Lista de Poemas

Orphée aux Enfers

Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.

Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.

Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.

Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.

E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.

Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.

NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
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Roast-Beef

A Artur Azevedo


Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.

Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.

Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.

Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.53. Poema integrante da série Clowns.

NOTA: Cabo = cidade da África do Sul. Jônatas = filho do rei Saul e amigo de Davi. Tântalo = na mitologia greco-romana, personagem condenado ao suplício de viver num lago sem poder beber nem come
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Revolta do Túmulo

A TERRA (ao aproximar-se um cadáver)

E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...

O OCEANO (à parte)

Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
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O Epigrama

O epigrama é uma centelha
Do espírito do Diabo,
Faísca como um pirilampo: e, ao cabo,
Se assemelha
A uma abelha,
Por ter ferrão no rabo.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.66. Poema integrante da série Clowns
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Spleen

Tenho um fantasma secreto
Como um vírus deletério...
Às vezes traja de Hamleto
Com cenas no cemitério.

Numa idéia que interrogo
Vejo o mal que a mim impele-a...
Fito crânios, monologo,
Tenho saudades de Ofélia.

As minhas visões passadas,
As andorinhas de outrora,
Levantam-se em revoadas
Caminho de nova aurora,

E sobrenada-me e bóia
A negra dúvida imensa
Como um abutre de Goya
Sobre o cadáver da Crença!...

Às vezes creio que cessa
Dentro de mim uma existência:
Parece erguer-se uma essa
E uns coros à Providência!...

Estive pensando agora
Que na verdade eu quisera
Que bem se desse em tal hora
A morte de uma Quimera.

A Fantasia — essa mágica,
A causa de tudo aquilo,
É mais ardente e mais trágica
Que Shakespeare e Ésquilo!

Um ventre que sempre aborta
E cada aborto é um louco!...
Quem me dera vê-la morta
Torturando-a pouco a pouco!

Carregou-me tanto o tédio
Do dia d'ontem, que em suma,
Supus-me um vate-epicédio
Velho fetiche da bruma.

Desabrochou-me a flor da mágoa
Sobre os palores da fronte
Como antes da carga d'água
O claro sol no horizonte.

Quando o crepúsculo veio
Tive um raio de esperança:
Vi o céu rachado ao meio
Pelo arco da aliança!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69-70. Poema integrante da série Ruínas.

NOTA: Vate-epicédio = diz-se do poeta que compõe poesias em memória de algué
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Flor da Decadência

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!

Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.

— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
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Loura e Branca

I

Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.

Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.

Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!

Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...

II

Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.

Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.

Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...

Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.

NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
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CXV - Faróis

Rubens, jardim do ócio e rio do esquecimento,
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;

Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;

Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;

Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;

Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;

Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;

Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;

(...)

Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.

(...)


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.

NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
1 214

XI - Toledo

Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.

Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.

Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.

Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
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VI - Dogaressa

Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.

A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.

A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.

Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
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Identificação e contexto básico

Fontoura Xavier é um poeta angolano. Sua obra poética é reconhecida pela profundidade lírica e pela temática ligada à identidade e à cultura de Angola.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação específica de Fontoura Xavier são limitadas em fontes públicas. No entanto, é presumível que sua educação e as vivências em Angola tenham sido cruciais para a formação de sua sensibilidade poética e para a escolha dos temas em sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Fontoura Xavier se consolida através de sua produção poética, que o insere no cenário da literatura angolana contemporânea. Sua obra tem sido gradualmente reconhecida, explorando as nuances da experiência e da identidade africana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Fontoura Xavier foca em temas como a identidade angolana, a memória coletiva e individual, e a descrição das paisagens e realidades de seu país. Sua poesia é caracterizada por um lirismo introspectivo, utilizando uma linguagem rica em simbolismos e metáforas que evocam a cultura e a história de Angola. O uso de imagens fortes e uma musicalidade intrínseca marcam seu estilo. Sua obra dialoga com a tradição literária angolana, buscando expressar as complexidades da experiência pós-colonial.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fontoura Xavier escreve em um contexto pós-colonial angolano, marcado pela busca de afirmação cultural e identitária. Sua obra se insere nesse movimento, refletindo as realidades e as aspirações de seu povo. A relação com outros escritores angolanos e a participação em círculos literários contribuem para a difusão de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Fontoura Xavier são escassos em fontes públicas. Contudo, é razoável inferir que suas vivências e percepções do mundo moldam sua expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Fontoura Xavier tem conquistado reconhecimento no meio literário angolano por sua voz poética singular. Sua obra é valorizada pela originalidade e pela profundidade com que aborda temas identitários e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Fontoura Xavier tenha sido influenciado por grandes nomes da literatura angolana e africana. Seu legado reside em sua contribuição para a diversidade da poesia em língua portuguesa, oferecendo uma perspectiva autêntica sobre a realidade de Angola.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Fontoura Xavier pode ser analisada sob a perspectiva da literatura pós-colonial e da poesia identitária, explorando as ressonâncias da história e da cultura em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida e obra de Fontoura Xavier não estão amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre a morte de Fontoura Xavier.