Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

Manuel Gusmão é um poeta português cuja obra se distingue pela sua rigorosa exploração da linguagem e pela procura incessante de novas formas de expressão poética. Ao longo da sua carreira, Gusmão tem desenvolvido uma poesia que é simultaneamente intelectual e visceral, marcada por uma profunda reflexão sobre o tempo, a memória, a identidade e a própria natureza da poesia. Com uma obra que desafia classificações fáceis, Gusmão é reconhecido pela sua experimentação formal e pela densidade do seu discurso poético. A sua poesia convida o leitor a um diálogo complexo, onde a forma e o conteúdo se interligam de maneira intrínseca, consolidando-o como uma figura singular e influente na poesia contemporânea portuguesa.

1945-12-11 Évora
2023-11-09 Lisboa
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As mãos da noite

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
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