Chico Buarque

Chico Buarque

n. 1944 BR BR

Chico Buarque de Hollanda é um dos mais proeminentes cantores, compositores e escritores brasileiros. Sua obra musical, marcada pela sofisticação melódica e pela poesia engajada, o consagrou como um ícone da MPB. Paralelamente à carreira musical, desenvolveu uma obra literária que explora temas sociais e existenciais com profunda sensibilidade e domínio da linguagem.

n. 1944-06-19, Rio de Janeiro

82 758 Visualizações

Beatriz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Francisco Buarque de Hollanda, amplamente conhecido como Chico Buarque, é uma figura central na cultura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. É cantor, compositor, dramaturgo e escritor. Sua obra é escrita predominantemente em português.

Infância e formação

Nascido em uma família de intelectuais e artistas, Chico Buarque teve contato com a música e a literatura desde cedo. Seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, foi um renomado historiador e sociólogo, e sua mãe, Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda, era professora de piano. Essa atmosfera culturalmente rica proporcionou ao jovem Chico uma formação singular. Estudou em colégios tradicionais, mas sua verdadeira escola foi o ambiente familiar e os círculos intelectuais que frequentava.

Percurso literário

Embora tenha se destacado inicialmente como compositor e cantor na década de 1960, Chico Buarque sempre nutriu um forte interesse pela literatura. A escrita de contos e romances surgiu como uma extensão natural de sua veia poética e de sua habilidade com a palavra. Seu primeiro romance, "Estorvo", foi publicado em 1991, marcando sua estreia formal no mundo literário. Seguiram-se outras obras que consolidaram seu nome como escritor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra literária de Chico Buarque é caracterizada por uma prosa densa, repleta de lirismo e ironia. Seus romances frequentemente exploram as complexidades das relações humanas, as mazelas sociais do Brasil, a memória e o tempo. A linguagem é precisa e musical, muitas vezes evocando a cadência de suas canções. Temas como o amor, a perda, a política e a identidade são recorrentes. O uso de narrativas fragmentadas e personagens multifacetados demonstra um apuro técnico e uma profundidade psicológica notáveis. "Estorvo", "Budapeste" e "Leite Derramado" são alguns de seus romances mais aclamados, cada um apresentando uma abordagem estilística e temática distinta, mas sempre com a marca inconfundível do autor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Chico Buarque emergiu na cena cultural brasileira em um período de intensa efervescência artística e política, coincidente com a ditadura militar (1964-1985). Sua música e, posteriormente, sua literatura, muitas vezes carregaram um tom crítico e reflexivo sobre a sociedade e o regime, o que lhe rendeu censura e exílio temporário. Ele se tornou um porta-voz de sua geração, dialogando com os anseios por liberdade e democracia. Sua obra está intrinsecamente ligada à história recente do Brasil, refletindo seus conflitos, esperanças e contradições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Chico Buarque é conhecido por sua discrição em relação à vida pessoal. Foi casado com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas. Sua vida é marcada por uma dedicação intensa à arte, conciliando as carreiras musical e literária com um notável senso de responsabilidade social. Sua postura pública sempre foi de um artista comprometido com a reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Como compositor e intérprete, Chico Buarque é um dos artistas mais premiados e reverenciados do Brasil. Sua obra literária também recebeu amplo reconhecimento da crítica especializada e do público, com seus livros sendo traduzidos para diversos idiomas e aclamados em festivais literários internacionais. É considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Chico Buarque são diversas, abrangendo desde a tradição da Bossa Nova e da MPB até a literatura de autores como Machado de Assis e Graciliano Ramos. Seu legado é imenso, tanto na música quanto na literatura, inspirando inúmeros artistas e escritores. Ele consolidou uma forma de expressão que une a sofisticação artística ao engajamento social e à profunda reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Chico Buarque é objeto de inúmeras análises críticas que destacam sua habilidade em retratar a alma brasileira, suas complexidades e contradições. A crítica frequentemente aponta para a universalidade de seus temas, apesar da forte ancoragem na realidade brasileira. Sua capacidade de transitar entre o poético e o político, o pessoal e o social, é um dos aspectos mais celebrados.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Chico Buarque é conhecido por ser um jogador de futebol amador dedicado, participando de jogos beneficentes e amistosos. Sua paixão pelo esporte é uma faceta menos explorada de sua personalidade pública. Além disso, sua relação com os números e a precisão na escrita, algo que se reflete em suas composições e em seus romances, é um traço marcante de seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Chico Buarque está vivo e continua ativo em sua produção artística. Sua memória é celebrada cotidianamente através de sua vasta obra, que segue influenciando e encantando gerações.

Poemas

26

Mar e lua

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar

2 015

O que será (à flor da pele)

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

2 306

O que será

(À flor da terra)

Chico Buarque e Milton Nascimento 1976

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

1 921

O meu guri

Chico Buarque 1981

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

3 238

Até pensei

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

2 650

Ela e sua janela

Ela e sua menina
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda

Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua

Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida

1 764

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

1 625

As vitrines

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

2 116

Paratodos

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista

O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

2 301

De todas as maneiras

De todas as maneiras
Que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora
Tá linddo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coraçãao
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

De todas as maneiras que há de amar
Já nos machucamos
Com todas as palavras feitas pra humilhar
Nos afagamos
Agora já passa da hora
Tá lindo lá fora
Larga a minha mão
Solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

2 105

Citações

1

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.