Castro Alves

Castro Alves

1847–1871 · viveu 24 anos BR BR

Antônio Frederico de Castro Alves foi um dos maiores poetas da literatura brasileira, conhecido como o "Poeta dos Escravos". Sua obra é marcada por um forte lirismo e por um engajamento social e político, com destaque para a defesa da abolição da escravatura. Sua poesia, vigorosa e apaixonada, empolgou multidões e serviu como instrumento de luta contra a injustiça, tornando-se um símbolo do romantismo abolicionista e da resistência contra a opressão.

n. 1847-03-14, Muritiba · m. 1871-07-06, Salvador

921 539 Visualizações

Vozes d'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

(...)

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

(...)

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
O Universo após ela — doudo amante —
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

.......................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

(...)

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "La vai África embuçada
No seu branco albornoz..."

(...)

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...

...........................................

(...)

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão!...

Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
— Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

.........................................

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!...
Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

Imagem - 00290008


Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847, em Salvador, Bahia, e faleceu em 25 de setembro de 1871, no Rio de Janeiro. É amplamente conhecido como o "Poeta dos Escravos" ou "Poeta Social", em reconhecimento ao seu engajamento na luta abolicionista. Sua obra o consagrou como um dos maiores representantes da terceira geração do Romantismo brasileiro, também conhecida como "Geração Condoreira" ou "Geração Social". A influência da sociedade escravocrata em que viveu moldou profundamente sua escrita.

Infância e formação

Castro Alves era filho de um fidalgo e proprietário de terras, mas sua infância foi marcada pela convivência com o sistema escravocrata, que ele viria a combater. Estudou em Salvador e, posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Direito na Faculdade de São Francisco. Durante sua juventude, absorveu as ideias liberais e abolicionistas que circulavam na época, influenciando seu pensamento e sua produção literária. A leitura de poetas românticos europeus e a observação direta das mazelas sociais foram importantes para sua formação.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu ainda durante a faculdade, com a publicação de poemas em jornais e revistas. Sua obra ganhou projeção nacional com a publicação de "Espumas Flutuantes" (1870), que reuniu poemas de diversas fases de sua produção. Castro Alves foi um poeta de transição, mesclando o lirismo amoroso da segunda geração romântica com o engajamento social da terceira. Apesar de sua vida relativamente curta, sua obra deixou uma marca indelével na literatura brasileira, especialmente por sua capacidade de empolgar e mobilizar o público em torno da causa abolicionista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais importantes estão o romance "O Navio Negreiro" (poema épico), "A Cachoeira de Paulo Afonso", "O Adeus", "O Grito do Ipiranga" e "Espumas Flutuantes". Seus temas centrais abordam o amor, a natureza e, principalmente, a denúncia da escravidão e a exaltação da liberdade. Castro Alves utilizava uma linguagem grandiosa e retórica, com versos longos e sonoros, em consonância com o estilo condoreiro. Seu tom poético é fervoroso, épico e de forte apelo emocional, buscando comover o leitor e incitar à ação. Ele inovou ao trazer para a poesia brasileira temas sociais e políticos com a mesma paixão com que tratava o amor e a natureza, consolidando o Romantismo como um movimento engajado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Castro Alves viveu em um período crucial da história brasileira, o Segundo Reinado, marcado pela continuidade da escravidão e pelas crescentes discussões sobre sua abolição. Ele se tornou a voz poética desse movimento, utilizando sua obra como arma de combate. Sua geração, a Condoreira, caracterizou-se pela temática social e pela grandiosidade formal. Ele conviveu com outros intelectuais e ativistas da causa abolicionista, fortalecendo o movimento através de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Castro Alves foi intensa, embora marcada pela doença que o acometeu precocemente. Ele era conhecido por seu temperamento boêmio e por suas paixões amorosas, que se refletiram em seus poemas líricos. Sua dedicação à causa abolicionista era inquestionável, e ele participava ativamente de debates e manifestações. Embora vivesse de sua propriedade herdada, sua vida foi relativamente modesta, totalmente voltada para a arte e para a luta por um ideal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Castro Alves alcançou grande fama em vida, sendo aclamado pelo público como o "Poeta dos Escravos". Sua poesia era declamada em público, especialmente "O Navio Negreiro", que causava grande comoção. Após sua morte, seu reconhecimento se consolidou, tornando-se um dos poetas mais estudados e reverenciados do Brasil. Sua obra é um pilar fundamental do cânone literário brasileiro, simbolizando a união entre arte e engajamento social.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Castro Alves foi influenciado por poetas românticos como Victor Hugo e Lord Byron. Seu legado é imenso, principalmente por ter elevado a poesia social a um patamar de excelência e por ter contribuído decisivamente para a conscientização abolicionista no Brasil. Ele influenciou gerações de poetas e escritores que viram em sua obra um exemplo de como a arte pode ser uma força transformadora. Sua poesia continua a ser lida e admirada pela sua força expressiva e pelo seu profundo humanismo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Castro Alves é frequentemente analisada sob a ótica do Romantismo social e da literatura engajada. Os críticos destacam a força de seus versos na denúncia da escravidão e a paixão com que defendia a liberdade. Sua poesia é vista como um documento histórico e um manifesto literário, que combina lirismo e protesto de forma magistral.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Castro Alves é que, apesar de sua fama como poeta, ele foi um orador inflamado e participou ativamente de comícios abolicionistas. Há relatos de que ele chegou a desferir um tiro para defender um escravo em uma situação de abuso. Sua obra "O Navio Negreiro" foi escrita após ele ter presenciado cenas de crueldade em uma viagem marítima, o que o marcou profundamente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Castro Alves faleceu em decorrência de uma tuberculose pulmonar, que o debilitou nos últimos anos de sua vida. Sua morte prematura, aos 42 anos, causou grande comoção nacional. Sua memória é celebrada como a de um herói nacional e um dos maiores poetas do Brasil, cujo legado abolicionista e literário permanece vivo.

Poemas

221

Consuelo

A D. AGNESE,

NUNCA LESTE — Consuelo —, a página fulgente
Que George Sand, a loura, encheu de encanto e luz?
Este sonho onde o céu, da terra passa rente...
Onde o amor, a harmonia e a graça brincam nus?...

Vem! Dá-me tua mão... voemos a Sorrento!
Por barco — a fantasia! Por flâmula — teu véu!
Seja o cabelo negro — a vela solta ao vento...
Vem comigo sonhar a Itália... a noite... o céu! ...

A Itália! a Itália santa! a pátria peregrina...
Do Artista e do Poeta o mágico país.
Onde na terra o amor chamou-se — Fornarina,
Lá onde o amor no céu chamou-se Beatriz!

Terra que deu à luz a cavatina e a dália.
A espádua de alabastro e o laranjal em flor;
Onde o sopro da noite em pleno céu espalha
As lavas do Vesúvio e as explosões do amor.

...............................................

Vem comigo Formosa! A sombra vai profunda
Dos astros o cardume a trecho aclara o mar
O tardo gondoleiro o remo nágua afunda...
Veneza — o cisne eterno — engolfa-se a sonhar!

Do nicho da Madona o frouxo alampadário
Dos Doges alumia o lúgubre frontal.
Silêncio. Quebra a paz a voz do estradivário
E uma gôndola passa em águas do canal...

Dentro o grupo do amor! Fusão de primaveras;
Dois risos soletrando o verbo do beijar.
Ventura que produz a inveja das esferas,
E que faz de ciúme os anjos descorar.

O crente — ao pé da Santa! o riso — junto à boca.
Um anelar — sem termo! um fulgurar — sem fim!
Ela?!... bela a fazer a terra inteira louca
Alma feita de um astro!... e o corpo de um jasmim.

Ó divina Consuelo! a vaga do Adriático
Fez-te talvez nascer dum beijo dado ao sol.
A espuma foi teu berço, Alcíone simpático...
Tens por irmãos - o cisne, o amor e o rouxinol.

O amor, que açula o riso ao lábio da Francesa,
Que dá filtros fatais à filha de Madri,
Que mais lânguida torna a pensativa Inglesa,
A Grega mais audaz! mais indolente a Huri!

O amor na Italiana estala em harmonia...
Sobe ao lábio tremente... espalha-se no céu!
Amor não é palavra, amor é melodia!
Não há música assim como dizer: "Sou teu!"

E o seio que palpita a rebentar a seda...
E a garganta do cisne a desmaiar o alvor...
E a trança a descair... e a mão que a trança arreda...
Anzoleto a seus pés... as trevas em redor...

A divina Consuelo, em face à noite imensa,
No gesto dominando as fúrias do escarcéu
Na voz clara, sonora, ardente, larga, extensa,
— Escada de Jacó — prendia a terra ao céu! ...

II

Horas de amor, por que voais tão cedo?
Êxtases santos, por que assim passais?
Plantam-se risos no fatal rochedo,
Vinga a seara dos sombrios ais.

Um dia a fronte já não surge vívida...
Aperta o seio em desespero a mão...
— Que foi? — pergunta-se à criança lívida.
Ai! não respondas, Consuelo, não!

Apanha a essência destas fundas mágoas
Concentra o fogo nos teus seios nus.
Na gruta — mudam-se em cristal as águas,
No abismo — a lava se transforma em luz.

Palor e pranto, desespero e choro!...
Como no gênio esta coroa diz!...
Desta cicuta vais fazer um louro!...
Caíste mártir! e te ergueste... atriz!

III

Passou pela terra, tão casta e nitente,
Qual raio de lua que bate no gelo,
O Sânzio invejara-lhe a fronte inocente,
Por isso chamavam-na:
A pura Consuelo!

E tinha nos olhos fulgor de meteoros,
Um céu de procela no escuro cabelo,
Da aurora lavada nos pálidos raios,
A musa da Itália
Tu eras, Consuclo!

Cantava! Sua alma saía-lhe em notas...
Mistério! Milagre... quem pode sabê-lo?
As ninfas outrora mudavam-se em flores,
Em lira tornara-se
A triste Consuelo.

Cruzavam-Ihe o canto sussurros de arcanjo,
Suspiros de Laura, delírios de Otelo...
Se os raios da lua de sons se fizessem,
Talvez que lembrassem
A voz de Consuelo.

Mas, ai! que não acha na estrofe o poeta
Lampejos de um gênio tão fúlgido e belo.
Que versos espelham-te, é flor de Veneza?
Quem pode lembrar-te,
Divina Consuelo.

Só vós, bela diva! da música aos trenas,
Meu pádido sonho podeis aquecê-lo.
Afogue-se a musa nas árias brilhantes!...
E, se inda tu queres
Sonhar Consuelo ...

Coas mão no piano, co’os olhos no espaço,
Trementes os seios, revolto o cabelo...
Num mar de harmonia nos leva a Sorrento!...
Desperta-me a Itídia!
Revive Consuelo!

2 466

O Derradeiro Amor de Byron

Ét, puisque tôt ou tard lamour huntain soublie,
Il est dune grande âme et dun heureux destin?
Daspirer comme toi pour un amour divin!

ALFRED DE MUSSET

I
Num desses dias em que o Lord errante
Resvalando em coxins de seda mole...
A laureada e pálida cabeça
Sentia-lhe embalar essa condessa,
Essa lânguida e bela Guiccioli ...

II

Nesse tempo feliz... em que Ravena
Via cruzar o Child peregrino,
Dos templos ermos pelo claustro frio...
Ou longas horas meditar sombrio
No túmulo de Dante — o Gibelino...

III

Quando aquela mão régia de Madona
Tomava aos ombros essa cruz insana...
E do Giaour o lúgubre segredo,
E esse crime indizível do Manfredo
Madornavam aos pés da Italiana ...

IV

Numa dessas manhãs... Enquanto a moça
Sorrindo-lhe dos beijos ao ressábio,
Cantava como uma ave ou uma criança...
Ela sentiu que um riso de esperança
Abria-lhe do amante lábio a lábio...

V

A esperança! A esperança no precito!
A esperança nesta alma agonizante!
E mais lívida e branca do que a cera
Ela disse a tremer: — "George, eu quisera
Saber qual seja... a vossa nova amante".

VI

—"Como o sabes?. . . " — "Confessas?" — "Sim! confesso. . . "
—"E o seu nome. . . " — "Quimporta?" — "Fala Alteza!. . . "
—"Que chama douda teu olhar espalha,
És ciumenta?. . . " - "Mylord, eu sou de Itália!"
— "Vingativa?. . . " - "Mylord, eu sou Princesa!. . . "

VII

— "Queres saber então qual seja o arcanjo
Que inda vem menlevar o ser corruto?
O sonho que os cadáveres renova,
O amor que o Lázaro arrancou da cova
O ideal de Satã?. . . " — "Eu vos escuto!"

VIII

—"Olhai, Signora... além dessas cortinas,
O que vedes?. . . " — "Eu vejo a imensidade!. . . "
- "E eu vejo. .. a Grécia... e sobre a plaga errante
Uma virgem chorando..." — "É vossa amante?..."
— "Tu disseste-o, Condessa!" É a Liberdade!!!. . ."

2 140

Lúcia

poema

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...

Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.

"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .

Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...

epílogo

Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...

Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!

2 899

Noite de Maio

BARCAROLA

Música da "Santa Lucia"

I

NO CÉU dos trópicos
Pra sempre brilha,
O noite esplêndida,
Que as ondas trilha.

Do amor nas pálpebras
Acende o raio.
O noite cúmplice!
Noite de maior

II

Vê... que astros lúcidos
Na azul clareira:
São flores níveas
Da laranjeira.

De noiva chamam-te
Em cada raio.
Noiva puríssima
Do mês de maio.

III

Do vento os hálitos
Erguem-te as tranças,
Nos seios rolam-te
Em loucas danças.

São meus anélitos,
É meu desmaio.
Ó noite cúmplice!
Noite de maio!

IV

Estrela pálida,
Moça divina!
Donzela tímida
Sob a neblina!

Teu véu empresta-me,
Teu longo saio,
Para as espáduas
Da flor de maio.

V

Nas praias nítidas
Têm voz as vagas...
São bocas trêmulas
Lambendo as plagas.

O oceano lúbrico
Beija-te o seio...
Meus versos canta-lhe,
Vaga de maio.

VI

O espelho etéreo
Das nuvens nasce,
Reflete em júbilos
A tua face.

Seu riso angélico
No céu guardai-o.
Espelho límpido
Da flor de maio.

VII

Há risos tépidos
Entre as palmeiras;
Beijam-se lânguidas
Fadas trigueiras.

Da selva o cântico
Além cantai-o,
Ó gênios cúmplices
Do céu de maio.

VIII

A lua imerge-se
Na etérea zona
A fronte inveja-te,
Dela Amazona.

Fronte de mármore
Que empresta um raio
À croa fúlgida
Do mês de maio.

IX

No azul dos trópicos
Suspende o passo,
As horas céleres
Prende ao regaço...

Os astros ligam-me
Num louro raio!
Sê nossa cúmplice...
Noite de maio! ...

3 510

Gesso e Bronze

FOI CANOVA ou Davi... Um mestre, um escultor,
Duas estátuas fez simbolizando o amor...

Uma — pálida e fria, inda amassada em gesso
No canto da oficina ensaio sem apreço!...
Outra — prodígio darte, arrojo peregrino,
Encarnação de luz em bronze fiorentino!...

Uma noite, porém, um raio, o acaso... um nada
O incêndio arremessando à tenda profanada...
No vermelho estendal das cinzas do brasido
Viu-se o esboço de pé!... e o bronze derretido!...

Senhora, Deus também às vezes é escultor,
E gosta de esculpir nos corações o amor...
De argila ou de metal, de barro ou de alabastro
Com o limo com que faz a escuridão e o astro

Mas quando o acaso... um gesto... um riso leviano
Ateia a flama vil de um zelo ardente, insano...
Sabeis o que se dá?
— O amor de gesso medra
De lodo que era há pouco enrija faz-se pedra
................................................

Mas da lava infernal o beijo libertino
Funde a estátua do amor de bronze florentino!!

1 985

Epitáfio

Para um túmulo de mãe.

COMO O ORVALHO das ramas do salgueiro
Resvala sobre a lápide do trilho,
Assim gotejam lágrimas de filho,
O Minha Mãe! sobre o sepulcro teu.
Mas como o sol nascente a gota enxuga
Que a noite derramou sobre os escolhos...
O anjo da Crença nos enxuga os olhos
E faz do pranto uma oração... no céu!

2 579

Prometeu

Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther, voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.

ÉSQUILO

Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.

Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.

Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...

Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.

E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...

Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...

1 839

Saudação a Palmares

Nos altos cerros erguido
Ninho dáguias atrevido,
Salve! — País do bandido!
Salve! — Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
— Como indianos cocares —
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo pra o val:
"Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste pra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes — que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
— Aos urros da cachoeira —
Sabes bater e lutar...
Salve! — nos cerros erguido —
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!

2 984

O Laço de Fita

Não sabes, criança? Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente quenlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minhalma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
Nalcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... f ico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por croa...
Teu laço de fita.

2 942

Rmorsos

Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?

Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?

Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?

Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?

O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...

Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!

Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!

Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...

1 819

Videos

50

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Vozes da África
Vozes da África

Castro Alves

Mickeilla🍃🍃
Mickeilla🍃🍃

Uai

Mickeilla
Mickeilla

Ele viveu por 24 anos apenas??

Talita de Menezes Cerqueira
Talita de Menezes Cerqueira

Castro Alves nasceu em Cabaceiras do Paraguaçu, na época era um pequeno distrito da cidade de Muritiba-BA.