Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

A Coisa

bem longe dentro da noite do azulão
está uma coisa poderosa que poderia nos salvar:
lá embaixo da ponte ela repousa
metendo fósforos embaixo das unhas,
depois os acendendo;
ela tem lábios iguais aos do meu pai
os olhos de um macaco assustado
e em suas costas
5 selos de correio estão colados
aleatoriamente;
essa coisa sabe falar mas não fala,
pode correr mas prefere ficar sentada,
pode cantar mas acha melhor grunhir;
ela intimida formigas, aspira besouros
para dentro do nariz;
ela chora, ri, peida;
às vezes de noite ela
se aproxima da nossa cama e arranca um
pelo de uma das nossas orelhas;
deleita-se na estupidez essencial,
não sabe dar nó;
recorda coisas esquisitas como
cascas de banana onduladas e secas
caídas de latas de lixo;
é tímida por covardia
e valente apenas em rápidos lampejos;
não sabe dirigir um carro
nem
nadar
multiplicar
somar ou
dividir;
cheira os dedos dos pés
sonha com pipoca e sapos-de-vidro;
poderia nos salvar mas não salva;
não quer saber de nós;
um dia invadirá o sol;
mas agora ficamos em nossos quartos esperando,
paramos em semáforos esperando,
fazemos sexo esperando,
não fazemos sexo esperando.
ela ri quando choramos,
ela chora quando rimos;
ela espera conosco.
1 042

Porq Tud Se Sgota

abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 050

Vá Para a Tumba Limpinho –

ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa

até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum

você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria

aprenda

e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe

a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda

ninguém se importa
aprenda

a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata

ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos

pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém

ninguém se importa.
720

Canção de Amor

eu comi a sua xota como um pêssego,
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
1 249

Venice, Calif., Nov. 1977:

leary se foi faz tempo e a área dos desajustados que ele criou:
os drogados, os doidos, os fanáticos, o afluxo
de idiotas em geral há muito foi corrigido pelas
instituições, incluindo a instituição da morte.
lsd está quase fora, anfetamina é padrão, barbitúricos são raros,
baseados não são valentes, cocaína e H são caras demais,
patins e raquetebol estão na moda; menos violões,
menos bongôs, menos negros; os nativos agora mascateiam bagagem
e pequenas mercadorias em vans enquanto seus estéreos
já não tocam Bob Dylan, eles viraram pequenos
capitalistas, nada exaustivo, só uma febre, e a
bicicleta de dez marchas, eles pedalam a bicicleta de dez marchas como
no sonho, todas as revoluções acabaram mas resta
um ou outro anarquista sob as palmeiras, calcando seus
cachimbos e planejando explodir qualquer coisa em absoluto por
nenhuma razão em absoluto e o mar vem e vai, vai e vem,
e em Santa Monica os musculosos continuam lá,
embora não sejam os mesmos musculosos, e o mar
vem e vai, e não há Vietnã para protestar, praticamente
nada pra fazer, raquetebol, patins e dez marchas,
e trepar é quase uma chatice, dá problema, sabe,
e vinho barato está na moda, e você pode lavar o carro no
faça-você-mesmo por vinte e cinco centavos.
1 025

Clones

ele me contou, emprestei 200 para um
cara.
aí ele sumiu.
fiquei sabendo que estava na Europa.
resolvi esquecer o
assunto: o dinheiro estava
perdido.

não adianta perder seu maldito
sono, falei.

de todo modo, ele continuou, eu estava
no clube do hipódromo noite dessas
na corrida de arreios.
eu estava na fila de apostas e
vi um cara duas filas ao
lado.

e ele parecia o cara pra quem
você tinha emprestado os dois centões?, eu
perguntei.

isso, ele respondeu, o Mike, ele
parecia o Mike.
só que o Mike andava sempre bem-
vestido e apresentável,
e esse cara usava roupa velha,
tinha uma barba suja e uns
olhos vermelhos feito um
bebum vagabundo.

preciso maneirar na
bebedeira, falei.

de todo modo, aconteceu que
ambos terminamos nossas apostas quase
ao mesmo tempo.
eu me afastei.

não adianta perder seu sono,
falei.

então, ele continuou, senti
um puxão no meu ombro.
“Marty”, ele falou e me
deu os 200.

um incidente dos mais assombrosos, falei.

é, disse Marty, eu agradeci
e fui olhar a
corrida.

claro, falei.

bem, ele continuou, ganhei aquela
corrida.

e no decorrer da noite ganhei
mais algumas.
era uma noite boa pra
mim.

quando tudo dá certo, falei, tudo dá
certo.

de todo modo, ele continuou, pouco antes
da última corrida um cara se aproximou
de mim e falou “ei, Marty,
bati no fundo, me empresta
cinquenta.”

ah é?, perguntei.

é, ele disse, agora ouve bem
o seguinte. primeiro havia o
cara que parecia o Mike só que
ele parecia mais um bebum
vagabundo, certo?

certo, falei.

ok, ele disse, agora esse cara
parecia o cara que parecia
o Mike só que ele não parecia
exatamente o cara que parecia o
Mike, era mais como se ele estivesse
fingindo parecer o cara
que parecia o Mike.

todo mundo acaba ficando
parecido depois de 8 ou 9 corridas, eu
disse.

isso, disse Marty, então falei
pra ele “eu não te conheço.”
fiz uma aposta de 50 pratas pela vitória
no cavalo 4, aí
desci a escada rolante rumo
ao estacionamento.

não adianta perder seu maldito
sono, falei.

não perdi, ele disse, fui pra casa,
bebi meio litro de Cutty Sark
e dormi até o meio-dia.
1 092

Zangão

a sabedoria do
zangão rastejando
na asa do
jarro d’água é
enorme com o
sol entrando pela
janela da co-
zinha eu penso de novo
no assassinato de
César e dentro da
pia há três
copos d’água sujos.

a campainha toca
e eu me mantenho deter-
minado a não aten-
der.
968

Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo

já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.

mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.

depois
pra quem mais?

o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.

e o editor da Esquire

e a Atlantic Monthly

e Harper’s.

“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...

e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.

pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...

levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.

pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:

vivo para escrever e agora estou
morrendo.

e
cada dia
eu achava que seria
meu último.

eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.

eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.

eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.

um dia frio era seguido por outro,
lentamente.

a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum

conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”

então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”

ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?

e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.

mas Caresse
Crosby?
black sun press?

eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”

dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”

no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.

só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.

é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...

e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.

não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.

vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 245

Espelho

mulheres no meu espelho de penteadeira
houve tantas mulheres
no meu espelho de penteadeira
penteando seus cabelos
o pente prendendo
e vejo os olhos delas no
espelho enquanto elas olham
para mim
estirado na cama.
estou quase sempre na cama
é o meu lugar favorito.

que o amor ou até
um relacionamento
acabe
parece tão absolutamente curioso
mas que novos amores
novos relacionamentos
cheguem
isso é sorte.

muito embora ficar sozinho seja
bom
a solidão parece
imperfeita.

todos aqueles rostos no
espelho
eu me lembro deles.
florações de sentimento e
humor,
fui bem tratado
na maior parte do
tempo.

as mulheres estão agora
diante de outros espelhos
e os homens se estiram nas camas
tenho certeza –
conversando, ou
calados, relaxando.

outra mulher usa o
meu espelho
seu nome é Linda Lee
ela ri de mim
estou usando um happi
japonês preto e branco.

talvez ela continue no meu
espelho.
1 216

Eu Tenho Um Quarto

eu tenho um quarto aqui em cima onde me sento sozinho e é bem
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.

no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.

tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.

tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.

tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
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Mário Quintana
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