Raul Pompéia

Raul Pompéia

Raul Pompéia foi um escritor, jornalista e professor brasileiro, figura proeminente do Realismo/Naturalismo no Brasil. Sua obra mais célebre, "O Ateneu", é um retrato mordaz e inovador do ambiente escolar, abordando temas como a hipocrisia social, a corrupção de costumes e a formação do indivíduo em um ambiente opressor. Sua escrita é marcada por um estilo vigoroso, irónico e por uma profunda análise psicológica. Além de "O Ateneu", Pompéia produziu crónicas, contos e poesia, demonstrando versatilidade. Sua atuação como jornalista e crítico social foi igualmente importante, refletindo seu engajamento com os debates de seu tempo. A vida e a obra de Raul Pompéia, embora marcadas por uma carreira relativamente curta, deixaram um legado significativo na literatura brasileira pela sua originalidade e pela crítica social contundente.

1863-04-12 Angra dos Reis
1895-12-25 Rio de Janeiro
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O Ventre

A atração sideral é uma forma do egoísmo. O equilíbrio
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.

A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.


Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.

In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
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