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talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
Texto 5
“Uma devassidão aracnídea” se se quiser
põe aqui uma descontente atenção e é quanto basta “aqui”
o único problema é encontrar essa se possível dizer
como que “clareira obscura” aqui onde existem “áscuas de ouro”
o silêncio ex.: “não se precisa sair do silêncio”
por favor eu quero dizer que “é preciso entrar nele”
no silêncio das clareiras obscuras das áscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e não decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
“que está”
notável que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
“um toque de lume” veja-se uma expressão
tudo a fazer força de dentro no escuro um só “lampejo”
tudo para fora uma víscera brilhando “para ver”
uma tensão
“como se comessem bananas”
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque áspero na raiz dos cabelos “eles eriçam-se”
o medo de saber alguma coisa quando se vê o campo
o cavalo tudo vivo e longínquo
“trouxeram fotografias onde estava o silêncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutando”
o gosto era já algo tão puro como uma vocação
há “aí” uma bruta elegância uma coisa fugitivamente louca
“uma devassidão” que é como uma referência às “palavras”
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e também porque “no sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lá no fundo
“queima” dizem e “pois é verdade que queima”
ora não havia de queimar “que pensam eles?”
é o silêncio
ainda têm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a “uma paisagem interrompida pelo frio”
em termos despropositados “uma pontuação coerente”
precisava-se de “um pintor de cavalos”
um homem que abandonasse a família apenas
para ser um obscuríssimo “pintor de cavalos”
uma criatura viva de dedos vivos longínqua de coração longínquo
nada menos que um selvagem que viu “monstros dourados”
e a si mesmo dissesse “entrega-te ao que melhor te pode esquecer”
ou “dez dedos ainda assim é extenso para quem tem uma vida”
animais blocos de ouro uma energia inexplicável
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomável uma leveza
ele entrava na posse de uma “visão” uma herança de ritmos
então poderia destruir tudo numa “devassidão aracnídea”
o perto e o longe “o cavalo no campo” ele “o bárbaro”
apenas um pintor de cavalos “o impossível”
26
há não sei quantos mil anos um canavial estremeceu na Assiria
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lirico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
7
um leão atrás da porta, que faz ele?
que faz um leão senão
que se transforma numa estrela
que faz uma estrela senão que se transforma numa rápida
assim entre os dedos no ar atrás da porta
numa, oh mãe nossa!, mulher grande toda nua,
deite-se ai, senhora, nesse aparelho-cama,
levante as pernas, abra-as agora, pouse-as à direita e à
esquerda,
isso assim deixe à vontade subir a estrela,
vou ver se está ligado,
vou ver se há luz na terra,
vou ver se é verdade que há um milagre que a acerte toda,
um leão vermelho atrás da porta,
uma segunda rosa esquerda,
uma esferográfica sombria,
mas veja agora como tudo isso brilha,
entre as suas pernas afastadas,
dentro das minhas mãos unidas,
um leão atrás da porta nunca poderia brilhar tanto,
uma bic cristal preta,
um papel quadriculado,
umas unhas sujas,
uns pulmões de carvão abusados pelo tabaco,
uma vida cega de olhar tanto por aí adentro
que até já tenho medo
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
3
que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
E Chamou Deus À Luz Dia
E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
19
que nenhum outro pensamento me doesse, nenhuma imagem
profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cravada entre os meus olhos cegos
6
e só agora penso:
porque é que nunca olho quando passo defronte de mim mesmo?
para não ver quão pouca luz tenho dentro?
ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,
agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?
— cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo fundo e
amargo espelho velho:
e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente o mesmo
15
se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela