Lista de Poemas

Havemos de voltar

Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

ÀS nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
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Kinaxixi

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...

Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado

E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo aus6encia no kimbundu mestiço
das conversas

Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool

Nem felicidade nem ódio

Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.
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Confiança

O oceano separou-me de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo

Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construiam mundos maravilhosos

John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continou ignorante

E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza

As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão.
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Velho negro

Vendido
e transportado nas galeras
vergastado pelos homens
linchado nas grandes cidades
esbulhado até ao último tostão
humilhado até ao pó
sempre sempre vencido

É forçado a obedecer
a Deus e aos homens
perdeu-se

Perdeu a pátria
e a noção de ser

Reduzido a farrapo
macaquearam seus gestos e a sua alma
diferente

Velho farrapo
negro
perdido no tempo
e dividido no espaço!

Ao passar de tanga
com o espírito bem escondido
no silêncio das frases côncanas
murmuram eles:
pobre negro!

E os poetas dizem que são seus irmãos.
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Noite

Eu vivo nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.
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O choro de África

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas
românticas
nos batuqueschoro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das viol6enias
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda parte e de
todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contacto com o chão
mesmo no florir armoatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na segura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

O choro de séculos
inventado na servidão
em histórias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

O choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola ao círculo de
ferro
da desonesta força
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros da máquinas de contra
na violência
na violência
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós teremos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas
- por nós!

E amor
e os olhos secos.
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Com os olhos secos

Com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
atravós do corpo atravós do espírito
sobre os corpos inanimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos

Nós estamos regressando África
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do Maiombe
no carnaval grandioso
pelo Bailundo pela Lunda

Com os olhos secos
contra este medo da nossa África
que herdámos dos massacres e mentiras

Nós voltamos África
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
- LIBERDADE.
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Dois anos de Distância

Saudades - dizes na carta de ontem
quando nos veremos breve ou tarde?
Diz-me amor!

Nos silêncios
estão as conversas que não tivemos
os beijos não trocados
e as palavras que não dissemos
nas cartas censuradas

Contra o dilema de hoje
viver submissão ou perseguindo
são os nossos dias de sacrifício
e audácia
pelo direito
de viver pensando viver agindo
livremente humanamente

Entre o sonho e o desejo
quando nos veremos
tarde ou cedo?
Diz-me amor!
Cresce com mais justiça ainda
a ânsia de sermos
com os nossos povos
hoje sempre e cada vez mais
livres livres livres
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Luta

Violência
vozes de aço ao sol
incendeiam a paisagem já quente

E os sonhos
se desfazem
contra uma muralha de baionetas

Nova onda se levanta
e os anseios se desfazem
sobre os corpos insepulcos

E nova onda se levanta para a luta
e ainda outra e outra
até que da violência
apenas reste o nosso perdão.
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Mãos esculturais

Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África

Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam

Além África dos atrasos seculares
em corações tristes

Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que contrói
sob o peso do que fabrica para se destruir

Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo

Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.
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Comentários (17)

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ALBERTO FRANCISCO
ALBERTO FRANCISCO

Gosto muito deste poema em funçao da sua subjectividade.

a rosa branca
a rosa branca

Nuno Correia
Nuno Correia

Eu que sou pula estive lá até à hora da morte do camarada presidente dr. Agostinho Neto. Tenho tantas saudades.

Uque que o Doutor Antônio Augusto Neto fasia
Uque que o Doutor Antônio Augusto Neto fasia

Adorei

Núria António joão
Núria António joão

Ameii

Identificação e contexto básico

António Agostinho Neto foi um poeta, médico e político angolano, conhecido também pelo seu papel como primeiro presidente de Angola após a independência. Nasceu em 17 de setembro de 1922, em Icolo e Bengo, Angola, e faleceu em 11 de setembro de 1979, em Moscovo, União Soviética. Neto era de origem humilde, filho de um pastor protestante e professor, e cresceu num ambiente de forte consciência social e cultural. Foi um dos líderes fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a sua obra literária está intrinsecamente ligada à luta pela libertação e pela afirmação da identidade angolana.

Infância e formação

Neto passou a sua infância numa região rural de Angola, onde o contacto com a terra e as tradições locais moldaram a sua sensibilidade. Recebeu uma educação básica em missões protestantes, o que lhe permitiu aceder a um nível de escolaridade superior ao de muitos seus contemporâneos. A sua sede de conhecimento levou-o a prosseguir os seus estudos em Luanda e, posteriormente, em Portugal. Durante a sua formação, absorveu influências literárias e políticas da época, incluindo as correntes de pensamento anticolonialista e os movimentos de renovação cultural africana. A experiência da segregação racial e da opressão colonial em Portugal marcou profundamente a sua visão do mundo e a sua futura intervenção política e literária.

Percurso literário

O percurso literário de Agostinho Neto começou cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas em jornais e revistas ainda durante a sua juventude. A sua obra evoluiu de uma poesia inicial de cariz mais intimista e social para uma expressão contundente da luta anticolonial e da busca pela identidade africana. A sua poesia tornou-se um instrumento de mobilização e um espelho das aspirações de um povo em busca de liberdade. Neto colaborou ativamente em diversas publicações, tanto em Angola como em Portugal, e a sua obra foi reunida em importantes antologias de poesia africana de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Agostinho Neto é composta por antologias como "Poemas" (1961), "Sagrada Esperança" (1974) e "Nelson Mandela" (1979). Os temas dominantes incluem a opressão colonial, a exploração, a saudade da terra, a resistência, a esperança na liberdade e a afirmação da identidade africana. O seu estilo é marcado por um lirismo intenso, um vocabulário rico e expressivo, e uma forte musicalidade. Neto utiliza frequentemente a metáfora, a antítese e a apóstrofe para criar imagens poderosas e transmitir a sua mensagem com veemência. A sua voz poética é ao mesmo tempo pessoal e universal, ecoando os sofrimentos e as esperanças de um continente. A sua linguagem, embora acessível, é densa em significado e emoção, estabelecendo um diálogo entre a tradição oral africana e as formas poéticas ocidentais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Agostinho Neto viveu num período de intensa luta pela descolonização em África. A sua obra está intrinsecamente ligada aos movimentos nacionalistas e à emergência de uma consciência africana pan-africana. Foi um dos principais líderes do MPLA, o que fez da sua vida uma constante tensão entre a atividade política e a criação literária. A sua geração, muitas vezes referida como a "geração de 1950", foi fundamental na afirmação da literatura africana de expressão portuguesa. A sua posição política, enquanto líder de um movimento de libertação, influenciou profundamente a receção da sua obra, tanto em vida como após a independência.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Neto era um homem multifacetado, combinando a sua paixão pela poesia com a sua dedicação à medicina e à causa da independência. As suas experiências pessoais, incluindo a prisão e o exílio devido às suas atividades políticas, moldaram a sua visão de mundo e a sua escrita. As relações familiares e as amizades foram importantes, mas a sua vida foi largamente dominada pelo compromisso político. A sua profissão de médico permitiu-lhe um contacto direto com as realidades sociais e humanas em Angola e em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Agostinho Neto é amplamente reconhecido como o "pai da nação" angolana e um dos maiores poetas de língua portuguesa. A sua obra recebeu aclamação crítica e popular, tanto em Angola como internacionalmente. Foi distinguido com diversos prémios e honrarias, e a sua figura é central na construção da identidade nacional angolana. Após a sua morte, o seu legado literário e político consolidou-se, tornando-o uma referência incontornável na literatura africana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Neto foi influenciado por poetas como Luís de Camões, Walt Whitman e Aimé Césaire, bem como pela tradição oral africana. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações de poetas africanos e da diáspora, consolidando um estilo que combina o lirismo com o engajamento social e político. O seu impacto na literatura africana de expressão portuguesa é imensurável, e a sua poesia continua a ser estudada e celebrada, servindo de inspiração para movimentos de libertação e para a afirmação cultural em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Neto tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a sua profundidade lírica, a sua força política e a sua capacidade de sintetizar as experiências do povo angolano. A sua poesia é frequentemente interpretada como um hino à liberdade, um grito contra a opressão e uma celebração da identidade africana. As discussões críticas abordam a relação entre a sua arte e a sua atividade política, a universalidade dos seus temas e a sua contribuição para a renovação da poesia em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além de poeta e político, Agostinho Neto exerceu a medicina, tendo inclusive chegado a trabalhar como médico em Portugal, onde foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) devido às suas atividades clandestinas. A sua poesia é conhecida pela sua intensidade e pela capacidade de evocar imagens vívidas da paisagem e da alma angolana. Há registos de que os seus manuscritos e correspondência são guardados em arquivos importantes, testemunhos da sua vida multifacetada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Agostinho Neto faleceu em Moscovo, em 11 de setembro de 1979, vítima de cancro. A sua morte foi um duro golpe para Angola e para o mundo lusófono. Após a sua morte, a sua figura foi elevada a símbolo nacional, e o Aeroporto Internacional de Luanda e diversas instituições foram renomeados em sua homenagem. Publicações póstumas continuaram a divulgar a sua obra, solidificando o seu lugar na história e na literatura angolana e mundial.