Orphée aux Enfers
Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.
Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.
Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.
Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.
E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.
Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.
NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
Spleen
Tenho um fantasma secreto
Como um vírus deletério...
Às vezes traja de Hamleto
Com cenas no cemitério.
Numa idéia que interrogo
Vejo o mal que a mim impele-a...
Fito crânios, monologo,
Tenho saudades de Ofélia.
As minhas visões passadas,
As andorinhas de outrora,
Levantam-se em revoadas
Caminho de nova aurora,
E sobrenada-me e bóia
A negra dúvida imensa
Como um abutre de Goya
Sobre o cadáver da Crença!...
Às vezes creio que cessa
Dentro de mim uma existência:
Parece erguer-se uma essa
E uns coros à Providência!...
Estive pensando agora
Que na verdade eu quisera
Que bem se desse em tal hora
A morte de uma Quimera.
A Fantasia — essa mágica,
A causa de tudo aquilo,
É mais ardente e mais trágica
Que Shakespeare e Ésquilo!
Um ventre que sempre aborta
E cada aborto é um louco!...
Quem me dera vê-la morta
Torturando-a pouco a pouco!
Carregou-me tanto o tédio
Do dia d'ontem, que em suma,
Supus-me um vate-epicédio
Velho fetiche da bruma.
Desabrochou-me a flor da mágoa
Sobre os palores da fronte
Como antes da carga d'água
O claro sol no horizonte.
Quando o crepúsculo veio
Tive um raio de esperança:
Vi o céu rachado ao meio
Pelo arco da aliança!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69-70. Poema integrante da série Ruínas.
NOTA: Vate-epicédio = diz-se do poeta que compõe poesias em memória de algué
Loura e Branca
I
Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.
Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.
Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!
Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...
II
Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.
Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.
Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...
Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.
NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
O Epigrama
O epigrama é uma centelha
Do espírito do Diabo,
Faísca como um pirilampo: e, ao cabo,
Se assemelha
A uma abelha,
Por ter ferrão no rabo.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.66. Poema integrante da série Clowns
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!
Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
Revolta do Túmulo
A TERRA (ao aproximar-se um cadáver)
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
Roast-Beef
A Artur Azevedo
Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.
Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.
Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.
Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.53. Poema integrante da série Clowns.
NOTA: Cabo = cidade da África do Sul. Jônatas = filho do rei Saul e amigo de Davi. Tântalo = na mitologia greco-romana, personagem condenado ao suplício de viver num lago sem poder beber nem come
O Saltimbanco Régio
I
"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.
II
Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.
III
Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!
IV
É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!
Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!
Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
Brinde
Eu bebo à manhã de amores,
Manhã em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos,
Pisando na mesma grama.
E bebo à noite de amores,
À noite, em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos
Debaixo da mesma cama...
Na segunda edição de Opalas (1905), este poema aparece duas vezes, em livros diferentes: aparece pela primeira vez em Musa Livre e, pela segunda vez, em Ruínas, com o título Um brinde. Em Um brinde, os versos 4, 5 e 6, de ambas as estrofes, aparecem entre parênteses.
XAVIER, Fontoura. Opalas. 5. ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, PUCRS, 1984. p. 31
XI - Toledo
Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.
Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.
Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.
Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928