Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

1856–1922 · viveu 65 anos BR BR

Fontoura Xavier é um poeta angolano, cuja obra poética se destaca pela exploração da identidade, da memória e das paisagens de Angola. Sua poesia é frequentemente marcada por um lirismo introspectivo e pela busca de expressão das complexidades da experiência africana. Com uma linguagem rica em imagens e simbolismos, Xavier dialoga com a tradição literária angolana, ao mesmo tempo em que imprime sua voz única na poesia contemporânea.

n. 1856-06-07, Cachoeira do Sul · m. 1922-01-01, Lisboa

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Orphée aux Enfers

Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.

Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.

Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.

Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.

E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.

Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.

NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
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Biografia

Identificação e contexto básico

Fontoura Xavier é um poeta angolano. Sua obra poética é reconhecida pela profundidade lírica e pela temática ligada à identidade e à cultura de Angola.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação específica de Fontoura Xavier são limitadas em fontes públicas. No entanto, é presumível que sua educação e as vivências em Angola tenham sido cruciais para a formação de sua sensibilidade poética e para a escolha dos temas em sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Fontoura Xavier se consolida através de sua produção poética, que o insere no cenário da literatura angolana contemporânea. Sua obra tem sido gradualmente reconhecida, explorando as nuances da experiência e da identidade africana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Fontoura Xavier foca em temas como a identidade angolana, a memória coletiva e individual, e a descrição das paisagens e realidades de seu país. Sua poesia é caracterizada por um lirismo introspectivo, utilizando uma linguagem rica em simbolismos e metáforas que evocam a cultura e a história de Angola. O uso de imagens fortes e uma musicalidade intrínseca marcam seu estilo. Sua obra dialoga com a tradição literária angolana, buscando expressar as complexidades da experiência pós-colonial.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fontoura Xavier escreve em um contexto pós-colonial angolano, marcado pela busca de afirmação cultural e identitária. Sua obra se insere nesse movimento, refletindo as realidades e as aspirações de seu povo. A relação com outros escritores angolanos e a participação em círculos literários contribuem para a difusão de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Fontoura Xavier são escassos em fontes públicas. Contudo, é razoável inferir que suas vivências e percepções do mundo moldam sua expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Fontoura Xavier tem conquistado reconhecimento no meio literário angolano por sua voz poética singular. Sua obra é valorizada pela originalidade e pela profundidade com que aborda temas identitários e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Fontoura Xavier tenha sido influenciado por grandes nomes da literatura angolana e africana. Seu legado reside em sua contribuição para a diversidade da poesia em língua portuguesa, oferecendo uma perspectiva autêntica sobre a realidade de Angola.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Fontoura Xavier pode ser analisada sob a perspectiva da literatura pós-colonial e da poesia identitária, explorando as ressonâncias da história e da cultura em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida e obra de Fontoura Xavier não estão amplamente disponíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre a morte de Fontoura Xavier.

Poemas

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XI - Toledo

Toledo, a mística imperial Toledo.
Têmpera de aço e fé, cujo segredo
Guarda consigo, avulta no horizonte,
esbatida no píncaro de um monte.

Afigura-se, vendo-a, ver defronte
A agonia de morte de um rochedo
Que o Tejo enlaça violento e tredo
Como a serpente de Laocoonte.

Santos e sombras são-lhe os habitantes,
Santos de Greco, sombras de Cervantes:
Ao Conde d'Orgaz luz um resplendor.

Cristo depõe perante um tribunal,
O cavalo de Cid El Campeador
Ajoelha à porta de uma catedral!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
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CXV - Faróis

Rubens, jardim do ócio e rio do esquecimento,
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;

Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;

Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;

Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;

Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;

Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;

Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;

(...)

Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.

(...)


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.

NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
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Flor da Decadência

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!

Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.

— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!

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Pomo do Mal

Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.

No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!

Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...

E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...

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