Antônio Gonçalves Dias foi um dos principais poetas da primeira geração do Romantismo brasileiro, conhecido como "Indianismo". Sua obra é marcada pela exaltação da natureza brasileira e pela figura idealizada do índio como herói nacional.
Sua poesia, de grande lirismo e musicalidade, celebrou a identidade e a paisagem do Brasil, contribuindo para a formação de uma consciência literária nacional e para a valorização das raízes culturais do país.
n. 1823-08-10, Caxias·m. 1864-11-03, Guimarães
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Como eu te amo
Como se ama o silêncio, a luz, o aroma, O orvalho numa flor, nos céus a estrela, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horizonte assoma;
Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosíssimas do nauta, Quando em mole vaivém a nau flutua,
Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céu com luzes, um jardim com flores, Um canto quase em lágrimas sumido;
Como se ama o crepúsculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O sussurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e sedutora;
Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céus, Silêncio, e cores, e perfume, e vida, Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:
Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-to os lábios meus, - mais do que vale Cantar a voz do trovador cansada: O que é belo, o que é justo, santo e grande Amo em ti. - Por tudo quanto sofro, Por quanto já sofri, por quanto ainda Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta oculta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não supões, nem te eu revelo, Só pode no silêncio achar consolo, Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.
De mim não saberás como te adoro; Não te direi jamais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz!
Se andas, sou o eco dos teus passos; Da tua voz, se falas; o murmúrio saudoso que responde Ao suspiro que exalas.
No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês contigo!
Oculto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flores, Onde pisam teus pés. Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras, - "Não pensa em mim", dirás: Imagina-o, se o podes, que os meus lábios Não to dirão jamais!
Sim, eu te amo; porém nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O prêmio santo que anela O sofrer do trovador!
Sim, eu te amo; porém nunca Dos lábios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz!
Aos meus lábios, aos meus olhos Do silêncio imponho a lei; Mas lá onde a dor se esquece, Onde a luz nunca falece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei!
E então dirás: Objeto Fui de santo e puro amor: A sua canção singela; Tudo agora me revela; Já sei o prêmio que anela O sofrer do trovador.
"Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silêncio, os sons, os céus, Qual se amam cores e perfume e vida, Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!"
Antônio Gonçalves Dias nasceu em 10 de agosto de 1823, em Caxias, Maranhão, e faleceu em 3 de novembro de 1864, emcluded, Portugal. É considerado um dos maiores poetas da primeira geração do Romantismo brasileiro, a fase indianista. Sua obra é fundamental para a construção da identidade nacional brasileira, por meio da exaltação da pátria, da natureza exuberante e da figura do indígena como herói nacional. Sua nacionalidade era brasileira e escreveu em língua portuguesa.
Infância e formação
Gonçalves Dias teve uma infância marcada por sua origem mestiça, sendo filho de um branco português e uma mulata. Essa condição, que poderia ser vista como um obstáculo, foi por ele transformada em um dos pilares de sua obra, ao celebrar a diversidade brasileira. Estudou em Coimbra, Portugal, onde se formou em Direito, absorvendo as influências do Romantismo europeu. Sua formação acadêmica e as viagens pelo Brasil e pela Europa enriqueceram sua visão de mundo e sua sensibilidade poética.
Percurso literário
Seu ingresso na literatura se deu com a publicação de "Primeiros Cantos" (1846), obra que o consagrou como a principal voz do Romantismo indianista. Em "Segundos Cantos" (1848) e "Últimos Cantos" (1851), consolidou seu estilo e aprofundou temas como o amor, a saudade e o patriotismo. Atuou também como professor, jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, dedicando-se à pesquisa e à preservação da memória nacional. Sua obra, embora concentrada em um período relativamente curto, teve um impacto duradouro.
Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Gonçalves Dias incluem "Canção do Exílio", "I-Juca Pirama", "Os Timbiras" e "Meditação". Os temas centrais de sua poesia são a exaltação da pátria, a natureza brasileira, o amor idealizado e a figura do índio como símbolo da força e da pureza do Brasil. Seu estilo é caracterizado por um lirismo intenso, musicalidade ímpar e uma linguagem que busca expressar os sentimentos e as belezas do país. Utilizou o verso livre e formas fixas, com grande domínio rítmico. A voz poética é frequentemente pessoal e efusiva, transmitindo um profundo amor pelo Brasil. Ele foi pioneiro na criação de uma poesia genuinamente brasileira, rompendo com modelos puramente europeus e encontrando inspiração na terra e em seus habitantes.
Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Gonçalves Dias viveu no período do Segundo Reinado, uma época de consolidação do Estado brasileiro e de busca por uma identidade nacional. O Romantismo indianista foi um movimento que se alinhou a essa necessidade, encontrando no índio o representante ideal da pureza e da força originárias do Brasil. Sua obra dialogou com as aspirações nacionalistas da elite intelectual da época e com o desejo de construir uma cultura distintamente brasileira.
Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Sua vida foi marcada por viagens, tanto no Brasil quanto para o exterior. A saudade da pátria, sentida durante seus estudos em Portugal, tornou-se um tema recorrente em sua obra. Casou-se e teve filhos, mas sua vida foi tragicamente interrompida pela tuberculose, doença que também acometeu outros membros de sua família. Sua dedicação à poesia e aos estudos sobre o Brasil era evidente, e ele buscava conciliar sua produção literária com o serviço público.
Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção Gonçalves Dias obteve grande reconhecimento em vida como o principal poeta da sua geração e um dos fundadores da literatura brasileira. "Canção do Exílio" tornou-se um hino nacional não oficial, cantado por gerações. Sua obra foi acolhida com entusiasmo pela crítica e pelo público, consolidando seu lugar no cânone literário brasileiro como o pai do Indianismo e um dos maiores líricos da nossa literatura.
Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Gonçalves Dias foi influenciado por poetas românticos europeus, como Almeida Garrett e Lord Byron, mas soube transpor essas influências para a realidade brasileira. Seu legado é imensurável para a formação da identidade literária do Brasil. Ele inspirou inúmeros escritores e artistas a olharem para a terra e para seus personagens com orgulho e admiração, tornando o índio um símbolo nacional e a natureza brasileira um tema literário central. Sua obra continua a ser estudada e celebrada por sua beleza e por seu papel na construção da brasilidade.
Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A crítica literária tem destacado em Gonçalves Dias a sua habilidade em criar uma linguagem poética que reflete a alma brasileira, combinando o lirismo romântico com a exaltação da terra. A idealização do índio é um ponto frequentemente abordado, visto como uma estratégia para construir um herói nacional em um país sem tradições épicas europeias. Sua obra é considerada um marco na busca por uma literatura autenticamente nacional.
Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é que, apesar de sua fama, Gonçalves Dias faleceu em Portugal, longe de sua terra natal, em decorrência de uma doença. A "Canção do Exílio" é tão emblemática que versos como "Minha terra tem palmeiras / Onde canta o Sabiá" se tornaram sinônimos de brasilidade. Ele também se dedicou a estudos etnográficos sobre os povos indígenas, mostrando um interesse que ia além da mera inspiração poética.
Obra, estilo e características literárias
Morte e memória Gonçalves Dias faleceu em 3 de novembro de 1864, emcluded, Portugal, onde se encontrava em busca de tratamento para a tuberculose. Sua morte prematura, aos 41 anos, deixou um grande vazio na literatura brasileira. Sua memória é perpetuada como a de um dos pilares da nossa literatura, o poeta que deu voz à pátria e ao seu povo, eternizando a beleza do Brasil em versos imortais.
Poemas
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Como eu te amo
Como se ama o silêncio, a luz, o aroma, O orvalho numa flor, nos céus a estrela, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horizonte assoma;
Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosíssimas do nauta, Quando em mole vaivém a nau flutua,
Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céu com luzes, um jardim com flores, Um canto quase em lágrimas sumido;
Como se ama o crepúsculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O sussurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e sedutora;
Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céus, Silêncio, e cores, e perfume, e vida, Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:
Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-to os lábios meus, - mais do que vale Cantar a voz do trovador cansada: O que é belo, o que é justo, santo e grande Amo em ti. - Por tudo quanto sofro, Por quanto já sofri, por quanto ainda Me resta de sofrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta oculta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não supões, nem te eu revelo, Só pode no silêncio achar consolo, Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.
De mim não saberás como te adoro; Não te direi jamais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz!
Se andas, sou o eco dos teus passos; Da tua voz, se falas; o murmúrio saudoso que responde Ao suspiro que exalas.
No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês contigo!
Oculto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flores, Onde pisam teus pés. Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras, - "Não pensa em mim", dirás: Imagina-o, se o podes, que os meus lábios Não to dirão jamais!
Sim, eu te amo; porém nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O prêmio santo que anela O sofrer do trovador!
Sim, eu te amo; porém nunca Dos lábios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz!
Aos meus lábios, aos meus olhos Do silêncio imponho a lei; Mas lá onde a dor se esquece, Onde a luz nunca falece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei!
E então dirás: Objeto Fui de santo e puro amor: A sua canção singela; Tudo agora me revela; Já sei o prêmio que anela O sofrer do trovador.
"Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silêncio, os sons, os céus, Qual se amam cores e perfume e vida, Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!"
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Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, Estrelas incertas, que as águas dormentes Do mar vão ferir;
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Têm meiga expressão, Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta De noite cantando, — mais doce que a frauta Quebrando a solidão,
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir.
São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travessos; — causando tormento, Com beijos nos pagam a dor de um momento, Com modo gentil.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Às vezes luzindo, serenos, tranquilos, Às vezes vulcão!
Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, Tão frouxo brilhar, Que a mim me parece que o ar lhes falece, E os olhos tão meigos, que o pranto humedece Me fazem chorar.
Assim lindo infante, que dorme tranquilo, Desperta a chorar; E mudo e sisudo, cismando mil coisas, Não pensa — a pensar.
Nas almas tão puras da virgem, do infante, Às vezes do céu Cai doce harmonia duma Harpa celeste, Um vago desejo; e a mente se veste De pranto co'um véu.
Quer sejam saudades, quer sejam desejos Da pátria melhor; Eu amo seus olhos que choram em causa Um pranto sem dor.
Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, De vivo fulgor; Seus olhos que exprimem tão doce harmonia, Que falam de amores com tanta poesia, Com tanto pudor.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Assim é que são; Eu amo esses olhos que falam de amores Com tanta paixão.
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Não me deixes!
Debruçada nas águas dum regato A flor dizia em vão À corrente, onde bela se mirava: "Ai, não me deixes, não!
"Comigo fica ou leva-me contigo "Dos mares à amplidão; "Límpido ou turvo, te amarei constante; "Mas não me deixes, não!"
E a corrente passava; novas águas Após as outras vão; E a flor sempre a dizer curva na fonte: "Ai, não me deixes, não!"
E das águas que fogem incessantes À eterna sucessão Dizia sempre a flor, e sempre embalde: "Ai, não me deixes, não!"
Por fim desfalecida e a cor murchada, Quase a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flor enleia, Leva-a do seu torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: "Não me deixaste, não!"
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Canção do Exílio
Kennst du das Land, wo die Citronen bluhen, Im dunkeln Laub die Gold-Orangen gluhen? Kennst du es wohl? — Dahin, dahin! Mocht' ich.... ziehn. GOETHE
Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Coimbra, julho de 1843.
Publicado no livro Primeiros Cantos (1846). Poema integrante da série Poesias Americanas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: A epígrafe é uma citação, com cortes, da primeira estrofe da balada "Mignon": Conheces o país onde florescem as laranjeiras?/ Ardem na escura fronde os frutos de ouro.../ Conhecê-lo?/ Para lá, para lá,/ quisera eu ir! (Trad. Manuel Bandeira
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Se se Morre de Amor!
Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liedenben — aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe. SCHILLER. Die Rauber.
Se se morre de amor! — Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surpreende De ruidoso sarau entre os festejos; Quando luzes, calor, orquestra e flores Assomos de prazer nos raiam n'alma, Que embelezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança!
(...)
Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração — abertos, Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos, D'altas virtudes, té capaz de crimes! Compr'ender o infinito, a imensidade, E a natureza e Deus; gostar dos campos, D'aves, flores, murmúrios solitários; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E à branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o misérrimo dos entes: Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu'olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses tesouros Inesgotáveis, d'ilusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr'ender, sem ouvir, seus pensamentos, Segui-la, sem poder fitar seus olhos, Amá-la, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seus vestidos, Arder por afogá-la em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre!
(...)
Publicado no livro Cantos (1857). Poema integrante da série Novos Cantos.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
11 395
I-Juca-Pirama
Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo tupi.
Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci: Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.
(...)
Andei longes terras, Lidei cruas guerras, Vaguei pelas serras Dos vis Aimorés; Vi lutas de bravos, Vi fortes — escravos! De estranhos ignavos Calcados aos pés.
E os campos talados, E os arcos quebrados, E os piagas coitados Já sem maracás; E os meigos cantores, Servindo a senhores, Que vinham traidores, Com mostras de paz.
Aos golpes do imigo Meu último amigo, Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi! Com plácido rosto, Sereno e composto, O acerbo desgosto Comigo sofri.
Meu pai a meu lado Já cego e quebrado, De penas ralado, Firmava-se em mi: Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos, Cobertos d'espinhos Chegamos aqui!
(...)
Então, forasteiro, Caí prisioneiro De um troço guerreiro Com que me encontrei: O cru dessossego Do pai fraco e cego, Enquanto não chego, Qual seja, — dizei!
Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou.
Ao velho coitado De penas ralado, Já cego e quebrado, Que resta? — Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve Da vida que teve, Deixai-me viver!
Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, não coro Do pranto que choro; Se a vida deploro, Também sei morrer.
(...)
Imagem - 00250001
Publicado no livro Últimos Cantos (1851). Poema integrante da série Poesias Americanas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
43 119
A Concha e a Virgem
Linda concha que passava, Boiando por sobre o mar, Junto a uma rocha, onde estava Triste donzela a pensar,
Perguntou-lhe: — "Virgem bela, Que fazes no teu cismar?" — "E tu", pergunta a donzela, "Que fazes no teu vagar?"
Responde a concha: — "Formada Por estas águas do mar, Sou pelas águas levada, Nem sei onde vou parar!"
Responde a virgem sentida, Que estava triste a pensar: — "Eu também vago na vida, Como tu vagas no mar!
"Vais duma a outra das vagas, Eu dum a outro cismar; Tu indolente divagas, Eu sofro triste a cantar.
"Vais onde te leva a sorte, Eu, onde me leva Deus: Buscas a vida, — eu a morte; Buscas a terra, — eu os céus!
13 433
Pedido
Ontem no baile Não me atendias! Não me atendias, Quando eu falava.
De mim bem longe Teu pensamento! Teu pensamento, Bem longe errava.
Eu vi teus olhos Sobre outros olhos! Sobre outros olhos, Que eu odiava.
Tu lhe sorriste Com tal sorriso! Com tal sorriso, Que apunhalava.
Tu lhe falaste Com voz tão doce! Com voz tão doce, Que me matava.
Oh! não lhe fales, Não lhe sorrias, Se então só qu'rias Exp'rimentar-me.
Oh! não lhe fales, Não lhe sorrias, Não lhe sorrias, Que era matar-me.
Publicado no livro Primeiros Cantos (1846). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
16 669
Meu Anjo, Escuta
Le mal dont j'ai souffert s'est enfui comme un rêve, Je n'en puis comparer le lontain souvenir Qu'à ces brouillards légers que l'aurore soulève Et qu'avec la rosée on voit s'évanouir. MUSSET
Meu anjo, escuta: quando junto à noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exala; Na voz da brisa quem murmura e fala Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu!
Quando tu sentes lutuosa imagem D'aflito pranto com sombrio véu, Rasgado o peito por acerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho? — Quem te pinta amores Dum puro céu? Sou eu, sou eu, sou eu!
Se alguém te acorda do celeste arroubo, Na amenidade do silêncio teu, Quando tua alma noutros mundos erra, Se alguém descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu!
Se alguém se aflige de te ver chorosa, Se alguém se alegra co'um sorriso teu, Se alguém suspira de te ver formosa O mar e a terra a enamorar e o céu; Se alguém definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu!
Publicado no livro Últimos Cantos (1851). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
20 102
Marabá
Eu vivo sozinha; ninguém me procura! Acaso feitura Não sou de Tupá? Se algum dentre os homens de mim não se esconde, — Tu és, me responde, — Tu és Marabá!
— Meus olhos são garços, são cor das safiras, — Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar; — Imitam as nuvens de um céu anilado, — As cores imitam das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos: "Teus olhos são garços, Responde anojado; "mas és Marabá: "Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes, "Uns olhos fulgentes, "Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"
— É alvo meu rosto da alvura dos lírios, — Da cor das areias batidas do mar; — As aves mais brancas, as conchas mais puras — Não têm mais alvura, não têm mais brilhar. —
Se ainda me escuta meus agros delírios: "És alva de lírios", Sorrindo responde; "mas és Marabá: "Quero antes um rosto de jambo corado, "Um rosto crestado "Do sol do deserto, não flor de cajá."
— Meu colo de leve se encurva engraçado, — Como hástea pendente do cáctus em flor; — Mimosa, indolente, resvalo no prado, — Como um soluçado suspiro de amor! —
"Eu amo a estatura flexível, ligeira, "Qual duma palmeira, Então me responde; "tu és Marabá: "Quero antes o colo da ema orgulhosa, "Que pisa vaidosa, "Que as flóreas campinas governa, onde está."
— Meus loiros cabelos em ondas se anelam, — O oiro mais puro não tem seu fulgor; — As brisas nos bosques de os ver se enamoram, — De os ver tão formosos como um beija-flor!
Mas eles respondem: "Teus longos cabelos, "São loiros, são belos, "Mas são anelados; tu és Marabá: "Quero antes cabelos, bem lisos, corridos, "Cabelos compridos, "Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."
E as doces palavras que eu tinha cá dentro A quem nas direi? O ramo d'acácia na fronte de um homem Jamais cingirei:
Jamais um guerreiro da minha arazóia Me desprenderá: Eu vivo sozinha, chorando mesquinha, Que sou Marabá!
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Publicado no livro Últimos Cantos (1851). Poema integrante da série Poesias Americanas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A diferença é que Gonçalves Dias era um poeta de verdade: amava a beleza e a natureza e cantava sobre ela. A preocupação dele não era dinheiro ou fama. Se voce so se preocupa com fama e dinheiro, nunca ira ser lembrado ou chegara aos pes de Gonçalves Dias. Camões, o maior poeta da nossa língua já pediu até esmola, Cruz e Sousa viveu uma vida miserável e tendo seu cadáver numa carroça de estrume, Fernando Pessoa não ganhou um único centavo com a poesia, eles escreviam para a eternidade. Já dizia Goethe: " nasce o que brilha apenas para o já, para o porvir, o que é real viverá!"
Era um homem apaixonado certamente! E que me faz apaixonar em cada poesia!
Isiane
O ruim é pensar que não vamos ter mais poetas desse nivel como do Gonçalves Dias só nos resta ler as obras deixadas por ele..
klinger
Sinceramente! Era apenas um cara apaixonado que ninguém dava valor na época e que depois de morto querem exaltar as tantas!!É que na epoca não tinha televisão e as madamoseles ficam lendo poemas e suspirando!! e tem gente que exalta o cara por algo que eu sei fazer e muito bem; escrever poemas!. Mas é claro, se eu escrever hoje ninguém vai dar valor, e depois de uns cem anos é que vão ler meus poemas e dizer:" esse cara era o maximo!" dinheiro que é bom, só quem vai ganhar são as editoras!! afffff acordem!! poww!!!
Não e à toa que foi o consolidador do romantismo. Valendo ressaltar que a presença de refrão atesta a características das canções de amigo , do trovadismo português. Enfim , magnífica a produçao de gonçalves , a cada novo poema que leio dele fico sem palavras , diante de um poeta e uma poesia tao inauditas ;**
-
eu adorei este poema de gonççalves dias ,aias todos os poemas dele é muito bom inclusive a canção do exílio ,tou estudando sobre isso.
-
eu adoro seus poemas obrigado ass:lara
-
oi amei teu livro
viviane
gostei muito da maneira q escreve...
silvina
eu gostei muito dos poemas do altor principalmente oque o de olhos verdes.parabens ass; silvina
-
eu gostei muito dos poemas do altor principalmente oque o de olhos verdes.
jackeline e luan
eu acho muito bonito os poemas dele pricipalmeter os poemas der amor quer mer fas passa mal der tao bonitos quer sao a graderso au meu namorado por me mostra esses poemas a internet por esiti e pricipalmeter a gonçaves dias por fas e mostra au muto o seu talerto PARABEMS ASS; JACKELINE E LUAN
Sinceramente! Era apenas um cara apaixonado que ninguém dava valor na época e que depois de morto querem exaltar as tantas!!É que na epoca não tinha televisão e as madamoseles ficam lendo poemas e suspirando!! e tem gente que exalta o cara por algo que eu sei fazer e muito bem; escrever poemas!. Mas é claro, se eu escrever hoje ninguém vai dar valor, e depois de uns cem anos é que vão ler meus poemas e dizer:" esse cara era o maximo!" dinheiro que é bom, só quem vai ganhar são as editoras!! afffff acordem!! poww!!!
Não e à toa que foi o consolidador do romantismo. Valendo ressaltar que a presença de refrão atesta a características das canções de amigo , do trovadismo português. Enfim , magnífica a produçao de gonçalves , a cada novo poema que leio dele fico sem palavras , diante de um poeta e uma poesia tao inauditas ;**
eu adorei este poema de gonççalves dias ,aias todos os poemas dele é muito bom inclusive a canção do exílio ,tou estudando sobre isso.
eu adoro seus poemas obrigado ass:lara
oi amei teu livro
gostei muito da maneira q escreve...
eu gostei muito dos poemas do altor principalmente oque o de olhos verdes.parabens ass; silvina
eu gostei muito dos poemas do altor principalmente oque o de olhos verdes.
eu acho muito bonito os poemas dele pricipalmeter os poemas der amor quer mer fas passa mal der tao bonitos quer sao a graderso au meu namorado por me mostra esses poemas a internet por esiti e pricipalmeter a gonçaves dias por fas e mostra au muto o seu talerto PARABEMS ASS; JACKELINE E LUAN
legal
ele era um ARTISTA E TANTO