Dé e a bruxa
Tinha uma boneca rota, esfarrapada
A que com os dedos imprimia vida
Dava riso de graça à meninada
E tornou-se pessoa mui querida
No fundo de minhalma está guardada
A lembrança dos dois, que é incontida
Vejo a boneca, cara amarfanhada
Junto ao peito do dono, adormecida
O tempo – vil ladrão – tudo nos leva
Deixa, contudo, nalma de reserva
Algo que à infância roubou o coração
Dé e a bruxa, mortos, eu contemplo
Sem esquecer jamais o seu exemplo
Trazer com um trapo alegria à solidão
Segundo soneto aos invernos de outrora
Voltar, olhos no tempo, vendo a chuva
Do jacaré na bica se banhar
Plantar olhos no céu, na nuvem turva
Rir e do riso ir ao gargalhar
Ver de novo seu pai, bem humorado
Tangendo a água que invadia o bar
E o povo alegre, rosto transmudado
Dizer tempo bonito! Só no olhar
Névoa a linha da serra debruando
Beijando o verde, a ele se doando
Numa carícia leve como arminho
Lembranças gratas que afloraram agora
Porque a chuva que cai, forte, lá fora
Levou-me a queridíssimo caminho
Beijo injeitado
Cabôca, si tu subesse
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
Terceiro soneto aos invernos de outrora
Caminho que se perde no distante
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido
Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora
Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado
E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado
Rosa imortal
Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.
Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa
Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.
Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.
Viver a dois
A um dois de setembro hoje chegaste
Um aniversário a mais, minha querida
Em espinhos, bem sei, vezes pisaste
Mas rosas também houve em tua vida
Alegrias, tristezas tu tiveste
Soubeste aproveitá-las, reconheço
E na vida o incentivo que me deste
Pelos anos afora não esqueço
Que não te roube a vida o bom - humor
A afeição que tens ao teu labor
Aos amigos, aos teus, ao rir à vida
Muitos setembros, queira Deus., alcances
E do viver a dois jamais te canses
Sempre a tirar lições da nossa lida
A morte do escorrego
Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
Brincando de criança
Mergulhar no passado de mansinho
É tarefa que cumpro a cada instante
Detendo-me da existência no caminho
Alço vôo e então pouso no distante
Quem me leva de volta é a saudade
Que vive no meu peito se aninhando
No entardecer da vida quem não-há-de
Viver sempre o seu ontem namorando
Namoro-o, sim, e é o pensamento
Que tudo alcança dentro de um momento
De tão ardente amor a viva chama
Apagá-la? Jamais! Pois, na verdade,
De criança brincar, fugir à idade
É algo que a velhice sempre ama.
Vero palhaço
Nascer, o vir à vida, a caminhada
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
Resposta difícil
Avô e neto, amor nos olhos, vi
Pelas ruas alegres da cidade
Os extremos da vida se tocavam
Coração novo e velho ambos pulsavam
O pulsar doce da felicidade.
Defronte a uma vitrine os dois pararam
E os olhos do garoto namoraram
Um namoro gosto e demorado
Com uma bola vestida der listrado
Que derramava cor na exposição.
E olhos buliçosos, o Netuno
Fitando o olhar baço do velhinho
Voz aflita lhe fez esse pedido:
Compre essa bola, meu avô, pra mim
Olhe pra ela, não é bonitinha ?
Procure aí um dinheiro no seu bolso
Pergunte o preço, depressa, àquele moço
Eu me amarro, vovô, em futebol.
E o velho, que era rico de pobreza
Mas do metal que compra muito pobre
Só tinha de abastança o coração
E a alma, sem tamanho, pura e nobre.
Perdeu, então, a fala de repente
Procurou-a. Inútil seu intento
Só encontrou pra responder ao neto
Um orvalhar de olhos bem discreto
E a fala muda de seu pensamento