

Pablo Neruda
Pablo Neruda foi um dos mais proeminentes poetas do século XX, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1971. A sua obra abrange desde o lirismo amoroso e melancólico da juventude até à poesia social e política engajada, refletindo as suas experiências de vida como diplomata, ativista e exilado. A sua escrita é marcada por uma linguagem rica, imagética exuberante e uma profunda conexão com a natureza, o povo e as causas humanitárias. Neruda é celebrado pela sua capacidade de expressar tanto a intimidade do ser quanto a amplitude dos grandes temas universais, tornando-se um dos poetas de maior alcance popular e reconhecimento internacional.
1904-07-12 Parral
1973-09-23 Santiago
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Iv - a Terra
Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.
Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
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