Segundo Dia
Sou anarquista. Declaro honestamente.
(A tarde vai cerzindo no recreio
o pano de entrecortada confissão.)
Espanto, susto. Como?
O quê? Por quê? Explica essa besteira.
A solução é a anarquia. Sou
anarquista. Nem de longe vocês captam
o sublime anarquismo. Sou.
Com muita honra. Mas vocês, que são?
Vocês são uns carneiros
de lã obediente.
Zombam de mim. Me vaiam: Anarquista
a-nar-quis-tá a-nar-quis-tá-tá!
(Medo de mim, oculto em gozação?)
O bicho mau, o monstro repelente
conspurcando o jardim de Santo Inácio.
Avançam. Topo a briga. Me estraçalho
lutando contra todos. Furor mil.
Morro ensanguentado. Não. Não mato algum
nem me tocam sequer.
Negro e veloz, chegou a tempo
o Padre, e me salva do massacre,
porém não do apelido: o Anarquista.
Cobrinha
Este salta com uma cobra
na mão.
Que vantagem pegar em cobra morta?
Decerto nem foi ele quem matou.
Achou a cobra inanimada,
exibe-a qual troféu.
É uma cobra verde — reparamos,
admirável cobrinha toda verde,
lustroso verde nítido novinho
como não é qualquer planta que possui.
Estaco, deslumbrado.
Se eu pudesse guardá-la para mim,
enfeitar a carteira com seu corpo…
— Você me vende essa bichinha?
Os Charadistas
Passam a vida lenta decifrando
novíssimas,
sincopadas,
logogrifos.
Mandam soluções para o Almanaque Bertrand
e quedam à espera do navio de Lisboa que não vem,
não atracará nunca no Rio Doce,
trazendo em nova edição os nomes dos aficionados
triunfadores.
Chega a besta rústica do Correio.
Na mala, do volume encharcado de chuva,
não salta nenhuma vitória para a cidade,
salvo no ano esplendoroso de 1909
em que Juquinha Gago tirou menção honrosa.
Pobre (rico?) de mim,
que nunca fui além das cartas enigmáticas,
sem conclusão e sem prêmio,
mas também não sou nunca derrotado.
A Condenada
Impossível casar a moça
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.
Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.
Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.
Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.
Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
Velhaco
Zico Tanajura está um pavão de orgulho
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
Doido
O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o juiz, o coletor,
os negociantes, o vigário.
O doido é sagrado. Mas, se endoida
de jogar pedra, vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.
Suum Cuique Tribuere
O vigário decreta a lei do domingo
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
Aniversário de João Pupini
Já vou dormir, não vou dormir.
No silente Caminho Novo,
sete tiros da carabina.
Eu nada escuto do meu quarto.
Ninguém escuta, de tão longe.
Mas adivinho sete tiros
estampados na noite fria.
É João Pupini festejando
seu natalício italiano,
atirando contra as estrelas
o chumbo gaio de estar vivo.
É João Pupini ameaçando
o sono azul do município,
o equilíbrio e a paz do mundo.
Já se eriça, irado, o bigode
marcial de Guilherme 2o.
O czar, o king George, Francisco
José e mais altas potências
protestam contra o despropósito
de João Pupini fazer anos
declarando guerra mundial.
O delegado de polícia,
sentinela internacional,
convoca seu destacamento:
“Eia, sus, ao Caminho Novo,
a prender o guerreiro doido,
que além de ser mau elemento
vota sempre na oposição”.
Sua casa logo arrombada
a coronha, facão e ombro,
João Pupini dá o sumiço
pelos fundos de treva e brejo,
embolado mais a família,
pois lutar contra a Força Pública,
nem o ousara Napoleão.
Mas é preso nos vãos atalhos
em que zaranza atarantado,
e recolhido à enxovia
o formidando atirador.
Nem Deus te salva, João Pupini!
(fico cismando, no sem sono
de carabina, junho e noite.)
Solitário, incomunicável,
Pupini diz: “Vou suplicar
à autoridade justiciosa
o direito de fazer anos
e jovialmente celebrá-lo”.
Mas retrucam-lhe: “Assine e sele
petição na forma da lei”.
Onde papel, no úmido escuro
do xadrez todo enxadrezado
de feros ferros e ferrolhos?
Onde estampilha, Deus do céu,
se só uma barata sela,
no chão da cela, madrugada,
a prova de estar acordada?
Sem requerer, como provar
que, entre mil mortos e feridos
pela arma-fúria de Pupini,
estão todos salvos, tranquilos?
Como explicar ao Presidente,
a Hermes, Pinheiro, Jangote,
que ninguém fez mal a ninguém?
Tiro de noite é novidade
na cidade sem distração
e noite por demais comprida?
O rádio está por inventar,
a televisão, nem se fala.
Quem tem fogo vai despejá-lo
na horta gelada, por que não?
Ainda há dias, rente ao quartel,
no rancho insone do Thiers,
tiros sem alvo pipocaram,
ninguém foi preso, até foi bom
ouvir alguém vencer o tédio
detonando a salva nervosa
que infundia vida ao mar morto.
Mas João Pupini, suspeitado
(suspeita, não: certeza plena)
de sorrir para os perdedores
da eleição presidencial;
João ruísta, João subversivo,
João celebrar seu nascimento
a poder de bala, o bandido?
Lá dorme João no chão sem lã.
Estou sentindo: a poucos passos
da cadeia ali bem em frente,
e dormirá tempos e luas,
se ruístas alvoroçados
não soltarem pelas quebradas
o latino grito: Habeas corpus.
(Que só mais tarde entenderei.
Por enquanto, perto de mim,
algo se passa, impercebido,
como sempre se passam coisas
no deserto Caminho Novo
ou
neste menino peito ansioso.)
Mestre
Arduíno Bolivar, o teu latim
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
Ei, Bexiga!
Os chocolates em túnica de prata,
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!