Nuno Júdice

Nuno Júdice

Nuno Júdice foi um proeminente poeta, ensaísta, romancista e crítico literário português. Sua obra poética é caracterizada pela inteligência, ironia e um constante questionamento sobre a linguagem, a identidade e a própria realidade. Com um estilo que transita entre o lírico e o reflexivo, Júdice abordou temas universais como o tempo, a memória, o amor e a condição humana, sempre com um olhar aguçado sobre os paradoxos da existência. Sua vasta produção, reconhecida nacional e internacionalmente, o consagra como um dos mais importantes autores da literatura contemporânea em língua portuguesa.

1949-04-29 Mexilhoeira Grande
2024-03-17 Lisboa
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Subitamente surge. Tem o teu rosto

O paraíso é uma flor verde.

As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos

eu sinto a diferença e gasto-me.

O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada

uma folha branca à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos. Soam

de dentro das janelas,

de dentro das caixas fechadas há mais tempo,

de dentro das chávenas meias de café.

É tarde e és tu,

acima de tudo,

entre a manhã e as árvores,

à luz dos olhos,

à luz só do límpido olhar.


Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 168 | Quetzal Editores, 1999

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