

Luís Miguel Nava
Luís Miguel Nava é um poeta português contemporâneo, conhecido pela sua obra que explora as profundezas da condição humana, a efemeridade do tempo e a complexidade das relações interpessoais. A sua poesia distingue-se pela musicalidade, pela densidade imagética e por uma linguagem que conjuga a erudição com uma aparente simplicidade, convidando à reflexão sobre a existência e a memória. Com uma obra marcada por uma forte carga lírica e existencial, Nava tem vindo a consolidar o seu lugar na poesia portuguesa recente. A sua escrita aborda temas universais como o amor, a perda, a solidão e a busca de sentido, frequentemente através de um tom introspectivo e melancólico, mas também com momentos de rara beleza e esperança.
1957-09-29 Viseu
1995-05-09 Bruxelas
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Borrasca
Estalara-lhe de tal forma o eu que o próprio nome era uma ferida, através da qual a carne supurava. Das perdidas manhãs de sol da sua infância, de que lhe restavam agora escassos farrapos presos às raízes, libertava-se por vezes um clarão, desesperado apelo em direcção à realidade, rasgando-o dos olhos aos ouvidos.
Quem quer que lhe tivesse concebido os ossos, era então visível o objectivo de os fazer florir. Deles brotaria a pele, o céu, a encenação da glória. Tudo isso mais não eram, entretanto, do que imagens em apuros, imagens atacadas por memórias em conflito com o presente, ou mesmo com o passado onde pareciam radicar, e que, esbeiçando-se nos bordos, davam lugar a que o esquecimento sobre elas actuasse como uma espécie de ácido sulfúrico.
De cada vez que o invadia, a enxurrada da memória ascendia-lhe assim a um tal nível da consciência que os seus próprios ossos, deixando de ser pontos fixos e estáveis aos quais ele se pudesse segurar, vinham, desmantelados, boiar à superfície das águas borrascosas, de mistura com entranhas donde só a alma parecia não se ter desalojado ainda, como que as inflando e conservando à tona entre a gordura e o tumulto das lembranças.
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