Lista de Poemas

Criar

Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

criar criar
sobre a profanização da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos.

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas
simuladas

criar
criar amor com os olhos secos.
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Quintandeira

A quitanda.
Muito sol
e a quintandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-os aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

-Compra laranjas!
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Civilização Ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome
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Antigamente era

Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados

Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
4 145

Lá no horizonte

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
3 809

Comentários (17)

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ALBERTO FRANCISCO
ALBERTO FRANCISCO

Gosto muito deste poema em funçao da sua subjectividade.

a rosa branca
a rosa branca

Nuno Correia
Nuno Correia

Eu que sou pula estive lá até à hora da morte do camarada presidente dr. Agostinho Neto. Tenho tantas saudades.

Uque que o Doutor Antônio Augusto Neto fasia
Uque que o Doutor Antônio Augusto Neto fasia

Adorei

Núria António joão
Núria António joão

Ameii

Identificação e contexto básico

António Agostinho Neto foi um poeta, médico e político angolano, conhecido também pelo seu papel como primeiro presidente de Angola após a independência. Nasceu em 17 de setembro de 1922, em Icolo e Bengo, Angola, e faleceu em 11 de setembro de 1979, em Moscovo, União Soviética. Neto era de origem humilde, filho de um pastor protestante e professor, e cresceu num ambiente de forte consciência social e cultural. Foi um dos líderes fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a sua obra literária está intrinsecamente ligada à luta pela libertação e pela afirmação da identidade angolana.

Infância e formação

Neto passou a sua infância numa região rural de Angola, onde o contacto com a terra e as tradições locais moldaram a sua sensibilidade. Recebeu uma educação básica em missões protestantes, o que lhe permitiu aceder a um nível de escolaridade superior ao de muitos seus contemporâneos. A sua sede de conhecimento levou-o a prosseguir os seus estudos em Luanda e, posteriormente, em Portugal. Durante a sua formação, absorveu influências literárias e políticas da época, incluindo as correntes de pensamento anticolonialista e os movimentos de renovação cultural africana. A experiência da segregação racial e da opressão colonial em Portugal marcou profundamente a sua visão do mundo e a sua futura intervenção política e literária.

Percurso literário

O percurso literário de Agostinho Neto começou cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas em jornais e revistas ainda durante a sua juventude. A sua obra evoluiu de uma poesia inicial de cariz mais intimista e social para uma expressão contundente da luta anticolonial e da busca pela identidade africana. A sua poesia tornou-se um instrumento de mobilização e um espelho das aspirações de um povo em busca de liberdade. Neto colaborou ativamente em diversas publicações, tanto em Angola como em Portugal, e a sua obra foi reunida em importantes antologias de poesia africana de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Agostinho Neto é composta por antologias como "Poemas" (1961), "Sagrada Esperança" (1974) e "Nelson Mandela" (1979). Os temas dominantes incluem a opressão colonial, a exploração, a saudade da terra, a resistência, a esperança na liberdade e a afirmação da identidade africana. O seu estilo é marcado por um lirismo intenso, um vocabulário rico e expressivo, e uma forte musicalidade. Neto utiliza frequentemente a metáfora, a antítese e a apóstrofe para criar imagens poderosas e transmitir a sua mensagem com veemência. A sua voz poética é ao mesmo tempo pessoal e universal, ecoando os sofrimentos e as esperanças de um continente. A sua linguagem, embora acessível, é densa em significado e emoção, estabelecendo um diálogo entre a tradição oral africana e as formas poéticas ocidentais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Agostinho Neto viveu num período de intensa luta pela descolonização em África. A sua obra está intrinsecamente ligada aos movimentos nacionalistas e à emergência de uma consciência africana pan-africana. Foi um dos principais líderes do MPLA, o que fez da sua vida uma constante tensão entre a atividade política e a criação literária. A sua geração, muitas vezes referida como a "geração de 1950", foi fundamental na afirmação da literatura africana de expressão portuguesa. A sua posição política, enquanto líder de um movimento de libertação, influenciou profundamente a receção da sua obra, tanto em vida como após a independência.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Neto era um homem multifacetado, combinando a sua paixão pela poesia com a sua dedicação à medicina e à causa da independência. As suas experiências pessoais, incluindo a prisão e o exílio devido às suas atividades políticas, moldaram a sua visão de mundo e a sua escrita. As relações familiares e as amizades foram importantes, mas a sua vida foi largamente dominada pelo compromisso político. A sua profissão de médico permitiu-lhe um contacto direto com as realidades sociais e humanas em Angola e em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Agostinho Neto é amplamente reconhecido como o "pai da nação" angolana e um dos maiores poetas de língua portuguesa. A sua obra recebeu aclamação crítica e popular, tanto em Angola como internacionalmente. Foi distinguido com diversos prémios e honrarias, e a sua figura é central na construção da identidade nacional angolana. Após a sua morte, o seu legado literário e político consolidou-se, tornando-o uma referência incontornável na literatura africana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Neto foi influenciado por poetas como Luís de Camões, Walt Whitman e Aimé Césaire, bem como pela tradição oral africana. A sua obra, por sua vez, influenciou gerações de poetas africanos e da diáspora, consolidando um estilo que combina o lirismo com o engajamento social e político. O seu impacto na literatura africana de expressão portuguesa é imensurável, e a sua poesia continua a ser estudada e celebrada, servindo de inspiração para movimentos de libertação e para a afirmação cultural em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Neto tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a sua profundidade lírica, a sua força política e a sua capacidade de sintetizar as experiências do povo angolano. A sua poesia é frequentemente interpretada como um hino à liberdade, um grito contra a opressão e uma celebração da identidade africana. As discussões críticas abordam a relação entre a sua arte e a sua atividade política, a universalidade dos seus temas e a sua contribuição para a renovação da poesia em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além de poeta e político, Agostinho Neto exerceu a medicina, tendo inclusive chegado a trabalhar como médico em Portugal, onde foi preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) devido às suas atividades clandestinas. A sua poesia é conhecida pela sua intensidade e pela capacidade de evocar imagens vívidas da paisagem e da alma angolana. Há registos de que os seus manuscritos e correspondência são guardados em arquivos importantes, testemunhos da sua vida multifacetada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Agostinho Neto faleceu em Moscovo, em 11 de setembro de 1979, vítima de cancro. A sua morte foi um duro golpe para Angola e para o mundo lusófono. Após a sua morte, a sua figura foi elevada a símbolo nacional, e o Aeroporto Internacional de Luanda e diversas instituições foram renomeados em sua homenagem. Publicações póstumas continuaram a divulgar a sua obra, solidificando o seu lugar na história e na literatura angolana e mundial.