Poema Para Minha Filha
(me falam que sou agora um
cidadão responsável, e através de sol grudado em setentrionais
janelas de pó
camélias vermelhas são flores chorando enquanto
bebês ficam chorando.)
eu pego com a
colher: janta de macarrão de frango escorrido
miniameixas secas
minissobremesa de fruta
pego com a colher e
pelo amor de Deus
não culpe a
criança
não culpe o
gov.
não culpe os chefes ou as
classes trabalhadoras –
enfio com a colher
por estes braços e peito
como cera
eletrocutada
um amigo liga:
“Vai fazê o quê agora, Hank?”
“Que diabo você quer dizer com vou fazê o quê?”
“Quero dizê cê tem responsabilidade, cê precisa criar
a menina
direito.”
alimentá-la:
enfiar com a
colher:
uma casa em Beverly Hills
e nenhuma necessidade de seguro-desemprego
e nunca vender a quem dá o maior
lance
nunca se apaixonar por um soldado ou matador de qualquer
tipo
gostar de Beethoven e Jellyroll Morton e
vestidos de pechincha
ela tem uma
chance:
houve outrora o
Fundo Theorikon e hoje existe a
Grande Sociedade
“Cê vai continuar jogando nos cavalos? cê vai continuar
bebendo? cê vai continuar...”
“sim.”
telefone, flor ondulante no vento e os ossos mortos do
meu coração –
agora ela dorme lindamente como
barcos no Nilo
talvez um dia ela vá
me enterrar
isso seria muito bom
se não fosse uma
responsabilidade.
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
Metendo Até As Bolas
metendo até as bolas
metendo como o burro
metendo como o boi
metendo metendo metendo
metendo como os pombos
metendo como os porcos
como alguém se torna uma flor
polinizada pelos ventos e pelas abelhas?
metendo até as bolas à meia-noite
metendo às quatro da manhã
metendo na terça-feira
metendo na quarta-feira
metendo como um maldito touro
metendo como um submarino
metendo como uma bala puxa-puxa
metendo como a cavidade sem sentido da perdição
metendo metendo metendo,
eu mergulho meu chicote branco
sentindo os olhos dela se revirarem em glória,
ó bolas, ó trombeta e bolas
ó chicote branco e bolas, ó
bolas,
eu poderia ficar metendo até as bolas pra sempre
por cima
por baixo
de lado
bêbado sóbrio triste feliz irritado
metendo até as bolas,
uma intensidade de mistura:
2 almas grudadas
jorrando...
meter torna tudo melhor.
os que não metem não sabem.
os que não podem meter são semimortos.
os que não conseguem encontrar alguém para meter estão no inferno.
eu durmo com as minhas bolas na mão para que ninguém as roube.
que o ar todo esteja limpo com flores e árvores e touros.
que parte da justiça de como vivemos nossas vidas seja a canção do corpo.
que cada uma de nossas mortes e semimortes seja tão tranquila quanto
possível agora.
enquanto isso, ó bolas, ó bolas, ó belas, ó belas bolas, bolas
belas, ó bolas metidas bolas ó metidas bolas minhas e
suas e deles e nossas para todo o sempre
esta noite e terça-feira quarta-feira da sepultura em lágrimas, eu amo
vocês
mulheres, eu amo vocês.
O Amor É Uma Forma de Egoísmo
vadiagem, a trompa de eustáquio e a hera verde insetomorta
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
O Amor É Uma Folha de Papel Rasgada Em Pedaços
toda a cerveja estava envenenada e o cap. soçobrou
e o imediato e o cozinheiro
e não tínhamos ninguém pra manejar as velas
e o noroeste dilacerou os panos como unhas
e nós arfávamos que era uma loucura
o casco se rasgando nas laterais
e o tempo todo no canto
um merda qualquer comia uma cadela bêbada (minha esposa)
e socava tranquilo
como se nada estivesse acontecendo
e o gato não parava de olhar para mim
e de rastejar na despensa
em meio aos pratos estrepitosos
com flores e videiras pintadas neles
até que não aguentei mais
e peguei a coisa
e a lancei
pela
borda.
Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão
tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?
ACORDO BEM A TEMPO
Posso Ouvir o Som Das Vidas Humanas Sendo Rasgadas Em Pedaços
estranho calor, fêmeas quentes e frias,
eu faço amor gostoso, mas amor não é só
sexo, e as mulheres que conheci são na maioria
muito ambiciosas, e eu gosto de ficar atirado
sobre grandes travesseiros sobre colchões às 3
da tarde, gosto de olhar o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo exterior
se mantém afastado de mim, conheço isso muito bem, todas
as páginas sujas, e eu gosto de ficar atirado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo fluindo bem:
nectarinas, luvas de boxe usadas, livros de história da
Guerra da Crimeia;
é tão tranquilo ficar tranquilo – se você gostar, nada mais
é necessário.
mas a fêmea é estranha, ela é muito
ambiciosa – “Merda! Não posso dormir o dia todo!
Comer! Fazer amor! Dormir! Comer! Fazer amor!”
“Minha querida”, eu lhe digo, “há homens lá fora agora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres morrendo embaixo do sol,
há homens e mulheres morrendo em fábricas
por nada, uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não sabe a sorte
que temos...”
“Mas você chegou lá”, ela diz,
“os seus poemas...”
meu amor se levanta da cama.
eu a escuto na sala ao lado.
a máquina de escrever está funcionando.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm algo a ver com
criação.
creio que em assuntos como política, medicina,
história e religião
todos acreditaram em mentiras
também.
eu me deito de bruços e pego no sono com minha
bunda voltada para o teto.
Uma Definição
o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
Visita a Venice
nós fomos dar uma caminhada ao longo da praia em Venice
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados
se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.