Satânia (trecho)
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis,
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... – e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! – prossegue.
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
Tragédia no Lar
Na senzala, úmida, estreita,
Brilha a chama da candeia,
No sapé se esgueira o vento.
E a luz da fogueira ateia.
Junto ao fogo, uma africana,
Sentada, o filho embalando,
Vai lentamente cantando
Uma tirana indolente,
Repassada de aflição.
E o menino ri contente...
Mas treme e grita gelado,
Se nas palhas do telhado
Ruge o vento do sertão.
(...)
A cantiga cessou... Vinha da estrada
A trote largo, linda cavalhada
De estranho viajor,
Na porta da fazenda eles paravam,
Das mulas boleadas apeavam
E batiam na porta do senhor.
(...)
A porta da fazenda foi aberta;
Entraram no salão.
(...)
Por que tremes, mulher? Que estranho crime,
Que remorso cruel assim te oprime
E te curva a cerviz?
O que nas dobras do vestido ocultas?
É um roubo talvez que aí sepultas?
É seu filho ...Infeliz!...
(...)
Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Vem comigo, mas... cuidado...
Que o teu vestido bordado
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.
(...)
— Escrava, dá-me teu filho!
Senhores, ide-lo ver:
É forte de uma raça bem provada,
Havemos tudo fazer.
(...)
— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...
Inda a pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides...
— Sim, que o vou vender!
— Vender?!... Vender meu filho?!
Senhor, por piedade, não...
Vós sois bom... antes do peito
Me arranqueis o coração!
(...)
Porém nada comove homens de pedra,
Sepulcros onde é morto o coração.
A criança do berço ei-los arrancam
Que os bracinhos estende e chora em vão!
(...)
Um momento depois a cavalgada
Levava a trote largo pela estrada
A criança a chorar.
Na fazenda o azorrague então se ouvia
E aos golpes — uma doida respondia
Com frio gargalhar!...
Recife, julho de 1865.
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Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Lúcia
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna;
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?!...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosse filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
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Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.
"Adeus! p'ra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto!...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos:
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
..............................................
Depois além, um grupo informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo...
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
... Era o lencinho trêmulo de Lúcia...
EPÍLOGO
Muitos anos correram depois disto...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co' o cântaro à cabeça — pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueless versos...
De repente, Lembrei-me... "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!
São Paulo, 30 de abril de 1868.
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Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
A Canção do Africano
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
Recife, 1863.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986
Adormecida
Ses longs cheveux épars la couvrent tour entiere
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa priere.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.
A. DE MUSSET
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."
São Paulo, novembro de 1868.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Quando eu Morrer
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Crepúsculo Sertanejo
A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.
A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.
A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.
Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — silêncio!... Talvez uma — orquestra...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo — à estrela... do verme — à floresta!...
As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao açoite — ;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!
Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.
Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!...
..........................................
Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 357-358
O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (I)
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — doirada borboleta —
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estritam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das variações marinhas,
Veleiro brigue à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os córceis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar... em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...
..............................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávio poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...
(...)
Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 277-278.
La negristoshipo
(Tragedio sur Maro)
I
Jen ni sur plena mar ... en spac freneze
lunklaro ludas - papili orbrila -
ondegoj ghin postkuras... lacighante,
samkiel hord infana maltrankvila.
Jen ni sur plena mar ... el firmamento
la astroj saltas kiel shaum el oro...
repagas mar per brul de fosforeskoj
- konstelacioj de fluajh-trezoro.
Jen ni sur plena mar ... du infinitoj
sin chirkauprenas streche kun anhelo...
sublimaj, oraj, bluaj, mildaj... Kiu
la ocean kaj kiu la chielo?
Jen ni sur plena mar ... shvelintaj veloj
per varmaj, de zefiro mara, frapoj,
de brig surmara kuro estas kvazau
tusheto de hirund sur ondokapoj...
Devenon kaj fincelon, kiu scias,
de shipo travaganta senmezurojn?...
En chi Sahar chevaloj polvon levas,
galopas, flugas, ne postlasas spurojn...
felicha homo, kiu povas tiam
de jena bildo ghui majestecon!...
malsupre - maron... supre - firmamenton...
kaj en chiel kaj maro - la vastecon...
Ho, kian harmonion vent alportas...
Muziko dolcha sonas, malproksima!
Ho Di ! sublima estas arda kanto,
sen cel flosanta sur ondad senlima!
Viroj de l maro! Ho maristoj krudaj,
sunbruligitaj de la mondoj kvar!
Infanoj, kiujn lulis la tempesto
en la lulil de chi profunda mar !
Atendu kaj min lasu chi sovaghan
liberan poezion trinki tute...
Orkestro - estas maromugh cheprua
kaj vento tra shnurar siblanta flute...
............................................................................
Vi, kial fughas tiel, bark rapida?
Vi, kial fughas timan la poeton?...
Volonte sekvus mi disondon vian,
similas ghi frenezan markometon...
Ho albatros! Kondor de l oceano,
dormanta sur la gaza nubofloso,
la plumojn skuu, spacolevjatano!
Al mi flugilojn pruntu, albatroso!...
II
Por maristo ja ne gravas,
kie lia hejm situas!...
chiun verskadenco ravas,
kiun mar al li instruas!
Kantu! dia estas morto...
Lofe brig sub ventoforto
glitas per rapid delfena.
Flago sur postmast hisita,
kun la ondo postlasita
flirtas, de sopiro plena.
De hispan la kant subluna,
traplektita per langvor ,
memorigas pri sunbruna
andaluzanin en flor.
La italo kantas pri
la dormema Venezi
- lando de perfid kaj amo -
che l Vulkano, sur golfondo,
memorigas al la mondo
Tasostrofojn per deklamo.
Anglo - mara frida tipo,
kiun mar denaska flankis -
(char Anglujo estas shipo,
kiun Di Kanale ankris),
kun fier patrujon gloras,
dum pri Nelson li memoras
kaj pri Albukirrenkonto...
Kantas laurojn intajn, franco
- destinita al bonshanco -
kaj la laurojn de l estonto...
La helena maristaro,
kiun Ioni akushis,
chi piratoj de la maro,
kiun jam Ulis trapushis,
de Fidias la skulptitoj,
pri Homeraj ghemaj mitoj
longe kantas sub lunhelo...
Ho, maristoj vi, tutmondaj!
trovas vi en maroj ondaj
melodiojn el chielo...
III
El vasta spac descendu, ho oceankondoro!
Descendu pli kaj plie... nur via vidoboro
en brigon povas mergi dum tia fluga kuro...
Sed ve! mi kion vidas... kia amara sceno!
kia funebra kanto... kiom da abomeno!
kiaj figuroj tristaj!... kia, ho Di, teruro!
IV
Danteska bildo estas... la ferdeko
briligas tagon per rughega streko,
banante sin en sango.
Tintad de chenoj... vipklakad sonora...
amaso nokte nigra kaj horora
dum danc de fifandango...
Patrinoj negraj che la mamoj havas
infanojn magrajn, kies bushojn lavas
patrina sangkaskado.
Knabinoj jen... sed nudaj, miroplenaj,
trenitaj de fantomokirl, chagrenaj,
en vana anhelado.
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Se la oldul anhelas... kaj glitfalas,
audighas krioj... la rimeno knalas
kaj ili flugas plie...
De sama chen kaptitaj en la mashoj,
l amas malsata per shancelaj pashoj
kun plor kaj danc rapidas...
Freneza unu, dua en kolero
deliras... brutigita de sufero,
alia kantas, ridas...
Komandas dume kapitan manovron...
rigardas li chielon, puran kovron,
sternitan super maro.
Kaj diras inter densaj fumnebuloj:
"La vipon vigle svingu, ho shipuloj!
plu dancu la brutaro."
Orkestro ironie, akre blekas...
Serpento de l freneza rondo strekas
spiralojn fantazie...
Kiel en songh danteska ombroj fluas...
malbenoj, krioj, veoj, preghoj bruas,
Satano ridas fie!...
V
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu frenez... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon!...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
Vi rulighu el vastegoj!
Uragan! balau maron!
Kiuj estas chi povruloj,
ne trovante pli en vi
ol trankvilan ridon pleban,
- spron por turmentistrabi ? - ...
Kiuj estas? Se la stelo
mutas, se la ondakcelo
estas fugh komplica, krima,
che la nokta lumkonfuzo...
Vi ghin diru, fera muzo!
liberega muz sentima!
Jen la filoj de l dezerto,
kie teron lum saturas,
kie sur la kamp kun lerto
trib de nudaj viroj kuras.
Militistoj spitaj estas,
kiuj tigrojn lukte estras,
che soleja ventozum ...;
viroj simplaj, fortaj, bravaj...
estas nun mizeraj, sklavaj,
sen aer, sen prav, sen lum ...
Kaj virinoj malbonsortaj...
kiel estis jam Hagar.
Soifegaj kaj malfortaj,
el forfor devena ar .
Sur la brakoj, filojn, chenojn
portas - en anim malbenojn,
larmojn, galon en la koro.
De Hagar suferon sentas,
ke por Ishmael prezentas,
ech ne lakton de la ploro...
Tie en la sabloj helaj,
sub la palmoj, en ravinoj,
lulis sin - infanoj belaj,
vivis - charmaj junulinoj...
Preterpasas karavano...
Revas ili en kabano,
sub la noktvual ... Hodiau...
Ve! adiau, dom sur monto!...
Ve! adiau, palm che fonto!...
Ve! adiau, am ... adiau!...
Morgau la sablar senlima...
ocean da polvo... sur
horizonto malproksima
nur dezert ... dezerto nur...
kaj lacigh , soif , malsato...
Cedas la mizervipato,
falas por ne plu kuniri!...
Vakas ero en la cheno,
sed sur sablo la hieno
trovas korpon por disshiri.
Iam Sieraleono
sub de vasta tendo brilo,
venko, chaso al leono,
dorm dormita kun trankvilo...
Nun la nigra hold terura,
streta kaj infektmalpura,
kun la pest por jaguaro...
Dormon tranchas jen kaj jen
shiro de mortint el chen ,
ghia jheto al la maro...
Iam pri liber fieraj...
nur sufichis vol por povo...
Kaj hodiau... malliberaj!...
ech por mort ... Maliceltrovo!
Ilin ligas sama ringo
- fata ferserpentostringo -
de l sklaveco chirkaumano...
Forrabitaj al la morto,
dancfunebras la kohorto,
che vipsono... Ho rikano!...
Ho Sinjor de l mizeruloj!
Diru chu delir... chu vero
estas tiom da hororo
fronte al chiela sfero...
Maro! kial via ondo
de l mantelo de la mondo
ne forvishas makularon? ...
Astroj! Nokto! Tempestegoj!
vi rulighu el vastegoj!
Uragan ! balau maron! ...
VI
Popol ekzistas, kiu flagon dona
Pesadelo
(POEMETO)
I
O RENDEZ-VOUS
ERA UMA NOITE perfumada e lânguida.
Contava a brisa amores à folhagem.
Da lua num olhar voluptuoso
Envolvia-se cândida paisagem.
Quais lágrimas do céu, brancos orvalhos
Trementes penduravam-se dos galhos.
E as flores suspiravam molemente
Da brisa ao receber os doces beijos.
E o mar batia túmido nas praias
Qual seio de donzela a arfar desejos.
E nuvens lá no céu brancas passavam,
Como garças formosas que adejavam.
Quebrando a solidão longínquo canto
Trouxe a brisa de terno bandolim,
Voluptuoso, ardente e delicado,
Como dharpa de etéreo serafim.
E o canto — todo amores — todo gozo —
Ia ecoando belo e languoroso.
Era Joseph — o trovador ardente,
Que o silêncio da noite perturbava.
Era o bardo formoso, apaixonado
Que a Andaluza fogosa fascinava.
Pálido o rosto, negro o seu cabelo,
Olhar cheio de luz... Ele era belo.
Depois calou-se a voz... Como essas fadas
Que à noite, quando voa a fantasia,
Vemos, sentimos belas, vaporosas,
— Anjos que o ideal somente cria; —
Tal ou mais linda, abrindo uma janela,
Surge uma virgem fascinante e bela.
Era um rosto formoso de madona,
Voava-lhe a madeixa destrançada.
E o seio que tremia, — pelas rendas
A lua olhava louca, apaixonada.
Tinha um pé que invejara uma criança.
Bem feliz quem ao peito lhe descansa!...
Depois uns lábios férvidos se uniram
Entre beijos dois nomes se escutaram...
Dois nomes e mil beijos amorosos
Nos lábios as palavras encerraram...
Dois nomes em que a vida toda sia...
Dois poemas de santa poesia...
E a porta após rodou por sobre os quícios,
E a murmurar deixou passar o amante...
Somente um temo e lânguido suspiro
Ouvi trazer a brisa sussurrante...
E a lua então num lânguido desmaio
Ciumenta lançou o último raio...
II
O ASSASSINO
Uma noite era negro firmamento,
Monótona caía fria chuva,
E a terra envolta em véu de densas trevas
Parecia chorosa uma viúva;
Só as aves da noite regeladas
Gritando se escondiam nas moradas.
Trazia o vento o silvo da rajada
Que lúgubre zunia nos pinheiros,
Trazia gritos pávidos, medrosos,
Talvez dalguns perdidos caminheiros,
E no embate co’a branca penedia,
O mar sinistro e tétrico rugia.
De um lampião à luz incerta e vaga
Um vulto negro e triste senxergava;
Coberto do capote e do sombrero,
O rosto macilento só mostrava...
Mas dalgum raio ao brilho repentino
Conhecereis — Jorge — o libertino —
Que fazes, Jorge, a estas horas mortas?
A noite está tristonha e friorenta;
Vai aquecer da prostituta ao colo
De libertino a fronte macilenta.
Vai escaldar esta alma morta e fria
Aos beijos do cognac quincendia.
Vai... Quando a alma senjoa deste mundo
Sempre descrente, acerbo dironia,
O cognac nos dá formosos mundos,
Castelos encantados de poesia.
E entre um gol de cognac e uma fumaça
Em ditoso delírio a vida passa.
Mas Jorge está mais lúgubre e sombrio
Que o mármore dum túmlo mais calado,
Parece o seu olhar mais turvo e frio,
O sulco do sobrolho mais cavado...
Ai! Jorge... Vais unir ao libertino
A covardia infame do assassino...
E ele pouco esperou. Saudoso canto,
Que suspirava ao longe, aproximou-se,
E o canto era mais terno e mais sentido
Quo último som do cisne que finou-se;
Era um canto em que atroz pressentimento
Segredava ao mancebo o passamento.
Um momento depois um grito agudo
Triste uniu-se da noite à voz sombria...
Foi um grito somente e após ouviu-se
O convulso estertor de umagonia...
A noite se estendeu como um sudário
Do cantor sobre o leito funerário.
Somente após à fulva luz de um raio
Veríeis uma virgem linda e nua...
Tremia de terror, ouvira o grito...
Stava pálida e branca como a lua,
E quando viu o amante — de amargura
Tornou-se a estátua pasma da loucura.
III
A LOUCA
Laura, onde vais? Sozinha a tais desoras
O vento há de gelar-te a branca pele.
Como tremes convulsa, e que sorriso!
Que chamas teu olhar ardente expele!
Laura, onde vais! Os pés nus, delicados,
Não maltrates nos seixos orvalhados.
Mulher, a quem procuras a estas horas?
Donzela, porque sais tão alta noite?
Não vês como aparecem mil fantasmas?
Não sentes da geada o frio açoite?
E das aves da noite o triste pio
Não faz por ti correr um calafrio? ...
E ela seguia muda e taciturna,
Nas rochas machucando o pé divino.
Parecia sonâmbula perdida,
Autômato a seguir o seu destino.
Arfava o peito em ânsias ofegante,
Seu olhar era fixo e fascinante.
E seguia... e seguia... e nem ao menos
Parava um só momento no caminho;
Não sentia rasgarem-se-lhe as vestes
De incultos ervaçais no duro espinho.
O gênio da vingança é que a impelia...
Como o Judeu errante ela seguia...
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IV
A ENTREVISTA NO TÚMULO
Era um triste lugar. Entre ciprestes,
Que a custo balançavam a ramagem,
Onde só pra gemer tristes endechas
Passava regelada e fria a aragem,
Num esquife entreaberto está deitado
Um cadáver de moço abandonado.
E entregue às intempéries... sem amigos
Sem ter quem vá ali chorar um pranto.
Tu, que cantaste os sentimentos puros,
Quencontraste no mundo um doce encanto,
Tu dormes, sonhador, já macilento,
Entregue aos vermes vis, posto ao relento.
E esta fronte onde o gênio se inflamava,
Donde brotava ardente a poesia,
E os lábios que disseram sons cadentes,
Que ensinava-te alegre a fantasia,
São hoje como a lâmpada sem lume, —
Harpa sem cordas, — flores sem perfume.
Ninguém vem te chorar. Não, dentre as sombras
Uma sombra passou branca e ligeira,
Os ramos do arvoredo estremeceram,
Espantada voou a ave agoureira...
Quem perturba esta lúgubre morada?
Uma mulher... É Laura, a apaixonada.
E ela chegou-se rindo e soluçando
Cum rir entre medonho e entre formoso,
Seus lábios tressuavam de ironia
Ao mesmo tempo de inocente gozo.
Junto ao verde cadáver ajoelhou
E com os lábios ardentes o beijou.
Depois sentou-se triste junto ao esquife
E as passadas cantigas recordando,
Nos dedos frios, trêmulos, nervosos,
Cos cabelos do amante ia brincando;
Coa outra mão sobre o morto regelado
Pôs um longo punhal ensangüentado.
"Durmamos, disse ela, é meu amante!
Não vês? Eu tenho as mãos ensangüentadas.
Este sangue é de Jorge, é do assassino,
Durmamos: tuas cinzas stão vingadas".
... Então beijou-o louca em devaneio
E recostou-lhe a fronte no seu seio...
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V
OS DOIS CADÁVERES
E depois quando a aurora ergueu-se linda,
Viu a louca a embalar no seio o amante,
Cantando mil cantigas e o beijando
Sempre amorosa, triste e delirante...
Mas a lua coos raios desmaiados
Viu dois mortos unidos, abraçados ...