Chico Buarque

Chico Buarque

n. 1944 BR BR

Chico Buarque de Hollanda é um dos mais proeminentes cantores, compositores e escritores brasileiros. Sua obra musical, marcada pela sofisticação melódica e pela poesia engajada, o consagrou como um ícone da MPB. Paralelamente à carreira musical, desenvolveu uma obra literária que explora temas sociais e existenciais com profunda sensibilidade e domínio da linguagem.

n. 1944-06-19, Rio de Janeiro

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Beatriz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

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Biografia

Identificação e contexto básico

Francisco Buarque de Hollanda, amplamente conhecido como Chico Buarque, é uma figura central na cultura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil. É cantor, compositor, dramaturgo e escritor. Sua obra é escrita predominantemente em português.

Infância e formação

Nascido em uma família de intelectuais e artistas, Chico Buarque teve contato com a música e a literatura desde cedo. Seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, foi um renomado historiador e sociólogo, e sua mãe, Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda, era professora de piano. Essa atmosfera culturalmente rica proporcionou ao jovem Chico uma formação singular. Estudou em colégios tradicionais, mas sua verdadeira escola foi o ambiente familiar e os círculos intelectuais que frequentava.

Percurso literário

Embora tenha se destacado inicialmente como compositor e cantor na década de 1960, Chico Buarque sempre nutriu um forte interesse pela literatura. A escrita de contos e romances surgiu como uma extensão natural de sua veia poética e de sua habilidade com a palavra. Seu primeiro romance, "Estorvo", foi publicado em 1991, marcando sua estreia formal no mundo literário. Seguiram-se outras obras que consolidaram seu nome como escritor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra literária de Chico Buarque é caracterizada por uma prosa densa, repleta de lirismo e ironia. Seus romances frequentemente exploram as complexidades das relações humanas, as mazelas sociais do Brasil, a memória e o tempo. A linguagem é precisa e musical, muitas vezes evocando a cadência de suas canções. Temas como o amor, a perda, a política e a identidade são recorrentes. O uso de narrativas fragmentadas e personagens multifacetados demonstra um apuro técnico e uma profundidade psicológica notáveis. "Estorvo", "Budapeste" e "Leite Derramado" são alguns de seus romances mais aclamados, cada um apresentando uma abordagem estilística e temática distinta, mas sempre com a marca inconfundível do autor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Chico Buarque emergiu na cena cultural brasileira em um período de intensa efervescência artística e política, coincidente com a ditadura militar (1964-1985). Sua música e, posteriormente, sua literatura, muitas vezes carregaram um tom crítico e reflexivo sobre a sociedade e o regime, o que lhe rendeu censura e exílio temporário. Ele se tornou um porta-voz de sua geração, dialogando com os anseios por liberdade e democracia. Sua obra está intrinsecamente ligada à história recente do Brasil, refletindo seus conflitos, esperanças e contradições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Chico Buarque é conhecido por sua discrição em relação à vida pessoal. Foi casado com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas. Sua vida é marcada por uma dedicação intensa à arte, conciliando as carreiras musical e literária com um notável senso de responsabilidade social. Sua postura pública sempre foi de um artista comprometido com a reflexão crítica sobre a realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Como compositor e intérprete, Chico Buarque é um dos artistas mais premiados e reverenciados do Brasil. Sua obra literária também recebeu amplo reconhecimento da crítica especializada e do público, com seus livros sendo traduzidos para diversos idiomas e aclamados em festivais literários internacionais. É considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Chico Buarque são diversas, abrangendo desde a tradição da Bossa Nova e da MPB até a literatura de autores como Machado de Assis e Graciliano Ramos. Seu legado é imenso, tanto na música quanto na literatura, inspirando inúmeros artistas e escritores. Ele consolidou uma forma de expressão que une a sofisticação artística ao engajamento social e à profunda reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Chico Buarque é objeto de inúmeras análises críticas que destacam sua habilidade em retratar a alma brasileira, suas complexidades e contradições. A crítica frequentemente aponta para a universalidade de seus temas, apesar da forte ancoragem na realidade brasileira. Sua capacidade de transitar entre o poético e o político, o pessoal e o social, é um dos aspectos mais celebrados.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Chico Buarque é conhecido por ser um jogador de futebol amador dedicado, participando de jogos beneficentes e amistosos. Sua paixão pelo esporte é uma faceta menos explorada de sua personalidade pública. Além disso, sua relação com os números e a precisão na escrita, algo que se reflete em suas composições e em seus romances, é um traço marcante de seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Chico Buarque está vivo e continua ativo em sua produção artística. Sua memória é celebrada cotidianamente através de sua vasta obra, que segue influenciando e encantando gerações.

Poemas

26

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

1 625

Gente Humilde

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo num subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar

1 991

As vitrines

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir

Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

2 116

Mambordel

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês

Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três

O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel

Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção

Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças

1 278

Amando sobre os jornais

Amando noite afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias

Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes

Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar
o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nosso olhos vidrados
De mistério

1 496

Folhetim

Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim

E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falso
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis

Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim

3 507

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