Castro Alves

Castro Alves

1847–1871 · viveu 24 anos BR BR

Antônio Frederico de Castro Alves foi um dos maiores poetas da literatura brasileira, conhecido como o "Poeta dos Escravos". Sua obra é marcada por um forte lirismo e por um engajamento social e político, com destaque para a defesa da abolição da escravatura. Sua poesia, vigorosa e apaixonada, empolgou multidões e serviu como instrumento de luta contra a injustiça, tornando-se um símbolo do romantismo abolicionista e da resistência contra a opressão.

n. 1847-03-14, Muritiba · m. 1871-07-06, Salvador

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Vozes d'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

(...)

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

(...)

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
O Universo após ela — doudo amante —
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

.......................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

(...)

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "La vai África embuçada
No seu branco albornoz..."

(...)

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...

...........................................

(...)

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa — arrebatada —
Amestrado falcão!...

Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
— Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

.........................................

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!...
Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

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Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847, em Salvador, Bahia, e faleceu em 25 de setembro de 1871, no Rio de Janeiro. É amplamente conhecido como o "Poeta dos Escravos" ou "Poeta Social", em reconhecimento ao seu engajamento na luta abolicionista. Sua obra o consagrou como um dos maiores representantes da terceira geração do Romantismo brasileiro, também conhecida como "Geração Condoreira" ou "Geração Social". A influência da sociedade escravocrata em que viveu moldou profundamente sua escrita.

Infância e formação

Castro Alves era filho de um fidalgo e proprietário de terras, mas sua infância foi marcada pela convivência com o sistema escravocrata, que ele viria a combater. Estudou em Salvador e, posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Direito na Faculdade de São Francisco. Durante sua juventude, absorveu as ideias liberais e abolicionistas que circulavam na época, influenciando seu pensamento e sua produção literária. A leitura de poetas românticos europeus e a observação direta das mazelas sociais foram importantes para sua formação.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu ainda durante a faculdade, com a publicação de poemas em jornais e revistas. Sua obra ganhou projeção nacional com a publicação de "Espumas Flutuantes" (1870), que reuniu poemas de diversas fases de sua produção. Castro Alves foi um poeta de transição, mesclando o lirismo amoroso da segunda geração romântica com o engajamento social da terceira. Apesar de sua vida relativamente curta, sua obra deixou uma marca indelével na literatura brasileira, especialmente por sua capacidade de empolgar e mobilizar o público em torno da causa abolicionista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais importantes estão o romance "O Navio Negreiro" (poema épico), "A Cachoeira de Paulo Afonso", "O Adeus", "O Grito do Ipiranga" e "Espumas Flutuantes". Seus temas centrais abordam o amor, a natureza e, principalmente, a denúncia da escravidão e a exaltação da liberdade. Castro Alves utilizava uma linguagem grandiosa e retórica, com versos longos e sonoros, em consonância com o estilo condoreiro. Seu tom poético é fervoroso, épico e de forte apelo emocional, buscando comover o leitor e incitar à ação. Ele inovou ao trazer para a poesia brasileira temas sociais e políticos com a mesma paixão com que tratava o amor e a natureza, consolidando o Romantismo como um movimento engajado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Castro Alves viveu em um período crucial da história brasileira, o Segundo Reinado, marcado pela continuidade da escravidão e pelas crescentes discussões sobre sua abolição. Ele se tornou a voz poética desse movimento, utilizando sua obra como arma de combate. Sua geração, a Condoreira, caracterizou-se pela temática social e pela grandiosidade formal. Ele conviveu com outros intelectuais e ativistas da causa abolicionista, fortalecendo o movimento através de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Castro Alves foi intensa, embora marcada pela doença que o acometeu precocemente. Ele era conhecido por seu temperamento boêmio e por suas paixões amorosas, que se refletiram em seus poemas líricos. Sua dedicação à causa abolicionista era inquestionável, e ele participava ativamente de debates e manifestações. Embora vivesse de sua propriedade herdada, sua vida foi relativamente modesta, totalmente voltada para a arte e para a luta por um ideal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Castro Alves alcançou grande fama em vida, sendo aclamado pelo público como o "Poeta dos Escravos". Sua poesia era declamada em público, especialmente "O Navio Negreiro", que causava grande comoção. Após sua morte, seu reconhecimento se consolidou, tornando-se um dos poetas mais estudados e reverenciados do Brasil. Sua obra é um pilar fundamental do cânone literário brasileiro, simbolizando a união entre arte e engajamento social.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Castro Alves foi influenciado por poetas românticos como Victor Hugo e Lord Byron. Seu legado é imenso, principalmente por ter elevado a poesia social a um patamar de excelência e por ter contribuído decisivamente para a conscientização abolicionista no Brasil. Ele influenciou gerações de poetas e escritores que viram em sua obra um exemplo de como a arte pode ser uma força transformadora. Sua poesia continua a ser lida e admirada pela sua força expressiva e pelo seu profundo humanismo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Castro Alves é frequentemente analisada sob a ótica do Romantismo social e da literatura engajada. Os críticos destacam a força de seus versos na denúncia da escravidão e a paixão com que defendia a liberdade. Sua poesia é vista como um documento histórico e um manifesto literário, que combina lirismo e protesto de forma magistral.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Castro Alves é que, apesar de sua fama como poeta, ele foi um orador inflamado e participou ativamente de comícios abolicionistas. Há relatos de que ele chegou a desferir um tiro para defender um escravo em uma situação de abuso. Sua obra "O Navio Negreiro" foi escrita após ele ter presenciado cenas de crueldade em uma viagem marítima, o que o marcou profundamente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Castro Alves faleceu em decorrência de uma tuberculose pulmonar, que o debilitou nos últimos anos de sua vida. Sua morte prematura, aos 42 anos, causou grande comoção nacional. Sua memória é celebrada como a de um herói nacional e um dos maiores poetas do Brasil, cujo legado abolicionista e literário permanece vivo.

Poemas

221

Prometeu

Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther, voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.

ÉSQUILO

Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.

Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.

Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...

Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.

E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...

Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...

1 863

Lúcia

poema

Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Coas roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...

Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então coa natureza.

"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto! ...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo. . .

Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
Era o lencinho tremulo de Lúcia...

epílogo

Muitos anos correram depois disto ...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co o cântaro à cabeça — pés descalços,
Coos ombros nus, mas pálidos e magros ...

Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada ...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,
Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...
Cobriu coa mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna ...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!

2 939

Noite de Maio

BARCAROLA

Música da "Santa Lucia"

I

NO CÉU dos trópicos
Pra sempre brilha,
O noite esplêndida,
Que as ondas trilha.

Do amor nas pálpebras
Acende o raio.
O noite cúmplice!
Noite de maior

II

Vê... que astros lúcidos
Na azul clareira:
São flores níveas
Da laranjeira.

De noiva chamam-te
Em cada raio.
Noiva puríssima
Do mês de maio.

III

Do vento os hálitos
Erguem-te as tranças,
Nos seios rolam-te
Em loucas danças.

São meus anélitos,
É meu desmaio.
Ó noite cúmplice!
Noite de maio!

IV

Estrela pálida,
Moça divina!
Donzela tímida
Sob a neblina!

Teu véu empresta-me,
Teu longo saio,
Para as espáduas
Da flor de maio.

V

Nas praias nítidas
Têm voz as vagas...
São bocas trêmulas
Lambendo as plagas.

O oceano lúbrico
Beija-te o seio...
Meus versos canta-lhe,
Vaga de maio.

VI

O espelho etéreo
Das nuvens nasce,
Reflete em júbilos
A tua face.

Seu riso angélico
No céu guardai-o.
Espelho límpido
Da flor de maio.

VII

Há risos tépidos
Entre as palmeiras;
Beijam-se lânguidas
Fadas trigueiras.

Da selva o cântico
Além cantai-o,
Ó gênios cúmplices
Do céu de maio.

VIII

A lua imerge-se
Na etérea zona
A fronte inveja-te,
Dela Amazona.

Fronte de mármore
Que empresta um raio
À croa fúlgida
Do mês de maio.

IX

No azul dos trópicos
Suspende o passo,
As horas céleres
Prende ao regaço...

Os astros ligam-me
Num louro raio!
Sê nossa cúmplice...
Noite de maio! ...

3 533

Poeta

Meditar é trabalhar. Pensar é obrar.
O olhar fito no céu é uma obra.
V. HUGO.

Lunivers est ]e temple, et Ia serre rautel.
Les cieux sont le dbme; et les astres vans nombre
Sont les sacrés flambeaux pour ce temps aliurptés.
LAMARTINE.

POETA, às horas mortas que o cálice azulado
— Da etérea flor — a noite — debruça-se pra o mar,
E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,
As gazas transparentes espalha do luar,

Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá naltura
Pela janela aberta às virações azuis,
— A amante sobre o peito sedento de ternura,
A mente no infinito sedenta só de luz.

Perto do candelabro teu Lamartine terno
À tua espera abria as folhas de cetim;
Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno
Letras — que são estrelas — no céu — folha sem fim —

Cismavas... de astro em astro teu pensamento errava
Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:
E teu ouvido atento... em êxtase escutava
Nas virações da noite o respirar de Deus.

O oceano de tua alma, do crânio transbordando,
Enchia a natureza de sentimento e amor,
As noites eram ninhos de amantes socultando,
O monte — um braço erguido em busca do Senhor.

Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário
Via serguer fantasmas aqui... ali... além,
Pra ti era o cipreste — o dedo mortuário
Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe... alguém

No cedro pensativo, que a sós no descampado
Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,
Vias um triste velho — sozinho, desprezado
Molhando a barba em prantos coa fronte para o chão.

Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —
Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,
Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,
Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.

Sublime panteísta, que amor em ti resumes,
Sentes a alma de Deus na criação brilhar!
Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,
Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.

Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,
A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.
O mundo passa... e mira o brilho dessas cordas...
E o hino?... O hino apenas chega aos ouvidos teus.

Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,
Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,
A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.

2 180

O Derradeiro Amor de Byron

Ét, puisque tôt ou tard lamour huntain soublie,
Il est dune grande âme et dun heureux destin?
Daspirer comme toi pour un amour divin!

ALFRED DE MUSSET

I
Num desses dias em que o Lord errante
Resvalando em coxins de seda mole...
A laureada e pálida cabeça
Sentia-lhe embalar essa condessa,
Essa lânguida e bela Guiccioli ...

II

Nesse tempo feliz... em que Ravena
Via cruzar o Child peregrino,
Dos templos ermos pelo claustro frio...
Ou longas horas meditar sombrio
No túmulo de Dante — o Gibelino...

III

Quando aquela mão régia de Madona
Tomava aos ombros essa cruz insana...
E do Giaour o lúgubre segredo,
E esse crime indizível do Manfredo
Madornavam aos pés da Italiana ...

IV

Numa dessas manhãs... Enquanto a moça
Sorrindo-lhe dos beijos ao ressábio,
Cantava como uma ave ou uma criança...
Ela sentiu que um riso de esperança
Abria-lhe do amante lábio a lábio...

V

A esperança! A esperança no precito!
A esperança nesta alma agonizante!
E mais lívida e branca do que a cera
Ela disse a tremer: — "George, eu quisera
Saber qual seja... a vossa nova amante".

VI

—"Como o sabes?. . . " — "Confessas?" — "Sim! confesso. . . "
—"E o seu nome. . . " — "Quimporta?" — "Fala Alteza!. . . "
—"Que chama douda teu olhar espalha,
És ciumenta?. . . " - "Mylord, eu sou de Itália!"
— "Vingativa?. . . " - "Mylord, eu sou Princesa!. . . "

VII

— "Queres saber então qual seja o arcanjo
Que inda vem menlevar o ser corruto?
O sonho que os cadáveres renova,
O amor que o Lázaro arrancou da cova
O ideal de Satã?. . . " — "Eu vos escuto!"

VIII

—"Olhai, Signora... além dessas cortinas,
O que vedes?. . . " — "Eu vejo a imensidade!. . . "
- "E eu vejo. .. a Grécia... e sobre a plaga errante
Uma virgem chorando..." — "É vossa amante?..."
— "Tu disseste-o, Condessa!" É a Liberdade!!!. . ."

2 157

Epitáfio

Para um túmulo de mãe.

COMO O ORVALHO das ramas do salgueiro
Resvala sobre a lápide do trilho,
Assim gotejam lágrimas de filho,
O Minha Mãe! sobre o sepulcro teu.
Mas como o sol nascente a gota enxuga
Que a noite derramou sobre os escolhos...
O anjo da Crença nos enxuga os olhos
E faz do pranto uma oração... no céu!

2 590

A Uma Taça Feita de Um Crânio Humano

(Traduzido de BYRON)

"Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás — pobre caveira fria —
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
— Taça — levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor aí repousa?
É bom fugindo à podridão do lodo
Servir na morte enfim pra alguma coisa!... "

2 677

Antítese

O seu prêmio? — O desprezo e
uma carta de alforria quando tens
gastas as forças e não pode mais
ganhar a subsistência.
Maciel Pinheiro
Cintila a festa nas salas!
Das serpentinas de prata
Jorram luzes em cascata
Sobre sedas e rubins.
Soa a orquestra ... Como silfos
Na valsa os pares perpassam,
Sobre as flores, que se enlaçam
Dos tapetes nos coxins.

Entanto a névoa da noite
No átrio, na vasta rua,
Como um sudário flutua
Nos ombros da solidão.
E as ventanias errantes,
Pelos ermos perpassando,
Vão se ocultar soluçando
Nos antros da escuridão.

Tudo é deserto. . . somente
À praça em meio se agita
Dúbia forma que palpita,
Se estorce em rouco estertor.

— Espécie de cão sem dono
Desprezado na agonia,
Larva da noite sombria,
Mescla de trevas e horror.

É ele o escravo maldito,
O velho desamparado,
Bem como o cedro lascado,
Bem como o cedro no chão.
Tem por leito de agonias
As lájeas do pavimento,
E como único lamento
Passa rugindo o tufão.

Chorai, orvalhos da noite,
Soluçai, ventos errantes.
Astros da noite brilhantes
Sede os círios do infeliz!
Que o cadáver insepulto,
Nas praças abandonado,
É um verbo de luz, um brado
Que a liberdade prediz.

3 681

A Cestinha de Costura

Para o livrinho de D. BRASÍLIA VIEIRA

NÃO QUERO panteons não quero mármores
Não sonho a Eternidade fria, escura...
Minha glória ideal é o quente abrigo
De uma pequena cesta de costura.

À sombra dos terraços florescentes
Entorna a violeta a essência pura:
Flores dalma recendem mais fragrância
Numa pequena cesta de costura.

Batida pelos corvos da procela,
A pomba a era tímida procura:
Pousa minh’alma foragida as asas
Nesta pequena cesta de costura.

Astros que amais a espuma das cascatas!...
Orvalhos que adorais do lírio a alvura!
Dizei se há menos lânguidos arminhos
Nesta pequena cesta de costura.

Nesse ninho de fitas e de rendas...
No perfume sutil da formosura...
Vão meus versos viver de aroma e risos
Entre as flores da cesta de costura.

E quando descuidada mergulhares
Esta mão pequenina, santa e pura,
Possam eles beijar teus níveos dedos
Escondidos na cesta de costura.

2 384

À Beira do Abismo e do Infinito

A celeste Africana, a Virgem-Noite
Cobria as faces... Gota a gota os astros
Caíam-se das mãos no peito seu...
... Um beijo infindo suspirou nos ares...

...........................................

A canoa rolava!... Abriu-se a um tempo
O precipício!... e o céu!...

2 404

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Castro Alves

Mickeilla🍃🍃
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Uai

Mickeilla
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Ele viveu por 24 anos apenas??

Talita de Menezes Cerqueira
Talita de Menezes Cerqueira

Castro Alves nasceu em Cabaceiras do Paraguaçu, na época era um pequeno distrito da cidade de Muritiba-BA.