Chico Buarque

Chico Buarque

n. 1944 BR BR

Chico Buarque de Hollanda é um dos mais proeminentes cantores, compositores e escritores brasileiros. Sua obra musical, marcada pela sofisticação melódica e pela poesia engajada, o consagrou como um ícone da MPB. Paralelamente à carreira musical, desenvolveu uma obra literária que explora temas sociais e existenciais com profunda sensibilidade e domínio da linguagem.

n. 1944-06-19, Rio de Janeiro

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Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

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Biografia

Identificação e contexto básico

Francisco Buarque de Hollanda, amplamente conhecido como Chico Buarque, é uma figura central na cultura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. É cantor, compositor, dramaturgo e escritor. Sua obra é escrita predominantemente em português.

Infância e formação

Nascido em uma família de intelectuais e artistas, Chico Buarque teve contato com a música e a literatura desde cedo. Seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, foi um renomado historiador e sociólogo, e sua mãe, Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda, era professora de piano. Essa atmosfera culturalmente rica proporcionou ao jovem Chico uma formação singular. Estudou em colégios tradicionais, mas sua verdadeira escola foi o ambiente familiar e os círculos intelectuais que frequentava.

Percurso literário

Embora tenha se destacado inicialmente como compositor e cantor na década de 1960, Chico Buarque sempre nutriu um forte interesse pela literatura. A escrita de contos e romances surgiu como uma extensão natural de sua veia poética e de sua habilidade com a palavra. Seu primeiro romance, "Estorvo", foi publicado em 1991, marcando sua estreia formal no mundo literário. Seguiram-se outras obras que consolidaram seu nome como escritor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra literária de Chico Buarque é caracterizada por uma prosa densa, repleta de lirismo e ironia. Seus romances frequentemente exploram as complexidades das relações humanas, as mazelas sociais do Brasil, a memória e o tempo. A linguagem é precisa e musical, muitas vezes evocando a cadência de suas canções. Temas como o amor, a perda, a política e a identidade são recorrentes. O uso de narrativas fragmentadas e personagens multifacetados demonstra um apuro técnico e uma profundidade psicológica notáveis. "Estorvo", "Budapeste" e "Leite Derramado" são alguns de seus romances mais aclamados, cada um apresentando uma abordagem estilística e temática distinta, mas sempre com a marca inconfundível do autor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Chico Buarque emergiu na cena cultural brasileira em um período de intensa efervescência artística e política, coincidente com a ditadura militar (1964-1985). Sua música e, posteriormente, sua literatura, muitas vezes carregaram um tom crítico e reflexivo sobre a sociedade e o regime, o que lhe rendeu censura e exílio temporário. Ele se tornou um porta-voz de sua geração, dialogando com os anseios por liberdade e democracia. Sua obra está intrinsecamente ligada à história recente do Brasil, refletindo seus conflitos, esperanças e contradições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Chico Buarque é conhecido por sua discrição em relação à vida pessoal. Foi casado com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas. Sua vida é marcada por uma dedicação intensa à arte, conciliando as carreiras musical e literária com um notável senso de responsabilidade social. Sua postura pública sempre foi de um artista comprometido com a reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Como compositor e intérprete, Chico Buarque é um dos artistas mais premiados e reverenciados do Brasil. Sua obra literária também recebeu amplo reconhecimento da crítica especializada e do público, com seus livros sendo traduzidos para diversos idiomas e aclamados em festivais literários internacionais. É considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Chico Buarque são diversas, abrangendo desde a tradição da Bossa Nova e da MPB até a literatura de autores como Machado de Assis e Graciliano Ramos. Seu legado é imenso, tanto na música quanto na literatura, inspirando inúmeros artistas e escritores. Ele consolidou uma forma de expressão que une a sofisticação artística ao engajamento social e à profunda reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Chico Buarque é objeto de inúmeras análises críticas que destacam sua habilidade em retratar a alma brasileira, suas complexidades e contradições. A crítica frequentemente aponta para a universalidade de seus temas, apesar da forte ancoragem na realidade brasileira. Sua capacidade de transitar entre o poético e o político, o pessoal e o social, é um dos aspectos mais celebrados.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Chico Buarque é conhecido por ser um jogador de futebol amador dedicado, participando de jogos beneficentes e amistosos. Sua paixão pelo esporte é uma faceta menos explorada de sua personalidade pública. Além disso, sua relação com os números e a precisão na escrita, algo que se reflete em suas composições e em seus romances, é um traço marcante de seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Chico Buarque está vivo e continua ativo em sua produção artística. Sua memória é celebrada cotidianamente através de sua vasta obra, que segue influenciando e encantando gerações.

Poemas

26

O que será (à flor da pele)

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

2 313

Caçada

Não conheço seu nome ou paradeiro
Adivinho seu rastro e cheiro
Vou armado de dentes e coragem
Vou morder sua carne selvagem
Varo a noite sem cochilar, aflito
Amanheço imitando o seu grito
Me aproximo rondando a sua toca
E ao me ver você me provoca
Você canta a sua agonia louca
Água me borbulha na boca
Minha presa rugindo sua raça
Pernas se debatendo e o seu fervor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador

Eu me espicho no espaço feito um gato
Pra pegar você, bicho do mato
Saciar a sua avidez mestiça
Que ao me ver se encolhe e me atiça
Que num mesmo impulso me expulso e abraça
Nossas peles grudando de suor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador

De tocaia fico a espreitar a fera
Logo dou-lhe o bote certeiro
Já conheço seu dorso de gazela
Cavalo brabo montado em pêlo
Dominante, não se desembaraça
Ofegante, é dona do seu senhor
Hoje é o dia da graça
Hoje é o dia da caça e do caçador

3 027

Mar e lua

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar

2 019

Sem açúcar

Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor
na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
A sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira

2 215

Pivete

Francis Hime - Chico Buarque 1978
No sinal fechado
ELe vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E at;é
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel

Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Nané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança pára-lama
Já era pára-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção

No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas

2 104

O meu guri

Chico Buarque 1981

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta conrrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro ocom o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço de mais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

3 241

O que será

(À flor da terra)

Chico Buarque e Milton Nascimento 1976

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

1 924

Paratodos

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens a vista

O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

2 309

Ela e sua janela

Ela e sua menina
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda

Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua

Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida

1 770

As vitrines

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

2 120

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