
Marcelo Tápia
Marcelo Tápia é um poeta e ensaísta chileno, cuja obra se distingue pela profundidade reflexiva e pela rigorosa exploração da linguagem. Os seus poemas frequentemente abordam temas como a memória, a identidade, a história e a condição humana, com uma sensibilidade que transita entre o lírico e o ensaístico. É uma voz significativa na poesia contemporânea de língua espanhola, com uma produção que também abrange a crítica literária e a tradução.
1992-09-26 Montevidéu
9263
0
0
essência falsa
as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:
o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão
a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série
o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum
a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave
tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer
a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual
nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz
cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado
988
0
Mais como isto
Ver também
Escritas.org