Minha Terra
Minha terra tem palmeiras
onde cantava o Gonçalves
dias antes do naufrágio.
Mas o oceano bebeu tudo:
sabiá palmeiras canto.
(Nossos mares têm Gonçalves.)
E eu aqui fiquei sozinho
sem terra sabiá cem dias.
Não aqueles do Gonçalves
mas os meus, que ele contar
não contava, só cantava
pendurado nas palmeiras.
Em cismar sozinho à noite
mais prazer encontro eu cá
pois descobri que cismar
sozinho é inda melhor
que cismar acompanhado.
De dia cismo ou de noite,
prazer encontro em cismar
O Tejo e o mar. O que cismo?
Sei lá! (Sei cá?) Sei que é
contrário ao que cismaria
lá se cá não estivesse
cogitando no acolá.
Minha terra tem primores!
(Nunca vi um primoreiro...)
Hão de ser frutos mui raros:
Gonçalves, guarde um pra mim!
Vou ver se também naufrago
no litoral do... onde mesmo?
Minha terra tem poetas
sensíveis como o Gonçalves
O Casimiro de Abreu
a até Manuel Bandeira,
que passam a vida inteira
ensinando à sua gente:
(...)
Não permita Deus que eu morra!
É o que dizia o Gonçalves
que queria ser eterno
pra sofrer eternamente
a saudade das palmeiras,
do primor, do sabiá.
Não que eu deseje o contrário
(morro até sem permissão!)
mas o que eu queria mesmo
era voltar carregado
de todo todo este amor
que só por cá descobri.
Minha terra tem palmeiras
onde cantava e inda canta
o Gonçalves e eu quisera
que meus pobres dias fossem
tão gonçalvos quanto os dele.
E seria uma tenção:
ai dá-me cá, ai toma lá,
a palmeira, o sabiá.
Minha terraterramada,
o Gonçalves tem razão:
(do) exílio uma (só) canção.
(Lisboa 1975)
Imagem - 01310003
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2).
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido
e busca se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Minotauro
Abrasado em sonho, uma vez foi rei
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu,
onde pasta serena majestade.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
Mais um Dia
(Fragmentos)
Um tiro no escuro, louca
disparada do carro a zunir
dentro da noite,
um piscar de olhos --
e a luz do novo dia ilumina
a oficina do corpo.
O mesmo corpo feito de alma nua,
sangue e humores vários.
Um novo dia igual aos dez mil
novecentos e cinqüenta já percorridos,
gastos à mesa dos bares,
a acumular nas retinas
a imagem velha dos insetos
roendo a carcaça do dia,
jogada na calçada.
Insetos
assustados, à espera do bote,
à espera do berro, à espera
do sapo que os engole
(engoliu!)
e eles não sabem e seguem,
a roer as migalhas grudadas
nas tripas do batráquio.
Dez mil
novecentos e cinqüenta dias
consumidos à distância,
no silêncio do quarto onde rodopia,
há trinta anos,
a mesma velha inútil melodia.
Rodopia nada!
Explode
em gumes,
não resiste ao punho cerrado
que rompe a vidraça
e atravessa a neblina,
só para alcançar no arbusto em frente
o bago murcho que volta
e se espreme entre os dentes
e verte uma gota,
uma só,
a gota perdida
do ódio por tudo e por nada.
Ódio só afago,
inofensivo, guardado no fogo
brando em que me afago
há dez mil
novecentos e cinqüenta dias.
Minotauro
Abrasado em sonho, uma vez foi rei
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu
onde pasta serena majestade.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
O Sol Quando
O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Capibaribe
Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Pergunta
para Jerusa
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Boi para Guilhermino
"O boi de março e sua baba"
Guilhermino César
O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.
O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.
O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.
O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.
O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.
O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.
Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989