Ei, Bexiga!
Os chocolates em túnica de prata,
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
Orgulho
Com toda a sua pomada
e seu horror a pedir,
ao ver a Agência fechada,
Manduca diz, soberano:
“Meu tio, quer me emprestar
um selinho de cem réis?”.
“Pois não, lhe empresto, sobrinho.”
A carta segue seu rumo,
passa um dia, um mês, um ano
e Manduca, muito ancho,
se gaba de não dever
nem um tostão a ninguém.
“Alto lá, sobrinho, então
eu não lhe emprestei um selo
justamente de tostão?
Se me pagar nesta hora,
prometo não desmenti-lo,
dispenso juro de mora,
mas você fica devendo
o preço desta lição.”
Primeiro Automóvel
Que coisa-bicho
que estranheza preto-lustrosa
evém-vindo pelo barro afora?
É o automóvel de Chico Osório
é o anúncio da nova aurora
é o primeiro carro, o Ford primeiro
é a sentença do fim do cavalo
do fim da tropa, do fim da roda
do carro de boi.
Lá vem puxado por junta de bois.
Imperador
O imperador Francisco José, dobrado a reveses
de guerra, de família, de toda sorte,
antes que a Áustria-Hungria se despedaçasse
no caos de 1914,
largou tudo, foi ser agente do correio
no município perdido de Minas
sob outro nome imperial: Fernando III.
Sem a trágica pinta dos Habsburgos
vira outro homem, entrega
as cartas com zombaria doce, diverte-se
falando de passarinhos e de pacas.
Só é reconhecível pelas suíças venerandas.
História Trágica
— Esta ponte está podre,
não passa de janeiro.
Ou cai agora ou não me chamo
Flordualdo.
— Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.
Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.
Esta ponte é de Deus,
é Deus quem toma conta
da madeira e dos ferros,
eterno, tudo eterno.
— Pois eu digo que sim.
Repare nos buracos.
Você passa e ela treme
de velhice. O caruncho
alastrado nas vigas.
Esta ponte é o diabo,
ela está condenada
só você que não sabe.
— Alto lá.
Esta ponte é sagrada.
É ponte de família
que meu pai ajudou
a tirar da cabeça
e a dominar as águas.
Ela há de viver
nos séculos dos séculos
contra caruncho e raio,
dinamite e praga.
E, pra encurtar conversa,
eu Mateus te afianço:
antes que a ponte caia,
você cairá da ponte
com esta bala certeira:
toma.
O Negócio Bem Sortido
O perfeito negociante vende tudo.
Vende a seda mais fina de Lyon,
o áspero pano da fábrica da Pedreira,
a renda de Malines e a do Norte.
Todas as miudezas de armarinho.
Todos os gêneros do país.
Chapéus-de-sol e de cabeça.
Toda espécie de calçados,
inclusive o “Andarilho”:
não produz calos nem os oprime,
sola impermeabilizada por processo novo,
dispensa graxas e pomadas.
À direita uma parede inteira
ostenta licores importados,
conservas inglesas, molhos raros
para os Messers da mina, altos clientes.
(Escondo por trás dessas riquezas
a barra de chocolate sonegada
ao olho distraído do patrão,
e de longe em longe, disfarçando,
mastigo este salário extraordinário.)
Ao fundo, em úmida sombra,
mantas de toucinho rosa-sal,
caixotes de milho, barricas de batatas,
sacos de feijão, ferragens rudes
(enxadas: curvo destino nacional).
É provação dominical, antes da missa,
(falta descobrir a semana inglesa)
tropeçar os dedos na massa trêmula do porco,
recortar a facão
e pesar cinco quilos de gordura.
Por que escolheste vida de caixeiro,
vida de cachorro, o trocadilho exato,
quando podias bem ficar no casarão
em ocioso bem-bom de filho de Coronel?
Bobagens: quem explica
as que a gente faz?
Eu sei: foi para, em longas horas estagnadas,
em que ninguém compra, mas conversa
à beira arranhada do balcão
— as horas quase todas do comércio —,
discutir a guerra de 14 que lavra lá no longe
e em que te empenhas tanto do mau lado.
Não é fero o patrão.
Decerto preferia
que falasses menos, trabalhasses mais.
E se perceber que o chocolate some,
sem sabor e fumaça, no papel prateado?
Se descobrir? Se te pilhar?
Erram pesadelos de caixeirinho
na noite gelada montanhesa.
Oração da Tarde
Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
rezai a Salve-Rainha
Padre-Nosso, Ave-Maria,
as rezas que decorastes
no tempinho de criança.
Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
atirai vossas migalhas
sobre o vazio da Praça.
Têm fome de Deus as almas
e enquanto o não vão comendo
se consolam com esses restos.
Pelas almas
pelas almas do Purgatório,
desapertai vossas bolsas,
na sacola esfarrapada
quando bate à vossa porta
em nome da eternidade
o aleijado irmão-das-almas.
Pelas pobrinhas das almas.
Velhaco
Zico Tanajura está um pavão de orgulho
no dólmã de brim cáqui.
Vendeu sua terra sem plantação,
sem criação, aguada, benfeitoria,
terra só de ferro, aridez
que o verde não consola.
E não vendeu a qualquer um:
vendeu a Mr. Jones,
distinto representante de Mr. Hays Hammond,
embaixador de Tio Sam em Londres-belle-époque.
Zico Tanajura passou a manta em Suas Excelências.
De alegria,
vai até fazer a barba no domingo.
Suum Cuique Tribuere
O vigário decreta a lei do domingo
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
Figuras
O Meirinho, o Meirão. Um é craque na bola,
o outro, caricaturista. A vontade que sinto
de ter nascido J. Carlos e vencê-lo.
Dos três irmãos Lins, Ivan ainda não conhece
Auguste Comte e já se mostra sábio.
Capanema, o estudante
três vezes estudante, e completo.
O completo vadio,
ignoro se sou. Sei que não sei
estudar, e isto é grave. Jamais aprenderei.
Vou rasgando papéis pelo pátio varrido.
Todos riem baixinho. Volto-me,
pressentimento.
Atrás de mim Padre Piquet vem, passo a passo,
pousa em meu ombro a punição.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!