrafa. Dei um gole.
– É, coisa fina.
– O sol já vai alto.
– É, o sol já vai alto mesmo.
Ficamos em silêncio, revezando a garrafa.
Então a bebida chegou ao fim.
– Bem – ele disse, está na minha hora.
– Nos falamos.
Ele se afastou. Levantei-me, segui na direção contrária, dobrei a esquina e ganhei a Main Street. Segui até chegar ao Roxie.
As fotos das strippers estavam expostas atrás de um vidro junto à porta de entrada. Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota no guichê parecia melhor do que as fotos. Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oito fileiras de poltronas. As três primeiras estavam lotadas.
Tive sorte. O filme já havia terminado, e a primeira stripper já estava no palco. Darlene. A primeira geralmente era a pior, uma veterana decadente que não conseguiria, no mais das vezes, nada além de uns números de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tínhamos Darlene para a abertura. Era provável que alguma das dançarinas tivesse sido assassinada, ou estivesse menstruada, ou tivesse tido uma crise histérica, explicando assim a nova oportunidade para Darlene de um número solo.
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era como um milagre – o suficiente para levar um homem à loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo – suas panturrilhas e pernas pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançava e nos olhava com olhos de maquiagem extremamente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar – ter novamente o seu número no programa. Eu estava com ela. À medida que o zíper descia, mais e mais do seu corpo ficava à mostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne branca. Logo ela estava apenas com seu sutiã cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos, falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguiu dançando e se agarrou à cortina do palco, que estava puída e coberta por uma grossa camada de pó. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de músicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes.
Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo. Darlene realmente se entregou para a cortina. As luzes rosadas passaram de súbito a púrpuras. A banda veio com tudo. Ela pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trás, sua boca se abriu.
Então ela se endireitou e voltou dançando para o centro do palco. De onde eu estava sentado, podia escutá-la cantar para si mesma por sobre a música. Agarrou seu sutiã cor-de-rosa e o arrancou, enquanto um cara três filas abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela começou a se mexer com doçura. Então o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os músicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-os para a gente, seus olhos reluziam com a plenitude do sonho, seus lábios úmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu imenso rabo para nós. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O canhão de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espécie de sol. O quarteto seguia botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles olharam. Podíamos ver os pelos de sua buceta através de sua segunda pele. A banda realmente fazia sua bunda vibrar.
E eu não conseguia ficar de pau duro.
– Factótum
Comida de Cavalo
I
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
aula noturna, 20 anos depois
a pressão famélica de ser tarde demais;
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
Albergue
você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.
Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
Um Dia
Brock, o chefe de seção, estava sempre escarafunchando o cu com os dedos, usando a mão esquerda. Sofre de um caso grave de hemorroidas.
Tom percebeu isso ao longo do dia de trabalho.
Brock estivera na sua cola por meses. Aqueles olhos redondos e sem vida pareciam estar sempre à espreita de Tom. E então Tom acabou notando a mão esquerda, enfiada no cu, escarafunchando.
E Brock estava realmente na sua cola.
Tom executava seu trabalho tão bem quanto os outros. Talvez não mostrasse exatamente o mesmo entusiasmo dos demais, mas cumpria com suas obrigações.
Ainda assim, Brock não deixava de persegui-lo, fazendo comentários, despejando sugestões inúteis.
Brock era parente do dono da loja e um posto lhe fora arranjado: chefe de seção.
Naquele dia, Tom terminava de acondicionar o dispositivo de luz num pacote oblongo de um metro de comprimento e o depositou na pilha que estava atrás da sua mesa de trabalho. Voltou-se para pegar um novo conjunto da linha de montagem.
Brock estava parado à sua frente.
– Quero falar com você, Tom...
Brock era alto e magro. Seu corpo se inclinava para frente a partir da cintura. A cabeça estava sempre curvada, como se pendurada em seu pescoço longo e esguio. A boca ficava sempre aberta. Seu nariz era bastante proeminente com narinas muito grandes. Os pés eram grandes e desajeitados. As calças ficavam frouxas em seu corpo magricelo.
– Tom, você não está fazendo seu trabalho.
– Estou mantendo a média de produção. Do que você está falando?
– Não acho que você esteja empacotando direito. É preciso usar mais fita. Tivemos alguns problemas com quebra de materiais e estamos querendo resolver.
– Por que vocês não colocam as iniciais de cada empacotador nas caixas? Assim, se houver algum estrago por causa de mau acondicionamento, vocês podem rastrear o culpado.
– Quem deve pensar por aqui sou eu, Tom. Esse é o meu trabalho.
– Claro.
– Venha cá. Quero que você observe como o Roosevelt faz os pacotes.
Foram até a mesa de Roosevelt.
Roosevelt estava no trabalho havia treze anos.
Ficaram observando Roosevelt embalar os dispositivos de luz.
– Vê como ele faz? – perguntou Brock.
– Bem, sim...
– O que eu quero dizer é o seguinte: veja como ele faz o empacotamento... ele ergue e deixa cair lá dentro... é como tocar piano.
– Mas desse jeito ele não está protegendo o dispositivo...
– Claro que está. Ele o está acomodando, não consegue ver?
Tom discretamente inspirou e expirou.
– Tudo bem, Brock, está bem acomodado...
– Faça como ele...
Brock deu uma circulada na mão esquerda e a cravou lá dentro.
– A propósito, sua linha de montagem está atrasada...
– Claro. Você estava falando comigo.
– Isso é problema seu. Vai ter que recuperar agora.
Brock enfiou mais uma vez os dedos e depois se afastou.
Roosevelt ria em silêncio.
– Acomode, filho da puta!
Tom riu.
– Quanta merda será que um cara tem que aguentar apenas pra se manter vivo?
– Muita – veio a resposta –, e nunca para...
Tom voltou para sua mesa e conseguiu recuperar o prejuízo. E quando Brock olhava para ele, empacotava com a técnica da “acomodação”. E Brock sempre parecia estar de olho nele.
Por fim, chegou a hora do almoço, trinta minutos de intervalo. Mas para muitos dos trabalhadores a hora do almoço não significa fazer uma refeição, mas sim descer até a Vila e entornar garrafas e mais garrafas de cerveja, preparando-se para enfrentar o turno da tarde.
Alguns dos caras as misturavam com anfetaminas. Outros, com barbitúricos. Muitos com anfetaminas e barbitúricos, levando tudo goela abaixo com uma cerveja.
Do lado de fora da fábrica, no estacionamento, havia mais gente, sentada no interior de carros velhos, reunida em grupos diferentes. Os mexicanos ficavam num, e os negros, noutro, e às vezes, ao contrário do que acontecia nos presídios, eles se misturavam. Não havia muitos brancos, apenas alguns sulistas, sempre silenciosos. Mas Tom gostava de toda a rapaziada.
O único problema no lugar era o Brock.
Durante aquele almoço, Tom estava em seu carro com Ramon.
Ramon abriu a mão e lhe mostrou um enorme comprimido amarelo. Parecia uma bala quebra-queixo.
– Ei, cara, experimente isso. Você vai ficar totalmente na paz. Quatro ou cinco horas parecem cinco minutos. E você vai se sentir FORTE, nada fará você cansar...
– Obrigado, Ramon, mas eu já estou na maior merda.
– Mas isso aqui é justamente pra tirar você da merda, não sacou?
Tom não respondeu.
– Beleza – disse Ramon –, eu já tinha tomado o meu, mas fico com o seu também!
Colocou o comprimido na boca, ergueu a garrafa de cerveja e tomou um bom gole. Tom ficou olhando aquele comprimido gigantesco, dava para vê-lo descer pela garganta de Ramon. Até que enfim foi engolido.
Ramon se virou devagar na direção de Tom e sorriu:
– Veja, a porra do negócio nem chegou no meu estômago e já estou me sentindo melhor!
Tom riu.
Ramon tomou mais um gole de cerveja, depois acendeu um cigarro. Para um homem que supostamente estava se sentindo tão bem ele parecia sério demais.
– Sabe, cara, sou um homem de merda... não posso nem dizer que sou homem... Olha só, na noite passada tentei comer a minha esposa... Ela engordou uns vinte quilos este ano... Preciso me embebedar pra conseguir... Bombei e bombei, cara, e nada... O pior de tudo, fiquei com pena dela... Disse que era por causa do trabalho. E era por causa do trabalho, mas também não era. Ela se levantou e ligou a tevê...
Ramon continuou:
– Cara, tudo mudou. Há um ou dois anos atrás, tudo era divertido entre a gente, interessante, eu e a minha esposa... Ríamos de qualquer coisa... Agora não há mais nada disso... O que a gente tinha se perdeu, não sei onde foi parar...
– Sei como é isso, Ramon...
Ramon se endireitou com rapidez, como se recebesse uma mensagem:
– Merda, cara, está na nossa hora!
– Vamos lá!
Tom retornava da linha de montagem com um dispositivo e Brock o esperava. Brock disse:
– Tudo bem, deixe isso aí. Venha comigo.
Seguiram até a linha de montagem.
E lá estava Ramon com seu pequeno avental marrom e seu bigodinho.
– Fique à esquerda dele – disse Brock.
Brock ergueu a mão e a maquinaria começou a funcionar. A esteira movia os dispositivos de um metro em direção a eles num ritmo firme mas previsível.
Ramon tinha esse enorme rolo de papel à sua frente, uma bobina aparentemente interminável de pesado papel marrom. Surgiu o primeiro dispositivo de luz vindo da linha de montagem. Ele rasgou um pedaço de papel, abriu-o sobre a mesa, e em seguida colocou o dispositivo de luz sobre ele. Dobrou o papel ao meio, prendendo-o com durex. Depois dobrou as pontas em triângulo, primeiro a esquerda, depois a direita, e então o dispositivo seguiu na direção de Tom.
Tom cortou um pedaço de fita adesiva e a fez deslizar com cuidado sobre o topo do dispositivo, onde o papel deveria ser selado. Então, com pedaços menores, terminou de fixar a dobra da esquerda e depois a da direita. Depois ergueu o pesado dispositivo, deu meia-volta, seguiu por um corredor e colocou-o direitinho num suporte de parede, onde aguardaria por um dos empacotadores. Por fim retornou à mesa em que outro dispositivo já vinha em sua direção.
Era o pior trabalho em toda a fábrica e todo mundo sabia disso.
– Agora você vai trabalhar com o Ramon, Tom...
Brock se afastou. Não havia necessidade alguma de vigiá-lo: se Tom não executasse a função com propriedade, a linha de montagem inteira pararia.
Ninguém aguentava muito tempo como o segundo de Ramon.
– Sabia que você ia precisar do amarelão – disse Ramon com um sorriso.
Os dispositivos se moviam sem parar na direção deles. Tom cortava metros e mais metros de fita durex da máquina à sua frente. Era uma fita reluzente, grossa e pegajosa. Esforçava-se ao máximo para manter o acelerado ritmo de trabalho, mas, para acompanhar Ramon, algumas precauções tinham de ser eliminadas: a ponta cortante da máquina de durex acabava por provocar, ocasionalmente, cortes longos e profundos em suas mãos. Os cortes eram quase invisíveis e quase nunca sangravam, mas, ao olhar para seus dedos e suas palmas, podia ver as linhas brilhantes e vermelhas na pele. Não havia nenhuma pausa. Os dispositivos pareciam se mover cada vez mais rápido e a cada momento se tornavam mais e mais pesados.
– Caralho – disse Tom –, vou ter que desistir. Acho que até dormir no banco da praça é melhor.
– Claro – disse Ramon –, claro, qualquer coisa é melhor do que essa merda...
Ramon trabalhava com um sorriso fixo e insano no rosto, negando a impossibilidade daquilo tudo. E então a maquinaria parou, como ocorria de vez em quando.
Que dádiva dos deuses foi aquilo!
Alguma parte havia enguiçado, superaquecido. Sem esses colapsos das máquinas, muitos dos trabalhadores não aguentariam. Durante essas pausas de dois ou três minutos, eles conseguiam reorganizar seus sentidos e suas almas. Quase.
Os mecânicos lutavam com energia para encontrar a causa da falha.
Tom espichou os olhos para as garotas mexicanas que trabalhavam na linha de montagem. Para ele, elas eram todas lindas. Desperdiçavam o seu tempo, entregavam-se a uma vida tola e marcada pela rotina do trabalho, mas ainda assim mantinham alguma coisa em si, alguma coisa não identificável. Boa parte delas usava pequenas fitas nos cabelos: azuis, amarelas, verdes, vermelhas... E faziam piadas entre si e riam o tempo todo. Mostravam uma coragem enorme. Seus olhos conheciam alguma coisa da vida.
Mas os mecânicos eram bons, muito bons, e a maquinaria já voltava a funcionar. Os dispositivos de luz se moviam outra vez na direção de Tom e Ramon. Todos estavam de novo a soldo da Companhia Sunray.
E depois de certo tempo, Tom ficou tão cansado que há muito já não se poderia mais chamar cansaço o que sentia, era como estar bêbado, era como estar enlouquecendo, era como estar bêbado e louco de uma só vez.
Ao aplicar mais um pedaço de durex em um dispositivo de luz, ele gritou:
– SUNRAY!
Talvez tivesse sido o tom, talvez o momento do grito. Seja como for, todos começaram a rir, as mexicanas, os empacotadores, os mecânicos, mesmo o velho que se ocupava de lubrificar e conferir a maquinaria, todos riam. Loucura total.
Brock se aproximou.
– O que está acontecendo? – perguntou.
Ele ficou em silêncio.
Os dispositivos surgiam e partiam; os trabalhadores permaneciam.
Então, de alguma maneira, como despertar de um pesadelo, o dia terminou. Foram até o painel apanhar seus cartões, esperaram na fila para bater o relógio-ponto.
Tom bateu o ponto, colocou o cartão de volta no painel e seguiu na direção do seu carro. Deu a partida e ganhou a rua, pensando: “Espero que ninguém se atravesse no meu caminho, estou tão fraco que acho que não conseguiria nem pisar no freio”.
Tom dirigia com a gasolina no vermelho. Estava cansado demais para parar num posto de gasolina.
Deu um jeito de estacionar, chegou até a porta, abriu-a e entrou.
A primeira coisa que viu foi Helena, sua esposa. Vestia uma camisola suja e frouxa, estirada no sofá, a cabeça sobre um travesseiro. Sua boca estava aberta, ela roncava. Tinha uma boca bastante redonda, e seu ronco era uma mistura de cuspida e engasgo, como se não pudesse se decidir entre cuspir o que lhe restava de vida ou engoli-la.
Era uma mulher infeliz. Sentia que sua vida era incompleta.
Uma garrafa de meio litro de gim estava sobre a mesa de centro. Três quartos tinham sido consumidos.
Os dois filhos de Tom, Rob e Bob, de cinco e sete anos, batiam uma bolinha de tênis contra a parede. Era a parede do lado sul da casa, a que não tinha nenhum móvel. A parede uma vez fora branca, mas agora trazia as marcas da sujeira das infinitas rebatidas das bolinhas de tênis.
Os garotos não prestaram nenhuma atenção à chegada do pai. Haviam parado de jogar a bolinha contra a parede. Discutiam agora.
– EU ELIMINEI VOCÊ!
– NÃO, TEM QUE SER QUATRO BOLAS!
– TRÊS JÁ ESTÁ FORA!
– QUATRO!
– Ei, só um pouquinho – interveio Tom –, posso perguntar uma coisa pra vocês?
Os dois pararam e o encararam, quase ofendidos.
– É isso aí – disse Bob por fim. Ele era o garoto de sete anos.
– Como vocês conseguem jogar basebol batendo uma bolinha de tênis contra a parede?
Olharam para Tom, mas logo o ignoraram.
– TRÊS ESTÁ FORA!
– NÃO, SÓ NA BOLA QUATRO!
Tom seguiu até a cozinha. Havia uma panela branca no fogão. Uma fumaça negra se erguia de seu interior. Tom ergueu a tampa. O fundo estava enegrecido, com batatas, cenouras e pedaços de carne, tudo queimado. Tom fechou a panela e desligou o fogo.
Avançou até a geladeira. Havia uma latinha de cerveja ali. Pegou e abriu, tomou um gole.
O som da bolinha de tênis contra a parede recomeçou.
Em seguida um outro som: Helena. Ela havia trombado em alguma coisa. E agora estava ali, de pé na cozinha. Na mão direita segurava a garrafinha de gim.
– Você deve estar puto, não é?
– Só queria que você desse comida para as crianças...
– Você me deixa a porra de 3 dólares por dia. O que vou fazer com a porra de 3 dólares?
– Podia ao menos comprar papel higiênico. Toda vez que quero limpar a bunda, olho em volta e só tem um rolo vazio ali.
– Ei, uma mulher também tem os seus problemas! COMO VOCÊ ACHA QUE EU VIVO? Todo dia você sai pro mundo, você sai e vê como a vida é lá fora! Eu tenho que ficar sentada aqui! Não sabe o que é isso um dia depois do outro.
– Pois é, tem isso...
Helena tomou um gole de gim.
– Você sabe que eu te amo, Tommy, e que quando você está infeliz isso me machuca, machuca de verdade, aqui no peito.
– Tudo bem, Helena, vamos nos sentar aqui e manter a calma.
Tom foi até a mesa da cozinha e se sentou. Helena trouxe a garrafa consigo e ocupou um lugar na frente dele. Olhou-o.
– Por Deus, o que houve com as suas mãos?
– Trabalho novo. Tenho que descobrir uma maneira de proteger minhas mãos... Uma fita adesiva, luvas de borracha... alguma coisa...
Havia terminado sua latinha.
– Escute, Helena, tem mais desse gim por aí?
– Sim, acho que sim...
Observou-a seguir na direção do guarda-louça, esticar o braço e apanhar uma garrafa das de meio litro. Colocou-a sobre a mesa e se sentou. Tom retirou o lacre e a tampa.
– Quantas dessas você tem por aí?
– Algumas...
– Bom. Como se bebe esse negócio? Puro?
– É...
Tom tomou um bom gole. Depois olhou para as mãos, abrindo e fechando as duas, observando as feridas vermelhas que se expandiam e se contraíam. Eram fascinantes.
Pegou a garrafa, despejou um pouco de gim sobre uma das palmas e em seguida esfregou uma mão na outra.
– Ai! Essa porra arde!
Helena tomou outro gole de sua garrafa.
– Tom, por que você não arranja outro trabalho?
– Outro trabalho? Onde? Tem uns cem caras querendo o meu...
Então Rob e Bob entraram correndo. Detiveram-se junto à mesa.
– Ei – disse Bob –, quando a gente vai comer?
Tom olhou para Helena.
– Acho que tenho algumas salsichas – ela disse.
– Salsichas de novo? – perguntou Rob. – Salsichas de novo? Odeio essas salsichas!
Tom olhou para o filho.
– Ei, camarada, pega leve...
– Bem – disse Bob –, então que tal um gole dessa bebidinha de merda aí?
– Seu miserável! – gritou Helena.
Estendeu o braço e mandou um tapa, forte, de mão aberta, na orelha de Bob.
– Não bata nas crianças, Helena – disse Tom –, já tive o bastante disso quando era pequeno.
– Não me diga como educar os meus filhos!
– São meus também...
Bob estava ali de pé, parado. Sua orelha estava muito vermelha.
– Então você quer uma bebidinha, não é? – perguntou Tom.
Bob não respondeu.
– Venha cá – disse Tom.
Bob se aproximou de seu pai. Tom lhe estendeu a garrafa.
– Vamos lá, beba. Beba a porra da sua bebida.
– Tom, o que você está fazendo? – perguntou Helena.
– Vamos lá... beba – disse Tom.
Bob ergueu a garrafa de meio litro, tomou um gole. Devolveu-a e ficou ali parado. De repente começou a empalidecer, até mesmo sua orelha vermelha começou a ficar branca. Tossiu.
– Esse negócio é HORRÍVEL! É como beber perfume! Por que vocês bebem isso.
– Porque a gente é idiota. Porque vocês têm uns pais idiotas. Agora vá para o quarto e leve o seu irmão junto com você...
– A gente pode ver tevê lá? – perguntou Rob.
– Tudo bem, mas andem duma vez...
Os dois saíram.
– Só o que falta você transformar os meus filhos em bêbados! – disse Helena.
– Espero apenas que eles tenham mais sorte do que a gente na vida.
Helena tomou um gole de sua garrafa. Secou-a.
Ela se levantou, tirou a panela queimada do fogo e jogou a comida no lixo.
– Pra que fazer tanto barulho? Quem precisa dessa barulheira toda! – disse Tom.
Helena parecia chorar.
– Tom, o que a gente vai fazer?
Ligou a água quente e despejou na panela.
– Fazer? – perguntou Tom. – Do que você está falando?
– Desse nosso modo de vida!
– Não há muito que a gente possa fazer.
Helena raspou a comida grudada e despejou um pouco de sabão na panela, depois foi até o guarda-louça e sacou mais uma garrafa de meio litro de gim. Contornou a mesa e se sentou de frente para Tom, abrindo a garrafa.
– É preciso deixar a panela de molho por um tempo... Depois eu ponho as salsichas...
Tom bebia da sua garrafa, deixando a bebida assentar.
– Amor, você é uma bebum, uma gambá.
As lágrimas ainda estavam lá.
– Ah, sim, bem, quem você acha que me deixou assim? UMA CHANCE!
– Essa é fácil – respondeu Tom –, duas pessoas: você e eu.
Helena tomou o primeiro gole da nova garrafa. Com isso, de imediato, as lágrimas desapareceram. Riu de mansinho.
– Ei, tive uma ideia! Posso conseguir emprego como garçonete ou algo assim... Aí você poderia descansar um pouco, sabe... O que você acha?
Tom estendeu sua mão por sobre a mesa e tomou uma das mãos de Helena.
– Você é uma boa garota, mas vamos deixar tudo como está.
Então as lágrimas voltaram a brotar. Helena era boa com as lágrimas, principalmente quando bebia gim.
– Tommy, você ainda me ama?
– Claro, baby, você é maravilhosa quando está bem.
– Eu também te amo, Tom, você sabe disso...
– Claro, baby, o mesmo aqui!
Tom ergueu sua garrafa. Helena a dela.
Brindaram com as garrafas de gim em pleno ar, então cada um bebeu da sua.
No quarto, Rob e Bob mantinham o rádio ligado, a todo volume. Havia uma claque no programa e as pessoas da claque não paravam de gargalhar. Gargalhavam e gargalhavam e gargalhavam
e gargalhavam.
– Septuagenarian Stew
Miami foi o lugar mais distante ao qual conseguir chegar sem deixar o país. Levei Henry Miller comigo e tentei lê-lo ao longo do percurso. Ele era bom quando era bom, e vice-versa. Tomei uma garrafa de uísque. Depois outra e ainda outra. A viagem levou quatro dias e cinco noites. Fora uns amassos com uma jovem morena cujos pais não podiam mais lhe pagar a faculdade, nada de mais ocorreu. Ela deixou o ônibus no meio da noite em uma parte particularmente estéril e fria do país e desapareceu. Eu sempre tive insônia na estrada, e o único modo de dormir em um ônibus era enchendo completamente a cara. Mas não me arriscava a fazer isso. Quando chegamos ao destino, eu mal havia dormido ou cagado por cinco dias e mal conseguia caminhar. Era cedo da noite. A sensação de estar novamente caminhando pelas ruas era deliciosa.
QUARTOS PARA ALUGAR. Aproximei-me e toquei a campainha. Nessas circunstâncias, a atitude mais sábia era deixar a mala fora do alcance da visão da pessoa que abrisse a porta.
– Procuro um quarto. Quanto custa?
– US$ 6,50 por semana.
– Posso dar uma olhada?
– Claro.
Entrei e a segui pela escada. Devia ter uns 45, mas sua bunda balançava de um modo legal. Sempre que seguia essas mulheres escada acima, como agora, eu pensava que, se uma dessas senhoras se oferecesse para tomar conta de mim, oferecendo-me refeições quentes e roupas limpas para vestir, eu aceitaria.
Ela abriu a porta, e eu dei uma olhada no interior.
– Tudo bem – eu disse –, parece um bom lugar.
– Você tem emprego?
– Mais ou menos.
– Posso perguntar o que você faz?
– Sou escritor.
– Oh, você já escreveu livros?
– Oh, ainda não estou pronto pra escrever um romance. Por enquanto escrevo artigos, alguma coisa para revistas. Os textos não são grande coisa, mas estou melhorando.
– Tudo bem. Vou lhe dar uma chave e fazer um recibo.
Seguia-a novamente pela escada. O rabo não se movimentava com a mesma beleza descendo os degraus. Olhei sua nuca e me imaginei a beijá-la atrás das orelhas.
– Sou a sra. Adams – ela disse. – E você?
– Henry Chinaski.
Enquanto ela preenchia o recibo, eu escutava uns sons que lembravam o de uma madeira sendo serrada, vindos detrás de uma porta que ficava à nossa esquerda. O som de serragem era pontuado pelo ofegar de uma respiração penosa. Cada tomada de ar parecia ser a última, ainda que logo fosse sucedida por outra mais dolorosa.
– Meu marido está doente – disse a sra. Adams ao me passar o recibo e a chave. Sorriu. Seus olhos brilhantes tinham uma adorável cor de avelã. Dei meia-volta e segui pela escada.
Quando entrei no meu quarto, lembrei que havia deixado minha mala lá embaixo. Fui buscá-la. Ao passar pela porta da sra. Adams, os ofegos estavam muito mais altos. Levei minha mala escada acima, lancei-a sobre a cama, voltei a descer e ganhei a noite. Encontrei uma espécie de bulevar principal seguindo um pouco para o norte, entrei em uma mercearia e comprei um pote de manteiga de amendoim e um pão de sanduíche. Tinha uma faquinha de bolso e poderia assim espalhar a manteiga no pão e ter algo para comer.
Quando retornei à pensão, parei no saguão e fiquei com os ouvidos no sr. Adams, pensando, eis a Morte. Fui para o meu quarto, abri o pote de manteiga de amendoim e, enquanto escutava os sons do moribundo que vinham do térreo, mergulhei meus dedos fundo no vidro. Comi a pasta direto dos dedos. Estava uma delícia. Então abri o pão. Estava verde e úmido, exalando um cheiro azedo e forte. Como podiam vender um pão nesse estado? Que tipo de lugar era a Flórida? Joguei o pão no chão, tirei a roupa, apaguei as luzes, puxei as cobertas e me deitei no escuro, escutando.
Encontrei um emprego nos classificados do jornal. Fui contratado por uma loja de roupas, mas não em Miami, e sim em Miami Beach, e a cada manhã eu tinha que enfrentar uma travessia aquática junto com a minha ressaca. O ônibus corria por uma faixa muito estreita de cimento e ficava junto à água sem qualquer forma de guard-rail, nenhuma proteção. Só havia a pista. O motorista se recostava, e nós seguíamos sobre essa faixa estreita de cimento completamente cercada pela água, e todos a bordo, as vinte e cinco ou trinta pessoas, confiavam nele, mas eu jamais. Às vezes, era um motorista novo, e eu pensava, como eles selecionam esses filhos da puta? Havia água profunda nos dois lados, e um erro de julgamento mataria a todos nós. Isso era ridículo. Suponha que ele tenha brigado com sua mulher naquela manhã? Ou que tenha câncer? Ou que tenha visões de Deus? Um dente podre? Qualquer coisa. Seria o suficiente para ele. Lá estaríamos nós no fundo do mar. Sei que, se eu estivesse dirigindo, consideraria a possibilidade ou o desejo de afogar todo mundo. E algumas vezes, depois de ter feito essas consideração, a possibilidade passaria à ação. Para cada Joana d’Arc há um Hitler suspenso do outro lado da balança. A velha história do bem e do mal. Mas nenhum dos motoristas jamais nos lançou no mar. Por suas cabeças não passava mais do que prestações do carro, resultados do beisebol, cortes de cabelo, férias, enemas, visitas familiares. Não havia um homem de verdade entre toda aquela merda. Eu sempre chegava enjoado no trabalho, ainda que em segurança. O que demonstra porque Schumann é melhor termo de comparação que Shostakovich...
Fui contratado para o que eles chamavam de bola extra. O bola extra era o cara que fazia de tudo sem ter, ao mesmo tempo, nenhuma atividade específica. Ele devia saber o que fazer após consultar uma espécie profunda e infalível de sexto sentido. Instintivamente, esse cara devia saber como manter as coisas funcionando de modo natural, o que era melhor para a empresa, a Mãe de todos, e suprir-lhe todas as pequenas necessidades que eram irracionais, contínuas e insignificantes.
Um bom bola extra não tem face nem sexo e deve estar disposto a se sacrificar pela causa. Está sempre esperando junto à porta, antes mesmo do primeiro homem chegar. Logo deve lavar a calçada, cumprimentando cada pessoa pelo nome à medida que elas chegam, sempre trazendo no rosto um sorriso brilhante e encorajador. Reverente. Isso fará com que todos se sintam melhores antes que as engrenagens do moedor comecem a funcionar. Ele verifica se os papéis higiênicos estão em ordem, principalmente no banheiro feminino. Os cestos nunca devem estar cheios. As janelas não podem estar encardidas. Os pequenos reparos são prontamente feitos em mesas e cadeiras. Nada de portas que não abram facilmente. Os relógios sempre ajustados. Nenhum tapete enrugado. Jamais deixar uma mulher bem-alimentada e forte ficar sobrecarregada por um pacotinho qualquer.
Eu não era muito bom nisso. Minha ideia era vagar por aí sem fazer nada, evitando sempre cruzar com o chefe, além dos puxa-sacos que poderiam me denunciar. Eu não era tão esperto assim. Agia mais por instinto do que qualquer outra coisa. Sempre iniciava um trabalho com a sensação de que, assim que eu o terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranquilo, que era facilmente confundido com inteligência ou algum poder secreto.
Era um comércio de roupas autossuficiente e autoabastecido, combinando fábrica e venda no atacado. O mostruário, os produtos finalizados e os vendedores ficavam todos no primeiro andar, enquanto a fábrica funcionava no segundo. A fábrica era um labirinto de passarelas e passagens que nem mesmo os ratos conseguiam vencer, longas e estreitas galerias onde homens e mulheres trabalhavam sob lâmpadas de trinta watts, inclinados, movendo os pedais, costurando, sem jamais erguer os olhos ou trocar uma palavra, curvos e calados, trabalhando incessantemente.
Certa vez, em um de meus empregos em Nova York, eu tinha trabalhado transportando tecido para fábricas como essa. Eu seguia com o caminhão por uma rua congestionada, vencendo o tráfego, e então entrava em uma ruela atrás de um prédio encardido. Havia um elevador escuro, e eu tinha que puxar umas cordas por umas roldanas de madeira. Uma das cordas era para subir, a outra para descer. Não havia luz e, enquanto o elevador subia lentamente, eu ficava de olho nos números brancos sobre a parede nua, números que brotavam da escuridão – 3, 7, 9, rabiscados a giz por uma mão esquecida. Chegava ao meu andar, puxava outra corda com meus dedos e, usando toda a minha força, abria com esforço e devagar uma velha e pesada porta de metal, revelando filas e mais filas de velhas senhoras judias sentadas às suas máquinas, trabalhando nas pilhas de tecidos. A costureira número 1 na máquina 1, inclinada, cuidando do seu espaço. A garota número 2 na máquina 2, pronta para substituí-la se fosse necessário. Elas jamais erguiam os olhos ou tomavam consciência de minha presença.
Nessa mistura de fábrica e comércio em Miami Beach, não havia necessidade de entregas. Tudo estava à mão. No meu primeiro dia, andei entre o labirinto de máquinas de costura olhando para as pessoas. Diferentemente de Nova York, a maioria dos trabalhadores era formada de negros. Aproximei-me de um negro, bem pequeno – quase anão –, que tinha um rosto mais agradável que os outros. Ele fazia algum trabalho de acabamento, com uma agulha. Eu tinha uma garrafinha no bolso.
– Seu trabalho é de matar. Vai um trago?
– Claro – ele disse.
Tomou um bom gole. Então devolveu a garrafa. Ofereceu-me um cigarro.
– Você é novo na cidade.
– Sim.
– De onde veio?
– Los Angeles.
– Um astro de cinema.
– Sim, de férias.
– Não devia estar falando com um costureiro.
– Eu sei.
Ele ficou em silêncio. Parecia um pequeno macaquinho, um macaco velho e gracioso. Para os caras do andar debaixo, ele era realmente um macaco. Tomei um gole. Sentia-me bem. Observava-os trabalhar, todos quietos sob suas lâmpadas de trinta watts, suas mãos movendo-se delicadas e habilidosas.
– Me chamo Henry – eu disse.
– Brad – ele respondeu.
– Escute, Brad, fico muito, mas muito deprimido vendo vocês trabalharem. Que tal se eu cantar uma música pra vocês?
– Não.
– Esse seu trabalho aqui é pavoroso. Por que você segue com isso?
– Porra, não tenho escolha.
– O Senhor disse que há!
– Você acredita no Senhor?
– Não.
– No que você acredita?
– Em nada.
– Então estamos quites.
Falei com alguns dos outros empregados. Os homens eram de poucas palavras, algumas das mulheres riam de mim.
– Sou um espião – eu ria de volta. – Sou um espião da companhia. Estou de olho em todo mundo.
Tomei outro gole. Cantei a eles minha música favorita, “My heart is a Hobo”. Eles seguiram trabalhando. Ninguém tirou os olhos das roupas. Quando terminei, eles seguiam no labor. Por alguns instantes, houve silêncio. Então escutei uma voz:
– Olha só, branquelo, não venha mais aqui.
Decidi que o melhor era passar uma mangueira na calçada da frente.
Levou quatro dias e cinco noites para que o ônibus chegasse a Los Angeles. Como de costume, não consegui dormir ou defecar durante a viagem. Houve uma certa excitação quando uma loira enorme embarcou em algum lugar da Louisiana. Naquela noite ela começou a se vender por US$ 2, e todos os homens e uma das mulheres do ônibus se aproveitaram de sua generosidade, excetuados o motorista e eu. As transações comerciais se davam à noite na parte traseira do veículo. Ela se chamava Vera. Usava um batom púrpura e ria por qualquer motivo. Aproximou-se de mim durante uma rápida parada em uma cafeteria. Plantou-se atrás de mim e me perguntou:
– Qual é, se acha bom demais pra mim?
Não respondi.
– Veadinho.
Ao retornar para o lado de um dos seus fregueses, ouvi seus resmungos enojados...
Em Los Angeles, fiz uma ronda nos velhos bares da vizinhança à procura de Jan. Não obtive qualquer sucesso antes de encontrar Whitey Jackson, que estava trabalhando atrás do balcão no Pink Mule. Ele me disse que Jan estava trabalhando como camareira no Durham Hotel na Beverly com a Vermont. Fui até lá. Eu procurava pelo escritório da gerência quando ela saiu de um dos quartos. Estava com uma boa aparência, como se esse tempo longe de mim lhe tivesse feito bem. Então ela me viu. Não fez nada além de ficar onde estava, parada, apenas seus olhos foram ficando maiores e mais azuis. Até que ela disse:
– Hank!
Correu em minha direção e nos abraçamos. Beijou-me com loucura, que tentei retribuir.
– Por Deus – ela disse –, achei que nunca mais fosse ver você!
– Voltei.
– De vez?
– Minha cidade é L.A.
– Afaste-se um pouco – ela disse –, deixe-me ver você.
Dei um passo para trás, um sorriso aberto no rosto.
– Você está magro. Perdeu peso – Jan disse.
– Você está ótima. Está com alguém?
– Não.
– Não há ninguém mesmo?
– Ninguém. Você sabe que não suporto as pessoas.
– Estou feliz que você esteja trabalhando.
– Venha até o meu quarto – ela disse.
Fui atrás dela. O quarto era muito pequeno, mas tinha um quê de agradável. Você podia olhar o tráfego lá fora pela janela, ver o semáforo mudar de cor, o garoto vendendo jornal na esquina. Gostei do lugar. Jan se jogou na cama.
– Venha, deite aqui do meu lado – ela disse.
– Estou constrangido.
– Eu te amo, seu idiota, nós já trepamos umas 800 vezes, então relaxe.
Tirei meus sapatos e me estiquei na cama. Ela ergueu uma das pernas.
– Continua gostando do que vê?
– Claro que sim! Jan, você terminou seu serviço?
– Sim, com exceção do quarto do sr. Clark. E ele não liga muito pra isso. Ele sempre me dá gorjetas.
– Jan...
– Sim?
– A passagem de ônibus me deixou pelado. Preciso de um lugar pra ficar até arranjar um emprego.
– Posso esconder você aqui.
– Sério?
– Claro.
– Eu te amo, baby – eu disse.
– Cretino – ela respondeu.
Começamos a fazer amor. Estava uma delícia. Uma verdadeira e genuína delícia.
Depois que terminamos, Jan se levantou e abriu uma garrafa de vinho. Abri meu último maço de cigarros e sentamos na cama para beber e fumar.
– Você está todo lá – ela disse.
– Como assim?
– Digo, nunca conheci um homem como você.
– Ah, é?
– Os outros chegavam só uns dez ou vinte por cento lá, você está lá inteiro, você todo está bem lá, é tão diferente.
– Não sei do que você está falando.
– Você tem um gancho, você prende as mulheres.
Aquilo fez eu me sentir bem. Após terminarmos nossos cigarros, voltamos a fazer amor. Então Jan me mandou ir buscar mais uma garrafa. Retornei. Eu tinha que retornar.
Fui contratado de imediato por uma companhia de lâmpadas fluorescentes. Ficava na Alameda Street, na direção norte, em um agrupamento de armazéns. Eu trabalhava no balcão. Era uma verdadeira barbada, pois eu apanhava os pedidos em uma cesta, preenchia-os, embrulhava os conjuntos em papelão e os deixava no setor de expedição, cada conjunto etiquetado e com o endereço de entrega. Eu pesava os embrulhos, acrescentava o valor do transporte e ligava para a transportadora para que viesse apanhar as encomendas.
No primeiro dia em que eu estava lá, no turno da tarde, ouvi um estrondo atrás de mim, próximo à linha de montagem. As velhas caixas de madeira que continham as partes prontas corriam para longe da parede e se espatifavam no chão – metal e vidro atingindo em cheio o cimento do piso, explodindo, produzindo uma terrível barulheira. Os trabalhadores da linha de montagem correram para o outro lado do prédio. Então tudo ficou em silêncio. O chefe, Mannie Feldman, saiu de seu escritório.
– Que diabos está acontecendo aqui?
Ninguém respondeu.
– Certo, desliguem a linha de montagem! Vocês todos, peguem pregos e martelo e deem um jeito nessas caixas de madeira!
O sr. Feldman retornou para o seu escritório. Não havia nada que eu pudesse fazer além de me apresentar para ajudá-los. Nenhum de nós era carpinteiro. Foi preciso toda a tarde e mais da metade da manhã seguinte para que conseguíssemos pregar todas as caixas. Ao terminarmos, o sr. Feldman saiu de seu escritório.
– Então, conseguiram? Muito bem, agora me escutem: quero as 939 em cima, as 820 logo abaixo, os lanternins e vidros nas caixas mais de baixo, entenderam? Será que há alguém aqui que pode não ter entendido o que é pra fazer?
Não houve nenhuma resposta. As 939 eram as caixas mais pesadas – extremamente pesadas – e ele as queria por cima. Ele era o chefe. Fizemos o que ele mandou. Colocamos as 939 no topo, todo aquele peso, e deixamos as mais leves por baixo. Então retornamos ao trabalho. As caixas resistiram o resto do dia e da noite seguinte. Pela manhã, começamos a ouvir uns rangidos. Eram as caixas cedendo. Os trabalhadores da linha de montagem começaram a se afastar, não contendo as gargalhadas. Cerca de dez minutos antes do intervalo da manhã, todas as caixas desabaram. O sr. Feldman veio correndo de seu escritório:
– Mas que diabos está acontecendo aqui?
Feldman tentava receber seu seguro e decretar falência ao mesmo tempo. Na manhã seguinte, um homem de aspecto muito digno veio da parte do Banco da América. Ele nos disse para não montarmos mais nenhuma caixa. “Apenas recolham essa merda do chão”, foi o modo como colocou a questão. Ele se chamava Jennings, Curtis Jennings. Feldman devia ao Banco da América um caminhão de dinheiro, e agora eles o queriam de volta, antes que o negócio falisse. Jennings assumiu o controle da companhia. Estava sempre circulando, observando o trabalho de todos. Mergulhou fundo nos livros-caixa de Feldman; verificou as trancas e as janelas e a cerca de segurança em torno ao estacionamento. Veio até mim:
– Não use mais a transportadora Sieberling. Foram roubados quatro vezes ao transportarem um de nossos carregamentos entre o Arizona e o Novo México. Alguma razão em especial pra você estar trabalhando com esse pessoal?
– Não, nenhuma razão.
O representante da Sieberling me passava dez centavos por baixo dos panos a cada duzentos quilos em mercadorias despachadas.
Em três dias, Jennings demitiu um homem que trabalhava no escritório principal e o substituiu por três jovens mexicanas cheias de disposição para trabalhar por metade do que o outro ganhava. Demitiu também o homem da limpeza e, além de ter que despachar as mercadorias, incluiu em meu trabalho a função de motorista da empresa para entregas locais.
Assim que recebi meu primeiro contracheque, me mudei do quartinho de Jan para um apartamento só meu. Ao chegar certa noite, ela havia se mudado para lá. Ora, foda-se, eu lhe disse, minha terra é sua terra. Pouco tempo depois, tivemos nossa pior briga. Ela foi embora, e eu fiquei bêbado por três dias e três noites. Assim que recuperei a sobriedade, soube que meu trabalho já era. Nunca voltei lá. Decidi limpar o apartamento. Aspirei o chão, escovei as esquadrias das janelas, esfreguei a banheira e a pia, encerei o chão da cozinha, matei todas as aranhas e baratas, esvaziei e lavei os cinzeiros, lavei os pratos, areei a pia da cozinha, estendi toalhas limpas e coloquei um novo rolo de papel higiênico no banheiro. Devia ser a veadagem chegando, pensei.
Quando Jan finalmente voltou para casa – uma semana depois –, acusou-me de ter trazido uma mulher aqui, pois tudo parecia limpo demais. Ela aparentava uma fúria imensa, que não passava, obviamente, de disfarce para sua própria culpabilidade. Eu não conseguia entender por que não me livrava dela. Era uma adúltera compulsiva – ia com qualquer um que conhecesse num bar e, quanto mais baixo e imundo fosse, mais ela gostava. Usava continuamente nossas brigas para se justificar. No íntimo, eu seguia me dizendo que todas as mulheres do mundo não eram putas, somente a minha.
– Factótum
Trapos, Garrafas, Sacos
lembro
na minha infância do som
de:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
foi durante a
Depressão
e você podia ouvir as
vozes
muito antes de avistar a
velha carroça
e o
velho
pangaré.
então você ouvia os
cascos
clop, clop, clop...
e então você avistava
o cavalo e a
carroça
e isso sempre parecia ocorrer
no dia
mais quente do
verão:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
oh
aquele cavalo estava tão
cansado...
fios de saliva
branca
babando
sempre que o freio se enterrava
em sua
boca
ele puxava uma carga
intolerável
de
trapos, garrafas, sacos
vi seus olhos
imensos
em agonia
suas costelas
expostas
as moscas gordas
circulavam e pousavam sobre
falhas em seu
couro.
às vezes
um de nossos pais
gritava:
“Ei! Por que você não
alimenta esse cavalo, seu
merda!”
a resposta do homem era
sempre a
mesma:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
o homem era
inacreditavelmente
sujo, barba por
fazer, vestindo um chapéu
de feltro manchado e
roto
ele
se sentava sobre
uma enorme pilha de
sacos
e
vez ou
outra
quando o cavalo parecia
vacilar
um passo
este homem
sentava-lhe
o longo chicote...
o som era como o
disparo de um rifle
uma falange de moscas
se erguia
e o cavalo se
lançava para frente
renovado
os cascos resvalando e
escorregando no asfalto
quente
e então
tudo o que podíamos
ver
era a parte de trás da
carroça
e
o enorme monte de
trapos e garrafas
cobertos pelos
sacos
marrons
e
mais uma vez
a voz:
“TRAPOS! GARRAFAS! SACOS!”
ele foi
o primeiro homem
que tive vontade de
matar
e
desde então
não houve
mais nenhum.
As lutas seguiam de maneira ininterrupta. Os professores pareciam não saber nada a respeito. E sempre tinha problema quando chovia. Qualquer garoto que trouxesse um guarda-chuva ou viesse com uma capa de chuva era discriminado. Nossos pais, em sua maioria, eram pobres demais para comprar esse tipo de coisa. E caso o fizessem, tratávamos de esconder bem os objetos entre os arbustos. Qualquer um que fosse visto carregando um guarda-chuva ou vestindo uma capa de chuva era tido imediatamente por maricas. Era espancado na saída. A mãe de David fazia com que ele carregasse um guarda-chuva mesmo que o dia estivesse apenas um pouco nublado.
Havia dois períodos de recreio. Os alunos das primeiras séries se reuniam em torno de sua própria quadra de beisebol e escolhiam os times. Eu e David permanecíamos juntos. Era sempre assim. Eu era o penúltimo a ser escolhido, e David, o último. Assim, sempre jogávamos em times diferentes. David conseguia ser pior do que eu. Com seus olhos oblíquos, sequer conseguia ver a bola. No meu caso era falta de prática. Eu nunca jogara com as crianças da vizinhança. Eu não sabia como pegar uma bola ou como rebater. Mas eu queria aprender, era divertido. David tinha medo da bola, eu não. Eu movimentava o bastão com força, com mais força do que qualquer um, mas nunca acertava a bola. Eu sempre era eliminado[2]. Uma vez rebati uma bola. Aquilo foi bom. Noutra vez, iniciei uma corrida. Quando cheguei à primeira base, o primeiro basista disse:
– Essa é a única maneira de você chegar até aqui.
Parei e o fitei. Ele mascava um chiclete e longos pelos negros saíam de suas narinas. Seu cabelo estava empapado com vaselina. Sempre tinha um sorrisinho de escárnio nos lábios.
– Está me achando bonito? – ele perguntou.
Não sabia o que responder. Eu não estava acostumado a conversar.
– Os caras dizem que você é louco – ele falou –, mas em mim você não mete medo. Dia desses pego você na saída.
Continuei olhando para ele. Seu rosto era horrível. Então o arremessador jogou a bola, e eu corri para a segunda base. Corri como um louco e deslizei em direção à segunda. A bola chegou depois. Eu estava salvo.
– Você está fora! – gritou o garoto que servia de árbitro.
Levantei-me, sem acreditar.
– Eu disse: VOCÊ ESTÁ FORA! – gritou o árbitro.
Então eu soube que não seria aceito. David e eu não seríamos aceitos. Os outros queriam que eu recebesse o “fora” porque ali não era meu lugar, porque eu devia mesmo ficar de “fora”. Eles sabiam da minha amizade com David. Era por causa dele que eu não era aceito. Enquanto me afastava da quadra, pude ver David na terceira base com suas calças curtas. Suas meias azuis e amarelas estavam arriadas e caíam sobre seus sapatos. Por que ele tinha me escolhido? Eu era um homem marcado. Naquela tarde depois da escola eu caminhei apressado para casa, logo que a aula terminou, sem esperar por David. Não queria vê-lo apanhar novamente dos nossos colegas ou da sua mãe. Não queria ouvir o seu triste violino. Mas no dia seguinte, na hora do almoço, quando ele se sentou comigo, comi suas batatas fritas.
Meu dia chegou. Eu era alto e me sentia poderoso sobre a base. Não conseguia acreditar que eu jogasse tão mal quanto eles queriam me fazer crer. Girei meu bastão de modo desordenado, mas com muita força. Eu sabia que era forte e talvez, como eles mesmos diziam, “louco”. No entanto, tinha essa sensação de que havia algo verdadeiro acontecendo aqui dentro. Talvez fosse a merda endurecida, mas era mais do que qualquer um deles tinha. Eu estava a postos.
– Ei, é o REI DOS REBATEDORES! SR. CATA-VENTO!
A bola chegou. Girei e me senti ligado ao bastão como há muito tempo eu esperava que acontecesse. A bola subiu, subiu às alturas, em direção ao campo da esquerda, passando por sobre a cabeça do jogador que estava à esquerda. Seu nome era Don Brubaker, e ele ficou parado vendo a bola passar por sobre sua cabeça. Parecia que ela nunca mais voltaria a tocar a terra. Então Brubaker começou a correr atrás da bola. Ele queria me eliminar. Jamais conseguiu fazê-lo. A bola aterrissou e rolou para uma outra quadra onde jogavam os garotos da quinta série. Corri lentamente para a primeira base, bati no montinho, olhei para o cara que estava ali posicionado, avancei devagar até a segunda, toquei-a, corri até a terceira onde estava David, ignorei-o, bati na terceira e segui para a base final. Nunca houve dia igual. Nunca alguém da primeira série tinha feito um home run! Ao chegar de volta à posição inicial, ouvi um dos jogadores, Irving Bone, dizer ao capitão do time, Stanley Greenberg:
– Vamos colocá-lo no time titular. (O time titular enfrentava os times de outras escolas.)
– Não – disse Stanley Greenberg.
E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha às mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de ódio, um ódio que já não tinha um porquê.
A temporada de futebol americano foi pior. Jogávamos um futebol de toque[3]. Não me era permitido agarrar ou lançar a bola, mas mesmo assim entrei no jogo. Quando o corredor passou na minha frente, agarrei-o pelo colarinho e o joguei no chão. Quando começou a se levantar, o enchi de chutes. Não gostava dele. Era o cara da primeira base, o de vaselina no cabelo e pelos que saíam do nariz. Stanley Greenberg chegou. Ele era maior do que qualquer um de nós. Poderia ter me matado, se quisesse. Era nosso líder. A palavra final era sua. Ele me falou:
– Você não entende as regras. Basta de futebol pra você.
Fui encaminhado para o voleibol. Jogava com David e com os outros. Era uma chatice. Meus parceiros gritavam e urravam e ficavam eufóricos, mas os outros estavam jogando futebol. Eu queria jogar futebol. Só precisava de um pouco de prática. O voleibol era vergonhoso. Meninas jogavam voleibol. Depois de um certo tempo, eu já não jogava mais nada. Ficava apenas parado no meio do pátio onde ninguém estava jogando. Eu era o único que não praticava nenhum esporte. Eu ficava plantado lá, todos os dias, esperando os dois recreios passarem.
Um dia, quando eu estava ali parado, mais problemas apareceram. Uma bola de futebol me pegou desprevenido, atingindo em cheio a minha cabeça. O impacto me nocauteou. Fiquei bastante tonto. Eles se postaram ao meu redor, rindo e fazendo barulhos.
– Oh, vejam, Henry desmaiou! Henry desmaiou como uma donzelinha! Oh, vejam o Henry!
Levantei-me com o sol a girar. Então ele parou. O céu se aproximou e voltou para seu lugar. Era como estar numa jaula. Eles estavam ao meu redor, faces, narizes, bocas e olhos. Como estavam tirando um sarro da minha cara, concluí que tinham me atingido deliberadamente com a bola. Não era justo.
– Quem chutou a bola? – perguntei.
– Quer mesmo saber?
– Sim.
– O que vai fazer quando descobrir?
Fiquei quieto.
– Foi Billy Sherril – alguém disse.
Billy era um garoto gordo, enorme, mais simpático do que a maioria, mas nem por isso deixava de ser um deles. Segui na direção de Billy. Ele ficou parado no mesmo lugar. Quando me aproximei, ele se esquivou. Eu quase não percebi. Acertei-o na orelha esquerda, e quando ele colocou a mão sobre ela, lhe dei um golpe no estômago. Ele caiu no chão. E ali ficou.
– Levante e lute com ele, Billy – disse Stanley Greenberg.
Stanley ergueu Billy e o empurrou em minha direção. Dei-lhe um soco na boca, e ele a cobriu com as duas mãos.
– Certo – disse Stanley –, vou tomar o lugar dele!
Os garotos aplaudiram. Decidi correr, ainda não era minha hora de passar dessa para melhor. Mas então um professor apareceu.
– O que está acontecendo aqui?
Era o sr. Hall.
– Henry bateu no Billy – disse Stanley Greenberg.
– Foi isso mesmo, garotos? – perguntou o sr. Hall.
– Sim – responderam.
O sr. Hall me puxou pela orelha por todo o caminho até a sala do diretor. Forçou-me a sentar numa cadeira em frente a uma mesa vazia e então bateu à porta do diretor. Ficou lá dentro por um tempo considerável e então saiu sem olhar para mim. Fiquei ali sentado por uns cinco ou dez minutos antes que o diretor saísse e fosse ocupar o lado da mesa que estava vazio. Tratava-se de um homem com um aspecto bastante digno, com vastos cabelos grisalhos e uma gravata azul com um belo nó. Parecia um verdadeiro cavalheiro. Seu nome era sr. Knox. O sr. Knox cruzou os dedos e ficou me olhando, sem dizer nada. Quando começou a falar, porém, já não tive tanta certeza de sua cortesia. Seu objetivo parecia ser me humilhar, me tratar como os outros.
– Bem – ele disse por fim –, me conte o que aconteceu.
– Não aconteceu nada.
– Você machucou aquele garoto, Billy Sherril. Os pais dele vão querer saber por quê.
Não respondi.
– Acha que pode resolver seus problemas no braço quando acontece alguma coisa que não o agrada?
– Não.
– Então, por que fez isso?
Novamente me calei.
– Você se acha melhor do que as outras pessoas?
– Não.
O sr. Knox continuou sentado em seu lugar. Tinha um abridor de cartas muito comprido, que ele fazia rolar para lá e para cá sobre o feltro verde que cobria a mesa. Tinha também um enorme tinteiro verde e um porta-canetas com quatro delas dentro. Eu me perguntava se ele iria me bater.
– Diga logo: por que você fez isso?
Não respondi. O sr. Knox continuava movendo o abridor para lá e para cá. O telefone tocou. Ele atendeu.
– Alô? Oh, sra. Kirby? Ele o quê? Quê? Escute, será que a senhora não poderia lhe aplicar um castigo? Estou ocupado no momento. Está certo, eu lhe telefono assim que encerrar a questão com esse aqui...
Ele desligou. Com uma das mãos ele afastou uma mecha do seu belo cabelo branco que lhe caía sobre os olhos e me encarou.
– Por que você está me causando todo esse problema?
Não respondi.
– Você se acha durão, né?
Continuei em silêncio.
– Um garoto durão, né?
Uma mosca voava em círculos ao redor da mesa do sr. Knox. Começou a pairar sobre o tinteiro verde. Então ela pousou sobre a tampa negra do tinteiro e ficou ali sentada, esfregando as asas.
– Certo, garoto, você é durão, e eu sou durão. Vamos selar essa descoberta com um aperto de mãos.
Não me considerava um cara durão; por isso, recusei.
– Vamos, me dê sua mão.
Estendi minha mão e ele começou a balançá-la. Então ele parou o movimento e me encarou. Ele tinha olhos de um azul cristalino, ainda mais claros do que o azul da sua gravata. Seus olhos eram quase bonitos. Continuava me encarando e segurando minha mão. Seu aperto começou a ficar mais forte.
– Quero cumprimentá-lo por ser um cara durão.
Estreitou ainda mais o aperto.
– Acha que eu sou um cara durão?
Não respondi.
Esmagou os ossos dos meus dedos. Podia sentir os ossos de cada um dos dedos cortando a carne do dedo seguinte como uma lâmina afiada. Manchas vermelhas me turvaram a visão.
– E agora, me acha um cara durão? – ele perguntou.
– Vou matar você – eu disse.
– Vai o quê?
O sr. Knox apertou ainda mais sua pegada. Sua mão parecia um torno. Eu podia ver cada poro em seu rosto.
– Caras durões não gritam, não é?
Apertou até o limite. Tive que gritar, mas o fiz do modo mais silencioso possível, assim ninguém nas salas de aula poderia me ouvir.
– E agora, sou um cara durão?
Esperei. Era odioso dizer isso. Mas, afinal, deixei escapar:
– Sim.
O sr. Knox soltou minha mão. Tive medo de olhar para ela. Deixei que ela caísse ao lado de meu corpo. Percebi que a mosca tinha ido embora e não pude deixar de pensar que não era tão ruim ser uma mosca. O sr. Knox escrevia num pedaço de papel.
– Agora, Henry, estou escrevendo um bilhete para os seus pais e você vai entregá-lo. Vai entregar direitinho para eles, não vai?
– Sim.
Ele colocou o bilhete dentro de um envelope e me entregou. O envelope estava selado, e eu não tinha nenhum desejo de abri-lo.
– Misto-quente
Consumação do Pesar
ainda escuto as montanhas
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na água
os peixes lamentam
e toda a água
é fruto de suas lágrimas.
escuto as águas
nas noites de bebedeira
e a tristeza é tanta que posso
ouvi-la em meu relógio
transforma-se nos puxadores da minha cômoda
transforma-se no papel sobre o chão
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho só de amor não é tão mal assim
ou um pouquinho só de vida
o que realmente importa
é esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mãe gritou ao abrir a porta.
– Filho, é você, filho?
– Preciso dormir um pouco.
– Sua cama está sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
– Seu pai está em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
– Escute – ele disse –, se você quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando você arranjar um trabalho, o que você nos deve será subtraído de seu salário até que sua dívida conosco esteja encerrada.
Comemos em silêncio.
Minha dívida com quarto, comida, roupa lavada etc. já estava tão alta que foram precisos vários salários para liquidá-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu não tinha condições de pagar os preços praticados lá em casa. Encontrei uma pensão próxima ao trabalho. Fazer a mudança não era difícil. Minhas coisas não enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparência, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhã, e disse que me daria um copo de uísque se eu fosse lá fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missão, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda já entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
– Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. Você está sempre escutando boa música. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
– Tenho pernas legais.
– Sou vidrado em pernas.
– Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flácidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua história.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
– Ele me dá dinheiro. Vou até a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores não me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele não quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rádio. Alto.
– Sou uma ótima dançarina – ela disse. – Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glúteo direito. Então a bata já era, e ela ficou só de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chão, e ela seguiu com o número. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que não parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca já aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua língua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrá-la para longe. Ela se pôs de joelhos, baixou meu zíper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pé no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mãos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rádio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastá-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
– NÃO! – gritei.
Ela prosseguiu com uma fúria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fúria mesclava-se à loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
– Martha! Chega! Acabou!
Ela não iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
– NÃO! – gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
“When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…”[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessário para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dólares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uísque dentro da mala que levei comigo no ônibus. Toda vez que alguém sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lá.
A rodoviária de Nova York ficava próxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saíam em grandes enxames das estações do metrô. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terríveis.
Busquei refúgio no vão de uma porta e terminei a última das garrafas.
Então segui em frente, empurrando, acotovelando, até avistar um sinal de “há vagas” na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
– Preciso de um quarto – disse-lhe.
– Precisa de um bom terno, meu garoto.
– Estou falido.
– É um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
– Herman, mostre o terno ao garoto.
– Ah, é um ótimo terno.
Herman o trouxe lá de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
– Parece muito pequeno.
– Não, não, vai servir direitinho.
Saiu de trás do balcão com o terno.
– Aqui. Experimente o paletó.
Herman me ajudou a vesti-lo.
– Viu só? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
– Parece bem.
– Dez dólares.
– Estou falido.
– Sete dólares.
Dei a Herman os sete dólares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrépito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nível da minha janela. Havia uma estação do metrô ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, então, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visão do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridão, depois luz; luz, depois escuridão. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visão. Eu era visitado por centenas de demônios que o diabo em pessoa não podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armário. Vesti o paletó. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletó abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botões na frente em vez de zíper. Ao tentar abotoá-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mão atrás e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o único cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
– Sinto muito, senhor, não podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
– O senhor está bêbado.
Era possível que estivesse embriagado, mas eu não bebia uma gota de álcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
– Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
– Ah? Faculdade?
– Não exatamente.
– Estamos no ramo da publicidade.
– É?
– Não está interessado?
– Bem, veja você, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. Não conseguia vender o material.
– Chegam aqui vários desses.
– Também não gosto dos tipos.
– Alegre-se. Talvez você fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrô.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrô, onde os vagões estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pôsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagões estacionados.
– Veja como eu faço – disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pôsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. Então é assim que esses negócios vão parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pôster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pôster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
– Há besouros por toda Nova York – disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
– É mesmo?
– Sim. Você é novo em Nova York?
– Sim.
– Não sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
– Não.
– Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, “Não, baby, não vai rolar”.
– É?
– É. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque é preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
– Ela lhe deu as cinco pratas?
– Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbell’s de cogumelo.
Seguimos com o trabalho até chegarmos ao fim do vagão. Os dois homens saíram pela traseira e caminharam em direção ao próximo carro do metrô, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distância. Estávamos a uns bons dez metros acima do chão, com nada além dos trilhos para caminhar. Vi que não seria nada difícil para um corpo passar por entre os vãos e cair lá embaixo.
Saí do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pôsteres na outra. Um metrô cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veículo se foi, deixando-me na escuridão total. Não conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lá do outro vagão:
– Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
– Esperem! Não vejo nada!
– Não temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pôsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
– Qual é o problema?
– Não sei.
– O que é?
– Um homem pode morrer nesse negócio.
– Ninguém nunca caiu.
– Senti que podia ser o primeiro.
– Tudo está na cabeça.
– Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
– Há uma escada para aqueles lados. Mas você terá que cruzar várias vias, além de cuidar os trens em movimento.
– Sim.
– E não pise no terceiro trilho.
– O que é isso?
– É o condutor de força. É um trilho dourado. Parece feito de ouro. Você vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
Então cheguei à escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
– Factótum