A Química Das Coisas
sempre achei que Mary Lou era magrinha e
estava longe de ser um colírio para os olhos
ao passo que quase todos os outros caras
achavam Mary Lou uma
gostosa.
talvez tenha sido por isso que ela ficou comigo
na escola intermediária.
minha indiferença foi decerto
um atrativo.
eu era frio e mau naquele tempo
e quando os caras me perguntavam
“você já comeu a Mary Lou?”
eu respondia com a
verdade: “ela
me dá tédio”.
tinha um cara
que dava aula de química.
Sr. Humm. Humm usava uma pequena
gravata-borboleta e um terno preto, um
troço barato e amassado, ele
era supostamente um
crânio
e um dia Mary Lou veio falar
comigo
e disse que Humm a tinha mantido na sala
depois da aula
e a tinha levado para o
cubículo e
a tinha beijado e
apalpado sua
calcinha.
ela chorava: “o que é que eu vou
fazer?”
“esquece”, eu disse,
“as substâncias químicas ferraram
o cérebro dele. nós temos uma professora de inglês
que fica levantando a saia em volta das
coxas todos os dias e quer ir pra cama com
todos os caras da turma. nós gostamos dela mas
não estamos nem aí.”
“por que você não dá uma surra no Sr. Humm?”,
ela me perguntou.
“eu poderia, mas acabariam me transferindo pro
Stuart Hall.”
no Stuart Hall eles cagavam os alunos
de tanto pau
e ignoravam matemática, inglês,
música, eles só prendiam os alunos numa
oficina
onde você ficava consertando carros velhos
que eles revendiam com grandes
lucros.
“eu achava que você gostava de mim”, disse Mary
Lou, “você não entende que ele
me beijou, enfiou a língua na minha
garganta e passou a mão no meu
traseiro?”
“bem”, eu disse, “nós vimos a boceta
da sra. Lattimore outro dia, na aula de inglês.”
Mary Lou foi embora
chorando...
bem, ela contou à
mãe dela e Humm se lascou, ele
teve que
pedir demissão, o pobre filho da
puta.
depois os caras me perguntaram
“ei, o que você acha do Humm
metendo a mão na bunda da sua
garota?”
“só mais um cara sem bom
gosto”, eu respondi.
eu era frio e mau
naquele tempo e passei à
escola secundária, a mesma
que Mary Lou frequentava
onde ela se casou
secretamente
durante seu último ano
com um cara
que eu conhecia, um cara que eu
deixei pra trás na bebida e caguei de tanto pau
algumas
vezes.
o cara achava que tinha
algo especial.
ele quis que eu fosse
padrinho de casamento.
eu disse não, obrigado, e muita
sorte.
nunca consegui entender
o que viam na
Mary Lou.
e o pobre Humm: que
velhote solitário e
doente.
de todo modo, depois entrei na
faculdade
onde o único abuso que
cheguei a ver acontecendo
era o que eles cometiam com a nossa
mente.
Bestas Saltando Ao Longo do Tempo –
Van Gogh escrevendo ao irmão pedindo tintas
Hemingway testando sua espingarda
Céline falindo como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs matando a esposa com uma arma
Mailer esfaqueando a dele
a impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remo
Dostoiévski enfileirado num muro para ser fuzilado
Crane pulando de um barco na voragem da hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na estrada pelos soldados espanhóis
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton tomando veneno de rato
Shakespeare um plagiador
Beethoven com a corneta de surdez enfiada na cabeça
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche totalmente enlouquecido
a impossibilidade de ser humano
demasiado humano
esse respirar
pra dentro e pra fora
pra fora e pra dentro
esses marginais
esses covardes
esses campeões
esses loucos cães da glória
movendo um tantinho de luz rumo a
nós
impossivelmente.
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
Não Tem Remédio Pra Isso
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos
nós saberemos
nós saberemos
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1813-1883
ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
O Mundo Dos Manobristas
depois de ter meu carro arrombado duas vezes
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...
então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...
e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha
“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”
“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.
no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”
o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”
eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.
então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.
“como vou provar que esse
carro é
meu?”
“você vai ter que
nos convencer...”
quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:
“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”
“eu acho
compreensível...”
dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”
“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”
e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:
lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”
e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:
“Frank, bebê, tudo é
morte!”
e o escutei responder pelos
fones de ouvido:
“isso-aí porra!”
ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul
foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira
entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul
há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
Batendo Pé No Savoy
agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
O Homem do Terno Marrom
porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
Um Homem Para Os Séculos
no todo, bebendo aqui rumo às primeiras horas da manhã e
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
Meu Amigo, o Atendente do Estacionamento
– ele é um dândi
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.