Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 062 530 Visualizações

O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Usando a Coleira

moro com uma dama e quatro gatos
e há certos dias em que todos nos damos
bem.

há certos dias em que tenho problemas com
um dos
gatos.

há outros dias em que tenho problemas com
dois dos
gatos.

outros dias,
três.

há certos dias em que tenho problemas com
todos os quatro
gatos

e a
dama:

dez olhos me fitando
como se eu fosse um cachorro.
1 322

Conheço o Famoso Poeta

esse poeta era famoso fazia muito tempo
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.

fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”

ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.

não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.

ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”

eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”

“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”

“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.

num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.

“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”

“não confio em você”,
veio a voz
fina.

bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.

quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.

“hã”, eu disse,
“oi...”

“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.

“hã, quefoique eu
falei?”

“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”

“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”

ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.

“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”

“estou certo disso”, ele
respondeu.

a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:

ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores

e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking

e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?

ah sim:
Lamantia.
1 412

A Morte de Uma Esplêndida Vizinhança

havia um lugar perto da Western Ave.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.

aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.

entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.

depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.

quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
1 056

Máquina Mágica

eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno

mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.

era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 164

Seguidores

o telefone tocou à 1:30 da manhã
e era um homem de Denver:

“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”

“é?”

“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”

“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...

“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.

“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”

“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.

“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.

“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”

“é verdade...”

“O CHINASKI É UM IMBECIL!”

então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.

“manda uns poemas pra gente agora...”

“vou ver o que posso fazer...”

“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”

“tchau”, eu disse.

“tchau”, disse o
editor.

eu desliguei.

há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
1 121

Quente

há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 223

É Engraçado, Não É? #2

quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão

falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer

e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:

todos
gostaríamos de morrer
fodendo

(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)

e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer

e
embora
estejamos
prontos

quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos

sob os
lençóis

agora
que

quase todos
nós

já fodemos
com as nossas
vidas.
1 368

A Maldição Mágica

nunca gostei da ideia de morar na rua então mantive distância da sopa
dos pobres, dos bancos de sangue e das assim chamadas
doações.

fiquei tão terrivelmente magro que se
eu virasse de lado era difícil enxergar minha sombra sob um
sol forte do meio-dia.

não tinha importância para mim contanto que eu mantivesse distância da
multidão

e mesmo lá embaixo se tratava de
uma multidão exitosa e de uma multidão
fracassada.

não creio que eu fosse louco
mas muitos dos
loucos acham
isso

mas eu acho
agora
que se algo me salvou
foi o fato de ter evitado a
multidão

isso foi minha
comida

ainda
é.

me coloquem numa sala com mais do que
3 pessoas
eu tendo a me comportar
de um jeito bem
esquisito.

uma vez
até perguntei à minha esposa: escuta, eu devo ter
uma doença... será que devo procurar um
psiquiatra?

meu Deus, eu disse, ele é capaz de me curar
e aí o que é que eu vou
fazer?

ela só ficou me olhando
e nós esquecemos
a coisa
toda.
1 238

Eu E Meu Amigão

eu ainda consigo nos ver
juntos
naquele tempo
sentados na margem do rio
enchendo
a cara de
vinho
e brincando com o
poema
sabendo que era
totalmente inútil
mas algo para
fazer
durante
a espera

os imperadores
com seus assustados
semblantes de argila
nos observam enquanto
bebemos

Li Po estraçalha seus
poemas
põe fogo
neles
e os lança flutuando rio
abaixo.

“o que você
fez?”, eu
pergunto.
Li passa a
garrafa: “eles
vão terminar
não importa o que
aconteça...”

eu bebo para saudar seu
conhecimento
passo a garrafa
de volta

sento firme sobre meus
poemas
que eu
enfiei virilha
adentro

ajudo Li a queimar
mais algumas de suas
poesias

elas flutuam bem
rio
abaixo
iluminando a
noite
como deveriam fazer
as boas palavras.
1 249

Sobre a Conferência da Pen

afaste um escritor de sua máquina de escrever
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
1 279

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Mário Quintana
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