Capibaribe
Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Em Minhas Mãos
Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
O Sol Quando
O sol quando amanhece
lembra o dia quando esquece
a noite dentro do dia
quando anoitece
brilho errante quando a noite
dentro da noite adormece
o sol quando escurece
a noite devora o dia que
devora a noite que
um dia tudo será repouso
no horizonte guardado
pelo sol que não aquece.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
O Dia Segue o Curso Itinerante
I
Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.
(...)
III
E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.
(...)
Publicado no livro A Tarde e o Tempo (1964).
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 1974
NOTA: Poema composto de 4 parte
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
1.
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro
-- São Paulo, comoção da minha vida --
na voz de Mário, teu poeta,
subindo e descendo as ladeiras de angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meus pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a medina de Marraquech,
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square, no coração de San Francisco,
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido, onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou -- e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate,
banhada em luar,
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente, onde a Primavera existe e
se ergue do mar todo ano, ofertando presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos trilhos como
o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à Voluntários da Pá--tria
ou às madrugadas arrepiadas de frio do largo de São Bento
mas aqui os bondes arrastam nossa aflição Powell St. acima, depois pelo
Embarcadero até o Fisherman’s Wharf e por fim nos despejam
na Ghirardelli Square,
de onde avistamos nossos sonhos,
catedrais ancoradas no cais impossível,
e a Primavera mais terrível
cobre de flores nossos ombros pensos --
arlequinal!
comoção de nossas vidas!
2.
A noite agora não é mais criança.
A cidade assolada em neblina acolhe os deuses da madrugada e nos vê
passar.
Não é nossa Londres das neblinas finas, onde as rolas da Normal esvoaçam
entre os dedos da garoa,
mas é a cidade que nos abrigou com sua Primavera incandescente e guiou
nossa vagabundagem por labirintos de espanto, numa noite ilu-
minada pelo desespero de náufragos e rainhas exi-ladas.
Foi aqui,
naquele bar imundo da O’Farrell quase esquina com a Market, em meio ao
cheiro azedo e oleoso de tantas noites mal-dormidas, de-pois da
milésima cerveja, depois de esgotarmos todos os versos bem
amados, que sabíamos de cor,
foi aqui,
naquele canto escuro que Allen Ginsberg it’s too long that I have been alone, it’s
too long foi-se chegando irritado e implorou come Poet, shut up &
eat my word e você o embalou no colo e depois sonhou que tinha
vomitado a cidade de San Francisco no oceano azul.
Foi aqui
que Leadbelly, o negro desdentado, sentou-se à nossa mesa e nos ensinou a
chorar em uníssono com seu banjo prodigioso e você lhe ensi-
nou os passos da dança que todos sabíamos e ele en-tão, com
outro brilho nos olhos, voltou a nos chamar irmãos e nos dese-
jou alegria e você o abençoou.
Depois,
arrancamos de cada rua os fantasmas que ali se abrigavam e derruba-mos to-
das as pedras que se acumularam no caminho
e as mãos sangradas e famintas finalmente descobrimos que San Francisco
(Alexandria, você sabe, a Tebas impossível que nunca pudemos
pisar) é uma cidade viúva de segredos e os fantas-mas que aí
avistamos são os nossos próprios fantasmas, para sempre per-
didos
-- como teu coração paulistano,
Mário,
que um dia você enterrou no Pátio do Colégio
e ali estava, quente e vivo,
entre as ruínas da O’Farrell quase esquina com a Market,
dedilhando um blues sem esperança
-- como tua língua,
que você um dia guardou no alto do Ipiranga,
para cantar a liberdade, saudade,
mas esta já não foi possível encontrar mais, não.
Por isso também nos perdemos e nos achamos,
comoção de nossas vidas!
3.
Depois
rolamos nosso sono em delírio, pelas ruas,
e em nossos olhos ardia
a lembrança daquilo que nenhum de nós sabia.
Depois,
diante do cais, em Lands End, os braços abertos em cruz,
você gritou para o abismo em frente,
ou sussurrou para as almas encolhidas de medo:
-- A noite vem do mar cheirando a cravo!
E por um instante
o baiano poeta Sosígenes bailou entre nós
naquela madrugada em San Francisco,
mas logo regressou a seus castelos em Belmonte.
No fundo das águas havia dragões e havia sereias
e ao longe, e-eh-ô!, Boi Paciência e o Irmão Pequeno.
Cada rua era um rio que o mar desenhara na terra
e a lua enorme
uma ânfora plantada na torre mais alta da Golden Gate.
-- Garoa do meu São Paulo,
garoa sai dos meus olhos!
E a garoa caía em San Francisco
ou em Londres das neblinas finas.
Depois
rolamos nosso sono em delírio pela Mission St., como um rio,
de leste a oeste cruzamos toda a cidade,
à procura do sol,
guiados pelo cheiro do mar,
mas o cheiro do mar nos levou para longe do mar.
-- Água do meu Tietê,
onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar...
Nessas águas Boi Paciência se afogou,
que o peito das águas tudo soverteu.
Você queria um porto seguro na terra dos homens,
por isso perguntava pela culpa do insofrido
e suplicava:
-- Garoa, sai dos meus olhos!
Por isso
você desceu ao léu da corrente do rio
e entrou na terra dos homens ao coro das quatro estações
mas não me ensinou o caminho
ou não aprendi a lição.
Ao regressar,
teus olhos eram só preguiça e mágoa,
teus olhos bailavam no ar,
o ar de mansa maresia dos mares de San Francisco,
teus olhos bailavam no ar a grandeza de todas as glórias
e teu coração entoava:
-- Estou pequeno, inútil,
bicho da terra derrotado,
e já nem sei se vale a pena
cantar São Paulo na lida
Você recusou a Paciência (Boi morto) e a esperança
e em teus olhos as águas murmuravam hostis,
levando as auroras represadas
para o peito do sofrimento dos homens.
Nem eram tantas essas águas, nem tamanhas.
Era uma lágrima, apenas, uma lágrima
das águas turvas do nosso Tietê, límpida
lágrima em que brilhava um céu de chumbo,
arlequinal!
comoção de nossas vidas!
4.
Quatro horas da manhã.
Caminhamos em silêncio pelo longo e frio corredor infinito da Powell St.
à espera do primeiro carro do subway que nos levará de volta a Berkeley e à
Telegraph Avenue,
onde a Revolução é um estado de espírito permanente e, qual Oroboros, do
seu próprio tédio se alimenta,
onde até o breakfast cheira a conspiração e onde os filhos dos hippies ven-
dem penduricalhos & melancolia e aceitam credit card.
Mas você sabe, Mário,
São Paulo também sempre foi berço de revoluções.
Quatro horas da manhã.
Deixamos para trás o cais e a noite negra
e em nossos ouvidos ecoa o grito de Álvaro de Campos:
-- Ó coisas navais! Meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Caminhamos em silêncio pela Powell St.
e você começa a saltar pela calçada
como se estivesse na avenida São João.
De repente,
o riso debochado
que brota dos teus e dos meus lábios
se espraia pelas ruas solitárias
e divide a madrugada.
Antes você perguntava pela culpa do insofrido
e se
Fausto
O dedo em riste
aponta o horizonte
e o ódio persiste
no rosto bifronte.
Morde e remorde
a própria língua,
mal ouve o acorde
esvaído à míngua.
A sanha incontida
arde e devora,
em dura lida,
o peito que chora.
O próprio sangue
escorre, incapaz
de aplacar, exangue,
a sede voraz.
O acorde a cantar.
O corpo é uma chama
e espalha no ar
o ódio que ama.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
Coração Endurecido (II)
Porém meu coração endurecido
não duvidou mil vezes ser culpado.
Marquesa de Alorna
Se eu pudesse dizer,
se eu pudesse deixar de perguntar
o que pode amor
contra a fúria de amar;
se eu pudesse impedir
que a noite chegasse;
se este dia azul,
se minhas mãos pudessem --
do fundo do coração endurecido
talvez brotasse a palavra alada que dorme
em mim e voasse
liberta,
para te dizer (se eu pudesse).
(Círculo imperfeito, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978)
Devolução
A noite veio, dispersou meu corpo,
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.
Gramática
1. Fonética
Datilo
grafo
meu espasmo rude
em teu peito
e os dedos cravam
entre a bilabial
e a sibilante
o Ó
inaudível.
2. Vogais
Adiar
odiar
ode e ar.
As vogais se espalham
no céu da boca
e o sopro adiado
imobiliza
a língua
em forma de U.
3. Morfologia
Mastigo
um naco de sombra
e um assombro
de sílabas mudas
escorre dos dentes
entre os escombros
da memória calcinada.
4. Etimologia
Saber de cor
a água
a cor da pele
cada anseio
que a língua
recolhe.
Saber de cor
o coração.
5. Pontuação
Fotograma
atrás de fotograma
teu rosto
é a prolongada pausa
impressa na retina
entre parênteses
do travesseiro.
6. Linguagem figurada
Tropel de trapos
lençol amarfanhado
a convulsão
de umas sílabas rebeldes
desarrumando a cama
& a folha em branco:
o peito de quem ama.
7. Conjugação
Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam.
(Inédito em livro. Publicado em O Estado de São Paulo, 16/9/89.)
A Paixão Segundo Camões
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude, sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma.
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
perde-se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando encontrar-se na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)