Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 061 130 Visualizações

Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Vivendo

quero dizer, apenas dormi
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
1 107

Tevê

fui a este lugar para ver um filme
na tevê
Alexandre, o Grande
e aí vêm os exércitos
ta ta ta
cavalos, lanças, facas, espadas, escudos,
homens caindo...
então uma troca para um campeonato de patinação –
eis uma garota estrangulando a outra,
então de volta a Alexandre –
um cara salta e mata o pai do Alex,
Alex mata o cara, Alex é rei,
de volta ao campeonato de patinação –
um homem caiu atravessado na pista e outro homem lhe golpeia a cabeça
com os patins –
e aí vêm os exércitos
eles parecem combater numa caverna, há fumaça e
chamas, espadas,
homens cadentes –
os Thunderbirds estão atrás,
uma garota mergulha debaixo do rabo de outra garota,
joga-a contra a guarda –
Alexandre fica ali parado ouvindo um cara que segura
uma taça de vinho na mão, e este rapaz está realmente dizendo a
Alex como e onde, você sabe, e ele lhe dá as costas para se afastar
e Alex o atravessa com uma lança –
os Thunderbirds estão atrás, eles preparam
Big John –
ta ta ta, aí vêm os exércitos
eles se movem com espalhafato através das águas
através das florestas, eles vêm para tomar
tudo
ta ta ta –
Big John não conseguiu,
as garotas estão soltas mais uma vez –
Alexandre está morrendo
e eles passam por seu pálio ao ar livre
ele está vestido com um refinado uniforme negro e se parece com
Richard Burton
os garotos retiravam os elmos ao passar
e lá estava o amor de Alex ao pé do pálio, e então
Alex começa a partir, alguns homens se agitam,
alguém pergunta, Alex, quem você nomeará seu sucessor?
quem vai nos comandar?
eles esperam.
ele diz, o mais forte, e ele morre
deixam-nos ver as nuvens, os céus,
a imensidade, e –
os Thunderbirds conseguem dar um jeito
nos últimos 12 segundos, vencem por
112 a 110,
a multidão se deixa levar pela Alegria,
mercúrio sangra em direção à luz,
boa noite, doce príncipe,
ave Maria,
Jesus Cristo, que
noite.
1 118

Quente

ela era quente, era tão quente
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse em casa na hora certa
ela já teria ido, e era uma coisa que eu não podia suportar –
eu enlouquecia...
era uma idiotice, eu sei, uma infantilidade,
mas eu me deixava levar, eu me deixava levar.
eu entregava todas as correspondências
e então Henderson me colocava na coleta noturna
num velho caminhão do exército,
a porra da lata velha começava a aquecer na metade do caminho
e a noite seguia
eu pensando na minha Miriam quente
e eu entrando e saindo do caminhão
enchendo sacolas com cartas
o motor prestes a fundir
a agulha do termômetro cravada no vermelho
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu seguia saltando
mais 3 coletas e então de volta ao posto
eu estaria, meu carro
à espera de me levar até Miriam que estaria sentada em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando os tornozelos
como costumava fazer,
duas coletas mais...
o caminhão enguiçou junto a um sinal, era o inferno
dando suas caras
mais uma vez...
eu tinha que chegar em casa até as 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão enguiçou num sinal
a meia quadra do posto...
não tinha jeito de dar a partida, de jeito nenhum...
tranquei as portas, apanhei a chave e corri até o
posto...
me livrei das chaves... assinei o ponto...
a porra do seu caminhão está enguiçado no sinal,
gritei,
Pico com a Western...
...corri pela entrada, coloquei a chave na porta,
abri... seu copo de bebida estava lá, e um bilhete:
fio da puta:
isperei até 8 e sinco
você não me ama
seu fio da puta
alguém vai me amar
fiquei isperando todo dia
Miriam
servi um drinque e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorri 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpuro de pelúcia segurava o bilhete
e ele estava escorado num travesseiro
dei um trago para o urso, outro para mim
e entrei na água
quente
1 086

7O Páreo Quando Os Anjos Balançam Lentos E Queimados

eu olhava o painel de apostas e o 6 caiu para 9
depois de um primeiro lampejo de 18 numa linha de partida
de 12... dois minutos para apostar e um gordão
seguia me empurrando pelas costas, mas consegui,
apostei 20 na vitória e me afastei em direção à plataforma
olhando meu programa:
quartos púrpuras e cereja, mangas cor de cereja
e boné; b.f.3, Vermelho Indiano – Impetuoso, de Alta Linhagem,
e as pessoas seguiam caminhando em minha direção
ainda que não houvesse nenhum lugar para ir,
estavam alinhando os cavalos no portão
e as pessoas seguiam caminhando como formigas sobre açúcar
derramado,
a máquina os havia engolido em suas engrenagens
e eles seguiam cegos para a morte,
e agora à altura do 7o páreo
irrompia medonho o cheiro fedido de suor
perfurante
impossível retornar ao caminho do sonho,
e os cavalos partiram pelo portão
e eu procurei por minhas cores –
eu as vi, e o jóquei parecia montar meio de lado
conduzia o cavalo por dentro e lhe puxava a cabeça
em direção à guarda externa,
e eu podia dizer pelo modo como o cavalo avançava
que ele estava fora;
a ação havia sido totalmente equivocada
e caminhei em direção ao bar
enquanto os vencedores seguiam para a chegada
e eles faziam as últimas apostas enquanto eu pedia minha bebida,
e eu me debrucei ali pensando
certa vez eu conhecia lugares que gritavam com doçura
suas vozes das paredes
onde os espelhos me mostravam o acaso,
certa vez eu me entristecia quando um entardecer se tornava
finalmente uma noite para mergulhar no sono
– o atendente do bar disse, ouvi dizer que eles vão colocar
o cavalo 7 no próximo.
certa vez eu cantei óperas e acendi velas
num lugar que se fazia sagrado por nada além de mim
e o que quer que lá estivesse.
– nunca aposto em éguas no verão,
eu lhe disse.
então a multidão entrou
reclamando
explicando
garganteando
pensando em suicídio ou bebedeira ou sexo,
e eu dei uma olhada em volta
como um homem que acorda na cadeia
e o que quer que lá estivesse
assim ficou,
e eu terminei minha bebida
e saí dali.
1 047

Uma Noite Caída

você saiu, ela disse,
e então deu um chute no carro deste cara
e então você se jogou em cima de um arbusto
esmagou todo o
arbusto,
não sei nada do porquê de sua
agonia
mas não acha que já era hora de ir a um analista?
tenho um analista que é o bicho, você ia
gostar dele.
me responda, ela disse,
eu me preocupo com a polícia quando você
age assim, sou muito paranoica com essa coisa de
polícia.
me responda, ela disse, por que você
age dessa maneira?
escute, ela disse, você quer que eu vá
embora?
depois que ela se foi, peguei uma cadeira e
joguei na janela. havia vidro por
toda a parte e as esquadrias também se
partiram.
quantas feras mortas flutuam e caminham de Gales a
Los Angeles?
1 045

Eu Queria Derrubar o Governo Mas Tudo o Que Consegui Foi a Esposa de Um Outro Cara

30 cachorros, 20 homens em 20 cavalos e uma raposa
e veja bem, eles escrevem,
você é um bocó para o estado, para a igreja,
você está num sonho do ego,
leia sua história, estude o sistema monetário,
perceba que a luta racial data de 23.000 anos.
bem, em me lembro de 20 anos atrás, sentado com um velho alfaiate judeu,
seu nariz sob a lâmpada como um canhão apontado para o inimigo; e
havia um farmacêutico italiano que vivia num apartamento caro
na melhor parte da cidade; planejávamos derrubar
uma dinastia cambaleante, o alfaiate cosendo botões numa roupa,
o italiano enfiando seu charuto em meu olho, me inflamando,
eu mesmo uma dinastia cambaleante, sempre o mais empedrado que eu podia,
cheio de leituras, famélico, deprimido, mas de fato
um bom e jovem rabo teria resolvido todo o meu rancor,
mas eu não sabia disso; eu ouvia meu italiano e meu judeu
e eu avançava por ruelas escuras fumando cigarros filados
e assistindo o fundo das casas se tomar de chamas,
mas em algum lugar nós erramos: não éramos homens o suficiente,
nem grandes nem pequenos o suficiente,
ou quem sabe estivéssemos apenas a fim de papo ou entediados, então
a anarquia fracassou,
e o judeu morreu e o italiano se irritou porque fiquei
com sua
mulher quando ele foi para a farmácia; ele não cuidava de proteger seu
próprio governo de ser derrubado, e ela o derrubou facilmente, e
eu tive alguma culpa: as crianças dormiam no quarto ao lado;
mas depois disso eu ganhei $200 num jogo fodido e peguei um ônibus
para Nova Orleans e fiquei numa esquina escutando a música que vinha dos bares
e então eu entrei nos bares,
e fiquei ali pensando sobre o judeu morto,
como tudo o que ele sempre fizera fora falar e pregar botões,
e como ele desistiu mesmo sendo o mais forte de todos nós –
ele desistiu porque sua bexiga não seria capaz de aguentar,
e talvez isso tenha salvado Wall Street e Manhattan
e a Igreja e Central Park West e Roma e a
Margem Esquerda, mas a mulher do farmacêutico, ela era legal,
estava cansada de bombas debaixo do travesseiro e de avacalhar o Papa,
e ela tinha uma bela figura, pernas realmente decentes,
mas creio que ela sentisse o mesmo que eu: que a fraqueza não estava no Governo
mas no Homem, cada qual a seu tempo, que os homens nunca seriam tão fortes quanto
suas ideias
e que as ideias eram governos tornados homens;
e então tudo começou no sofá com um martíni derramado
e terminou no quarto: desejo, revolução,
a falta de sentido acabou, e as sombras se agitaram ao vento,
se agitaram como sabres, troaram como canhões,
e 30 cachorros, 20 homens em 20 cavalos perseguiam uma raposa
através dos campos debaixo do sol,
e eu saí da cama e bocejei e cocei minha barriga
e soube que em breve muito em breve eu teria de me
empedrar mais uma vez.
698

Uma Soneca E a Paz do Sossego

se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
1 061

Pobreza

é o homem que você nunca viu que
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
1 129

Agora

eu tinha bolhas do tamanho de tomates
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
1 143

Classe

esses garotos têm classe
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
1 259

Citações

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Obras

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