Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Poema Para Chefes de Departamento Pessoal:

Um velho me pediu um cigarro
e eu cuidadosamente saquei dois.
“Tô procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.”
Ele estava no limite da mendicância e da fúria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhões
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
Caímos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus é um lugar solitário e sem bife.)
Somos pássaros agonizantes
navios à deriva –
o mundo se choca contra nós
e nós
estendemos nossos braços
e nós
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dão um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de “política”.
Bem, nós fumamos, ele e eu – homenzinhos
mordiscando pensamentos medíocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto você vê as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebês,
lembre-se disso:
você é um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado –
de modo que se você pegar um avião para Savannah,
pegue o melhor avião;
ou se você comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(Você o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se você decidir matar alguém,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens são feitos de partes mais especiais e
preciosas: não mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrás de uma escrivaninha –
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisão,
escolha um de nós
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de canções de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos são como linóleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramática bêbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nós sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tão mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rápido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhões de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantêm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como você será conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que têm uma bomba atômica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens não nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
são curvadas e nossas consciências queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuído.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
é o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a Compaixão apanhou as bolinhas de gude
e que o Ódio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhão
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nós ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso ócio
para ver quem era o próximo da
fila.
853

Gelo para as Águias

Sigo lembrando dos cavalos
sob o luar
sigo lembrando de alimentar os cavalos
açúcar
pedras oblongas de açúcar
mais parecendo gelo,
e suas cabeças são como cabeças
de águias
cabeças calvas que poderiam morder e
não mordem.
Os cavalos são mais reais que
meu pai
mais reais que Deus
e poderiam ter pisado nos meus
pés mas não pisaram
poderiam ter feito coisas horríveis
mas não fizeram.
Eu tinha quase 5 anos
mas ainda não consegui esquecer;
ó meu deus eles eram fortes e bons
as línguas vermelhas molhadas
projetadas para fora de suas almas.

Tinha começado a antipatizar com meu pai. Ele sempre estava zangado com alguma coisa. Onde quer que fôssemos, ele dava um jeito de discutir com as pessoas. Mas a maioria parecia não se assustar com sua figura; as pessoas normalmente o encaravam, calmamente, o que o deixava ainda mais exaltado. Se fôssemos comer fora, o que raramente acontecia, ele sempre encontrava algo de errado na comida e algumas vezes se recusava a pagar.
– Tem cocô de mosca na nata! Que diabo de lugar é este?
– Minhas desculpas, senhor. Não vamos cobrar nada. Apenas faça o favor de se retirar.
– Está certo, estou de saída! Mas voltarei. E voltarei para pôr abaixo esta maldita espelunca!
De outra feita, estávamos numa loja de conveniências, e eu e minha mãe ficamos de lado enquanto meu pai gritava com um atendente. Outro funcionário perguntou a minha mãe:
– Quem é esse sujeito horrível? Toda vez que ele vem aqui arranja uma discussão.
– É meu marido – disse minha mãe ao funcionário.
E ainda lembro de mais outra. Ele estava trabalhando como leiteiro e fazia entregas de manhã bem cedo. Certa manhã ele me acordou.
– Vamos, quero lhe mostrar uma coisa.
Fui até a rua com ele. Eu estava de pijama e chinelos. Ainda era noite, e a lua brilhava alta no céu. Caminhamos até o caminhão de leite, que era puxado a cavalo. O animal estava bastante quieto.
– Veja – disse meu pai. Ele pegou um torrão de açúcar, colocou sobre a palma da mão e levou até a boca do cavalo. O animal apanhou o torrão da sua mão. – Agora, tente você...
Colocou um torrão de açúcar na minha mão. Tratava-se de um enorme cavalo.
– Aproxime-se! Mantenha a mão estendida!
Tive medo de que o cavalo me mordesse. A cabeça se curvou; pude ver suas narinas, os lábios se retraíram, vi a língua e os dentes, e então o torrão de açúcar desapareceu.
– Aqui. Tente outra vez...
E eu tentei. O cavalo abocanhou o torrão e balançou a cabeça.
– Agora – disse meu pai –, vou levar você de volta para dentro antes que o cavalo cague em cima de você.
Não me era permitido brincar com outras crianças.
– Essas crianças são más – dizia meu pai –, e os pais delas são pobres.
– É verdade – concordava minha mãe.
Meus pais queriam ser ricos. Por isso, imaginavam-se ricos.
Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado, e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais.
– Misto-quente
1 282

Nirvana

sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.

Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 460

Faíscas

a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.

jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los

a maioria de nós em 
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado

poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos

aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado

os raros brancos que ficavam
eram loucos

trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.

eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos

subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres

para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos

enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas

éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho

mas isso
não nos tocou
nunca

entre aquelas paredes despelando

o barulho das brocas
e serras

as faíscas

éramos uma turma boa
naquele balé mortal

éramos maravilhosos

dávamos a eles
muito mais do que pediam

e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
1 071

A Deusa de Um Metro E Oitenta (Para S.D.)

sou grande
suponho que é por isso que minhas mulheres sempre parecem
pequenas
mas essa deusa de um metro e oitenta
que negocia imóveis
e arte
e voa do Texas
para me ver
e eu voo ao Texas
para vê-la –
bem, há nela uma abundância para
ser agarrada
e eu agarro tudo
dela,
puxo sua cabeça para trás pelos cabelos,
sou macho pra valer,
chupo seu lábio superior
sua boceta
sua alma
monto nela e lhe digo:
“vou jorrar suco branco quente
dentro de você. não voei até
Galveston pra jogar
xadrez”.
depois deitamos entrelaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo sob seu travesseiro
meu braço direito sobre seu flanco
aperto suas duas mãos,
e meu peito
barriga
bolas
pau
emaranham-se nela
e através de nós no escuro
passam brancos raios berrantes
pra lá e pra cá
pra lá e pra cá
até que eu despenco
e nós dormimos.
ela é selvagem
mas gentil
minha deusa de um metro e oitenta
me faz rir
a risada do mutilado
que ainda precisa
de amor,
e seus olhos abençoados
brotam nas profundezas de sua cabeça
como nascentes interiores
no íntimo distante
e
frescas e boas.
ela me salvou
de tudo que
não está aqui.

COMECEI A SUGAR O AR DE SEUS PULMÕES
1 242

Quem Diabos É Tom Jones?

fiquei dormindo
com uma garota de
24 anos de Nova York
por duas semanas,
mais ou menos pela época
da greve dos lixeiros
lá fora, e certa noite
essa mulher de 34 anos
apareceu e falou
“quero ver minha rival”,
fez isso e então
disse: “ah, você é uma
coisinha querida!”
depois só sei que houve um
turbilhão de gatas selvagens –
festival de berros e unhadas,
gemidos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torci meu joelho. então
elas atravessaram a
porta e desceram a entrada
e saíram pela rua.
viaturas cheias de policiais
chegaram. um helicóptero da polícia
circulou acima.
eu me parei no banheiro
e escancarei um sorriso no espelho.
não é frequente aos
55 anos de idade
que ocorra tão
esplêndida ação.
foi melhor do que os
distúrbios de Watts.
então a de 34 anos
entrou de volta. estava toda
mijada e sua
roupa estava rasgada e
vinha seguida por 2 policiais
que queriam saber
por quê.
erguendo meu calção
eu tentei explicar.
1 038

Um Mágico Desaparecido

eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
937

Sentado Numa Lancheria Na Beira da Estrada

minha filha é a coisa mais
gloriosa.
estamos comendo no meu
carro em Santa Monica.
eu digo: “Ei, menina,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela olha pra mim.
baixo minha cabeça
me inclino sobre o volante,
então abro a porta num chute,
“Eu sou um GÊNIO!”.
então vomito
de mentirinha.
ela ri, mordendo
seu sanduíche.
eu me endireito,
pego 4 batatas fritas,
coloco na minha boca,
mastigo.
são 5:30 da tarde
e os carros disparam pra lá
e pra cá passando
por nós.
dou uma olhada de canto.
ela sorri com todos os dentes
seus olhos brilham com
o que resta do
mundo.
temos toda a sorte
de que precisamos.
1 074

Nenhuma Sorte Nisso

há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1 304

Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão

tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?

ACORDO BEM A TEMPO
1 647

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Mário Quintana
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