Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
Os Anos 1930
lugares para caçar
lugares onde se esconder estão
cada vez mais difíceis de achar, e bichos de estimação
canários e peixes dourados também, você já reparou
nisso?
lembro quando salões de bilhar eram salões de bilhar
e não só mesas em
bares;
e lembro quando as mulheres da vizinhança
costumavam cozinhar panelões de came ensopada para seus
maridos desempregados
quando suas barrigas doíam
de medo;
e lembro quando crianças costumavam olhar a chuva
por horas e
brigavam interminavelmente por um filhote
de rato; e
lembro quando os boxeadores eram todos judeus e irlandeses
e nunca davam a você uma
luta ruim; e quando os biplanos voavam tão baixo que
dava para ver a cara do aviador e seus óculos de proteção;
e quando uma barra de sorvete em cada dez tinha dentro um bilhete
de sorteio; e quando por 3 centavos dava para comprar doces o bastante
para fazê-lo passar mal
ou durar toda uma
tarde; e quando as pessoas da vizinhança criavam
galinhas em seus quintais; e quando recheávamos um automóvel
de brinquedo de 5 centavos com
cera de vela para fazê-lo durar
eternamente; e quando montávamos nossas próprias pipas e patinetes
e lembro
quando nossos pais brigavam
(dava para ouvi-los por quarteirões)
e eles brigavam por horas, gritando maldições pesadas
e os guardas nunca
vinham.
lugares para caçar e lugares para se esconder,
eles simplesmente não estão mais
por aí. lembro quando
cada 40 lote estava vago e cheio de mato, e o senhorio
só recebia seu aluguel
quando você tinha
como pagar, e cada dia era claro e bom e cada momento era
cheio de promessas.
Rosto de Um Candidato Num Cartaz de Rua
lá está ele:
umas poucas ressacas
umas poucas brigas com mulheres
uns poucos pneus furados
nunca um pensamento suicida
não mais que três dores de dente
nunca perdeu uma refeição
nunca uma cadeia
nunca um amor
7 pares de sapatos
um filho na faculdade
um carro com um ano de uso
apólices de seguro
um gramado verdejante
latas de lixo com tampas perfeitas
na certa será eleito.
Café da Manhã
acordando em uma daquelas manhãs no depósito de bêbados,
lábio inferior arrebentado, dentes soltos, miolos nadando em
uma cacofonia que não é sua, com
todos aqueles outros estranhos enrolados em farrapos, agora
barulhentos em seu sono louco, com nada para lhe fazer
companhia a não ser uma privada entupida,
um assoalho frio e duro
e a lei de outra
pessoa.
e sempre havia uma voz matinal, uma voz alta:
"CAFÉ DA MANHÃ!"
você normalmente não iria querer aquilo
mas se você quisesse
antes que pudesse pôr em ordem seus pensamentos
e ficar em pé
a porta da cela batia
e se fechava.
agora cada manhã é como um lento sonho
de satisfação. encontro meus chinelos, eu os calço,
vou ao banheiro, então desço a
escada com um turbilhão de corpos peludos, sou
o provedor, o deus, limpo as tigelas dos gatos, abro
as latas e converso com eles e eles se animam e
fazem seus sons ansiosos.
coloco as tigelas no chão enquanto cada gato vai para a sua
própria tigela, então reabasteço o pires com água
e olho todos os cinco comendo
em paz.
volto pela escada até o quarto
onde minha mulher ainda dorme, rastejo sob
as cobertas com ela, viro minhas costas para o sol
e logo estou dormindo de novo.
você tem que morrer algumas vezes antes de poder realmente
viver.
Traga-Me Seu Amor
Harry venceu os degraus que o separavam do jardim. Muitos dos pacientes estavam por ali. Haviam-lhe dito que sua esposa, Gloria, estava ali fora. Avistou-a sentada sozinha em uma mesa. Aproximou-se de forma oblíqua, por um dos lados e um pouco às costas dela. Gloria sentava-se bastante ereta, estava muito pálida. Olhava para ele, mas não o enxergava. Até que por fim o viu.
– Você é o condutor? – ela perguntou
– O condutor do quê?
– O condutor da verossimilhança?
– Não, não sou.
Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, de um azul pálido.
– Como você se sente, Gloria?
Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa capaz de resistir à ação dos séculos. Havia um pequeno vaso com flores no centro, flores murchas e mortas pendendo de tristes e curvas hastes.
–Você trepa com putas, Harry. Você gosta de trepar com putas.
– Isso não é verdade, Gloria.
– Elas também chupam você? Elas chupam seu pau?
– Ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ainda não melhorou da gripe.
– Aquela velha pilantra está sempre armando alguma coisa... Você é o condutor?
Os outros pacientes estavam sentados às mesas, escorados nas árvores ou estendidos sobre o gramado. Estavam imóveis e silenciosos.
– Que tal a comida aqui, Gloria? Já fez algum amigo?
– Terrível. E não. Seu comedor de putas.
– Quer alguma coisa pra ler? Algum tipo de leitura que eu possa trazer?
Gloria não respondeu. Então ela ergueu a mão direita, examinou-a, fechou o punho e golpeou a si mesma no nariz, com toda força. Harry cruzou a mesa e segurou suas duas mãos.
– Gloria, por favor!
Ela começou a chorar.
– Por que você não me trouxe chocolates?
– Gloria, você tinha me dito que odiava chocolate.
As lágrimas desciam em profusão.
– Eu não odeio chocolate! Eu amo chocolate!
– Não chore, Gloria, por favor... Trarei chocolates, trarei o que você quiser... Escute, aluguei o quarto num motel aqui perto, a umas poucas quadras, só pra estar perto de você.
Seus olhos pálidos se arregalaram.
– Um quarto de motel? Você deve estar lá com alguma vagabunda! Devem ficar vendo filmes pornôs juntos, espelho no teto e tudo!
– Vou ficar aqui por perto uns dois dias – disse Harry, com suavidade. – Posso trazer o que você quiser.
– Me traga seu amor, então – ela gritou. – Por que, diabos, você não me traz o seu amor?
Alguns dos pacientes se voltaram para olhar.
– Gloria, tenho certeza que não há no mundo alguém que se importe com você mais do que eu.
– Quer me trazer chocolates? Bem, pois enfie os chocolates no olho do cu!
Harry tirou um cartão de sua carteira. Era do motel. Alcançou-o para ela.
– Só quero dar isso a você, antes que eu me esqueça. Você tem permissão pra fazer chamadas externas? Está aqui o meu número, pra tudo o que você precisar.
Gloria não respondeu. Ela pegou o cartão e dobrou-o até que não restasse mais que um pequeno quadrado. Então se abaixou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão lá dentro e voltou a calçá-lo.
Em seguida, Harry avistou o dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O médico caminhava sorridente e logo disse:
– Bem, bem, bem...
– Olá, dr. Jensen – falou Gloria sem emoção.
– Posso me sentar? – perguntou o médico.
– Claro – disse Gloria.
O médico era um homem pesado. Emanava um ar de importância, autoridade e responsabilidade. Suas sobrancelhas tinham uma aparência grossa e pesada, eram, de fato, grossas e pesadas. Pareciam querer deslizar até sua boca úmida e redonda e desaparecer, mas a vida jamais lhes permitiria isso.
O médico olhou para Gloria. Depois para Harry.
– Bem, bem, bem – ele disse. – Estou realmente satisfeito com o progresso que fizemos até agora...
– Sim, dr. Jensen, eu estava dizendo pro Harry como me sinto mais estável, o quanto as consultas e as sessões de grupo têm me ajudado. Muito daquela minha raiva sem motivo aparente, daquela minha sensação inútil de frustração, da minha autocomiseração destrutiva já desapareceram...
Gloria se sentou com as mãos cruzadas sobre o colo, sorrindo.
O médico sorriu para Harry.
– Gloria fez um notável progresso!
– Sim – Harry disse –, pude perceber.
– Creio que é questão de um pouquinho mais de tempo, Harry, e Gloria poderá voltar pra casa com você.
– Doutor? – perguntou Gloria. – Posso fumar um cigarro?
– Como não – disse o médico, puxando um maço de cigarros exóticos, fazendo, com um tapinha, saltar um deles. Gloria o apanhou e o médico estendeu seu isqueiro folhado a ouro, acendendo-o. Gloria inalou, exalou...
– Você tem mãos lindas, dr. Jensen – ela disse.
– Oh, muito obrigado, querida.
– E uma gentileza que salva, uma gentileza que cura...
– Bem, fazemos o nosso melhor por aqui... – disse o dr. Jensen, com doçura. – Bem, se vocês puderem me dar licença, tenho que falar com outros pacientes.
Ergueu o corpanzil com facilidade da cadeira e seguiu na direção de uma mesa onde uma mulher visitava outro homem.
Gloria olhou fixamente para Harry.
– Aquele gordo fodido! Vive lambendo o rabo das enfermeiras...
– Gloria, foi ótimo ter estado com você, mas a viagem foi longa e eu preciso descansar um pouco. E acho que o doutor está certo. Pude notar sua melhora.
Ela deu uma risada. Mas não uma risada pura, foi mais como uma daquelas gargalhadas de palco, como se fizesse parte de um papel decorado.
– Não fiz nenhum progresso. Pra falar a verdade, acho até que piorei...
– Isso não é verdade, Gloria...
– Sou eu a paciente, cabeça de peixe. Posso chegar ao diagnóstico melhor do que ninguém.
– Que negócio é esse de “cabeça de peixe”?
– Ninguém nunca lhe disse que a sua cabeça parece a de um peixe?
– Não.
– A próxima vez que fizer a barba, repare nisso. E cuidado para não cortar suas guelras.
– Tenho que ir embora... mas amanhã eu venho fazer outra visita...
– Da próxima vez traga o condutor.
– Tem certeza de que não quer que eu traga nada?
– Eu sei que você vai voltar pro motel pra comer alguma vagabunda!
– Que tal se eu trouxer um número da New York? Você costumava gostar dessa revista...
– Enfia a New York no cu, cabeça de peixe. E aproveita o embalo e já mete junto uma TIME!
Harry estendeu um dos braços e apertou a mão que ela usara para se golpear, deu meia-volta e se afastou em direção à escada. Quando já havia subido metade dos degraus, voltou-se e fez um leve aceno para Gloria. Ela ficou sentada, sem esboçar reação.
Estavam no escuro, tudo ia bem, quando o telefone tocou.
Harry continuou metendo, mas o telefone não parava de tocar. Aquilo era extremamente perturbador. Logo seu pau amoleceu.
– Merda – ele disse, rolando por sobre o corpo. Acendeu a luz e atendeu o telefone.
– Alô?
Era Gloria.
– Você está comendo alguma vagabunda!
– Gloria, eles deixam você ligar a uma hora dessas? Não dão uma pílula pra você dormir ou algo assim?
– Por que você demorou tanto pra atender o telefone?
– Você nunca vai ao banheiro? Eu estava no meio de um cocô dos bons, tudo saindo que era uma maravilha.
– Sim, eu vou... Você ia terminar tudo pra só depois me atender?
– Gloria, tudo isso é culpa dessa sua paranoia extrema. Foi isso que pôs você aí onde você está.
– Cabeça de peixe, minha paranoia frequentemente tem sido a precursora de uma verdade muito aproximada.
– Escute, o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Vá dormir um pouco. Amanhã eu lhe faço uma visita.
– Certo, cabeça de peixe, termine a sua TREPADA!
Gloria desligou.
Nan vestia camisola e estava sentada à beira do colchão, com uísque e água em sua cabeceira. Acendeu um cigarro e cruzou as pernas.
– Bem – ela perguntou – como vai a sua querida esposa?
Harry serviu uma bebida e se sentou ao lado dela.
– Sinto muito, Nan...
– Sente pelo quê? Por quem? Por ela, por mim ou o quê?
Harry secou sua dose de uísque.
– Tudo bem, não precisamos fazer um dramalhão por causa disso.
– Ah, não? Bem, como você quer encarar o assunto? Como uma trepadinha qualquer? Quer ver se consegue terminar ainda? Ou prefere ir pro banheiro e bater uma?
Harry olhou para Nan.
– Mas que diabos, não banque a espertinha. Você conhece a situação tão bem quanto eu. Foi você quem quis vir junto comigo!
– Porque sabia que se eu não viesse junto você traria uma vagabunda qualquer com você!
– Caralho – disse Harry –, eis a palavra mágica outra vez.
– Que palavra? Que palavra? – Nan esvaziou seu copo e o lançou contra a parede.
Harry se levantou, apanhou o copo dela, encheu-o novamente, alcançou-o a Nan, e depois voltou a se servir de uma dose.
Nan olhou para a bebida, tomou-a de um gole só, depositou o copo sobre a mesa de cabeceira.
– Vou ligar pra ela. Vou dizer tudo o que está acontecendo entre nós!
– Nem morta! Ela é uma mulher doente!
– E você é um filho da puta doente!
Neste instante o telefone voltou a tocar. Estava posicionado no centro do quarto, no chão, onde Harry o havia deixado. Os dois saltaram da cama ao mesmo tempo em direção ao aparelho. Ao segundo toque os dois já estavam ali, cada qual segurando uma das extremidades do fone. Rolaram sem parar por sobre o tapete, ofegantes, as pernas e os braços numa justaposição desesperada, assim refletida no espelho que cobria todo o teto.
– Septuagenarian Stew
A Vida na Agência De Correios
eu me agacho diante desse labirinto
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
O Gênio
este homem de vez em quando se esquece
quem é.
às vezes ele acha que é o
Papa.
outras vezes é um
coelho caçado
e se esconde debaixo da
cama.
então
de uma só vez
ele recuperará totalmente
a lucidez
e passará a compor
obras de
arte.
então ficará bem
por algum
tempo.
depois, digamos,
estará sentado com sua
esposa
e mais 3 ou 4
pessoas
discutindo vários
assuntos
ele será encantador,
incisivo,
original.
então fará
algo
estranho.
como certa vez
em que se pôs de pé
abriu a braguilha
e começou
a mijar
no
tapete.
outra vez
comeu um guardanapo de
papel.
e houve
a ocasião em que
entrou no
carro
e dirigiu de
ré
todo o caminho
até o
mercado
e voltou
mais uma vez
de ré
os outros motoristas
gritando com
ele
mas
conseguiu
ir e
voltar
sem qualquer
incidente
e sem
ser
parado
por uma patrulha da
polícia.
mas fica bem mesmo
como
Papa
e seu
latim
é muito
bom.
suas obras de
arte
não são lá
excepcionais
mas elas permitem que
ele
sobreviva
e que viva com
uma série de
esposas de
19 anos
que lhe
cortam os cabelos
as unhas
dão de beber
servem-no e
o
alimentam.
ele consome todo mundo
exceto
a si
mesmo.
Eram dez e meia da manhã quando o telefone tocou. Jon Pinchot.
– O filme foi cancelado...
– Jon, eu não acredito mais nessas histórias. É só o jeito de eles fazerem pressão.
– Não, é verdade, o filme foi cancelado.
– Como podem? Já investiram demais, ficariam com um enorme prejuízo no projeto...
– Hank, a Firepower simplesmente não tem mais grana. Não foi só nosso filme que foi cancelado; todos os filmes foram cancelados. Fui ao prédio deles hoje de manhã. Só tem os guardas de segurança. Não tem NINGUÉM no prédio! Eu percorri ele todo, gritando: “Olá! Olá! Tem alguém aí?” Sem resposta. Todo o prédio está vazio.
– Mas, Jon, e a cláusula do “Faça ou pague” de Jack Bledsoe?
– Não podem fazer nem pagar. Todo o pessoal da Firepower, incluindo nós, está sem salário. Alguns deles já vêm trabalhando há duas semanas sem receber. Agora não tem dinheiro pra ninguém.
– Que é que você vai fazer?
– Eu não sei, Hank, isso parece o fim...
– Não tome nenhuma medida precipitada, Jon. Será que outra empresa não assume o filme?
– Não farão isso. Ninguém gosta do argumento.
– Oh, sim, está certo...
– Que é que você vai fazer?
– Eu? Eu vou às corridas. Mas se quiser aparecer para uns tragos esta noite, eu teria prazer em ver você.
– Obrigado, Hank, mas tenho um encontro com um casal de lésbicas.
– Boa sorte.
– Boa sorte pra você também.
Eu dirigia pela autoestrada do Porto, em direção a Hollywood Park, ao norte. Jogava nos cavalinhos há mais de trinta anos. Começara após minha quase fatal hemorragia no Hospital Municipal de Los Angeles. Me disseram que se tomasse outro trago estava morto.
– Que é que vou fazer? – eu tinha perguntado a Jane.
– Sobre o quê?
– Que vou usar em lugar da bebida?
– Bem, tem os cavalos.
– Cavalos? Que é que a gente faz?
– Aposta neles.
– Aposta neles? Parece idiota.
Nós fomos e ganhei uma bela soma. Comecei a ir diariamente. Depois, aos poucos, recomecei a beber um pouco. Depois mais. E não morri. E aí eu tinha a bebida e os cavalos. Um viciado completo. Naquele tempo não havia corridas aos domingos, por isso eu ia com o velho carro até Água Caliente e voltava no domingo, às vezes ficando para as corridas de cachorros depois que as dos cavalos acabavam, e depois atacando os bares de Caliente. Nunca fui assaltado ou agredido, e era até tratado com bondade pelos garçons e fregueses mexicanos, mesmo sendo às vezes o único gringo. A volta de carro, tarde da noite, era legal, e quando chegava em casa eu não ligava se Jane estava lá ou não. Dissera a ela que o México era perigoso demais para mulheres. Geralmente ela não estava em casa quando eu chegava. Estava num lugar muito mais perigoso: a Rua Alvarado. Mas contanto que houvesse três ou quatro cervejas à minha espera, tudo bem. Se ela tivesse bebido aquelas e deixado a geladeira vazia, então, sim, estaria em verdadeiro apuro.
Quanto aos cavalos, eu me tornei um verdadeiro estudioso do jogo. Tinha umas duas dúzias de sistemas. Só funcionavam se não se aplicassem todos ao mesmo tempo, porque se baseavam em fatores variáveis. Meus sistemas tinham só um fator comum: o público deve sempre perder. Precisava determinar qual era o jogo do público, e tentar o oposto.
Um de meus sistemas baseava-se em números de índices e pós-posições. Há certos números que o público reluta em pedir. Quando esses números atingem uma certa quantidade de jogo no placar em relação à sua posição, a gente tem um vencedor de alta porcentagem. Estudando durante muitos anos os mapas de corridas no Canadá, nos Estados Unidos e no México, bolei um jogo vencedor baseado apenas nesses indicadores. (O número do índice diz a pista e a corrida em que o cavalo apareceu pela última vez.) O Racing Form publicava grandes e gordos livros vermelhos de resultados, por 10 dólares. Eu os lia e relia durante horas, durante semanas. Todos os resultados têm um padrão. Se a gente o descobre, está com tudo. E pode mandar o patrão tomar no cu. Eu mandara vários, apenas para ter de encontrar outros. Sobretudo porque alterava ou trapaceava com meus próprios sistemas. A fraqueza da natureza humana é mais uma coisa que a gente precisa derrotar nas corridas.
Entrei em Hollywood Park e fui para a área reservada. Um treinador de cavalos que eu conhecia me dera um adesivo de “Proprietário/Treinador” para o estacionamento, e também um passe para o clube. Era um homem bom, que tinha como melhor característica não ser escritor nem ator.
Entrei no clube, peguei uma mesa e trabalhei nos meus números. Sempre fazia isso primeiro, depois pagava um pau para ir ao Pavilhão Cary Grant. Não tinha muita gente por lá, e a gente podia pensar melhor. Sobre Cary Grant, há uma foto gigantesca dele pendurada no Pavilhão, rindo. Usa uns óculos fora de moda e aquele seu sorriso. Frio. Mas que jogador nos cavalinhos. Era um apostador de dois dólares. E quando perdia corria para a pista gritando, acenando os braços e berrando: “VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO!”. Se a gente vai apostar apenas dois dólares, é melhor ficar em casa, pegar o dinheiro e passá-lo de um bolso para outro.
Por outro lado, minha maior aposta foi uma vitória de 20 dólares. Ambição em excesso pode criar erros, porque as apostas muito pesadas afetam os processos de pensamento. Mais duas coisas. Nunca aposte no cavalo com a maior cotação resultante de sua última corrida, e nunca aposte num grande fechador.
Meu passeio até ali foi muito agradável, mas como sempre eu me ressentia da espera de 30 minutos entre as corridas. Era demorada demais. A gente sente a vida sendo reduzida à polpa pela inútil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quê. É realmente nauseante. Às vezes a gente pensa que está num asilo de loucos. E de certa forma está. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lá estão todos juntos num mesmo lugar. E lá estava eu, sentado no meio deles.
Eu gostava era da ação real, aquele momento em que todos os nossos cálculos saem corretos do alto-falante e a vida tem algum sentido, algum ritmo e significado. Mas a espera entre as corridas era um verdadeiro horror: ali sentado com uma humanidade murmurante, tateante, que jamais iria aprender ou melhorar, só piorar com o tempo. Sempre ameacei minha boa esposa Sarah de ficar em casa durante os dias e escrever dezenas e dezenas de poemas imortais.
Assim, consegui atravessar a tarde ali e voltei para casa, ganhador de pouco mais de 100 dólares. Voltei de carro com a multidão trabalhadora. Que bando formavam. Putos da vida, maus e quebrados. Com pressa de chegar em casa pra trepar, se possível, pra ver TV, pra ir dormir cedo a fim de fazer novamente a mesma coisa no dia seguinte.
Entrei na estradinha de acesso à casa, e Sarah lá estava, regando o jardim. Era uma grande jardineira. E aguentava minhas insanidades. Dava-me comida saudável, me cortava os cabelos e as unhas dos pés, e geralmente me mantinha em marcha de várias formas.
Estacionei o carro e fui ao jardim, dei-lhe um beijo de saudação.
– Ganhou? – ela perguntou.
– É. Claro. Um pouco.
– Ninguém ligou – ela disse.
– Isso é mau, isso tudo... – eu disse. – Você sabe, depois de Jon ameaçar cortar o dedo e tudo mais. Sinto muito mesmo por ele.
– Talvez devesse ter convidado ele esta noite.
– Eu convidei, mas ele tinha compromisso.
– S&M?
– Não sei. Um casal de lésbicas. Uma espécie de desafogo pra ele.
– Viu as rosas?
– Vi, estão sensacionais. Aquelas vermelhas, brancas e amarelas. Amarelo é minha cor preferida. Me dá vontade de comer.
Sarah encaminhou-se com a mangueira até a pia, fechou a água, e entramos em casa juntos. A vida não era muito ruim, às vezes.
– Hollywood
Confissão
à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verá este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
“Hank!”
Hank não
responderá.
não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas
e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchê-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
– Oi, baby – eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pôs na mesa.
– Quando acabarem essa, trago outra.
– Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se à nossa mesa.
– Estou feliz por você e Sarah terem podido vir – disse. – Veja, está enchendo, este lugar está cheio de gângsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
Então surgiu um sujeito de aparência muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversário. Me aproximei dele.
– Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrás. Me puxou de volta à mesa.
– Não! Não! Esse não é Friedman! É o Fischman!
– Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se não acreditasse nos próprios olhos.
– Tudo bem, Victor – eu gritei –, e daí se eu faço cocô nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lá, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
– Não posso aceitar, senhor.
– Por que não?
– Não posso.
– Todo mundo recebe gorjetas. Por que não o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
– Victor Norman veio aqui quando você saiu. Disse que foi muito legal de você não falar nada da literatura dele.
– Fui bom, não fui, Sarah?
– Foi.
– Não fui um bom menino?
– Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se à sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dúvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botão da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezão que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme – ele seria usado contra a gente. Não usava gravata. Feliz aniversário, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
– VOCÊ ESTÁ PRESO! – gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lábios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
– VOCÊ ESTÁ PRESO – gritou.
Todo mundo aplaudiu. Não sei por quê.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? Você vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se não soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
– Nossa – eu disse a Sarah –, veja só aquilo!
– Quê?
– Ele está com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguém lhe diz nada. Está ali pendurado!
– Estou vendo! Estou vendo! – disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
– Sr. Friedman – disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebê monstruoso.
– Sim?
– Fique parado.
Estendi a mão, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
– O senhor estava andando por aí com isso pendurado. Eu não aguentava mais.
– Obrigado – ele disse.
Voltei pra minha mesa.
– Bem, bem – perguntou Jon –, que acha dele?
– Acho ele um encanto.
– Eu te disse. Não conheci ninguém como ele depois de Lido Mamin...
– De qualquer modo – disse Sarah –, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, já que ninguém mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
– Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
– Oh, é? Que mais você fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E não consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
– Hollywood
Carta de Uma Fã
venho lendo o senhor há um longo tempo,
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
Mil Dólares
todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.