Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 061 231 Visualizações

Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Saia Antes do Sol

vire à esquerda na Moscow ou
me encontre na Enchilada House.

os cães me arrastaram até
aqui.
estou entorpecido pelo Destino
mas disposto a jogar como um linebacker no
quarto tempo.

beber?
ou pensar?
melhor beber.

nós viramos o filósofo
da pedra
por falta de coisas melhores.
costumávamos destruir, agora notamos
o que resta:
nós, eles, nós e a
maquinaria.
perfeitamente unidos como a lesma e
a folha.
que tenebrosa fraude são essas
regras!
quem inventou isso?
peguem o desgraçado, assem com o
carneiro!
engraçado falar, o quê?
tipo Mary tinha um carneirinho e saiu
da cidade às
9:15.
coisa de pedra.
coisa de perda, com um sorriso
cabisbaixo.

bebida?
não importa,
e importa.

o que mais importa é o que acontece com
outra pessoa, não
com você.
que curioso que tenha chegado a
isso.
água de nascente alpina não diria
melhor.
ou a contagem até dez.

a inesperada mágica de um argumento
bem apresentado
pode te levar de fogo para fogo,
de inferno para inferno.
tudo diz respeito a isso, ali ao
lado da
pedra.
vire à esquerda na Moscow, desça
pela Denver.

beba.
1 012

O Homem do Terno Marrom

porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.

um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.

o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.

mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.

saí antes que a
polícia
chegasse.

quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
1 072

Não Tem Remédio Pra Isso

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais do que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

e

nós vamos esperar
e
esperar

nesse
espaço.
2 467

Batendo Pé No Savoy

agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!

sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?

agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?

desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?

ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!

Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?

não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”

Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
985

A Única Vida

eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.

ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.

ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 020

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 053

Couvert Artístico

Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”

ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.

“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”

aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 077

O Mundo Dos Manobristas

depois de ter meu carro arrombado duas vezes
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...

então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...

e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha

“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”

“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.

no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”

o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”

eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.

então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.

“como vou provar que esse
carro é
meu?”

“você vai ter que
nos convencer...”

quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:

“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”

“eu acho
compreensível...”

dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”

“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”

e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:

lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”

e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:

“Frank, bebê, tudo é
morte!”

e o escutei responder pelos
fones de ouvido:

“isso-aí porra!”

ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul

foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira

entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul

há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
1 026

Exame de Direção

motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.

tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.

mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.

mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.

foi a minha primeira
vez.

eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 301

Rasgue

quando um poema não funciona, esqueça, não o persiga, não tente
acariciá-lo e molestá-lo, não o faça entrar nos A.A. ou
virar um cristão nascido
de novo.

quando um poema não funciona, simplesmente tire a folha da
máquina, rasgue, jogue no lixo – dá uma sensação
boa.

ouça, você escreve porque é a última metralhadora
na última colina.

você escreve porque é um pássaro sentado num fio, aí
subitamente suas asas batem e o seu traseiro idiota está
voando no ar.

você escreve porque o manicômio está lá arrotando e
peidando, pesado de mentes e corpos, você escreve porque
teme o extremo da loucura...

quando um poema não funciona, ele não funciona; esqueça;
o ritmo é a essência.

sei de uma dama que escreve tantos poemas que ela deve
levantar às 7 da manhã e datilografar até a meia-noite.

ela está numa competição de escrita de poesia – consigo
mesma.

quando um poema não funciona, não é o fim; não é sequer uma
banana podre, não é sequer uma ligação por engano pedindo para falar com
Blanche Higgins.

quando um poema não funciona é só porque você não acertou a mão
naquele momento.
ou você acerta
em algum momento?

pegue esse papel, rasgue, descarte, então
espere.

mas não fique sentado diante da máquina, faça outra
coisa – olhe tv, diga oi à sua esposa, mime o
gato.

nem tudo é feito
de papel.
1 061

Citações

2

Obras

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Videos

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