Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

1902–1987 · viveu 84 anos BR BR

Carlos Drummond de Andrade foi um dos mais importantes poetas brasileiros, considerado um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. A sua obra, marcada pela ironia, pela reflexão sobre a condição humana, pelo lirismo e pela crítica social, abordou temas universais como o amor, a morte, o tempo, a memória e a relação do indivíduo com a sociedade. Drummond deixou um legado poético riquíssimo, caracterizado pela sua linguagem acessível, mas profunda, e pela sua capacidade de captar a essência da vida quotidiana.

n. 1902-10-31, Itabira · m. 1987-08-17, Rio de Janeiro

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As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro a 17 de agosto de 1987. É um dos poetas mais influentes e celebrados da literatura brasileira. Oriundo de uma família de fazendeiros abastados, Drummond cresceu num ambiente rural e tradicional de Minas Gerais, mas logo se mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da sua vida adulta. A sua obra reflete tanto as suas raízes mineiras quanto a sua experiência na capital federal e a sua visão do Brasil.

Infância e formação

A infância de Drummond foi marcada pela vida no campo em Itabira, onde desenvolveu uma forte ligação com a terra e as tradições mineiras. Foi educado em colégios internos em Belo Horizonte e Nova Friburgo, onde iniciou o contacto com a literatura e a poesia. A leitura de autores como Olavo Bilac e de revistas literárias da época teve um papel importante na sua formação. A influência da cultura mineira, com a sua religiosidade e o seu espírito conservador, também se faz presente na sua obra.

Percurso literário

Drummond começou a escrever cedo, mas a sua obra ganhou projeção nacional com a publicação de 'Alguma Poesia' em 1930, marcando a sua entrada na cena literária brasileira. Ao longo da sua carreira, publicou inúmeros livros de poesia, prosa e crônicas, consolidando-se como um dos principais poetas do Modernismo brasileiro. Colaborou em diversos jornais e revistas, como o 'Correio da Manhã' e o 'Jornal do Brasil', onde manteve colunas de crônicas por muitos anos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Drummond é vasta e diversificada, explorando temas como o amor, a morte, o tempo, a memória, a infância, a cidade, a política e a condição humana. O seu estilo é marcado pela ironia, pelo lirismo contido, pela reflexão existencial e pela crítica social. Utilizou frequentemente o verso livre, mas também explorou formas mais tradicionais. A linguagem de Drummond é caracterizada pela sua clareza, pela sua musicalidade e pela sua capacidade de transformar o quotidiano em poesia. Poemas como "No Meio do Caminho", "A Flor e a Náusea", "Mãos Dadas" e "Congresso" são exemplos da sua diversidade temática e estilística. A sua voz poética transita entre o eu lírico confessional, o observador social aguçado e o poeta que reflete sobre a própria arte e a linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Drummond viveu um período de grandes transformações no Brasil, incluindo a Era Vargas, a ditadura militar e a redemocratização. A sua obra reflete as tensões sociais e políticas do país, mas sempre com um olhar crítico e distanciado. Foi um dos principais representantes da segunda geração do Modernismo brasileiro e manteve diálogo com outros escritores importantes da sua época, como Manuel Bandeira e Cecília Meireles.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Drummond casou-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve dois filhos. A sua vida pessoal, embora marcada por períodos de introspecção e melancolia, foi também de grande dedicação à literatura. Trabalhou como funcionário público e jornalista, profissões que lhe garantiram estabilidade para se dedicar à escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Drummond é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros. Recebeu diversos prémios literários ao longo da sua carreira e a sua obra é objeto de estudo em escolas e universidades, tanto no Brasil quanto no exterior. A sua popularidade transcende o meio académico, sendo um poeta querido pelo grande público.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Drummond foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Walt Whitman e os poetas simbolistas. O seu legado é incalculável para a poesia brasileira, tendo influenciado gerações de escritores pela sua originalidade, pela sua profundidade e pela sua habilidade em retratar a alma brasileira. A sua obra continua a ser lida, estudada e admirada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Drummond tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam a sua complexidade temática e estilística, a sua ironia mordaz e a sua capacidade de questionar a realidade. A relação entre o individual e o coletivo, a busca por um sentido para a vida e a crítica aos desmandos sociais são pontos centrais da interpretação da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Drummond era conhecido pela sua discrição e humildade, apesar da sua imensa fama. A sua paixão por colecionar pedras e a sua rotina de escrita, muitas vezes realizada à noite, são detalhes que revelam um pouco mais sobre a sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Carlos Drummond de Andrade faleceu no Rio de Janeiro, deixando uma obra que se tornou um marco na literatura brasileira. A sua memória é celebrada através de edições de suas obras, estudos acadêmicos e eventos culturais que perpetuam o seu legado.

Poemas

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Os Pacifistas

Na Cinelândia, pela tarde,
em bancos vulgares e amigos,
sentam-se homens malvestidos.
Não mostram pressa de voltar
para casa ou para o trabalho.
Sentam-se em honra de uma vida
que vige dentro de suas vidas
corriqueiras, pardas e tristes,
e lá ficam a ver as pombas
em torno à estátua de Floriano
catando milho distribuído
por um deus amigo das aves,
o deus que no baixar à terra
preferiu o simples disfarce
de empregado administrativo.
Bicam as pombas, esvoaçam
por entre mármores do Teatro,
do Museu e da Biblioteca,
não que lhes interessem óperas,
livros, telas, artes humanas.
Brincam as pombas: pena, cor,
lampejo entre árvores, tranquilo
ser-existir infenso ao trágico
mundo que se foi modelando
entre gritos, gagos regougos,
lágrimas, cóleras, solércias,
à custa do mundo essencial.
Libertados de todo peso,
deixam-se os homens existir
desprevenidos face às pombas.
Silenciosos e circunspectos,
são talvez os homens melhores
do nosso tempo assim parados.
Não pleiteiam bens ou poderes
mais que o bem e o poder de um banco
alteado no chão de pedrinhas.
Não transportam a guerra n’alma,
não vendem ódio, não tocaiam
nem sofismam quem tem razão
entre sem-razões deste instante.
O voo não viajeiro basta-lhes
para alimento das retinas
e, ao mirar as pombas, remiram
uma harmonia que perdemos.
Na Cinelândia, aves e homens
redescobrem a paz, em vida.
28/10/1962
1 353

Entrevista (Exclusiva)

— Marechal, o senhor, que é candidato
ainda não registrado mas de fato,
poderá nos dizer o seu programa?
— Ah, quem dorme de pé não cai da cama.
Eu lhe dou, não promessas, mas decretos,
pois, pelos vaticínios mais corretos,
já ganhei a eleição na maciota,
já sou o presidente, tome nota.
— Mas, como assim?
— Pois o senhor não vê
que até perdendo ganha o PSD?
Napoleão, como sabe, era lotista,
e eu sou, eu sempre fui um pessedista.
— Já o era no 11 de Novembro?
— Bem, com franqueza, disso não me lembro.
— Suas ideias, marechal, quais são?
— Procedo, no momento, à seleção.
Do Josué chegou todo um caixote,
do Benedito veio-me outro lote.
O embrulhinho que pus a congelar
são as do meu compadre João Goulart.
(Acho meio cacete este serviço
de escolher, criticar. Não dou pra isso.)
E depois, em havendo precisão,
valho-me do ideário do Falcão:
boa-praça, tão hábil camarada,
que torna doce o fio de uma espada.
— Marechal, a reforma…
— Eu sei, agrária.
Depende, quer dizer, pois é tão vária
a condição rural, porém, contudo…
Fui claro, como vê, e disse tudo.
— E a inflação, marechal?
— É, a inflação!
Muita pedida e pouca produção,
foi o que me explicou ontem, por fim,
o doutor Zé Maria do Alkmim.
Repare que eu me informo. Em poucos dias
(escreveu-me, assombrado, o velho Bias)
fiquei sabendo mais que o Santos Vahlis
e o próprio embaixador Moreira Salles.
— E que me diz do deficit de escolas?
— Primeiro vou cuidar é das bitolas,
para uniformizá-las: trem de ferro,
soldado, jornalista… Dá-se um berro
e tudo entra nos trilhos, que o uniforme
(nos outros) significa um bem enorme:
ninguém pode falar, e assim calados
serão tranquilamente governados,
no mais perfeito e rijo enquadramento.
— Marechal, os partidos…
— Um momento.
O nome já revela: estão partidos,
mas saberei torná-los bem unidos
— pegue o mote —
num só e majestoso: o PDLote.
26/07/1959
811

Fábula

Foi em março, ao findar das férias, quase à entrada
do Congresso,
que onças apareceram de mansinho,
começando a soltar miados leves.
Na praça atormentada,
onde sangue raiava pluma e arminho,
pombos em pânico pediam
ao céu que os libertasse
da garra de um gavião pouco distinto,
falco mato-grossensis, tão faminto.
Vendo as malhadas bichas
chegarem pela estrada de Belém
(com escala em Brasília),
exclamaram em coro: “Eis que aí vem
a nossa salvação, em forma de onça!
Ei, oncinhas, benzocas, já, depressa,
caçai o caçador que nos devora
e que num desafio pousa agora
lá no alto daquela geringonça!”
Ouvem as onças a arrulhante súplica
e, profissionalmente puladeiras,
já se aprestam à grande prova pública:
pegar o gavião
em seu voo rasante ou no relógio
aéreo, onde medita o necrológio
de suas vítimas, e zomba de alçapão.
E cada qual mais pincha e sacoleja,
disfarça, uiva, fareja,
sem vero resultado.
Aquelas, mais sabidas, se consultam
e convocam o falco, em tom matreiro,
a um fino ajantarado.
Baixa o gavião, e bica ali,
aqui, além, o pinto ao molho pardo,
um nadinha de bife, enxuga o chope,
mas tão rápido e alígero, dir-se-ia
um locutor da rádio do Berardo.
À mole sobremesa,
eis que as onças, uivando um sustenido
(com a assistência amável do Penido),
saltam, felinas — pá!
e na fereza
do bote julgam morto o gavião.
Que nada. A ave desguia, em pleno azul,
grasnindo: “Eu volto já”,
toma, sereno, o rumo do Japão.

Aprenda no colégio a aluna onça
que todo gavião é ave sonsa.
08/03/1959
837

Dominicália

Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
871

A Outra Face

Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 289

Violinha

IRGA
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.

Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?

PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.

Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.

Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).

Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.

Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)

Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.

Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.

Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?

Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
560

Candidatos

São tantos candidatos! Quantos mil?
Escolher, meu amigo, é bem sutil.
A música lhe inspira encanto vago?
Então o senador é Mozart (Lago),
e reserve na Câmara um lugar
de líder ao maestro Eleazar.
A pintura lhe apraz? Faça, tranquilo,
Miranda vereador, pois que é Murilo.
Em demanda do Gral, onde se esconda,
o João Batista Stávola (Redonda)
vai despertando sonhos medievais.
E que me diz do Mendes de Morais?
Eu cá não digo, dizem; pois sou mero
ouvinte do silêncio do Lutero,
que, sendo o mais ausente deputado,
senadeará bem longe do Senado.
Tanto melhor: se acaso for eleito,
transfigura em virtude esse defeito.
O Magalhães (Raimundo), enquanto escreve,
os seus votinhos cava, bem de leve.
Um nome que doutrina e que é bandeira,
serena, quase só: João Mangabeira.
E volta o grego Eurípedes (Meneses)
e surge em meio a nomes portugueses
um que se diz “O Inglês” — o velho craque,
imaginando fazer gol de araque.
Coronel Alencastro terá chance?
Este oráculo foge a meu alcance.
Epaminondas, general tebano,
de sobrenome Santos, mor engano
não sei que o da política: repara
que a faixa quase sempre é feia, cara.
Que o homem é Levi Neves, já foi dito
mil vezes, e repete-o um periquito.
Mas a matéria é de alta relevância,
levemo-la ao Concílio de Numância
(aliás não convocado, mas que importa?).
A metáfora bate à nossa porta:
Milton Lago Ilhas Fontes — adutora
em pessoa, promessa sedutora!
E, contra a corrupção, Adauto assesta
as baterias, e tudo que não presta,
que é contrabando ou fraude, se desvenda:
possa ele continuar na dura senda.
Este, não sei se diga… Digo? Digo.
Discurso de Hélio Gracie é um perigo:
como quem tira poeira do colete,
leva o aparteante, célere, ao tapete.
Mas, pensando da pátria nos destinos,
eis um bom democrata: Afonso Arinos.
De caminhão, lutando, ele conquista
pouco a pouco o eleitor quemimportista.
E esta Noralinda? É Nora Ney?
Não, senhor, e tampouco é Loreley.
Ah, candidatos muitos… Tantos mil!
Se não descrês, amigo, do Brasil,
e o queres melhorado, toma tento:
nada de escolha como escolhe o vento.
Não faças com teu voto um mau Congresso,
é tudo, humildemente, que te peço.
14/09/1958
777

Coisas de Maio

Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?

Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…

O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.

Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 391

Desfile

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 115

De 7 Dias

Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.

Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.

E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.

Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.

Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,

escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.

E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo

de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.

E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.

Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.

A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,

faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.

E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
583

Citações

18

Livros

63
Alguma Poesia

Alguma Poesia

1930

Brejo Das Almas

Brejo Das Almas

1934

Sentimento do Mundo

Sentimento do Mundo

1940

Crônicas

Crônicas

1940

Sentimento do mundo

Sentimento do mundo

1940

José

José

1942

Auto-retrato e outras crônicas

Auto-retrato e outras crônicas

1943

As palavras que ningúem diz: crônica

As palavras que ningúem diz: crônica

1945

Prosa seleta

Prosa seleta

1945

O gerente

O gerente

1945

A rosa do povo

A rosa do povo

1945

Novos Poemas

Novos Poemas

1948

Claro Enigma

Claro Enigma

1951

Contos de aprendiz

Contos de aprendiz

1951

A cor de cada um

A cor de cada um

1952

Passeios na ilha: divagações sôbre a vida literária e outras matérias

Passeios na ilha: divagações sôbre a vida literária e outras matérias

1952

Fazendeiro do Ar

Fazendeiro do Ar

1954

📚

Fazendeiro do ar: suivi de Poesia até agora

1955

A falta que ama

A falta que ama

1957

Fala, amendoeira

Fala, amendoeira

1957

A vida passada a limpo ; A falta que ama

A vida passada a limpo ; A falta que ama

1962

A bolsa  e  a vida: crônicas em prosa e verso

A bolsa e a vida: crônicas em prosa e verso

1962

📚

Cadeira de balanço: crônicas

1966

Versiprosa

Versiprosa

1967

Versiprosa II

Versiprosa II

1967

A senha do mundo

A senha do mundo

1970

Caminhos de João Brandão

Caminhos de João Brandão

1970

A vida passada a limpo

A vida passada a limpo

1973

As impurezas do branco

As impurezas do branco

1973

De notícias e não-notícias faz-se a crônica

De notícias e não-notícias faz-se a crônica

1974

Os dias lindos

Os dias lindos

1977

O amor natural

O amor natural

1978

70 historinhas: antologia

70 historinhas: antologia

1978

Antologia poética

Antologia poética

1978

Discurso de primavera e algumas sombras

Discurso de primavera e algumas sombras

1978

A paixão medida

A paixão medida

1980

Receita de ano novo

Receita de ano novo

1981

📚

Vó caiu na piscina

1981

Contos plausíveis

Contos plausíveis

1981

O elefante

O elefante

1984

Poesia completa: conforme as disposições do autor

Poesia completa: conforme as disposições do autor

1984

Confissões de Minas

Confissões de Minas

1984

Boca de luar

Boca de luar

1984

📚

Aquele Córrego

1984

📚

Conversa de livraria, 1941 e 1948

1984

Dom Quixote: Cervantes

Dom Quixote: Cervantes

1984

Para gostar de ler: cronicas

Para gostar de ler: cronicas

1984

Corpo

Corpo

1984

Declaração de amor: canção de namorados

Declaração de amor: canção de namorados

1985

Quarenta Historinhas E Cinco Poemas

Quarenta Historinhas E Cinco Poemas

1985

Boitempo: menino antigo

Boitempo: menino antigo

1985

O observador no escritório

O observador no escritório

1985

Amar se aprende amando: poesia de convívio e de humor

Amar se aprende amando: poesia de convívio e de humor

1985

Antes da Meia-Noite: Contos

Antes da Meia-Noite: Contos

1985

📚

Poesia, literaturas de expressão portuguesa--João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade

1985

O poder ultrajovem

O poder ultrajovem

1985

Amar se aprende amando

Amar se aprende amando

1985

Tempo vida poesia

Tempo vida poesia

1986

Boitempo

Boitempo

1986

Moça deitada na grama

Moça deitada na grama

1987

O avesso das coisas

O avesso das coisas

1987

Farewell

Farewell

1996

Daqui Estou Vendo o Amor

Daqui Estou Vendo o Amor

2013

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Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.

Wagner Moraes

Drummond, sempre Drummond!

anchieta

simplesmente o melhor e maior poeta brasileiro! Itabirano de ferro!!